A autora faz uma análise psicanalítica sucinta da vida e obra da pintora Paula Rego, baseando-se em conceitos do psicanalista britânico D. Meltzer (impacto estético/conflito estético), e em comentários a respostas que a pintora dá à jornalista Anabela Mota Ribeiro, ao longo de cinco entrevistas (entre 2003 a 2011, publicadas em 2016). Considera que a obra de Paula Rego, nestes últimos anos, é uma co-produção luso-britânica pelo humor negro que veicula (muito britânico) e pela performance do modelo vivo, Lila Nunes (muito portuguesa) que a pintora enaltece.
A obra artística da pintora Paula Rego tem sido exaustivamente estudada, e a reprodução dos seus quadros (óleo e pastel), desenhos, gravuras, litografias e agua-forte, é vasta e pode ser apreciada tanto em livros, como na internet.
Grandes exposições retrospetivas foram vistas na Fundação C. Gulbenkian em Lisboa (1987), na Fundação Serralves no Porto (2003-2004), no Museu Rainha Sofia, em Madrid (2007), na cidade do México (2010-11), na Bienal de São Paulo (2011), em Londres, em Nova Iorque, etc. Galerias de renome internacional (Tate, National Gallery, Serpentine, Marlborough, etc.) acolhem-na sem hesitação. Acrescem ainda entrevistas à pintora, como as de Fiona Bradley (2002) e A. Mota Ribeiro (2016), que pude consultar, para além dos interessantes textos de João Fernandes, Marco Levingston e de B.Pinto de Almeida. Pudemos ainda ouvir algumas intervenções televisivas, pois vai longa e ativa a vida da pintora portuguesa.
Em 2009 culminou na criação de um Museu, “A Casa das Histórias” em Cascais, num edifício com original volumetria arquitetónica de Souto Moura.
Que poderei eu trazer de novo? O psicanalista gosta de espreitar e chamar a atenção para o que não é imediatamente visível. Mas Paula Rego é quase transparente, mostra “a coisa em si”, cruamente incomoda-nos, espanta-nos ou faz-nos rir. Rego explora, com o seu notável domínio do desenho e da técnica como pintora, uma narratividade perversa no feminino e um humor negro, pouco frequente e muito arrojado na mulher. Mesmo arriscando não trazer novidades, pareceu-me interessante abordá-los na perspetiva psicanalítica.
Paula Rego recorda com afeto a sua infância em Portugal (Ericeira e Estoril, a partir de 1935), mas é muito inglesa no seu humor negro e independência. Viveu por muito tempo em Londres, fez toda a sua formação artística no Reino Unido, e herdou um olhar anglófilo que o seu pai lhe incutiu desde muito cedo. Ele mesmo fez a sua formação como engenheiro em Inglaterra e desejava libertar a filha da situação humilhante que as mulheres portuguesas viviam no regime repressivo, patriarcal e provinciano de Salazar.
Era filha única e os pais, reconhecendo a precocidade e talento da menina para o desenho, mandaram-na estudar para “Slade School of Fine Arts”, em Londres, quando contava apenas 16 anos. Aos 20 anos, engravidou de um colega mais velho por quem se apaixonou. Como a escola era bastante livre e tolerante pôde, contudo, continuar os seus estudos. Os seus pais foram compreensivos e apoiaram-na, facilitando o seu casamento, do qual teve mais dois filhos. A artista recorda o marido (Victor Willing), também pintor, com muito afeto, e não se inibe de dizer que foi fundamental nos seus
Artigo recebido em 11/04/2017 e aceite para publicação em 17/09/2017.
Psiquiatra. Psicanalista. Membro Titular com funções didáticas da Sociedade Portuguesa de Psicanalise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). e-mail:
progressos e êxito como pintora. Dava-lhe muitas ideias e incitamentos. Foi em 1988 que veio a falecer, depois de diagnosticada esclerose múltipla, doença que o deixou acamado nos últimos anos de vida. Nessa altura, a pintora tinha 53 anos. Para ajudar a cuidar do marido, trouxe para casa uma enfermeira portuguesa – Lila Nunes -, que acabará por ser o seu principal modelo vivo no atelier em Londres. É também Lila que a irá ajudar a fazer uma grande metamorfose na sua expressão pictórica.O seu maior êxito e reconhecimento internacional acontece nestes últimos 30 anos.
