LIBERDADE. MEDO. RESPONSABILIDADE. OBEDIÊNCIA.
Como interagem estas dimensões no humano? Umas (algumas) darão origem a outras? Como se articulam? A responsabilidade não poderá estar intimamente ligada à obediência, às normas sociais, aos constrangimentos morais e éticos? E o que dizer da liberdade e do medo? A liberdade implica autonomia que nos afasta pelo menos de vez em quando do consenso da maioria e nem todo o medo é físico. Será possível viver humanamente sem nenhuma liberdade, nenhuma responsabilidade, nenhuma obediência, nenhum medo? Que papéis jogam na construção pessoal cognitiva, afetiva, social? Haverá “doses máximas e mínimas”? Devem ser introduzidas educativamente, em idades sensíveis? Que importância joga na socialização da criança? A partir da releitura do conto de Andersen, O Rouxinol do Imperador, e da análise clínica, procuraremos refletir sobre a importância estruturante destas dimensões na construção do humano.
“Como educador e terapeuta de crianças com severas perturbações, a minha principal tarefa era restituir-lhes um sentido para as suas vidas.”
“Enquanto se desenvolve, a criança tem de aprender, passo a passo, a compreender-se melhor a si própria; com isso ficar apta a compreender os outros e eventualmente, a relacionar-se com eles por vias mutuamente satisfatórias e significativas.”
Bettelheim, B. (1984: 10).
Partimos do postulado de Bettelheim (1984), o de ser função dos educadores (dos pais, enquanto educadores fundamentais ainda que informais e espontâneos), o dar, ou contribuir para, um sentido na vida das crianças e tentaremos refletir e articular com o facto de tantas vezes se contarem estórias às crianças pequenas. Contam-se estórias, que os próprios adultos já ouviram, contos tradicionais, contos de fadas, mas inventam-se muitas vezes pequenas narrativas, quase “à medida” da situação. Cremos que estas estórias são um instrumento formativo/educativo, utilizado espontaneamente pelos adultos no processo de socialização das crianças pequenas.
“Vi-me frente a frente com o problema de deduzir quais as experiências que na vida de uma criança eram mais adequadas para promoverem a sua capacidade para encontrar um sentido na vida; para dotar a vida em geral de maior sentido. Relativamente a esta tarefa, nada é mais importante que o impacte dos pais e dos que tomam conta de crianças; a seguir em importância, vem a nossa herança cultural, quando transmitida à criança de forma adequada.” (p. 10)
Bettelheim (1984) defende a literatura infantil e os contos tradicionais, os contos de fadas, como um instrumento adequado e à altura deste desafio.
Artigo recebido a 24 de Agosto de 2016 e aceite para publicação em 29 de Abril de 2017.
Comunicação apresentada no XXVII Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, “Da Liberdade e do Medo”, em Abril de 2016.
Psicóloga Clínica e Mestre em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa. Adjunta da Escola Superior de Educação (ESE) de Santarém.
Todas as mães contam estórias. Empiricamente os adultos que educam/formam crianças acabam por lhes contar pequenas e/ou grandes histórias para lhes transmitirem conhecimentos essenciais e que darão sentido à vida. Algumas de temas muito simples, outras envolvendo noções, conceitos muito abstratos, nomeadamente as grandes dimensões1, como as que iremos aqui abordar: medo, obediência, responsabilidade, liberdade. Mesmo tarefas mais simples, mas potencialmente conflituosas, como o alimentar-se, são muitas vezes, suavizadas pela magia da palavra. Parafraseamos Freud (1989):
“E a propósito, não desprezamos a palavra. Afinal de contas, é um poderoso instrumento. É o meio através do qual transmitimos os sentimentos entre nós, o método para influenciar outras pessoas. As palavras podem produzir indiscritível bem e causar terríveis danos. Sem dúvida que ‘no princípio houve o acto’ e a palavra veio mais tarde. Em certas circunstâncias, significou um avanço na civilização, quando os actos foram suavizados em palavras. Mas originalmente, a palavra era magia – um acto de magia; e continua a ter muito do seu antigo poder.” (p. 27)
Viver em grupo pressupõe sempre regras de funcionamento, sem as quais a convivência se torna impossível. No entanto, para a criança pequena, estas não são apenas restritivas da sua acção e do seu desejo, mas muitas vezes incompreensíveis. A socialização, entendida como um complexo processo de integração e aceitação das regras do grupo de pertença, é imprescindível e constante desde muito cedo. Os pais são os principais agentes da chamada socialização primária. Sabemos da importância da imitação de modelos neste processo, mas sabemos igualmente que devem existir outras formas de aprendizagem.
