O objetivo deste trabalho é colocar à discussão o fenómeno do corpo individual do “homem-bomba” na sua relação com o corpo grupal da organização terrorista, e como a sua interação pode criar uma onda sísmica global que propaga um terror sem nome, do individual ao coletivo, e vice-versa. A “falha tectónica”, ou a fratura do desamparo e seus derivados traumáticos, são o campo onde a psicanálise se apresenta como um corpo de saber privilegiado para a elaboração de conceitos transversais a este fenómeno – o terror sem nome (Bion, 1967) e a articulação da maldade radical (1949) e da banalidade do mal (1963) de Arendt –, servindo de ponte para a compreensão dos processos psíquicos comuns tanto à dimensão individual quanto à dimensão coletiva.
Nós amamos a morte, tanto quanto vocês amam a vida.
O fenómeno do terrorismo volta a ganhar corpo na atualidade, embora seja um fenómeno desde sempre presente na história da humanidade, em diferentes culturas, religiões e ideologias, e levanta questões complexas e amplamente discutidas em todos os âmbitos da sociedade. Nosso interesse é fazer uma aproximação entre o funcionamento dos indivíduos (especificamente o homem-bomba) na sua relação com os grupos, utilizando os conceitos de terror sem nome (Bion, 1967) e a articulação entre os conceitos maldade radical (1949) e banalidade do mal (1963), ambos de Hannah Arendt, como resultantes inequívocos do efeito da pulsão de morte.
Os primeiros quinze minutos do filme “Mil Vezes Boa Noite”6 foram tomados como disparador para pensarmos o corpo do homem-bomba e, mais especificamente, o terrorismo islâmico, na medida em que este propõe o uso do corpo humano como arma, alimentando o fanatismo contra o pluralismo e a tolerância. Segundo Oz (2004), o fanatismo é mais antigo que o Islão, mais velho que o Cristianismo, o Judaísmo, qualquer estado, governo ou sistema político, qualquer ideologia ou fé no mundo. “O fanatismo é, infelizmente, um componente onipresente da natureza humana…” (p. 14).
Cientes da complexidade e magnitude de um dos fenómenos mais perturbadores da atualidade e do perigo de generalizações simplificadoras, tentaremos levantar algumas questões, obrigando o pensamento a trabalhar na tentativa de encontrar algum sentido para um ato que desafia a compreensão humana.
Haverá um estado totalitário da mente (Temple, 2006), como estrutura – seja na mente dos indivíduos, seja nos sistema político-institucionais – que se retroalimentam? Podemos falar de uma “mente terrorista” ou de uma “área terrorista” dentro de cada mente, aproximando-nos do conceito de idealização das “partes más” do self, segundo o funcionamento da gang mafiosa de Rosenfeld (1987)? Como psicanalistas, teríamos de nos debruçar sobre a singularidade de cada indivíduo terrorista (sua cultura, sua história de vida, o que o levou a abandonar a sua trajetória e tornar-se uma peça, um corpo, uma bomba a serviço de uma causa). Para buscarmos alguma compreensão do fenômeno pensaríamos num terrorismo genérico ou em diferentes tipos de terrorismo? De estado, nacionalista, separatista, religioso, político, financeiro, entre outros, uns mais
A convite da Diretoria de Comunidade e Cultura da FEPAL, a SPP participou no 31° Congresso da FEPAL – Corpo. O Grupo de Trabalho de Lisboa preparatório ao Congresso foi coordenado por Ana Belchior Melícias e, neste tema específico, contou com a participação de Corina Fernandes e Maria Bibas Pereira (SPP). Pelo convite a colegas da SBPSP e da SPPeru foi criada uma oficina inter-regional e intersocietária, apresentada em 15 de Setembro de 2016, em Cartagena, Colômbia. A oficina foi coordenada por Magda Khouri (SBPSP), com as comunicações de Ana Belchior Melícias (SPP), Corina Fernandes (SPP) e Sylvia T. P. Pupo Netto (SBPSP), comentadas por Jorge Bruce (SPPeru) e Leopold Nosek (SBPSP).
Artigo recebido em 19 de Dezembro de 2016 e aceite para publicação em 23 de Julho de 2017.
Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). Psicanalista da Criança e do Adolescente (COCAP-IPA). Formadora do Instituto de Psicanálise da SPP. e-mail:
Membro Filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) E-mail:
Líder do grupo responsável pelos atentados em Londres no dia 7 de Julho de 2005.
Título original: A Thousand Times Goodnight (2013), realizado por Erik Poppe, com Juliete Binoche, Nikolaj Coster-Waldau, Maria Doyle Kennedy, Chloe Annett.
encapotados e subtis, outros mais expressivos e espetaculares nas suas expressões particulares da violência? Cabe ainda perguntar: “…justifica-se a violência calculada e premeditada contra sistemas de grande injustiça?” (Vendantam, : )
Pensar o funcionamento terrorista abarca, portanto, inúmeras dimensões. Muitos autores da psicanálise têm contribuído ativamente na discussão deste fenómeno, ainda que de maneira segmentada, dada a sua pluridimensionalidade e sobredeterminação.
Em termos históricos, podemos seguir Oz: “Quem teria imaginado que o século XX seria imediatamente seguido pelo século XI?” (2004: 15). O terrorismo remonta ao século XI com o grupo xiita conhecido como Os Assassinos, atuando no norte da Síria e no Irão (Varvin, 2008).
