Este artigo pretende analisar a controvérsia recorrente em torno da relação entre a psicanálise e a psicoterapia psicanalítica. No seio da comunidade psicanalítica predominam três visões sobre este tema (Widlöcher, 2008, 2010). A perspectiva pluralista considera que a psicanálise difere da psicoterapia psicanalítica no que concerne ao método, aos objectivos terapêuticos e às características estruturais de ambos os tratamentos. A abordagem unitária defende não existirem diferenças assinaláveis entre ambos os dispositivos terapêuticos, sendo a psicoterapia psicanalítica uma variante do mesmo método. Mais recentemente, Widlöcher (2008, 2010) introduz uma nova abordagem, que designa de perspectiva dialética, e distingue dois tipos de escuta: a escuta psicoterapêutica, que visa a reconstrução da história pessoal do paciente e tem como objectivo terapêutico diminuir e atenuar o sofrimento psíquico; e a escuta psicanalítica, que é sobretudo associativa e interpretativa e tem como objectivo o conhecimento do inconsciente. No presente artigo defende-se que psicanálise e psicoterapia psicanalítica constituem dispositivos terapêuticos distintos que determinam o acesso a diferentes aspectos da mente e a constituição de diferentes objectos terapêuticos.
O debate em torno da relação entre a psicanálise e a psicoterapia psicanalítica reemerge, de tempos a tempos, com novos contornos, novas dimensões, e relançando novos desafios no seio da comunidade psicanalítica. Os diversos livros e artigos publicados ao longo das últimas décadas traduzem a actualidade deste tema, mas também denunciam uma certa insatisfação e as dificuldades em estabelecer, de forma clara, as fronteiras entre psicanálise e a psicoterapia psicanalítica. O que está na base deste descontentamento? O que anima esta controvérsia?
Há muito que esta discussão ultrapassou o mero interesse científico e técnico. De facto, existem motivações institucionais e políticas importantes (e.g., as relações entre as instituições psicanalíticas e as associações de psicoterapia psicanalítica), questões educativas associadas à formação de analistas e de psicoterapeutas, nomeadamente, sobre se os institutos de psicanálise poderão ou não formar profissionais de psicoterapia, as relações complexas com um terceiro institucional, designadamente os órgãos de gestão política, os sistemas de saúde e seguros de saúde que reembolsam tratamentos, as questões económicas e de concorrência associadas às disputas de mercado de pacientes e de candidatos, etc. Estas questões vieram relançar o debate no seio da comunidade psicanalítica internacional, na procura de clarificar os critérios que permitam diferenciar a psicanálise da psicoterapia psicanalítica praticada por um analista, definir os aspectos em comum e as diferenças entre ambas, clarificar se a psicoterapia constitui uma variante da técnica psicanalítica e avaliar os seus campos de aplicação, as indicações e os seus limites (Bokanowski, 2005).
Subjacente a esta controvérsia existe uma preocupação com a especificidade da psicanálise, a sua identidade e fronteiras, os seus limites e domínios de aplicação. A dificuldade em identificar um terreno comum às várias teorias psicanalíticas torna particularmente complexa a abordagem ao tema como, aliás, reconhece Wallerstein (1988). Esta sempre foi uma tarefa difícil para o movimento
Artigo recebido em 3 de Janeiro de 2017 e aceite para publicação em 16 de Setembro de 2017.
Comunicação apresentada nas VI Jornadas Internas do Instituto de Psicanálise: Psicoterapia Psicanalítica. Lisboa, 17 de Outubro de 2015.
Psicanalista. Membro associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). PhD em Psicologia, Universidade de Kent, Inglaterra. e-mail:
psicanalítico. De facto, não é possível falar de uma psicanálise com uma metapsicologia assente em conceitos claros e partilhados. Pelo contrário, coexistem várias escolas com diferenças assinaláveis nos objectivos, nos métodos e na epistemologia, aspectos estes que caracterizam os pilares do pensamento analítico e da sua prática (Blass, 2010). Como sugere Hinshelwood (2001), o debate é por vezes tomado pela visão ingénua, idealizada e simplista de que é possível identificar um indicador único que permita diferenciar claramente a psicanálise da psicoterapia psicanalítica. Recorrendo à metáfora do ouro e do cobre, utilizada por Freud (1919), talvez se possa afirmar que o ouro puro não existe.
