Apresentação do Livro da Escritora Maria José Vera1
A escritora apresenta-se, nesta obra de ficção, como se fosse uma mensageira – tal como nas tragédias gregas e latinas, – que traz consigo histórias de amores vividas por Patrícia – mulher que percorreu muitas primaveras e que, no outono da vida, pede à autora para narrar esse passado de desejos intemporais. Ao ler estas histórias de amor, vividas por esta mulher, a autora leva-nos para um tempo que só pode ser vivido no mundo dos sonhos e do fantástico, que é esculpido por uma miríade de afetos que condensam um passado que se transforma num presente e que sorri para um futuro. Estas histórias de paixão, vividas por Patrícia, condensam distintas qualidades de tempos e de espaços que nascem das várias fases do desenvolvimento psíquico. A escritora mostra, através da sua narrativa, como um pequeno instante da temporalidade da vida psíquica – como se de uma gota de água se tratasse – é seguido por uma descontinuidade, por uma rutura e por um posterior reordenamento de formas e imagens. As personagens deste livro de ficção entrelaçam-se em diferentes tempos que nascem do processo criativo, maseonde não há permanência, mas uma continuidade indivisível. A personagem Filipe, que amara Roseta, era também Álvaro que se apaixonara por Flor de Seda e, ao longo da narrativa, descobre-se que Ava, Roseta e Flor de Seda, eram todas a mesma pessoa e viviam as mesmas qualidades de amor e de paixão, mas em épocas diferentes. Estas personagens intemporais, descritas de uma forma poética pela narradora, viveram paixões intensas,
Pseudónimo literário da psicanalista Maria José Azevedo
O presente ensaio foi publicado no jornal As Artes Entre as Letras, n° 186, Porto, 11 de janeiro de 2017
Psicóloga clínica e da saúde, Psicoterapeuta e Psicanalista. Membro Titular, com funções didáticas, da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanalistas (IPA), Directora da Revista Portuguesa de Psicanálise. e-mail:
como se vivessem no reino da fantasi, mas, inesperadamente, o leitor fica surpreendido e inquieta-se porque se reconhece e se espelha nestas mesmas relações amorosas.
O encontro amoroso de Filipe com Roseta é feito sobre o signo do desejo da completude entre ambos. Esta urgência amorosa, que vai colorir esta relação surge, por um lado, do encontro, vivido por ele “…dum sentimento insuportável de sensação de falta…”, por outro, o desejo intenso dela viver os seus sonhos perfumados …a terra molhad…“ dum passado distante, mas tão próximo. A intensidade da paixão confunde os tempos da realidade e, de uma forma fantasmática, como se estivéssemos em contacto com Alice no país das maravilhas, surge ”(…) vindo da sombra o lagarto de libré“ que através duma missiva vai construir e ligar tempos tão remotos e tão presentes de forma a unir num elo apaixonado o par amoroso. Roseta parece viver num mundo parado, fora do tempo real, como só pode ser vivido na intensidade das grandes paixões. Ele, de tanta paixão, queria levá-la para um palácio e coroá-la rainha, e ela com o receio dessa intensidade desmedida pedia-lhe ”tempo e espaço“ e refugiava-se no seu mundo fantasmático interno povoado de amor estético e de beleza. Com a intensidade da paixão ele passou a chamá-la Flor de Seda. Como em todas as grandes paixões ela intuiu …que iria tombar para dentro de Filipe” e progressivamente foi-se sentindo envolvida por uma doce densidade de luz e de som, ficando, por fim, sozinha naquele fundo. Assim, Flor de Seda pressente “que a espécie de oceano onde caíra era o lugar no interior dos olhos dele” e que ele estivera todo o tempo esperando ser reconhecido.
Estes amores construídos a partir de paixões intensas, descritos de uma forma poética pela autora, colocam e empurram as personagens para um claustro onde se sentem prisioneiros de si próprios. A intensidade dos afetos das personagens faz-nos associar ao mito de Narciso, descrito nas Metamorfoses de Ovídio, que por impossibilidade de aceitar o olhar do outro, torna-se escravo do mundo das suas próprias sombras. Narciso, fascinado por si, ao ver o seu reflexo nas águas límpidas, como podemos constatar numa tela de Caravaggio, tenta abraçá-lo, mas quanto mais se aproximava mais a imagem se afastava e se esquivava. Percebeu que o objeto do seu amor era ele próprio e, torturado por esse desejo intenso e impossível, inicia a experiência da perda, da dor e da travessia do deserto na solidão. Narciso não era Deus omnipotente presente em todos os lados como imaginara, mas simplesmente um homem que se queria ver reconhecido através do olhar e do amor do outro.
A escritora aborda duma forma profunda – o que não será alheio a sua longa experiência clínica e a clareza e beleza da sua escrita – a paradoxalidade da natureza humana face às suas paixões. Pedro, de uma forma apaixonada, diz a Ava que se pertenciam um ao outro para todo o sempre e que faziam parte um do outro. Ela, no silêncio do seu mundo interno, começou a pensar que “aquela relação extraordinária poderia também ser devastadora – ora um vulcão de desejo, ora um cataclismo devastador”. Tal como Narciso, Pedro “queria sentir-se o Sol que depura toda a sombra das coisas que ilumina e não admitia um amor que fosse menos do que isso”.
As personagens deste livro – que se lê da primeira à última página com entusiasmo e prazer – mostram-nos os diferentes funcionamentos da natureza humana face ao Amor. Estas diversas personagens, que parecem representar as distintas facetas do narcisismo do ser humano, são escolhidas em conformidade com aquilo que a própria pessoa é, com o que ela própria foi, com o que ela própria gostaria de ser, ou com alguém que foi outrora uma parte dela mesm, . Estas diferentes e variadas personagens, que se ligam e que se desligam, através de intensas paixões e dolorosas ruturas surgem, no nosso ponto de vista, como distintas facetas das qualidades da natureza humana.
A escritora Maria José Vera, através de uma escrita rica de imagens e de intenso simbolismo, leva-nos, com muita coragem, através de um pensamento que nasce do fantástico e do sonho, para o reino dos homens e das mulheres com todos os seus inevitáveis limites.
Parabéns Maria José pelo prazer que nos deu na leitura deste seu primeiro livro.
1 de dezembro 2016