Já o termo terrorismo, foi cunhado na época do Grande Terror de Robespierre durante a Revolução Francesa, sendo usado de modo impreciso, para nomear um acontecimento onde convergem fatores psíquicos, sócio-políticos e culturais. Terrorista e herói, podem por vezes tornar-se sinônimos, intercambiáveis.
Optamos por seguir a etimologia da palavra terrorismo, que se aplica ao nosso enfoque, pois implica na sua origem “fazer tremer”. Junção do sufixo ismo (doutrina, atividade) com palavra terror - do latim terreo -, cujo verbo significa tremer. Desta maneira, como fio condutor deste trabalho, articulamos uma metáfora expressa pela palavra terror(s)ismo, enfatizando o efeito disruptivo do ato terrorista, abordando como “falhas tectônicas” seus efeitos traumáticos. Consideraremos três eixos que se articulam: o corpo individual, o corpo grupal e o corpo global.
Tentaremos esboçar o entrelaçamento entre trauma precoce individual e o evento traumático atual, como possível desencadeador da aderência à organização extremista, colaborando, eventualmente, para a encarnação voluntária no personagem homem-bomba. De sua parte, a organização terrorista potencializa este traumático e o instrumentaliza, tornando-se o epicentro do sismo, “fazendo a terra tremer” e liberando, assim, forças mortíferas que acabam por retro-alimentar a magnitude do fenómeno. O corpo global seria o território através do qual se propaga e reverbera esta onda sísmica de terror sem nome.
O medo e os estados emocionais aterrorizantes são inscritos em padrões instintivos de fuga, intimamente ligados à vivência corporal e à sobrevivência. Para Grotstein (2009), “O terror, como o trauma, resulta da imprevista confrontação com a súbita e violentamente inesperada incerteza, antes que o nosso inconsciente tenha tido a oportunidade de criar uma experiência anterior à sua descoberta.” (p. 276). O terror será sempre traumático. Esse é o seu objetivo.
A mente é a consequência da leitura contínua dos eventos que ocorrem no corpo, e entre esses eventos estão todas as percepções dos sentidos – aquilo que vemos, ouvimos, tocamos, cheiramos, provamos… Os eventos das percepções de um corpo quando são lidos, tornam-se imagens na mente. Se não houver mente, não há imagens em lado nenhum…
Através dos primeiros quinze minutos do filme Mil Vezes Boa Noite, visualizamos o desenrolar de imagens extra-ordinárias de um corpobomba a ser preparado e ativado, esforçando-nos por aceder a um no-body, que nos escorrega e desvanece constantemente, por ser da ordem da não-representação. Essas imagens condensam e figuram o ritual vida-morte, onde o acting-in e o acting-out do terror sem nome é encenado como se de um casamento com a morte se tratasse, com os correspondentes rituais fúnebres do corpo sacrificial. O ritual, como acontece em muitas religiões, parece revestir-se de um ciclo de purificação pela terra, pela água e, finalmente, pelo fogo.
Inicialmente o corpo do “mártir” jaz numa cova funda, encenando um enterro em vida. A fragmentação e o aniquilamento do corpo do bombista-suicida, não permitirá à família os rituais de despedida necessários perante a morte. Assistimos, assim, a uma espécie de purificação pré-mortem através da terra - “somos pó e ao pó retornaremos”. O corpo, teatralizando a morte humana, prepara-se para a morte desumana que, auto e hetero, infligirá. A separação colocada em cena, parece ser o aniquilamento da dimensão humana, ou seja, a separação de um corpo diádico e humanizado.
O corpo é então retirado da cova e lavado, através de um ritual de purificação pela água. Em “estado de graça”, como se de uma virgem para um casamento se tratasse, é preparado pelas mulheres. Ritual de purificação convertendo o assassino num herói a serviço de uma causa nobre e divina, apagando as ligações relacionais eu-outro. Casamento com Thanatos, no avesso de Eros. O corpo, des-humanizado, passa então a corpo monádico, anti-relacional, onde a serenidade paira numa espécie de encapsulamento infra-humano.
Finalmente o corpo é (re)vestido de bombas, como uma segunda pele mortífera, preparando-o para a imolação, a purificação pelo fogo. O seu objetivo será a união fusional com o objeto ideal, divino, subtraindo aqui a dimensão humana da luta pulsional que compele o psiquismo a trabalhar continuamente no sentido de preservar o pensamento e a vida. “O objetivo último do martírio é poder restaurar de forma mágica e omnipotente o esplendor do passado” (Grotstein, 2009: 269).
O mártir eleito, desumanizado, irá promover uma experiência de destruição e purificação total seguida de um renascimento messiânico.
O corpo será explodido, fragmentado, aniquilado (angústias psicóticas). Outros corpos serão desmembrados, pulverizados. Pela onda sísmica gerada, o corpo social e cultural será atingido e, fragilizado, passará a viver o terror traumático. O processo de purificação, representando, naturalmente, a transformação da morte em vida torna-se, pelo avesso, um casamento ritualizado com a morte, onde purificar o corpo traduz-se em matar. Segundo Bion (1962), quando não há capacidade de revêrie materna, o bebé fica à mercê do terror sem nome, ou seja da incapacidade da mãe metabolizar a sua angústia sensorial, produzindo -K e um terror sem nome, ao invés de um aparelho de pensar. Com precisão, López-Corvo traduz esta condição como “realmente grave pois o seio não só não impede o desejo de morrer, mas subtrai o desejo de viver.” (López-Corvo, 2003: 186)
No entanto, no seu ato auto e hetero mortífero, o corpo do homem-bomba é, pela primeira vez, cuidado, olhado, reconhecido e até “amado”, possibilitando a experiência de uma proto-existência. Num primeiro momento, este olhar prolonga-se ao longo do processo preparatório do que virá a constituir-se no seu sacrifício e, num segundo momento, no ato explosivo da morte, o ser olhado suspende o tempo, criando a ilusão da imortalidade, de passar a ser olhado para sempre. O corpo do mártir, torna-se ilusoriamente some-body.