Trata-se, assim, de uma questão complexa em torno da qual predominam duas visões polarizadas. A abordagem unitária, sobretudo associada a uma parte da escola francesa, defende não existirem diferenças assinaláveis na técnica e na teoria entre a psicanálise e a psicoterapia de inspiração analítica. A perspectiva pluralista, inscrita numa certa tradição anglo-saxónica, procura especificar a distinção entre psicanálise e psicoterapia em termos de método, objectivos terapêuticos e características estruturais de ambos os tratamentos. Mais recentemente Widlöcher (2008, 2010), introduz uma terceira perspectiva que designa de visão dialética e que distingue duas formas de escuta: a escuta psicanalítica e a escuta psicoterapêutica. Descreve a interligação da actividade associativa da dupla analítica para caracterizar o que o autor designa de co-pensamento. Na minha perspectiva, considero que, apesar de partilharem um corpo teórico, psicoterapia psicanalítica e psicanálise constituem dispositivos terapêuticos distintos, na medida em que introduzem diferentes vértices de observação que determinam o acesso a diferentes fenómenos psíquicos e a diferentes aspectos da mente, resultando assim na constituição de diferentes objectos terapêuticos.
Desde o início do movimento psicanalítico, é possível identificar uma tensão entre um movimento que defende o reforço identitário da disciplina através da afirmação da sua especificidade por diferenciação relativamente a outras técnicas terapêuticas, e um movimento que tende a promover a expansão e a aplicação terapêutica da psicanálise. Em 1914, Freud aborda o tema num período em que se encontra tomado pela inquietação em diferenciar a psicanálise de outras terapias da época, sobretudo da hipnose e da sugestão, na sequência do confronto com os dissidentes do movimento analítico (e.g., Adler e Jung) relativamente ao uso do termo psicanálise. Neste período conclui que o que define o método analítico é a procura do entendimento da transferência e da resistência. O autor afirma: “Any line of investigation which recognizes these two facts and takes them as the starting-point of its work has a right to call itself psycho-analysis, even though it arrives at results other than my own.” (Freud, 1914: 16).
Em 1918, no Congresso de Budapeste, Freud (1919) volta a discutir esta questão num período em que sente que a batalha política com a psiquiatria pela afirmação da especificidade da psicanálise face às técnicas sugestivas está ultrapassada. Está sobretudo preocupado com a expansão da psicanálise (para que esta possa chegar às classes sociais mais desfavorecidas), e introduz o que actualmente podemos considerar a primeira definição de psicoterapia psicanalítica. A fim de permitir uma aplicação mais alargada, sugere:
(…) it is probable, too, that the large-scale application of our therapy will compel us to alloy the pure gold of analysis freely with the copper of direct suggestion. (Freud, 1919: 167-8)
Na discussão introduzida por Freud sobre o tema, destacam-se dois aspectos. Por um lado, latente à afirmação de 1914, emerge a preocupação com as questões da especificidade da psicanálise e o que a diferencia de outras técnicas terapêuticas, promovendo o fechamento e o reforço identitário da disciplina, o que tende a acentuar as diferenças relativamente a outras técnicas terapêuticas. Em 1918, Freud (1919) já pode ser complacente com a mistura do ouro puro da psicanálise com a liga de cobre da sugestão. Acentua-se a preocupação com a expansão da psicanálise, possibilitando o alargamento das fronteiras e uma maior acessibilidade ao tratamento analítico. Ao contrário do movimento de reforço identitário, o movimento de expansão tende a diluir as diferenças, promovendo os avanços da psicanálise enquanto método de pesquisa dos processos mentais e suas aplicações terapêuticas. Ambas as tendências (de fechamento identitário e de expansão, diluindo as diferenças), refletem uma tensão dialéctica que permanece subjacente às abordagens contemporâneas deste tema.
