O livro “Freud avec les écrivains” é um rumor.
Escrito a quatro mãos por Edmundo Gómez Mango e Jean-Bertrand Pontalis ele aparece, na sua discreta mansidão, tão-só como mais um título da colecção “Connaissance de l'inconscient” que Pontalis longinquamente fundou na Gallimard em 1948. E não é.
Ele é um acontecimento por ser não apenas o último livro de Pontalis [1924-2013] mas também pela originalidade de unir, numa filia criativa, a reflexão compartilhada com Edmundo Gómez Mango [1940], psicanalista e grande escritor uruguaio.
Fruto de confluências teóricas e estéticas penhoradas ao freudismo, este livro tem um propósito: mostrar a relação entre psicanálise e literatura. Ou melhor dito “mostrar o que na psicanálise, e sobretudo no seu fundador, fica a dever-se à literatura”1.
Agora que Pontalis já não visita, pela manhã, o número 5 da rue Gaston-Gallimard, tocamos este livro com indisfarçável melancolia.
Tirando o chapéu alto a Freud (que cada vez mais se dissolve no ar infecto do presente) esta obra mostra também à saciedade como Pontalis e Mango superiormente casam a literatura, a escrita e o exercício teórico-clínico da psicanálise.
O livro abre com uma nota de grande erudição sobre a palavra alemã Dichter.
Dichtung e Dichter são palavras que não têm equivalentes nas línguas europeias.
Estas palavras são fonte de polémica entre linguistas e tradutores. Dessa dificuldade é pioneiro exemplo a tradução para francês do artigo de Freud “Der Dichter und das Phantasieren” (1908), por Marie Bonaparte e E. Marty, que foi mudado para “La création littéraire et le rêve éveillé” (1933). As traduções recentes preferem, porém, traduzir Dichter por criador literário e Phantasieren por actividade da fantasia ou actividade da imaginação2.
De modo sintético Dichtung significa criação literária, actividade poética ou fantasmática.
E Dichter significará criador literário ou de ficções, mas também poesia e poeta.
Psicanalista, Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e da Intenational Psychoanalytical Association (IPA) E-mail:
; , Freud avec les écrivains, Paris, Gallimard, 2012, p. 9.
; , Freud avec les écrivains, Paris, Gallimard, 2012, pgs. 12-13
O que importa aqui realçar, como tão sabiamente fazem os autores, é que “Freud fez entrar no campo do saber científico a figura do Dichter, o poeta, e reconhece na Dichtung um acesso privilegiado à verdade psíquica”3.
Em quatrocentas páginas esta obra faz-nos entrar numa majestosa galeria de escritores que formaram e marcaram, de diversas formas, a vida e o pensamento de Freud.
Altíssimos os que ele leu obstinada e obsessivamente: Shakespeare, Goethe, Schiller, Heine, Hoffman e Dostoiévski; outros que foram seus contemporâneos como Stefan Zweig, Arthur Schnitzler, Romain Rolland, Thomas Mann. E outros ainda que se atravessaram no seu percurso intelectual como Cervantes, Émile Zola, Alphonse Daudet por exemplo e, por último, alguns escritores menores que Freud reconheceu terem-no influenciado: Ludwig Börne ou Josef Popper-Lynkeurs.
Se uma falta se pode apontar a este livro é o de esquecer os autores clássicos, nomeadamente Sófocles, e de recalcar a profunda influência de Schopenhauer e Nietzsche, este último, um poderoso poeta, em Freud.
Não é possível aqui desenvolver a paixão e conexão de Freud com o corpus de escritores que tomou como fonte de inspiração e trabalho.
Destacarei, nesta colecção de precursores e afinidades electivas, a proeminência de três autores: Shakespeare, Goethe e Dostoiévski.
A obra de Shakespeare teve um fulminante impacto no jovem Freud.
E foi nele que se inspirou para ver o inconsciente como uma dramaturgia (intuição esta que em M. Klein iria adquirir um subtil esplendor).
Pode dizer-se que Freud incorporou a obra de Shakespeare, o que levou Harold Bloom a postular, de forma irónica, que a psicanálise afinal não era mais que Shakespeare aplicado.
Goethe é igualmente um autor nuclear para Freud.
O poeta maior do canto alemão, ao lado de Heinrich Heine, exerceu uma extraordinária influência sobre toda a cultura alemã e europeia do século XIX.
Evocando Anzieu em A auto-análise de Freud, Gómez Mango escreve:
“Didier Anzieu assinalou uma identificação heroica do jovem Freud a Goethe.
Ele referencia alguns pontos em que os dois homens se encontram: os diversos interesses científicos de Goethe (óptica, botânica, geologia, osteologia) tiveram ressonância na obra de Freud. Veja-se o aparelho psíquico comparado a um instrumento de óptica, o seu interesse pelas monografias botânicas e pela arqueologia. Ambos mantiveram uma correspondência privilegiada (e prolixa) com um amigo que marcou decisivamente as respectivas obras (Goethe com Schiller, Freud com Fliess) e viagem a itália foi para ambos uma experiência perturbadora com repercussões nas suas vidas e obras.
Morrem ambos com 83 anos.
Mas talvez o traço identificatório essencial se inscreva no desejo de saber que persegue os dois homens. Desejo aberto, vivaz, sempre inquieto, capaz de se interessar pelas formas artísticas, pela história e civilização, i.e., pela cultura como desenvolvimento do espírito“4.
Freud recebeu o prémio Goethe em 1930, que não era um prémio literário, mas destinava-se a reconhecer a “incomparável exploração das paixões humanas”.