Esse corpo sacrifical falha assim na sua função somática, passando a míssil psicossomático aprisionado num corpo monádico (auto-engendrado). E falha também na sua função psíquica de um corpo diádico (relacional), envelope de trocas e porosidades relacionais, fundadoras da alteridade e geradoras da matéria dos sonhos e das memórias de que somos feitos. “Na esfera de ausência de sonhos, o passado não faz sentido, a atualidade carece de vida e o futuro não existe… O monstruoso é o carente de sonhos.” (Nosek, 2008: 35). O corpo-bomba - de um homem/mulher cujo pensamento foi erradicado (sem memória, sem julgamento) – age o seu terror sem nome através da identificação projetiva maciça ficando, paradoxalmente, a extrema violência destrutiva do seu ato, revestido de uma pureza absoluta. “Este é o fascínio mortal de se tornar um ‘nobody’, sem uma mente e sem raízes no mundo. O ‘nobody’ não experimenta a alienação, ele a encarna. Para Arendt este é o maior mal.” (Covington, 2012: 1215-1216).
A des-humanização promovida pelas organizações extremistas e regimes totalitários sugerem uma articulação dos conceitos de Hannah Arendt: maldade radical (1949) e banalidade do mal (1963), como duas faces do terror: “A maldade radical, evidencia, em primeira instância, uma face do processo de desumanização dos totalitarismos: a aniquilação da condição humana das vítimas. Enquanto, a banalidade do mal revela, em segunda instância, a partir do caso concreto de Eichmann, o outro lado desse dito processo de desumanização que exerce o totalitarismo nos cidadãos, ou seja, perverter as suas capacidades de pensar e julgar.” (Botero & Granobles, 2013: 125)
Poderíamos nós pensar o corpo-bomba, que mata-morrendo, como expressão última da banalidade do mal (Arendt, 1963)? Des-humanizado (sem pensamento), passaria a funcionar em dissociação-denegação como aquela descrita nos refúgios psíquicos de Steiner (1997) e no narcisismo maligno (Rosenfeld, 1971), agindo a maldade radical (Arendt, 1949) da organização extremista?
O impacto sócio-cultural – retorno à idealização, ódio ao estranho, culto à morte e desumanização – exprimindo as angústias de aniquilação, transborda e poderá vir a retroalimentar o circuito da compulsão à repetição, se o luto, a pensabilidade, a reflexão, o diálogo, a cultura e a humanização, não conseguirem constituir-se como via de transformação do traumático, do transgeracional, do horror e da violência.
O espaço trans-subjetivo é profundamente impreciso e ambíguo, de tal forma que tendemos a aceitar mesmo aquilo que seria inaceitável. (Amati Sas, 2002, citada por Nicolò, 2011: xiii).
O homem-bomba não pode ser explicado unicamente do ponto de vista da psicopatologia individual. Como compreender, então, as suas motivações? Quais as articulações possíveis com os objetivos que a organização enquanto grupo procura atingir? Como compreender o papel do trauma, da vergonha e da humilhação na construção do homem-bomba? Grotstein (2009) propõe, por exemplo, que resíduos de terror fetal persistem pós-natalmente e ficam embutidos no soma.
“O fanatismo é, com frequência, intimamente relacionado a uma atmosfera de desespero profundo. Num lugar em que as pessoas sintam que não há nada além de derrota, humilhação e indignidade, podem recorrer a várias formas de violência desesperada.” (Oz, 2004: 17) Sabemos que os sentimentos de ser dominado, invadido, humilhado, violentado, causam danos narcísicos severos, libertando uma raiva explosiva com consequências caóticas. Estas vivências intoleráveis têm efeitos duradouros e rompem o “tecido da mente”, a barreira de contato e, finalmente, o próprio soma. Afinal, o que define o trauma é o fato de afetar a capacidade de dar sentido
à experiência pela sua imprevisibilidade. Para López-Corvo (2014), “um fato pode tornar-se traumático quando uma série de condições, como por exemplo a intolerância à frustração, transformam um fato temporal num fato permanente” (xxvii).
Para compreender porque indivíduos se tornam bombas humanas, corpos sacrificiais, necessitamos compreender o significado desses atos de violência extrema. Este auto-sacrifício difere do soldado morto em combate, ou daquele que se sacrifica apenas a si próprio quando é morto ou torturado. Neste caso, implica o assassínio do maior número de vítimas possível, uma simbiose entre matar e morrer onde o indivíduo se torna simultaneamente vítima e algoz.
Vários autores chamam a atenção para a complexidade multifatorial envolvida nesta situação. No estado da mente sacrificial unem-se aspectos primários do psiquismo numa mistura explosiva: a erradicação do pensamento (Arendt, 1963), a geração do no-body e a psicologia do follower (Covington, 2012), o ataque ao pensamento no -K (Bion, 1965), o narcisismo de morte (Green, 1983) e o narcisismo maligno (Rosenfeld, 1971), todos eles configurando a idealização e o desejo de retorno a um lugar omnipotente e oceânico.