Cerca de cem anos depois podemos interrogar-nos se as afirmações de Freud se mantêm actuais. O que mudou desde esse período? Em resultado dos desenvolvimentos dos autores pós-freudianos (e.g., Klein, Rosenfeld, Segal, Meltzer, Bion, Winnicott), a psicanálise deixou de se confinar ao modelo da cura clássica do paciente neurótico e vê as suas indicações alargadas a outras patologias. O método original foi expandido, surgindo importantes modificações na técnica analítica. Também no plano conceptual, registaram-se evoluções significativas e os conceitos sofreram importantes modificações nomeadamente no que
diz respeito à transferência. Por outro lado, na prática analítica, progressivamente foi reconhecida a utilização, em maior ou menor grau, de outros elementos técnicos que não a interpretação transferencial (muitas vezes entendida como a pedra angular da psicanálise), e da progressiva infiltração de técnicas psicoterapêuticas. As próprias psicoterapias modificaram-se e recorrem menos a técnicas sugestivas. Este conjunto de factores tem contribuído para que as diferenças entre a psicanálise e a psicoterapia psicanalítica se fossem diluindo. Trata-se, portanto, de uma questão complexa actual e nunca claramente esclarecida.
A psicoterapia psicanalítica surge inicialmente como uma ramificação da psicanálise, utilizada sobretudo com pacientes que não tinham indicação para análise. A partir do final da II Guerra Mundial, apesar da discussão ser sobretudo centrada no argumento das contra-indicações, as pressões psicoterapêuticas para introduzir modificações técnicas estão presentes desde as primeiras rupturas no movimento analítico com Jung, Stekel, Adler, entre outros. Mais tarde, com Ferenczi e Rank, surgem divergências sobre como a psicanálise deve ser aplicada. Estes autores propõem modificações do setting para adequar a técnica a certo tipo de pacientes (e.g., os casos limites), como forma de evitar regressões profundas ou análises intermináveis. Estas “pressões psicoterapêuticas” ocorrem no sentido de introduzir modificações na técnica, sobretudo ao nível do setting e promovendo um papel mais activo do analista (Frisch, 2001).
Como é que o debate em torno desta controvérsia tem sido organizado? Uma primeira abordagem designada por Widlöcher (2008), de perspectiva pluralista, associada aos psicanalistas americanos e ao desenvolvimento da psicanálise nos E. U. A., vem afirmar que a psicoterapia psicanalítica difere da psicanálise mas não se opõe a ela, dado que é encarada como um desenvolvimento técnico aplicado a certas patologias. Pelo contrário, a perspectiva unitária defende não existirem diferenças substantivas entre a psicanálise e a psicoterapia psicanalítica, pois esta constitui uma variante da cura clássica resultante da necessidade de ajustar a técnica às necessidades do paciente.
A abordagem pluralista centra-se principalmente no argumento das indicações e contra-indicações do tratamento analítico. Esta perspectiva parte da seguinte interrogação: “Será que a abordagem generalizada da psicanálise é adequada?”. O desenvolvimento da psicanálise nos E. U. A., sobretudo assente no paradigma da psicologia do ego, foi particularmente influenciado pelas necessidades da psiquiatria e dos doentes psiquiátricos no pós II Guerra Mundial. Este contexto criou uma pressão crescente nos profissionais para misturar métodos sugestivos com a psicanálise sem atender à “pureza do método”, o que resultou numa resposta pragmática à questão através do desenvolvimento de uma abordagem por “ingredientes”, em função da patologia, reeditando o repto lançado por Freud em 1918 de aliar o puro ouro da análise ao cobre da sugestão. Procurava-se um “desenho de terapia” para cada condição patológica, o que implicitamente revela uma submissão à lógica do paradigma do ideal de protocolo de tratamento médico, que desembocou numa grande variabilidade de terapias. Assim, num plano manifesto, assiste-se a uma expansão das fronteiras analíticas, mas uma análise mais aprofundada sugere uma certa diluição identitária.