Muitos dos constrangimentos sociais são dificilmente explicáveis à criança pequena, porque são efetivamente arbitrários, no sentido em que são fruto de uma seleção cultural. Meramente como exemplo: come-se a sopa com uma colher. Porque não podemos beber a sopa? Não será um exemplo com grande significado, mas como explicar à criança que tem que dormir na sua cama, que não deve afastar-se e ir com um qualquer adulto? As explicações óbvias/objetivas não são adequadas à criança pequena e as explicações eficazes, provavelmente, seriam excessivamente “gráficas” e violentas. Da minha observação e experiência verifico que os adultos, pais ou não, mas que tomam conta de crianças, demonstram uma tendência, bastante frequente, para contar uma história que explique e exemplifique a situação e o comportamento desejável. Como se a palavra pudesse suavizar magicamente a dificuldade, pudesse magicamente diminuir o conflito e resolvê-lo.
Há muitos anos, num jardim-de-infância, as auxiliares “pacientes” eram as que contavam estórias às crianças pequenas. Uma, porém, menos “paciente”, apertava-lhes o nariz e forçava-as a abrir a boca.
A humanidade inventou as estórias e, simultaneamente, reinventou-se (e reinventa-se), através dos modelos das personagens, das suas ações, das suas dificuldades. Os mitos, numa época antes das ciências exactas, procuravam explicar o inexplicável: a criação do mundo, a criação da humanidade, a sua condição mortal, a própria cultura humana. As grandes questões eram “respondidas” pelos mitos, fruto da intervenção divina. Os deuses teriam inventado a humanidade, confiando-lhe tarefas, conhecimentos, costumes e leis. A humanidade obtinha assim uma espécie de segurança intelectual, de ordem no mundo, no cosmo e nos acontecimentos quotidianos ligando-os a uma entidade divina, arbitrária, tal como o era muitas vezes, o seu dia-a-dia. Sucessos e fracassos, alegria e tristeza, vida e morte eram desde modo explicados e aceites.
Os contos tradicionais herdeiros dos mitos representam ainda assim, explicações plausíveis, para situações muito difíceis, mas muito mais comezinhas. Não tratam da criação do dia e da noite, mas de formas de enfrentar o medo, a solidão, as tarefas do crescimento. Mantêm características de intemporalidade mas substituem os deuses por heróis e heroínas, vilões e bruxas, que tipificam comportamentos e atitudes desejáveis e indesejáveis. Enquanto os mitos, por serem sagrados, eram essencialmente inquestionáveis e eternos, os contos são narrativas mais abertas, convidando a criança a decidir se deve identificar-se com o herói, com a heroína, ou se, se a ocasião o exige que se identifique com os maus de serviço.
Há já muitos anos, uma menina de três anos e meio, que dizia de si própria ser uma princesa, fez uma birra a preceito. Deitou-se para o chão, gritou, bateu com os pés. A mãe, procurando ignorar a birra, disse-lhe: “Pois, dizes que és uma princesa, mas és uma princesa muito malcriada!”. De imediato, a menina levantou-se e respondeu: “Mas eu hoje não sou uma princesa, sou uma bruxa!”.
Considero esta, uma estória, verdadeira e fabulosa, a propósito do que o simbólico dos contos, pode auxiliar as crianças pequenas na compreensão de si próprias, dos seus aspetos mais difíceis, como a agressividade, a zanga. Esta criança, que não saberia explicar porque estava tão zangada, encontrou assim, nos dias de bruxa, um espaço de expressão e de progressivo domínio sobre os seus sentimentos.
O recurso a estórias para explicar situações difíceis surge, na minha opinião, espontaneamente
Matematicamente, “dimensão” remete para a representação do espaço e respetivas coordenadas. Usualmente o espaço apresenta três dimensões. Se existisse um espaço “simples” poderia ser explicado por pontos, o que seria muito mais limitado. A comparação permite transmitir a ideia da complexidade emocional envolvida.
em muitos adultos. É uma ferramenta muito útil e comum porque enraizada na cultura envolvente. Nem todas as estórias serão muito isentas, aliás, no sentido em que o adulto procura vincular determinado comportamento, nunca são, mas independentemente da qualidade, até literária, estas estórias tendem a ser eficazes e a permanecerem na criança.