Outros autores assinalam também, de um lado, o progressivo isolamento do terrorista suicida do seu ambiente familiar e social, abolindo os traços e as emoções constituintes da sua identidade; de outro, a vivência regressiva de dependência profunda ao grupo e ao líder carismático numa doutrinação totalitária onde ele já não é mais dono do seu próprio corpo, nem da sua mente, ou seja da sua capacidade de pensar. É criada uma dinâmica patológica transpessoal, esbatendo-se a distinção entre o self e o outro, imerso que vai estando mais e mais na mentalidade do grupo. Para poder levar a cabo a sua missão, o homem-bomba relacionar-se-ia unicamente com o objeto ideal, num estado de alienação crescente do seu mundo interno (des-subjetivizado) e do mundo circundante (des-humanizado).
Sabemos que as marcas identificatórias devem ser transformadas pelo contato com a realidade, como nos diz Almeida (2010), e se não forem: “…o sujeito fica colado à miragem e vertigem de um eu que não se sustenta e tem que destruir o outro, o inimigo, para manter a ilusão de sua coesão.” Como um conteúdo à espera de continente, a organização terrorista oferece-se como lugar que tanto promove, como acolhe a despersonalização que ela própria gera: “a ideologia torna-se o guardião da identidade.” (Miller, 2006, p. 126).
De Masi (2011), Stein (2010) e Erlich (2008), apontam ainda a dimensão da experiência mística de natureza transcendental, de êxtase paradisíaco, de submersão em algo maior que o próprio self. Nessas experiências, o Eu sente-se excepcionalmente vivo, integrado e em contacto com o universo. Todos os medos são, assim, transformados num terror monolítico, dirigido à obediência exclusiva a um deus, projetivamente transformado num superego tirânico que clama por vingança. Nesta militância tornada sagrada por um deus mortífero internalizado, o seu terror humano da morte parece ser, mágica e triunfantemente, convertido numa forma de culto e ele, num mensageiro aterrorizador.
A fratura do desamparo e seus derivados traumáticos na subjetividade, constituem-se portanto como uma espécie de “falha tectónica”. O homem-bomba, erradicado da sua possibilidade de pensar/mentalizar, torna-se um corpo petrificado e congelado no tempo circular da unidimensionalidade, agindo o seu terror sem nome (Bion, 1962) no próprio corpo, no grupo e na sociedade global. Figuraria este seu ato um estado “proto-mental” de terror interno explodindo em “elementos-beta” (Bion, 1962a)?
O elemento específico que envolve o terrorismo pode estar na união patológica do sofrimento individual com a mentalidade omnipotente e destrutiva da organização política ou religiosa. (De Masi, 2011: 106)
A organização terrorista ou corpo grupal configuraria, seguindo a nossa metáfora, o hipocentro do sismo, desencadeado pelo choque das placas tectónicas, libertando energia na crosta do planeta a que corresponderia o epicentro, ponto diretamente acima do hipocentro, ao nível do solo. Sabemos que o terror é a essência do regime totalitário. Mas a eficácia do terror totalitário – o sismo - radica acima de tudo na des-subjetivação.
A organização terrorista, utilizando as angústias primitivas que transbordam das suas estratégias, parece configurar a própria maldade radical (Arendt, 1949), no sentido da criação de um estado mental e grupal totalitário e tirânico, capaz de crimes atrozes. Essa face, no entanto, só será perpetuada e favorecida através da banalização do mal tal como Arendt (1963) a define, ou seja, a trivialização do mal gerado no vazio do pensamento e na impossibilidade de julgar. Ambas as noções de Arendt falam da desumanização. “A maldade radical dá conta de descrever os mecanismos de dominação e as estratégias totalitárias (…), enquanto a banalidade do mal, parece referir-se mais a seus motivos e intenções.” (Botero & Granobles, 2013: 125).
Arendt considera que quando se aniquila a pessoa jurídica e a pessoa moral, o último passso para a dominação total, é a destruição
Page 54da identidade ou humanidade da vítima. Esta é a última fase para converter os prisioneiros em ‘cadáveres viventes’ ou musulmanes (muselmänner). Levi utlizava a palavra “musulmán” para referir-se aqueles homens que tinham perdido tudo: seu cabelo, seu nome, sua roupa, seus costumes, seu pensamento, sua vontade, sua capacidade de julgar, sua capacidade para sofrer, etc. Os musulmanes são o produto do processo de desumanização“ (Botero & Granobles, 2013: 111).
O processo de desumanização dos sistemas totalitários não pretende apenas acabar com a humanidade das vítimas, mas também dos vitimizadores, que podem a qualquer momento passar de acusador a acusado, de carrasco a executado, de algoz a vítima, e a quem só é permitido o cumprimento das ordens “sagradas” do líder, sem poderem já implicar-se eticamente no conteúdo das mesmas. Eichmann estava consciente dos seus atos, mas privado da sua pessoa moral, com uma “consciência substitutiva”. Isso, segundo Arendt, o torna mais perigoso pois “comete seus delitos em circunstâncias que quase o impedem de saber ou intuir que realiza atos de maldade.” (Arendt, citada por Botero & Granobles, 2013: 124)
Akhtar (2008) transpõe para a psicanálise o conceito de desumanização, postulado por Arendt. Suas contribuições fornecem elementos para a reflexão sobre a “mente do terrorista” e de grupos ideológicos violentos, especialmente no que diz respeito à radical desconsideração pela própria vida e pela vida de suas vítimas. Em última instância, a desumanização permite a violência contra os outros e, em processo análogo, contra si mesmo, na medida em que impõe a desumanização do próprio self: “nas palavras de Winnicott, quando não se podem encontrar condições para uma existência autêntica, ‘o suicídio é a destruição do self total, evitando a aniquilação do verdadeiro self‘. Assim é preferível uma morte digna a morrer na vergonha.” (Akhtar, 2008: 132).
O martírio é o termo que melhor se adapta à organização terrorista, que evita nomear os seus atos extremos de suicídio/homicídio, por essa prática ser condenada na maioria das religiões. As organizações que se servem de bombas humanas são política e estrategicamente orientadas, enquanto as motivações do bombista-mártir parecem, ao contrário, estar acasaladas entre a desumanização promovida e o seu desespero, a sua falha identitária/tectónica. Identificado adesivamente (Bick, 1968), vestido com a segunda pele dos dogmas religiosos e fundamentalismos ideológicos da organização extremista, o bombista-suicida age - em anti-pensamento - a sua necessidade de vingança e de justiça. Poderíamos compreender esta vivência através da fantasia arcaica de identificação intrusiva? Do ataque ao interior do corpo da mãe, nas suas diferentes modalidades de organização patológica como refúgio psíquico (Steiner, 1997), gang mafiosa (Rosenfeld, 1987) ou claustro (Meltzer, 1992)?
No mundo totalitário e unidimensional, o objetivo é aniquilar a pluralidade e a subjetividade. Impõe-se o narcisismo primário ou maligno, onde só cabe um, na recusa ao outro, à alteridade e à impossibilidade de viver em capacidade negativa, segundo o princípio da incerteza que, como psicanalistas, treinamos diariamente na clínica.
Arendt dá conta dessa dificuldade de aceitação da intersubjetividade pelo estado saturado da mente: “As ideologias pretendem conhecer os mistérios de todo o processo histórico - os segredos do passado, as complexidades do presente, as incertezas do futuro - segundo a lógica inerente às suas respectivas ideias.” (Arendt citada por Botero & Granobles, 2013, p. 103). O seu corpo ideológico, erradicando o pensamento, transforma-se numa ação imperativa: todo aquele que não se ajuste a esta visão unidimensional, isto é, toda a diferença, deve ser eliminada. “O desejo de destruição do outro, da incessante estrangeiridade do outro, seja em que nível for, é a marca do preconceito. No preconceito não há escolha. Há desejo de destruição e de anulação do outro.” (Almeida, 2010).
O corpo da organização teria a intenção estratégica de agir os pressupostos básicos teorizados por Bion para todos os grupos, num movimento unidirecional e unidimensional: aniquilar sendo aniquilado e matar morrendo, condensados como única alternativa. O ataque promovido pela organização tem como objetivo primeiro destruir um alvo (de preferência o maior número possível de civis nas suas atividades cotidianas) mas, o seu objetivo último, será transformar-se numa arma psicológica, ou seja, tornar-se uma mensagem aterrorizante para uma audiência global.
Na maldade radical (radical evil) de Arendt, há uma intenção ativa baseada na onipotência e no narcisismo individual. Já na banalidade do mal (banal evil), há uma erradicação do pensamento e da própria existência. Parece ser através deste “não-pensamento” que, ao longo da história, os homens comuns e “burocratizados” têm sido instrumentos passivizados, para conduzir a exterminação em massa sob a ordem de regimes totalitários.
Há, no entanto, o fascínio de uma ideologia de ilusão à qual todos somos suscetíveis, especialmente quando a identidade individual ou grupal é ameaçada ou quando o desenvolvimento da identidade foi comprometido desde o início. (Covington, 2012: 1215)
O ato terrorista, gera uma onda sísmica/expansiva de terror traumático de efeito vasto e difuso, desde o seu epicentro psicossomático para o social e cultural até atingir proporções globais. Articula assim os processos psíquicos comuns à dimensão individual e à dimensão coletiva, de uma hiper-realidade e de um hiper-trauma, atuados pelo inesperado do fator surpresa.
O corpo sócio-cultural onde a organização se insere é de grande importância. O líder carismático poderá penetrar o tecido cultural, convocando a ferida traumática (histórica) do grande grupo, clamando por vingança com ações destrutivas e propagando no seu discurso o mito do herói-mártir. Tal como os indivíduos, os povos ou grupos podem carregar feridas traumáticas, verdadeiras falhas tectónicas. Assim, o corpo social pode viver uma fratura que, ao abrir-se, deixa a descoberto o poder destrutivo de forças inconscientes, cuja magnitude poderá conduzir a uma destruição catastrófica. Isto, no caso de não existirem ou de não serem suficientes os instrumentos para a elaboração/revêrie do trauma histórico, cujo continente daria significado e sentido aos indivíduos de um determinado grupo cultural.
O papel dos media tradicionais e especialmente o recurso ao modelo viral da internet, poderão ser utilizados como instrumento para a extensão virulenta da onda tectónica do terror sem nome, até atingir proporções globais. Alguns meios de comunicação jogam atualmente um papel proeminente quer na radicalização dos indivíduos, criando uma comunidade virtual de ódio, uma verdadeira “fraternidade da violência” (Miller, 2006: 126), quer na disseminação da sua mensagem de terror.