É na sequência deste “melting-pot” (Hinshelwood, 2001) que emerge uma contra atitude reactiva de busca frenética para determinar a essência da pureza do método que está na base do movimento de procura de indicadores discriminativos que diferenciem de forma clara e inequívoca a psicanálise da psicoterapia psicanalítica. A urgência de constituir um indicador único e específico tem ainda outras motivações, designadamente as associadas à questão do estatuto mais elevado que é dado ao termo psicanálise, em comparação com o de psicoterapia psicanalítica - muitas vezes entendida como uma versão light da cura analítica. A título de exemplo, na análise das diferenças entre psicanálise e psicoterapia, são frequentemente referidos os aspectos formais – número de sessões por semana e o uso do divã - e o facto do método analítico priorizar a interpretação transferencial. Em oposição, a psicoterapia psicanalítica mistura a interpretação transferencial com outras intervenções. Esta visão assenta no argumento da profundidade, i.e., um maior número de sessões corresponderia a uma maior intensidade na relação transferencial, o que permitiria aceder a níveis mais profundos dos mecanismos de defesa primitivos e fantasias inconscientes, atingindo aspectos mais primitivos da mente. A prática clínica revela-nos que há inúmeras excepções, porque muitas psicoterapias psicanalíticas são bem sucedidas no trabalho com defesas primitivas. Mesmo na psicanálise com alta frequência, há uma grande variabilidade dependendo do paciente, do analista e do par analítico. Além disso, estas características do setting podem ser usadas defensivamente como forma de não entrar em contacto autêntico com a realidade psíquica. Aparentemente, os argumentos do ritmo e da profundidade parecem não resolver o problema da diferenciação. Os aspectos formais do setting não são condição suficiente para garantir que o processo psicanalítico se instale, o que levou muitos autores e clínicos a negligenciar ou diminuírem a sua importância (Pérez-Sánches, 2012).
A perspectiva unitária considera não haver diferenças significativas entre a psicanálise e a psicoterapia psicanalítica. De acordo com Aisenstein “… there is no such thing as psychoanalytic psychotherapy.” (2001: 19). Os partidários desta perspectiva vêm afirmar que tudo é psicanálise porque ambas as técnicas utilizam os conceitos psicanalíticos, podendo variar na sua aplicação. Esta abordagem vai mais longe, afirmando que só o treino completo como analista proporciona as ferramentas de base adequadas para fazer psicoterapia psicanalítica. Ambas têm uma metapsicologia comum pelo que, no limite, não haveria psicoterapia psicanalítica. Esta última é vista como uma variante do mesmo método e a sua aplicação resulta da necessidade do analista ajustar o método às necessidades do paciente. Tal como afirma Aisenstein (2001),
Extending psychoanalysis to non-neurotic patients – boderline, psychotic, and psychosomatic cases – has quite rightly had an impact on certain technical parameters such as the rhythm of sessions and the fact that patients tends to sit facing the psychoanalyst. These are simply parameters or ways of reorganizing the setting in accordance with the psychic structure and the psychopathology of the patients involved (p. 25).
Será que a abordagem unitária representa um retorno à tese de Freud (1914), que referia que bastava que a transferência e resistência fossem reconhecidas para se poderem designar de psicanálise? Pode haver diferentes práticas que resultam do tratamento de diferentes pacientes ou diferentes settings, mas são práticas que partem de um terreno comum. Subjacente a esta posição está a necessidade de afirmar que, mesmo com settings alterados, só a formação analítica garante que o modelo psicanalítico foi suficientemente internalizado para o poder aplicar na diferença. Este ponto de vista defende que cada terapeuta deve ser analista, porque nem sempre a recomendação de uma psicoterapia ou uma análise é uma questão claramente definida à priori.