O presente trabalho procura assim, a partir de alguns exemplos e da prática clínica, refletir sobre esta realidade e de como surge no processo de socialização da criança e na relação desta com os adultos e com as regras a interiorizar.
Se compararmos com o que acontece com outras espécies, nomeadamente mamíferos e primatas, o medo é essencial para a sobrevivência da cria, da criança. Não me parece tão importante discutir a sua componente instintiva, mas sobretudo aquela que é aprendida. O medo defende a criança muito pequena (tal como a cria) de se meter em situações potencialmente perigosas ou até mesmo fatais. De alguma forma parece haver uma regra geral: manter-se perto da mãe e na sua ausência não se expor ou aventurar demasiado.
No entanto, algum grau de aventura é necessário se quisermos conhecer o meio envolvente, essencial para o desenvolvimento motor e cognitivo. Há que encontrar, parece-me, um ponto de equilíbrio: entre “ir – explorar”, adquirir novos conhecimentos, correr riscos e “ficar – sentir-se protegido”, sossegado, quieto.
Enquanto crianças a relação com os pais é central e estruturante. Para a criança pequena a mãe (figura materna) é o centro e a base de regresso de um círculo de exploração do mundo que se vai alargando mas simultaneamente fixo, de confiança. O medo impele a criança a não se afastar da mãe e simultaneamente a curiosidade, verdadeiro impulso vital, impele-a à exploração, à descoberta.
Os pais pelo seu lado vivem igualmente esta “incoerência-dualidade”: deixar crescer significa deixar partir, literalmente, perder a criança. Esta angústia inconsciente traduz-se no medo, muito socialmente aceite, de perder a criança, na praia, numa multidão, num centro comercial.
Os pais fomentam então o medo superficial, de que podem falar e deixam de parte o simbólico e inconsciente, o angustiante. Assim, surgem os “nomes do medo”, exemplificando, quando eu era criança, havia o homem do saco, que levava as crianças que se portavam mal, que se afastavam. Aproveitando o facto da Mafalda (em associação coma heroína da BD) a mãe inventou o “homem da sopa”. A Mafalda que tem agora dois anos e oito meses, não gosta de sopa, mas gosta de correr, de explorar, é muito sociável, traquinas. A mãe perdeu-a num centro comercial e assim surgiu o “homem da sopa”: personificado na figura de Darth Vader da Guerra das Estrelas. O último filme tinha acabado de estrear, havia cartazes, anúncios por todo lado, reposições dos filmes anteriores. A Mafalda apanhou um susto, que eu imagino medonho, quando se cruzou com um grupo de crianças mascaradas de Darth Vader/Homem da sopa num evento de promoção. O “homem da sopa”, o medo é muito eficaz a controlar esta criança que se refugia imediatamente junto da mãe (que eu suspeito também não deve gostar muito de sopa…) e lhe obedece.
A obediência, na minha opinião, nasce do medo de se afastar e perder-se da mãe, mais do que da antevisão dos perigos. A obediência é, obviamente, incentivada pela figura materna, que assim controla e protege melhor a criança, mas que não pode ser absorvida pela sua própria angústia a ponto de não deixar a criança explorar ou seja, desenvolver-se.
O medo é ontologicamente importante: protege, está ligado à sobrevivência. Daí que se torna uma experiência muito desconcertante quando nos cruzamos com uma criança ou jovem que não tem medo, literalmente, de nada. Relembremos que as respostas de medo são basicamente de dois tipos: ficar muito quieto2, passando desapercebido, seguido de fuga e atacar, numa tentativa de vencer o perigo. Paralisante e passagem ao ato, poderíamos dizer.
Há já vários anos acompanhei uma adolescente a quem a mãe se referia como um milagre. Esta designação, à primeira vista um pouco dramática, devia-se ao facto de a mãe em consequência de complicações de parto, ter estado em coma e ter ficado impossibilitada de ter mais filhos. Perto dos dois anos a menina contraiu meningite e esteve efetivamente a morrer. Sobreviveu sem marcas. Era uma adolescente, então de 14 anos, muito inteligente, viva, com uma personalidade vincada, mas… faltava sistematicamente às aulas, a ponto de comprometer o ano letivo, namorava um jovem de um gangue de rua, que andava armado. Havia situações mais inquietantes, os pais tinham descoberto que a filha esperava que eles adormecessem para se ausentar de casa e que com um outro namorado tinha participado no roubo do automóvel dos próprios pais. Após a 2a consulta, fugiu de casa. Esteve três dias desaparecida. Fugiu com o namorado, dormiram na rua, em casas abandonadas. Os pais procuraram-na até a encontrar.3 Em consequência desta fuga e da interdição de voltar a ver este namorado, surgiram por parte do rapaz ameaças diversas: com arma branca, com um revólver. Demonstrando o que qualquer um de nós classificaria de coragem (ou ausência de medo?), a jovem enfrentou o rapaz, fez queixa dele à polícia, recusou afastar-se dos amigos e a mudar de escola.
Toda esta agressividade e necessidade em correr riscos, se atenuou quando finalmente a jovem aceitou falar do medo, do medo da morte, de como
Alguns animais fazem-se mesmo passar por mortos.
Defendo que tal como quando as crianças são pequenas, por vezes, não é possível evitar que se percam, a tarefa, que é extraordinária, é a capacidade de alguns pais, nem todos, conseguirem recuperar as suas crianças ou jovens, independentemente das circunstâncias.
se sentia estranhamente zangada por saber não só que era filha única, mas igualmente a única filha, das implicações que daí advinham em termos de expectativas. A partir daqui foi relativamente simples, mudou de escolha vocacional, em função disso, de escola, tornou-se não só uma aluna brilhante, mas também criativa e proactiva. Nunca mais faltou à escola, a seu tempo seguiu para o ensino superior.
De uma maneira geral, os adultos gostam de crianças obedientes. O problema é que as crianças obedientes têm tendência a ser crianças dependentes, fisicamente próximas, não causam tantos problemas, mas não saem dali, sempre solicitando atenção e aprovação. Não gostam de ficar sozinhas e preferem a companhia dos seus adultos às das outras crianças. Possuem um encanto muito especial; estas crianças são usualmente meigas, educadas, sossegadas e os adultos tendem a achá-las muito responsáveis.
O sistema educativo tradicional dá-se muito bem com este tipo de crianças, desejosas da aprovação do adulto, obedientes, pouco curiosas e tendencialmente passivas.
Era o caso do João, então com dezasseis anos, brilhante aluno, com notas muito elevadas e de quem a mãe repetia “era uma criança tão obediente”. Para total incompreensão dos pais esta criança obediente tinha-se tornado numa outra pessoa, que não podia, não aceitava ser contrariado, repreendido ou chamado a atenção. Reagia às limitações impostas pelos pais indo para o quintal da casa onde viviam, destruir o muro, abrir buracos no muro, disse-me a mãe, com uma pá. Os pais não encontravam nenhuma justificação que permitisse esta evolução da criança obediente para o adolescente agressivo. O João, não chegou a vir à consulta, recusando o acompanhamento uma vez que tinha sido sugerido pelos pais.
Confesso, não gostar muito das estórias ligadas à obediência. Surgem quase sempre associadas a vivências de tristeza, de medo. Uma adolescente contava-me que quando tinha quatro, cinco anos, a mãe saía e levava a irmã mais nova um ano. Para a convencer a ficar sozinha contava-lhe que se a casa ficasse vazia, vinham os ladrões e assaltavam-na. Alguém tinha de ficar em casa, a tomar conta. A menina obedecia e cheia de medo sentava-se atrás da porta, chorando, até a mãe e a irmã voltarem.
A responsabilidade é na minha opinião aprendida, uma competência fruto da socialização, intimamente ligada às normas sociais, aos constrangimentos morais e éticos. Talvez comece por estar ligada à obediência, mas a sua verdadeira interiorização requer autonomia. Em última análise, é minha opinião, que só chegamos a ser verdadeiramente responsáveis se tivermos sido desobedientes. Por muito extremo que possa parecer, o que separa o soldado, em guerra, do crime, é a obediência às ordens. A obediência é importante, até mesmo essencial, para a convivência social, mas distancia-se da noção da responsabilidade.