O impacto sócio-cultural corre o risco de retro-alimentar o circuito da compulsão à repetição, enfatizando o perpetuar da destrutividade, num círculo vicioso de vingança e de re-traumatização. A resposta ao terror sem nome, muitas vezes baseada no agir da identificação projetiva sob os auspícios da retaliação, gerará um circuito fechado de efeito retroativo. Não será então uma “resposta” e sim uma duplicação do mal, criando crateras a nível do tecido social e cultural, minando a possibilidade de pensar o trauma coletivo e de conter as manifestações da transgeracionalidade traumática. Essa contra-resposta retaliatória consistiria, simultaneamente, numa ação reativa de evitamento da dor e num meio primário de manutenção da identidade básica do grupo atacado.
As respostas contra-terroristas, baseadas no recurso a máquinas de matar à distância, na ilusão de poder combater sem que os seus soldados morram, numa espécie de guerra sem corpo, poderão ser também elas consideradas terroristas. Os ataques seletivos à distância podem dar-nos a ilusão de que não existem vítimas inocentes. Porém, considerar outros seres humanos como danos colaterais é, em si, uma desumanização.
A onda sísmica propagar-se-ia e novamente bombas, corpos explodidos e feridas traumáticas ativariam novos ciclos de terror sem nome, perigosamente banalizados, se não se encontrar uma revêrie civilizatória capaz de figurar e alfa-betizar este grito de horror. Oz (2004: 17) defende a ideia de “…que apenas os moderados de cada sociedade são capazes de conter os fundamentalistas. O Islã moderado é a única força que pode conter o Islã fanático”. As partes saudáveis do self são também aquelas que poderão conter as partes mais psicóticas da mente.
Diz o Grão Kublai Kan, imperador dos tártaros, ao jovem explorador veneziano Marco Polo: – Tudo é inútil, se o último local de desembarque tiver de ser a cidade infernal e, é lá no fundo que, numa espiral cada vez mais apertada, nos chupa a corrente. E Polo: – O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir; se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos ao estarmos juntos. Há dois modos para não o sofrermos. O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige uma atenção e uma aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar. (Calvino, 2002: 174)
De quem é, afinal, o corpo do homem-bomba?
Retornemos ao fragmento do filme que disparou essa discussão: “Mil vezes boa noite”, título enigmático que nos convida a pensar em quantas vezes desejamos boa noite sem pensarmos se haverá amanhã. Em tempos serenos, esta dúvida não existe. Quando se presentifica, adentramos o terreno do traumático; cada despedida pode ser a derradeira.
As cenas iniciais do filme se passam num povoado do Oriente Médio, cujo cotidiano em meio à guerra é acompanhado por uma repórter estrangeira, que parece levar ao máximo sua função de registro, fresco e inédito, arriscando inclusive a própria vida. Ela “dispara” sua câmera em direção às crianças, miseráveis e feridas, capturando seus ângulos de dor.
Será ético buscar beleza na destruição e na morte? Qual será a função deste registro?
Os psicanalistas também podem ser, da mesma maneira, testemunhas implicadas, agentes de transformação, ou apenas voyeurs, expectadores da dor humana. Como em uma morte assistida.
É importante que possamos preservar uma mirada estrangeira, terceira, implicação ética na cultura e exercer uma função de ombudsmen da subjetividade em relação ao social, de modo a denunciar o abuso e a violência, as relações perversas de poder, as des-humanidades. Exercendo uma função social.
O corpo do terror – físico e doutrinário – e seu uso pelo homem-bomba e suas repercussões sísmicas foram sentidas no expectador enquanto buscava-se alguma inteligibilidade e resposta à pergunta sobre o que faria a respeito dos motivos que levariam alguém a oferecer-se ao próprio despedaçamento?
“Mil vezes boa noite”, título do filme, é o que diz Julieta a Romeu do balcão, ao se despedir do recém-descoberto amor da sua vida - “Mil vezes boa noite, meu amor” diz ela, ansiando pelo dia seguinte, repleto de sonhos e promessas, repleto de amanhãs. Mas sabemos como a história termina.
Tanto no caso dos homens-bomba, quanto entre Romeu e Julieta, o que está em jogo são paixões. Paixão e apaixonados, todos amantes, oferecendo seus corpos por amor. Nem que seja a um ideal. Um pacto com a morte e um pacto de morte. A alienante entrega apaixonada - serão iguais? Paixões e seus destinos. Um ato louco, é, necessariamente, um ato de loucura?
Na cena inicial do filme, mulheres choram ao redor de uma cova que abriga uma mulher imóvel, presumidamente morta, em cima da terra nua. O plano vai se fechando até dar um “zoom” em seus olhos, que de súbito, se abrem! A mulher se levanta e sai da cova por uma escada, com a ajuda das outras mulheres, limpa o pó da roupa e sai caminhando. Seguem-se a essa sequência lenta e enigmática, saudações emocionadas entre as pessoas.
Continuamos seguindo, ainda ignorantes e perplexos, a cenas de manipulação do corpo da mulher ressuscitada. Numa atmosfera diáfana, mística, quase sagrada, o que marca são seus olhos, sua expressão vidrada, ausente, extática! Uma dimensão sublime é sugerida…
Neste momento fica claro tratar-se de um ritual para vestir seu corpo de explosivos, os quais, podemos supor, serão detonados logo mais. Lembramos então da cena inicial de seu enterro. Agora faz sentido. Por uma inversão temporal, o registro aprés-coup foi feito avant-coup7. Chorava-se uma morte agendada.