O argumento de base é de que há algo de essencial no trabalho analítico e, mais especificamente, na escuta analítica que não depende do contexto (sobretudo do contexto de observação). O analista não deixa de ser analista em diferentes contextos – acresce ainda –, pois tudo o que faz é análise.
Esta visão parece ser herdeira da posição lacaniana que defende que qualquer coisa que o analista faça é psicanálise, na medida em que a sua compreensão é baseada num campo teórico que gera e cria uma forma particular de escuta. A psicoterapia seria, pois, uma forma particular de reorganização do setting, de acordo com a patologia do paciente. Na realidade, não é o setting formal que garante que o processo analítico se instale, pois podem existir pacientes a fazer psicoterapia deitados no divã cinco vezes por semana e psicanálises face-a-face. Com o mesmo paciente, dependendo das circunstâncias, podemos estar mais inclinados para interpretar a transferência ou fazer um comentário relacionado com o ego do paciente.
Como lembra Hinshelwood (2001), a argumentação da perspectiva unitária assenta no pressuposto de base de que há uma metapsicologia psicanalítica comum, como se houvesse uma identidade comum a todos os clínicos de orientação psicanalítica. Não só não há um modelo claro sobre o que é a psicanálise, como não há acordo sobre que tipo de psicoterapia psicanalítica pode ser incluído no conceito de psicanálise. Em segundo lugar, ignora a realidade crescente de um número substancial de profissionais que se organizaram e são formados por instituições e associações profissionais reconhecidas institucionalmente (e.g., Federação Europeia de Psicoterapia Psicanalítica), o que nos confronta com a inevitabilidade de encontrar formas de lidar com este problema. A perspectiva unitária defende também uma visão idealizada de que cada terapeuta deve ser um analista, contrariando assim uma base histórica que ocorreu sobretudo no pós II Guerra Mundial, com a expansão da psicanálise nos E. U. A. e em todo o mundo. Finalmente, a base do argumento de que há qualquer coisa de essencial e específico ao trabalho analítico, que não é dependente do contexto, acarreta em si um perigo de definir esta dimensão essencial do que é a psicanálise de forma demasiado abrangente.
Widlöcher (2008, 2010), mais recentemente, tem vindo a propor uma terceira perspectiva sobre o tema, que designa de visão dialética. O autor argumenta que nenhum dos parâmetros formais do setting (número de sessões, duração do tratamento, pagamento, uso do divã ou face-a-face, etc.) tem valor decisivo no estabelecimento das diferenças entre as duas técnicas terapêuticas. Os binómios associação livre/atenção flutuante e a dinâmica da transferência-contratransferência, são considerados os elementos diferenciadores da psicanálise. Distingue dois tipos de escuta presentes no processo psicanalítico: (i) o método de escuta analítica que é fundamentalmente desconstrutivo, procura o conhecimento e acesso ao inconsciente. Não tem valor terapêutico em si mesmo e visa sobretudo o conhecimento do inconsciente; (ii) a escuta psicoterapêutica, que é sobretudo reconstrutiva da história pessoal do paciente, dos conflitos e memórias traumáticas, e procura tratar as defesas intimamente ligadas às fantasias inconscientes e ajudar o paciente a lidar com o
sofrimento psíquico. A psicoterapia psicanalítica teria lugar quando a escuta analítica é aplicada com o objectivo terapêutico de libertar o paciente dos constrangimentos da sua estrutura defensiva e conflitual, aliviar e diminuir o seu sofrimento. O objectivo psicanalítico seria a descoberta da dinâmica do inconsciente, pelo que não haveria à priori objectivo terapêutico. Este processo de escuta provocaria a indução de um tipo de pensamento em que a cadeia associativa consciente e inconsciente do analisando influenciaria a cadeia associativa do interlocutor (analista). Desta forma, produzia-se o que o autor designa de co-pensamento, entendido como o processo de desenvolvimento mútuo da actividade associativa resultante da interligação entre os processos transferenciais e contratransferenciais. O co-pensamento é formado na interacção entre estes dois fluxos de actividade psíquica e dá aso a uma associação partilhada criativa que tem como objectivo trazer à superfície a realidade psíquica inconsciente existente na relação do par analítico.