O humorista Ricardo Araújo Pereira explica (2016) o humor como uma forma especial de olhar as coisas e de pensar sobre elas, uma forma não tradicional, imprevisível - algo de infantil e ingénuo - que surpreende o adulto, que o faz rir, porque rompe com o preconceito, ou seja, com o que culturalmente está estabelecido. A criança vê “a coisa em si”, não esconde, e causa espanto e riso nos que a observam, mas a criança não pretende ter graça. O humorista “faz-se sério”. Paula Rego faz-nos rir trabalhando “a sério”, embora tenha um riso fácil e muitas vezes ironize quando comenta; ela própria parece surpreendida com o resultado do quadro que pintou. Os breves diálogos televisivos com Paula Rego deixam-nos frustrados com o aspeto pueril das suas respostas, a pouca elaboração do discurso. Ela própria confessa, ao falar da sua obra, “eu não penso, eu faço! A minha obra não é uma carreira, é uma inspiração!”.
Mas, os seus quadros provocam impacto estético? Acho que sim, mesmo que esse seja sob a forma de espanto, porque surpreendem, podem levar ao riso, ou podem imediatamente, provocar repulsa.
Tal como o belo, o feio, o grotesco, o disforme, provocam uma resposta emocional, Paula Rego leva-nos a aderir, a impactar…, para depois e só depois, indagar.
Segundo D. Meltzer, psicanalista britânico, o impacto estético surge na relação mãe- bebé e equivale à realização alucinatória do desejo, ou seja, à projeção do mundo interno, da pulsão, no objeto que o cuida. Tal como o bebé, o espetador fica fascinado pelo objeto e a satisfação pulsional leva-o a vê-lo como belo e harmonioso. Existe uma perfeita sintonia entre mãe e bebé, tal como existe no fascínio que a obra de arte pode provocar no espetador. Mas o impacto estético arrasta-nos para o conflito estético (Meltzer), num tempo posterior; tempo de frustração que leva à dúvida, quando nos apercebemos que ele não é como o tínhamos idealizado, surge a desilusão. Começa a construir-se o objeto ambivalente, bom e mau, ou belo e feio, ou mesmo o “belo horrível”, grotesco, disforme, que também nos atrai e surpreende. Não apenas nos espanta, mas faz-nos descobrir “a realidade”, pois denuncia a hipocrisia em que vivíamos, isto é, desmascara-o.
Neste aspeto, Paula Rego é muito eficaz, porque através do impacto estético que os seus quadros provocam podemos sentir repulsa ou apercebermo-nos do quanto é horrível e feio o que representa (a violência, a agressão, a raiva, a vingança, a Guerra, o aborto, o domínio masculino, etc.). Podemos rir porque tem requintes de “humor negro”. É sarcástico, é paradoxal. As fotos dos jornais ou as imagens televisivas rápidas e longínquas, não conseguem obter esse impacto; passam depressa, esquecem deixam-nos indiferentes. Daí o êxito dos quadros de Paula Rego.
Vamos seguir de perto as entrevistas que Anabela Mota Ribeiro faz à pintora, em Lisboa ou em Londres, no seu atelier (entre 2003 e 2011). Pareceram-nos bem conduzidas, embora com o intuito mal disfarçado de alguém que quer encontrar uma revelação psicanalítica na vida e na obra da pintora, tão enigmática para qualquer um de nós. O meu intuito será o mesmo, sem que possa garantir que acerte!
Como sempre, Paula é muito afável e sincera; as respostas são prontas, num pensamento concreto, muitas vezes pueril, em que falta a elaboração psicológica por parte de quem diz ter feito uma longa psicoterapia. Há mesmo uma certa negação e resistência. Vejamos alguns exemplos.
Paula Rego: “(…) Mundo interior? Não, não é nada! Aquelas histórias não são as minhas histórias, são as que me contam ou que eu leio e escolho! Sim, depois posso transformá-las e até tenho uma certa curiosidade e surpresa com o quadro que pinto [dá uma gargalhada], às vezes dá-me vontade de rir, outras vezes quase fico envergonhada. Mas não têm nada a ver comigo, nada de auto-expressão. Um quadro é uma coisa que existe completamente separada de nós”.
Jornalista: “Dizem que a Lila, o seu modelo, não existe, que é a Paula!” Paula Rego: “Não existe? Que ideia! Pode conhecê-la. Vem cá ao Sábado, ajuda-me muito, compreende muito bem o que lhe peço, dá-me ideias para a encenação dos bonecos. Eu só tenho de a pintar. Ela é fantástica!”.