A mulher é velada antecipadamente, tal qual uma encenação. Um teatro da sua morte “natural”, com todos os elementos que a compõem no imaginário: um corpo inerte na cova, pessoas chorando. O fac-simile da morte nos revela a importância da materialidade do corpo que, neste caso, vai contrastar com seu destino seguinte, que é o de ser pulverizado. Não haverá mais corpo após a explosão. E sem corpo não há morte, ou pelo menos, a sua confirmação. O corpo na cova e seu cenário parecem funcionar como um suporte perceptivo-visual numa busca de representação. Da morte.
O corpo, e sua mínima integridade, aparece aqui como lastro fundamental como base para as fantasias e para os processos psíquicos. O trabalho de luto (Freud, 1917) parece ser um deles. Por apoio, como sugere Freud (1905). Sabemos a necessidade das famílias de pessoas desaparecidas encontrarem seus corpos para a conclusão deste processo.
O homem-bomba representa de certa forma a concepção freudiana de homem. A tarefa de controlar as explosividades, de dominar a pressão pulsional e regular sua descarga, é o trabalho impingido continuamente ao psiquismo. Metabolizar as intensidades e torná-las pensáveis. A tarefa civilizatória da “domesticação das pulsões” (Freud, 1930).
Além do próprio sujeito, os outros também serão alvo desse destino pulsional-passional. Individual e histórico. “Vestida para matar” está, literalmente, a nossa protagonista do filme. Expressão que une o mortífero ao sexual na abordagem amorosa feminina, alude a mirar e atacar a presa. Infalível, determinada a agir o passional.
Para o ego prazer-purificado (Freud, 1914) qualquer alteridade vira fonte de todo o mal e deve ser aniquilada. Por excorporação, o ego expulsa de si suas partes más, isto é, não homogêneas, traços de não-eu. Um modo primitivo de regulação psíquica; explosividade pura, ejeção. A diferença ameaça o equilíbrio do Eu e acirra os “narcisismos das pequenas diferenças”, germes da intolerância e da xenofobia, que parecem hoje ter atingido graus impensáveis para nosso estágio civilizatório.
Como uma noiva, a mulher-bomba é preparada para o gran finale. Momento ao mesmo tempo inaugural e último, como o Big Bang8 ou a criação de uma Supernova9, a explosão funda uma nova ordem no universo, abre uma fenda e coloca o tempo em suspensão. Gera descontinuidade abrupta, instala o tempo traumático. Ausência de angústia-sinal.
Os estilhaços de carne projetados pela explosão podem atingir um raio de até 200 km. Como se demarcassem um território, levam em seus fragmentos mensagens da sua fé, numa espécie de semeadura ideológica. Como hóstias do mal, se incrustram na nossa carne, violam as nossas terras, inoculam medo e tingem de sangue nosso ar. Ceifam nossas vidas. Intromissão violenta e irreversível. Onipresença, excesso passional, terror inominável.
Para Bataille (2004), o homem está sempre na
Antes do golpe – anterioridade, em alusão ao conceito freudiano de dois momentos do trauma.
Som da explosão que deu origem do universo. Teoria cosmogônica da explosão como inauguração do Universo.
Corpo celeste brilhante como uma galáxia, originado após explosão de estrelas. Uma supernova possui todos os elementos da tabela periódica e pode causar, pelas suas propriedades, tanto a extinção dos seres vivos, quanto gerar vida na Terra. (fonte: astonomy- universo.blogspot)
incessante busca de alívio para sua solidão, estando em permanente trabalho para recuperar um sentimento profundo, perdido, de continuidade com o todo. Nostalgia da vivência de uma unidade. Para ele, o papel do erotismo seria exatamente esse. Concebido como o “ponto limite entre o natural e o social, entre o humano e o inumano… como uma experiência que permite ir-se além do si mesmo” (p. 36), o erotismo ajudaria na superação do nosso sentimento de descontinuidade proporcionando uma experiência de continuidade profunda com um todo. A violência e o erotismo podem suscitar inclusive algumas vivências de dimensão sagrada, religiosa, operando como meio de atingir-se uma experiência mística sem Deus.
Uma petite mort10 parece pouco intensa frente ao alcance de uma grand mort, do êxtase de uma comunhão absoluta, de continuidade com o universo. O coito explosivo com a morte vai se revelar, dessa maneira, um momento de fusão radical, a comunhão apaziguadora, o amparo total da diluição no todo. A volta ao primordial, à mãe terra, ao silêncio pulsional. “Do pó viestes, ao pó retornarás…”.
Toda realização erótica, diz Bataille, tem por princípio a “destruição da estrutura do ser” e a diluição das suas partes no todo. (Bataille, 2004).
Levar um corpo à morte é erotizá-lo. O masoquismo é erótico. As anoréxicas erotizam seu corpo na tentativa de despulsionalizá-lo. Será pulsionalizar-se, revestir-se de bombas? Um destino passional, um retorno contra si? Uma segunda pele? (Bick, 1968). Uma prótese para uma função simbólica? Servir de veículo ao ideal?
Qual corpo o homem-bomba empresta à causa? Um corpo-carne desinvestido? Uma “massa de músculos e nervos”, como diz Piera Auglanier (2001). Um corpo erógeno ou um corpo des-encarnado? De quem é o seu corpo?
O homem-bomba, será ele suicida ou homicida? Sádico ou masoquista? Faz um sacrifício ou uma oferenda? Herói ou um mártir, egoísta ou altruísta: salvarei a todos que estão em pecado. Há um aspecto narcísico em ser o escolhido? Que honra ser a noiva da morte! Haveria uma poética nestes atos? Como pensar, fora do desespero e da necessidade, em oferecer-se deliberadamente ao próprio despedaçamento? O que os leva a amar mais a morte do que a vida? O que é será a morte para cada um?