A criança que foi sempre obediente pode, à medida que vai crescendo, deparar-se com situações em que tem de tomar decisões na ausência de normas explícitas ou modelos adultos. A sugestão não é que se ensine a desobediência, mas sim a responsabilidade. Uma outra sugestão é que se comece cedo, quando a criança é ainda bastante pequena. Como? Permitindo que a criança faça escolhas e verdadeiramente as exerça. Como é evidente há limitações: não podemos deixar que seja a criança a escolher se quer ou não ir para a escola, se quer aprender a ler mas não a escrever. Não podemos deixar que seja sempre a criança a escolher o que vai comer, algumas alimentar-se-iam apenas de batatas fritas e outros fast food…
Defendo por exemplo, que se a família vai comer fora que a criança possa efetivamente escolher o seu prato, mesmo que seja sempre o mesmo durante meses a fio. Afinal, não vamos comer fora todos os dias… Defendo por exemplo, que a criança possa efetivamente escolher o que veste, sendo a limitação a meteorologia e a possibilidade económica, ou seja, leva-se a criança às compras, o adulto escolhe a loja e assim controla os gastos e depois a criança escolhe as peças que vai comprar e vestir. Os adultos perdem a possibilidade de brincar às bonecas mas as crianças ganham um espaço de expressão pessoal ainda que muitas vezes não coincidente com o gosto dos pais. À medida que a criança vai crescendo este espaço de decisão deve ser alargado, por exemplo, ao uso da mesada. Durante a minha prática clínica, havia uma queixa frequente, relativamente aos adolescentes e aos seus pedidos, a saber: não pareciam dar o menor valor ao dinheiro. Descobri que quase invariavelmente estes adolescentes não tinham uma mesada estabelecida, pedindo diariamente aos pais, quase sempre às mães, o que precisavam. Se por acaso recebiam prendas de dinheiro, pelo Natal e outras festas, esse dinheiro era sempre administrado pelos pais.
É difícil tornar-se experiente sem se ter experiência… A idade não traz, só por si, conhecimento e competência. A idade, o desenrolar temporal cria espaços de aprendizagem, oportunidades, se estas não ocorrem não é possível aprender. Alguém alguma vez aprendeu a andar de bicicleta, sem nunca ter tido acesso a uma bicicleta? No entanto, espera-se que milagrosamente as crianças cresçam para se tornarem adolescentes e jovens capazes de decisões e responsáveis, sem terem tido espaço de aprender, sem terem decidido praticamente nada no seu quotidiano.
Os pais apresentam como justificação a imaturidade e a teimosia4 dos mais novos. Em resumo: os adultos não deixam as crianças escolher por receio de que façam más escolhas. As más escolhas, disparates, desobediências implicam conflitos e sanções e na maioria dos casos, os adultos evitam-nos, confundindo o conflito, a zanga da criança com perda de afeto e afastamento por parte da criança. Receiam ser “maus”. A meu ver confiam pouco nas suas capacidades educativas e nas competências dos seus filhos. Educar nem sempre é agradável mas requer uma convicção profunda de que todos os problemas podem ser resolvidos. Nem sequer é muito importante se se trata ou não, de uma verdade “verdadeira”, as crianças precisam de sentir essa convicção, essa confiança nos pais, é essa força, que transforma o mundo e que lhes permite assumir que elas próprias vão acabar por vencer seja que obstáculo for.
Quando ouvimos certas críticas a comportamentos menos agradáveis por parte dos mais jovens é frequente o comentário de que “têm liberdade a mais.” Se partirmos da definição matemática5 forçosamente concluímos que a liberdade está sempre condicionada pelas diferentes variáveis presentes no contexto. Do ponto de vista vetorial os graus de liberdade de uma determinada equação podem ser representados por um segmento de reta: princípio e fim.
A liberdade não é infinita e é dependentemente cultural e assim carece de ser aprendida uma vez que está intimamente ligada aos valores culturalmente aceites e transmitidos, pelo menos parcialmente, no processo de socialização.