Precisamente no discurso em que homenageia Goethe, Freud apresenta-se como investigador e declara que o trabalho de toda a sua vida foi orientado para um único fim: estabelecer uma ciência da alma5.
De relance refira-se Dostoiévski, um grande interlocutor de Freud.
A ele dedicou, em 1928, o ensaio “Dostoiévski e o parricídio”, e são os Irmãos Karamazov que lhe vão permitir revisitar Édipo, oscilando sempre em ver, na criação do escritor russo, ora o homem moral ora o psicólogo.
O capítulo “Freud avec Freud” é, quanto a nós, o mais estimulante do livro. E é estimulante porque reconhece criticamente Freud não apenas como o fundador de uma nova ciência, mas também como um grande escritor e mestre da sua língua, à altura de Thomas Mann ou Herman Hesse.
As dificuldades assinaladas pelos autores são estas: Freud não tem apenas um estilo (o que nos faz reconhecer um autor) mas vários ao longo da sua considerável obra.
Tanto encontramos um interlocutor imparcial (A questão da análise leiga), como um mestre da argumentação (O futuro de uma ilusão), como um pedagogo (Conferências Introdutórias à Psicanálise), como um teórico exigente explicitando os seus conceitos (Metapsicologia e o capítulo VII da Interpretação dos Sonhos).
A segunda dificuldade prende-se com o facto de Freud pretender para a Psicanálise um lugar nas ciências do espírito.
Ele quer ser reconhecido como um cientista, procura um logos, não é o panteão literário que ambiciona6.
Contudo a sua obra inaugural introduz o imaginário no discurso da ciência e descobre o valor da história da cultura na organização do psiquismo.
; , Freud avec les écrivains, Paris, Gallimard, 2012, pgs. 20-21
; , Freud avec les écrivains, Paris, Gallimard, 2012, pgs. 54-55
; , Freud avec les écrivains, Paris, Gallimard, 2012, p. 55
; , Freud avec les écrivains, Paris, Gallimard, 2012, pgs. 312-313
Este livro é exemplar ao mostrar a tensão entre um Freud escritor e um Freud cientista. E é precisamente esta tensão que torna a sua obra inclassificável.
Na descrição dos casos clínicos (comece-se pelo Caso Dora) encontramos a vocação estilística que vem da sua juventude, essa pregnância do literário, do romanesco.
Como se “o romanesco fosse uma qualidade da vida psíquica que só o Dichter é capaz de representar”7.
E convém lembrar que Freud postula o psiquismo como actividade de representação, articulando o sentido com a intencionalidade e a experiência.
Sabemos que para o cientista o que importa é o conteúdo conceptual da mensagem e não a sua forma.
Ora para Freud o seu discurso, a sua palavra e a sua escrita, não pretendem uma neutralidade do papel da linguagem.
“Freud é sensível à linguagem não somente quando entende a palavra do paciente mas também quando escreve para fazer conhecer a sua descoberta. A verdade psíquica do paciente está intimamente contida pela relação com as palavras”8.
Freud escreveu dois romances: a Gradiva, momento idílico com o Dichter, e Uma recordação de infância de Leonardo da Vinci. Sobre este ensaio Freud afirma ter sido “a coisa mais bonita que escreveu” e é, para ele, “um romance psicanalítico”.
Um dos últimos trabalhos de Freud, o ensaio O homem Moisés e a religião monoteísta, sobre o exílio do povo judeu, tinha na sua primeira versão, em 1934, o título “O homem Moisés, um romance histórico”. Assombrado pela morte, talvez, Freud inclina a sua investigação para o primado do pensamento racional.
O investigador afasta-se pois do poeta relançando, como um copo de dados, essa permanente polaridade entre, por um lado, o prazer e o efeito estético e, por outro, a seriedade, a ascese, a defesa da ciência, valor supremo da utopia positivista.
Por último regressemos ao princípio, isto é: ao Livro da Psicanálise, a Interpretação dos Sonhos.
Livro de ciência mas também um grande fresco literário que introduz a investigação do facto humano como significação.
Aqui encontramos um escritor romântico, uma criança da noite, explorando o sonho e aproximando esta formação nocturna da literatura e de outras manifestações culturais.
“É à volta de Édipo, da sua lenda e da sua recuperação à tragédia de Sófocles, e ao Hamlet de Shakespeare, que Freud entrevê pela primeira vez uma aliança fundadora entre a psicanálise e a literatura: o conflito constitutivo da psique humana – que Freud designa por complexo de Édipo – é também o núcleo do mito e da tragédia de Sófocles”9.
Para Freud pensar e viver eram a mesma coisa.
É assinalável que dois autores distintos tenham escrito uma obra como túnica sem costura.
Numa linguagem clara e estilisticamente sóbria, longe de um certo psicanalês actual, longe, portanto, da violência de um excesso de teorização que tem como objectivo final apagar as diferenças e instituir a homogeneização do discurso psicanalítico.
Pontalis partiu e só é nosso o que perdemos.
Emundo Gómez Mango deve estar a escrever agora, enquanto bebe uma uvita, no Bar Fun-Fun em Montevideo.
Há um ar azul, como um fluxo, sobre as árvores do parque que dali se avistam, tão próximas.
; , Freud avec les écrivains, Paris, Gallimard, 2012, pgs. p. 322
; , Freud avec les écrivains, Paris, Gallimard, 2012, pgs. p. 322
; , Freud avec les écrivains, Paris, Gallimard, 2012, pgs. p. 325