Widlöcher (2008, 2010) parece assim retomar o argumento da diferença assente nos objectivos terapêuticos como critério para diferenciar ambas as modalidades terapêuticas. Suman e Brignome (2001) vêm relembrar as dificuldades inerentes ao uso dos objectivos terapêuticos como critério diferenciador, afirmando:
The temptation is to accept a simplifying criterion whereby the emphasis in psychoanalysis in on knowing and understanding whereas in psychotherapy it is on the cure, but to do so is to forget that many of those embarking on (and paying for) psychoanalytic treatment are suffering individuals who are looking for a cure. (p. 96-97).
Na prática clínica estas diferenças não são assim tão claras. O que caracteriza o processo psicanalítico é um tipo de cura? É a técnica de escuta puramente associativa e interpretativa? Será possível sustentar, do ponto de vista técnico e epistémico, que não existem diferenças entre a psicanálise e a psicoterapia psicanalítica? Um dos equívocos do debate tem sido o de partir da premissa de que, apesar das regras do encontro serem modificadas e o quadro de observação ser diferente, se acede ao mesmo fenómeno psíquico. Provavelmente, são diferentes aspectos da mente que são transferidos e explorados num e noutro dispositivo. A questão não é saber se o processo é ou não idêntico, mas antes saber se se refere e aborda da mesma maneira os estados mentais inconscientes. Estamos a falar do mesmo objecto terapêutico, do mesmo processo psíquico, do mesmo “sujeito/paciente” e, no limite, da mesma dinâmica psíquica inconsciente no seio do par analítico?
A este propósito, Roussillon (2005) considera que nesta controvérsia o problema da diferenciação entre ambas as técnicas requer outro vértice de análise. O autor analisa a diferenciação entre ambos os dispositivos a partir da problemática da simbolização. Estabelecer um quadro terapêutico facilita a transformação na repetição, nomeadamente na transferência, através da actualização na narrativa do que está em sofrimento, aquém da apropriação subjectiva, abrindo assim condições para a sua metabolização. Quando rememoramos, re-jogamos o que não pôde ter lugar, o que não pôde ser inscrito subjectivamente. Este apelo à tarefa de simbolização suscitado pelo processo terapêutico é descrito da seguinte forma:
Car quand on souffre de réminiscence on ne souffre pas de ce qui a pu avoir lieu en un autre temps et avec d'autres, on souffre plutôt de ce qui n'a pas pu avoir lieu en ce temps-là, de ce qui a des potentialités contenues dans l'événement ou l'accident de vie n'a jamais pu s'accomplir et s'intégrer dans la subjectivité. Et quand le travail de remémoration s'effectue il permet d'avoir lieu, d'actualiser dans le récit ce qui était en souffrance d'appropriation subjective, quand on remémore on reconstruit et déploie ce qui n'a pas pu avoir lieu, on rejoue mimétiquement l'absent de soi. (Roussillon, 2005, p. 150).
Psicoterapia psicanalítica e psicanálise são dispositivos concebidos para revelar a transferência, para a tornar utilizável pela simbolização e consequente apropriação subjectiva. O que é específico à psicoterapia psicanalítica é a aptidão do dispositivo para provocar a condensação e utilização da transferência através da simbolização, i.e., a transformação do passado reminiscente, o seu desdobramento e a sua representação. A psicanálise introduz um tipo particular de play (Winnicott, 1971), que possibilita utilizar a transferência para analisar a sua função na simbolização. Retirar o analista do contacto visual do paciente e a análise da transferência eleva-a assim a um nível de meta-simbolização. O que é específico ao quadro analítico é a adopção da análise da transferência enquanto vértice primordial de observação o que permite,
… montrer, premièrement, comment le transfer est trace d'histoire réminiscente, comment ensuite il opère au sein de la gestion des mouvement pulsionnels actuels, adolescent et infantiles, comment cette gestion organise les relations pulsion/objet en fonctions des caractéristiques de la pulsion et celles de l'objet, comment enfin il prend place dans le
Page 65rapport auto-représentatif du sujet à lui-même, comment donc il lui permet de se sentir, se voir ou s'entendre, sentir, voir de lui ce qui, à avoir été mal ou pas reflété par ses objets ou les conditions de son propre narcissisme, est reste en “souffrance” dans son rapport à lui même. (Roussillon, 2005, p.158-9)
O setting formal, o dispositivo analítico que prioriza a indução e análise da transferência, cria condições para estabelecer um campo de observação primordial de acesso ao mundo interno do paciente através da experiência transferencial, que usa o método psicanalítico de observação. O binómio atenção flutuante/associação livre e a interligação entre movimentos transferenciais e contratransferenciais permitem à dupla analítica a construção intersubjectiva de significados, de revelar e resignificar, de reactualizar ou re-jogar a reminiscência. A repetição, com uma pessoa diferente, em circunstâncias diferentes, permite actualizar o potencial que ficou por realizar no passado e a inscrição simbólica do que ficou fora da inscrição subjectiva (Roussillon, 2005). Os aspectos formais do setting não são, em si, condição suficiente, mas antes condição necessária, pois estabelecem um quadro de observação que, a par do uso do método analítico de investigação dos processos psíquicos, organiza a emergência e o acesso aos processos inconscientes.
No plano epistémico, o quadro clínico constitui-se como o contexto de descoberta da nossa disciplina, que possibilita clarificar a forma como a psicanálise define e constitui o seu objecto de estudo. “É a disposição de um determinado olhar sobre eles (fenómenos) que assim os constitui, numa articulação estreita e bidirecional entre constituição de um objecto a conhecer e um método que a ele se adeque” (Rosado et al., 2015: 29). A alteração do quadro observação tem assim implicações, pois determina o acesso e constituição de diferentes objectos terapêuticos, razão pela qual não é possível retirar esta dimensão do debate. Tal como lembra Latour (1999), não existe possibilidade de conhecer o objecto ou fenómeno à margem das condições que estabelecemos para o nosso encontro com ele.
Que campo é este de observação e investigação dos estados mentais proporcionado pelo quadro analítico? Utilizando a analogia com o processo de ampliação/revelação da fotografia a preto e branco, o dispositivo analítico tem uma função análoga à câmara escura que permite que o processo se possa instalar/realizar. Numa primeira etapa, o processo de ampliação possibilita, através da incidência do foco de luz, que o negativo passe a positivo, deixando uma impressão no papel fotográfico (fotossensível mas ainda sem imagens visíveis). A mente do analista que recebe a comunicação do paciente aproxima-se a esta imagem impressa, mas ainda não visível do papel fotossensível. A capacidade negativa do analista permite-lhe manter um estado mental de expectativa até que a experiência da comunicação do paciente deixe uma impressão, provoque um impacto no seu próprio inconsciente. Entra-se numa segunda etapa – o mergulho no líquido de revelação - a partir da qual surgem progressivamente as formas da imagem. Este é o momento mítico, de maravilhamento, de surpresa, tantas vezes ilustrado em filmes, como por exemplo no “Blow up – História de um fotógrafo”, de Antonioni4. Agora, a partir do vértice de observador, o analista recorre à sua contratransferência como “revelador” da singularidade da experiência clínica partilhada com o paciente e procede à elaboração deste impacto emocional nele próprio, de revelar e ressignificar. Este processo é muitas vezes acompanhado pela surpresa, o estranho da descoberta do que não era previamente sabido, da transformação da sensação em símbolo (pensamento – palavras, imagens). O processo de transformação/revelação que ocorre na mente do analista, associado à emergência do facto selecionado (Bion, 1962) aproxima-se igualmente das etapas seguintes do processo de ampliação fotográfica - a paragem e fixação da imagem. À submersão no líquido de revelação segue-se o líquido de paragem (sem o qual as imagens desapareceriam ao dissolverem-se no papel, transformando-as numa mancha negra) e, seguidamente, a fixação da imagem. A emergência do facto selecionado fixa um vértice de olhar (entre os vários “olhares” possíveis) sobre o material clínico. Permite também captar a coerência a partir dos elementos dispersos e da multiplicidade de aspectos presentes no material trazido pelo paciente. Serve igualmente como ponto de partida da interpretação do analista que se apercebe da multiplicidade polissêmica do material. O facto selecionado é o elemento que permite a passagem do caos, da dispersão do material associativo, para a descoberta da coerência na dispersão transformando a experiência persecutória em experiência integrada, representável em “imagem” de contornos mais definidos.