A liberdade e a obediência não se opõem totalmente mas confrontam-se frequentemente. A liberdade pressupõe a possibilidade de escolha e a obediência restrita é exatamente o contrário. Pressupõe-se que o risco seja que os jovens não saibam fazer as escolhas certas, aquelas a que a obediência, em princípio, lhes dá acesso imediato.
Usei frequentemente o conto de Andersen “O Rouxinol do Imperador”6, para falar com grupos de crianças acerca da importância da liberdade.
Na China imperial, há muito, muito tempo, viveu um imperador imensamente rico. O seu palácio e os jardins circundantes eram de uma riqueza e beleza extraordinária. Vinham pessoas de toda a parte para visitá-los. Uma vez, um grupo pediu para ouvir o rouxinol. O imperador ficou muito surpreendido porque não fazia a menor ideia do que aquelas pessoas falavam. Interrogando-as ficou então a saber da existência do rouxinol cujo canto diziam era sublime, quase indescritível, certamente a maior riqueza que o imperador possuía.
Intrigado, o imperador quis ouvir pessoalmente tal fenómeno e mandou um destacamento de guardas para trazerem o rouxinol. Quando este chegou ao palácio o imperador ficou desapontado, o passarinho era pardo, sem nenhuma plumagem de cores ou extensão fora do vulgar e pequenino, mas foi só até o rouxinol começar a cantar, então o imperador deu razão a todos o que gabavam o canto da pequena ave.
Determinou então que o rouxinol ficasse no palácio, com um poleiro e uma gaiola de ouro e seis criados que o passeavam pelo jardim, deixando-o voar mas preso por fios de ouro, atados às suas patas. A princípio o imperador todos os dias ouvia o rouxinol cantar, mas a pouco e pouco, foi-se distraindo com outras coisas, assuntos de estado, tesouros. Além disso, o canto do rouxinol já não lhe parecia tão extraordinário, e o passarito nem sempre cantava… Os rouxinóis dão-se mal em cativeiro.
Um dia um embaixador de um país distante trouxe como presente para o imperador um magnífico pássaro de ouro, cravejado de pedras preciosas, e que dando-se-lhe corda cantava como se fosse verdadeiro. Verdadeiramente deslumbrante!
O rouxinol, rapidamente esquecido, voou um dia pela janela aberta e ninguém mais o viu, também ninguém lhe sentia falta. Um dia quando se dava corda ao pássaro de ouro, esta partiu-se e este deixou de cantar e apesar de todos os esforços não houve quem soubesse consertá-lo.
Passou o tempo e o imperador adoeceu gravemente. Julgou ver a Morte sentada aos pés da cama, à espera e lembrou-se então do rouxinol, do seu canto e teve pena de ele não estar ali, arrependendo-se de como o tinha tratado. E então o rouxinol voltou e à janela do quarto do imperador, cantou de tal maneira que a própria Morte comovida se foi embora.
Curado, o imperador agradeceu ao rouxinol, tornaram-se amigos. E o rouxinol livre, voltava todas as noites para cantar para o imperador.
Porque volta o rouxinol? Em primeiro lugar, porque pode, é livre para poder escolher. Não saberá da presença da Morte? Não terá medo? Volta exatamente porque sabe da presença da Morte, porque tem medo, porque sabe que o imperador tem medo. E mesmo assim, volta? Volta por gostar do imperador, por saber que ele precisa de ajuda.
Não sei se poderemos classificar a atitude do rouxinol, como responsável, no entanto, ser responsável implica muitas vezes, enfrentar situações desagradáveis, que evitaríamos se pudéssemos. Às vezes até podemos, mas ficam outros, de quem gostamos, que dependem de nós, em situações ainda mais desagradáveis.
A definição de responsabilidade pode ser mais ou menos vasta, no entanto, implica sempre o adiamento do desejo individual em função de terceiros, do que outros esperam de nós, do que socialmente se assume, mais ou menos conscientemente. Tal como na estória do rouxinol,
Aprendi com o meu pai que a teimosia transformada em persistência é uma ferramenta fundamental na adultez. Aquilo que designo por “socialização da teimosia” é pouco trabalhado, quero dizer, que se castiga a teimosia da criança mas não se educa para a persistência, para a resistência à frustração.
Podemos começar a pensar nos graus de liberdade como sendo uma maneira de quantificar as estimativas métricas para um cálculo estatístico qualquer, i.e., o número de variáveis independentes (dimensão da amostra menos o número de parâmetros estatísticos a serem avaliados na população).
