A reflexão sobre o espaço mental, bem com as suas particularidades, funcionalidades e manifestações nos quadros psicopatológicos, tem estado presente nos contributos de múltiplos autores que marcaram a história da Psicanálise.
No modelo topográfico, Freud delimitou de forma evidente as diferentes estruturas de funcionamento mental num enquadramento intuitivo e acessível, influenciado essencialmente pela biologia e física, dominantes na época. Melanie Klein aprofundou essas delimitações e a interioridade das representações mentais, que Meltzer ou Matte-Blanco, entre outros, posteriormente expandiram de forma criativa e bem complexa.
Neste artigo, Andrea Marzi organiza uma reflexão psicanalítica sobre a presença na actualidade do denominado espaço virtual. Partindo da omnipresença tecnológica para uma discussão vasta situada no campo da metapsicologia, o autor relaciona o espaço virtual com o espaço da realidade mental.
Apresenta de forma rigorosa um tema ainda pouco reflectido na Psicanálise, convidando-nos a explorar as vicissitudes que a fluidez da modernidade nos coloca, como tão bem soube aprofundar no seu livro, editado recentemente, “Psychoanalysis, Identity and the Internet: explorations into cyberspace” – que, aliás, referencia no artigo.
A sua apresentação permite-nos perceber como os processos inconscientes se apoderam da tecnologia e parecem, assim, expandir as noções de espaço próprio, corporalidade e identidade, que a Psicanálise tem como centrais e determinantes.
A presença constante de um espaço virtual (através da nuvem tecnológica ou das interconexões autónomas dos múltiplos gadgets que nos rodeiam), que se revela impossível de alcançar e conhecer verdadeiramente indica, na sua essência e compreensão fenomenológica, múltiplas analogias como as bem conhecidas propostas de Kant – depois aplicadas à Psicanálise por Bion – sobre a inacessibilidade à coisa em si que representamos como realidade mental.
Marzi revela-nos então como o estudo do ciberespaço e dos comportamentos humanos pode ser um precioso auxílio para aprofundar o conhecimento do funcionamento mental, e onde as ciências Humanas devem assumir um lugar indispensável no debate que propõe realizar.
Na exposição clínica que apresenta, o autor aborda também implicações técnicas associadas ao papel do setting e do campo analítico, que de forma elegante e cuidadosa ilustram como o tema se encontra já presente nas nossas salas de consultório, mesmo que nem sempre o Psicanalista se aperceba.
Deliberadamente, procura não se colocar na simples posição nosográfica e normativa que diferencie aspectos de natureza mais compulsiva e perturbada (embora se perceba que necessariamente os tem em conta). Assume antes uma posição corajosa, que está patente na intervenção clínica que o artigo descreve, onde a analogia do uso do espaço virtual com o do espaço potencial winnicottiano é clara, traduzindo-se numa posição que julgamos pioneira na exploração de aspectos do mundo inconsciente.
Serve o presente artigo como um excelente contacto inicial a uma problemática que o autor tem aprofundado de forma bem sistematizada na última década, e que inevitavelmente irá ter reflexos na conceptualização das estruturas do mundo mental. Por isso, pensamos ser de leitura indispensável ao Psicanalista da actualidade.
Psicanalista. Membro Titular, com funções didáticas, pela Sociedade Portuguesa de Psicanalise (SPP) e pela International Psychoanalytical Association (IPA). Presidente da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. e-mail: