A Revista Portuguesa de Psicanálise (RPP), em colaboração com a Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP), tem o prazer de homenagear o psicanalista Francisco Manuel Barreto Alvim (1917-1984), que completaria cem anos em novembro do corrente ano de 2017. Francisco Alvim foi o primeiro presidente da SPP e o grande impulsionador e fundador da nossa revista, tendo sido também o seu primeiro diretor. Foi com emoção que testemunhámos a leitura do primeiro editorial onde incentivava, com a sua força peculiar que nascia da esperança no futuro, os psicanalistas a colaborarem e a exprimirem, através da escrita, as suas experiências teóricas, bem como clínicas. Desta forma, apresentaremos neste número uma Nota Biográfica elaborada pela diretora da revista, assim como uma entrevista realizada por Edviges Espada Guerreiro e Maria da Conceição Simões (colegas da equipa editorial) a Maria José Gonçalves e Jaime Milheiro, dois psicanalistas que com ele conviveram de perto. Nesta entrevista apercebemo-nos de imediato do apreço e admiração que, claramente, sentiam por Francisco Alvim.
Deste número da revista faz também parte um conjunto de artigos ligados às questões da era digital e, naturalmente, a sua influência no espaço interno, com as respectivas consequências na qualidade da construção do setting e do campo analítico. Iniciamos com um artigo de Andreia Marzi sobre “Virtual space, Identity and Psychoanalysis: a new world or a dreadful voyage?”. Convidámos Rui Aragão Oliveira a comentar este artigo, por forma a criar um espaço de reflexão, partilhado entre os dois autores e os nossos leitores, sobre o ciberespaço e suas particularidades e ligações com a vida mental. Também Maria José Gonçalves apresenta, interroga e investiga, sob o ponto de vista clínico, várias questões no âmbito do desenvolvimento e da era digital. No seu artigo “Nascer e Crescer na Era Digital” discute e salienta a importância do objecto como organizador do pensamento e da subjectividade e interroga-se - questionando também os leitores - sobre as repercussões que a era digital tem na realidade no desenvolvimento psíquico da criança. Orlando Von Doellinguer, através do artigo “Tempos Modernos e Velhas Angústias: as relações na era da Internet em três filmes contemporâneos”, constata a “representação de uma sobreutilização das redes sociais”, que esconde sentimentos de vazio e solidão, consequência das dificuldades nas relações de intimidade. Também Rita Marta, no seu artigo “Relações Reais e/ou Virtuais? A psicanálise remota”, reflecte sobre a “Psicanálise remota” ou sobre as relações virtuais contemporâneas.
Apresentamos ainda neste número um conjunto de artigos teóricos e clínicos, bem como alguns ensaios. Carlos Farate e C. Túlio apresentam um trabalho de investigação clínica que reflecte sobre a transformação “dos estados corpóreos da mente” em conexão com as dificuldades transferenciais-contransferenciais suscitadas pelo manejo do setting na relação terapêutica. Ana Belchior Melícias e S. T. P. Pupo Netto apresentam um artigo sobre “Terror(s)ismo: terror sem nome corporificado”. Segundo as autoras, a “cultura e a humanização constituem a via de transformação do traumático, do transgeracional, do horror e da violência”. Segue-se um artigo de Conceição Melo Almeida sobre “Falha narcísica e processo psicanalítico. Para além da neurose de transferência”. Neste trabalho a autora aborda a relação entre a falha narcísica e o trauma infantil e suas implicações no processo analítico. Teresa Santos Neves, no seu artigo, revisita as questões e debates teóricos e clínicos que se colocam na distinção entre a “Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica” e aborda as diferentes controvérsias que tais conceitos acarretam. Celeste Malpique apresenta-nos um ensaio com o título “Narratividade Perversa e Humor Negro na Pintura de Paula Rego”, em que elabora e amplia certos conceitos psicanalíticos como o impacto e o conflito estético. Também o psicanalista Jaime Milheiro apresenta o “Ensaio sobre os Humanos – Suicidas Parcelares”, onde enfatiza “que muitas tecnologias tentam apagar o tempo interno e o exercício da memória característico do H. Sapiens, forçando invasões no corpo/mente que bloqueiam a misteriosidade e despertam estranhas doenças”.
Encerramos este número da revista com Rui Aragão, que nos apresenta uma recensão do livro de Andrea Marzi “Psychoanalysis, Identity and the Internet: exploration into cyberspace” e Maria Fernanda Alexandre, que nos apresenta uma recensão de dois livros - Volume I e II - sobre o pensamento de James Grotstein, com o título “No entanto, ao mesmo tempo e em outro nível - Teoria e técnica psicanalítica na linha Kleiniana/Bioniana”.
Agradecemos a todos os que colaboraram neste número da nossa revista.