O conto “O Rouxinol” foi publicado pela primeira vez a 11 de Novembro de 1843. the Hans Christian Andersen Center, disponível em 30/11/2016
ser responsável significa escolher e aceitar as consequências dessa escolha.
Aceitar o medo, as dúvidas, sem certezas absolutas, mas convictamente de que fizemos o melhor que podíamos, o melhor que sabíamos.
Num estabelecimento de infância onde trabalhei, havia uma menina de seis anos, que todos os dias pedia para lhe lermos a mesma estória: “A Princesa Triste”. Era efetivamente uma criança triste, que praticamente não comunicava. Esta escolha, obviamente identificatória, permitia à menina lidar com a sua tristeza esperando que tal como para a sua heroína tudo se resolvesse e tristeza acabasse.
Enquanto monitora de tempos livres de crianças, desenvolvi o hábito de lhes contar e ler estórias. Com um grupo de quatro rapazes, pré-adolescentes, os rufias lá da escola, li “A História Interminável”7. Eram miúdos que podiam ser difíceis de “disciplinar”, com brincadeiras frequentemente violentas, duros com os mais novos… Um capítulo do livro descreve a morte do cavalo do herói, no Pântano da Tristeza. No final do capítulo, estávamos todos comovidos, em silêncio, de olhos brilhantes. Um deles disse-me: “Ficamos por aqui hoje”. Saíram em silêncio, arrumando as cadeiras. Identificaram-se com o herói, um adolescente, que perdia o seu amigo mais fiel? Talvez. Lemos o livro todo e naquele espaço, havia sossego para pudermos ouvir a estória.
Crescer é uma tarefa difícil, tanto para quem cresce como para quem acompanha educativa e formativamente. A interiorização de regras sociais é apenas um dos aspetos do crescimento que nos conduz à fase adulta e talvez mais importante, à nossa própria humanidade completa.
As estórias que ouvimos e que mais tarde contamos podem, na minha opinião, suavizar e enriquecer este processo, mas podem igualmente ser aterradoras e paralisantes. Não são mero entretenimento, de somenos importância. Aos adultos, a responsabilidade de contarem estórias que confiram valor ao quotidiano, às coisas difíceis, que tragam alegria e consistência ao mundo que a criança descobre.
Uma última estória, contada por uma mãe que levava pela mão o seu menino relutante para o primeiro dia, e todos os outros dias seguintes desse outono, para o jardim-de-infância. Da primeira vez, a estória surgiu da observação da criança, ao ver as folhas cair das árvores.
“Era uma vez uma mãe árvore que tinha muitas folhinhas verdes nos seus ramos. O vento que era maroto passava e soprava e queria levar as folhinhas a voar com ele. A mãe árvore agarrava as suas folhas e não as deixava partir. Mas o vento voltava todos os dias e contava às folhinhas as coisas lindas que via por onde passava: outros campos, outras flores, outros meninos. E as folhinhas queriam ir com o vento e voar! Por fim, a mãe árvore deixou-as partir e elas foram contentes. O voltava e contava à mãe árvore os que as folhinhas tinham visto e ela ficava contente por as suas folhinhas terem visto tanta coisa bonita!”
ABSTRACT
FREEDOM. FEAR. RESPONSABILITY. OBEDIENCE.
How do these dimensions interact in the human being? Will some be the source of others? How do they interact? Responsibility is perhaps deeply linked to obedience, to social rules, to moral and ethical constraints? And what about freedom and fear? Freedom implies autonomy which drives us away, at least sometimes, from the majority consensus, especially because not all fear is physical.
Is it even possible to humanly live without some degree of freedom, responsibility, obedience, fear?
What kind of role do they play in personal construction cognitive, emotional or social? Is there “a minimum and a maximum dose”? Should they be teached at precise ages? How important are they in the socialization of the child?
With the help of a tale by Andersen “The Emperor's nightingale” and the experience of clinical praxis we will attempt to understand the structural importance of the dimensions in the construction of the human being.
KEYWORDS
Childhood
Socialization
Rules
Storytelling
“Die unendliche Geschichte”, de Michael Ende (1929-1995), publicada pela primeira vez em 1979 e posteriormente adaptada ao cinema.