A morte corporal inclui a morte do Eu e sua representação, investida amorosamente. O que faz com que alguém se ofereça de “corpo e alma” a pulverizar-se? Qual forma de amor maior é esta, capaz de superar o auto-conservativo, mais além do narcisismo?
Segundo Lacan (1966), no início temos um ego primordial, essencialmente alienado, que opera junto a um sacrifício primitivo, que é essencialmente suicida. Esta, diz ele, seria a “estrutura fundamental da loucura” de cada um. Paradoxo intrínseco que teremos que transpor para optar em direção à vida?
Green (1988) chamou de “pulsão de paixão” a estes estados apaixonados e seus componentes de loucura. Paixão enlouquecida, loucura apaixonada. Diz: “o sujeito sofre sua paixão, é agido por ela… ela domina e subverte sua razão e toda a sua mente aliena-se do seu objeto. O sujeito já não atua, mas é atuado; impõe-se então um ato” (p. 236). Continua, dizendo que a paixão cega assume uma natureza parasita, “catexizando tudo de forma auto ou hetero-destrutiva.” (p. 241).
As paixões, sempre narcísicas, são fusionais. São amores “tão dolorosos, a ponto de termos de nos defender deles com um sacrifício alienante” (1988: 238). Paixão e representação caminham assim, em direções opostas.
Os loucos/apaixonados constroem transferências delirantes. Não há com conceber estes atos de fanatismo, a não ser como frutos de uma paixão enlouquecida. Assim mesmo, nada será suficiente para nos fazer compreender as motivações destes tipos de atos de barbárie, desrespeito e violência para com o semelhante. O traumático continua a reverberar nesta falta de empatia.
Romeu: - Eu queria ser teu passarinho.
Julieta: - O mesmo desejaria eu, meu amor, mas temo, que de tanto acariciar-te, poderia matar-te.
Estamos num campo instigante e complexo de investigação, uma vez que a violência do bombista-suicida na intricada relação com a organização terrorista, é desafiadora para a compreensão humana dentro dos paradigmas de pensamento vigentes, e também para a tarefa da psicanálise no sentido de conseguir oferecer alguma articulação com outros campos do conhecimento contribuindo para a reflexão.
A metáfora utilizada do terror(s)ismo, permitiu-nos pensar e interligar os movimentos dialéticos do corpo individual-bomba ao corpo grupal-organização, e deste ao corpo global-sociedade, reativando e expandindo muitas vezes em réplicas e tréplicas, o terror sem nome. De um lado falha tectónica do desamparo traumático facilmente encontra abrigo no desejo onipotente de idealização e unidimensionalidade, ao passo que doutro, a organização totalitária instrumentaliza, des-humanizando e erradicando o pensamento, criando um sismo de dimensões catastróficas inter e intrasubjetivamente, cuja onda se alastra do individual ao coletivo e vice-versa, num movimento incessante.
Levantamos a hipótese dos conceitos de Arendt da maldade radical e da banalidade do mal, se
Em Francês, petite mort significa “orgasmo”.
apresentarem como complementares. A maldade radical descrevendo as estratégias de dominação do totalitarismo, leva-nos diretamente aos aspectos mais primitivos, onipresentes e evidentes do ser humano, enquanto a banalidade do mal, como a outra face, seria o que o verdadeiramente sustenta o estado de mente ou os regimes totalitários, referindo-se mais a seus motivos e intenções, ou seja, à destruição da identidade e da alteridade, num processo concertado de des-subjetivação, des-humanização e des-personalização. E esse é, na verdade, considerado o mais perigoso.
Erradicando o pensamento e a diferença, os sistemas totalitários e, diríamos, narcísicos, promovem uma “banalização/burocratização de agentes do terror”, seja a nível interno (gang mafiosa, refúgios psíquicos) seja a nível mais institucional (funcionamento em pressupostos básicos) ou global (regimes políticos, financeiros etc.). Visível na massificação “desejável” do mundo contemporâneo.
Apenas a revêrie civilizatória da pensabilidade, da reflexão, do diálogo, da humanização, constitui a via de transformação do traumático, do transgeracional, do horror e da violência, permitindo a contenção e elaboração, através da narratividade e da cultura.
Precisamos construir novos recursos que permitam articular essa violência inerente, intrasubjetiva, com a que permeia os espaços públicos e privados. Começando pelos vínculos cotidianos, ampliando para a intolerância entre os indivíduos, raças, credos e nações, diferentes. Enquanto psicanalistas, nos engajarmos na busca contínua de novas pontes simbólicas capazes de abarcar as variadas modalidades do traumático e seu impacto na sociedade. Para não cessarmos de tentar entender.
ABSTRACT
The aim of this paper is to consider the phenomenon of the individual body of the suicide bomber (“body-bomb”) in relation to the group body of the terrorist organization. It will reflect on how their interaction can create a global seismic wave disseminating an “unnamed terror” from the individual to the collective and vice versa. The “tectonic failure” characterized by fractured helplessness and its traumatic derivatives, is a field in which psychoanalysis offers a privileged body of knowledge. This enables a working through of concepts related to these phenomena, including Bion's “nameless terror” (1967) and Arendt's “radical evil” (1949) and “banality of evil” (1963). Psychoanalysis thus operates as a bridge, articulating the psychic processes shared by the individual and the collective.
KEY-WORDS: terrorism, suicide-bomber (“body-bomb”), trauma, dehumanisation, psychoanalysis