O debate em torno da relação entre psicanálise e psicoterapia psicanalítica é particularmente relevante porque nos obriga a reflectir sobre a nossa identidade, sobre a natureza da nossa actividade, sobre o que nos é específico, mas também sobre o que aproxima a psicanálise de outros dispositivos terapêuticos. A extensão das indicações da psicanálise trouxe importantes transformações técnicas que nos levam à seguinte questão: Porque é que retornamos ao face-a-face com alguns pacientes? Porque para alguns pacientes o ausente
“Blow up – História de um fotógrafo” é um filme de 1966 realizado por Michelangelo Antonioni. Conta a história de um fotógrafo (Thomas) que, ao passar por um parque da cidade, fotografa um casal. Ao fazer sucessivas ampliações (blow ups) do negativo e, apesar do grão da imagem, Thomas descobre inesperadamente nas fotografias um corpo e uma mão entre os arbustos do parque a apontar uma arma. O trabalho de Thomas em estúdio aproxima-se do acto analítico, ambos se interessam por um saber desconhecido e em ambas as situações há uma falta que impulsiona a condição de investigação conduzindo à busca de interpretações supostamente presentes nos elementos ausentes.
é intolerável, não toleram não ver o analista por falhas narcísicas graves, como exemplificado por Green (2005) na sua descrição da síndrome de desertificação psíquica. Estes pacientes têm que ver o analista para sentirem que são vistos, para sentirem uma presença no interior do outro. As questões técnicas associadas ao seguimento terapêutico destes pacientes relançam novamente o debate sobre a questão da analisabilidade no seio da comunidade psicanalítica.
Identificar as diferenças entre ambos os dispositivos implica igualmente reconhecer que se constituem como quadros de observação distintos que determinam o acesso e transformação de diferentes aspectos da mente. Como afirma Hinshelwood (2001), a psicanálise contemporânea necessita de manter as fronteiras que a diferenciam de outras técnicas terapêuticas porque, tal como Freud (1914) teve necessidade de diferenciar a psicanálise da sugestão e da hipnose, a psicanálise necessita de fechar a porta à psicoterapia para separar as águas do mercado de pacientes e para que os candidatos certos possam procurar os institutos de formação psicanalítica.
ABSTRACT
This paper addresses the recurrent topic of the controversy of the relationship between psychoanalysis and psychotherapy. Three main contemporary views on this topic are analysed. The pluralistic approach argues that psychoanalysis and psychoanalytic psychotherapy differs since the latter is regarded as a technical development of the former applied to certain pathologies. For the unitary point of view there is no such thing as psychoanalytic therapy since it is a variation of the same method. Recently, Widlöcher (2008, 2010) introduces a third approach – the dialectic view – which distinguishes two types of listening: a psychoanalytic listening method which is manly interpretative, associative and aims at the knowledge of the unconscious and a psychotherapeutic method of listening which intends the reconstruction of the patient's personal history and to release him from the restrains of psychic suffering. I will argue that psychoanalysis and psychoanalytic psychotherapy have different frameworks determining the access to different aspects of the mind which leads to the constitution of distinctive therapeutic objects.
KEYWORDS: Psychoanalysis. Psychoanalytic psychotherapy, framework of psychoanalytic therapy.