Paula Rego: “Máscaras, para esconder? Isso é muito forte! Mas os bonecos estão lá, pode vê-los! Como diz que é uma forma de fugir de mim? (…) Uso os animais e os bonecos porque são mais expressivos e chamam mais a atenção! (…) Sempre gostei de desenhar animais, desde criança. Com animais3 tem mais piada (…) Para espantar o medo? Sim, talvez me ajude a libertar-me, porque dá prazer desenhar e pintar! Mas continuo insegura e com medo”.
Veja-se, a título de exemplo, a obra “O macaco vermelho a bater na mulher”, “A coelha a dizer aos pais que está grávida” e “War”.
Aí está a criatividade da artista, encontrar uma representação que causa impacto estético, por ser inesperado, original, e à qual empresta forte carga emocional.
Mas de que tem medo Paula Rego? Do mundo atual, com a sua violência, das injustiças, das guerras? Do corpo do homem, ou da sua própria feminilidade, de um espaço interno tão repleto de fantasias sádicas, raivas e vinganças?
Daquilo que sabemos da sua história, não há referência a traumas evidentes, antes parece ter sido uma filha única mimada e estimulada pelos pais (muito especialmente pelo pai e mais tarde pelo marido). Há sim e desde muito cedo, uma compulsão para o desenho, o seu principal entretenimento, que fazia, em criança, deitada no chão enquanto cantarolava uma lenga lenga gutural, que a evadia do mundo e parecia dar-lhe prazer (algo de sexual, como refere). Os desenhos eram apreciados, mas poucas vezes elogiados. “Eu não desenhava para mostrar, mas porque me dava prazer! A mãe até dizia, a minha filha gosta muito de desenhar, mas depois parece que fica envergonhada com o que faz!”.
E assim continuou como artista embrenhada no trabalho, exigente com o desenho e a pintura, como que alheada do mundo que a cercava. Agarrada ao lápis ou ao pincel, ninguém a podia parar. A quem a via na escada do cavalete a pintar o quadro ou o mural, apetecia dizer, como na anedota: “agarra-te ao pincel que eu só vou tirar a escada!”. E é então que ela cai, no real, e pode dar uma gargalhada com o que acabou de pintar. Pode ficar tão surpreendida como nós. Aí está a criatividade de Paula Rego.
Mas seguindo as suas respostas, detetamos uma ansiedade, um vazio depressivo, um vazio cognitivo que torna imperioso preencher. Caso contrário, sentir-se-á triste e sozinha; precisa de procurar outra e outra história, uma narrativa, para desenhar ou pintar. E fez leituras várias de contos populares portugueses (Leite de Vasconcelos), ingleses, italianos, contos infantis, de Óperas, de Filmes (da Disney), Romances (O crime do padre Amaro), etc., que escolheu para pintar. As Colagens e os Bonecos são outra metamorfose da sua atividade frenética. Digamos que o tema, a narrativa, é apenas o ponto de partida para a transformação que ela imprime à figuração que resulta no quadro; puro ato criativo performativo. Tem razão quando afirma que não é uma ilustradora de Histórias. As narrativas assim transformadas são, de certo modo, projetivas. O que ela escolhe na narrativa, vai buscar ao seu mundo interior, ao subconsciente, ao seu imaginário, à sua infância, dando satisfação pulsional ao que ficou de pregenital na evolução da psicosexualidade, da sua feminilidade, e ajuda-nos a tentar compreender os aspetos plásticos da sua expressão artística tão rica e tão propícia a constantes metamorfoses.
Aí encontramos alguma ambivalência e perversidade, em que numa cruesa visceral, se degladiam sentimentos de raiva, violência, invejas, vingança e agressividade, em parte reprimidos, num espaço interno dilacerado-condoído, onde figuram objetos mortos, disformes, grotescos, criaturas aleijadas ou raquíticas, monstruosas, diabos e animais ferozes, etc.
Outras vezes, um espaço claustrofóbico, fragmentado, bidimensional, cheio de objetos: cocós, bebés, pénis, dedos de bonecos que ela cortava com tesouras em criança, membros decepados, pequenos animais domésticos abandonados, lagostas com tenazes ameaçadoras, etc. - formas com que talvez, na infância, fantasiasse o interior do corpo materno. Tudo isto alimentava o seu imaginário (1965).
A criação artística e a psicoterapia libertaram-na; ficou mais tranquila e menos triste, diz ela. Ri-se e tira prazer do que pinta, sem tanta vergonha nem culpa. “Que as sinta quem lê” (quem olha, neste caso), como dizia Fernando Pessoa.
Como sinalizei a perversidade feminina e o humor negro em Paula Rego, vou escolher alguns quadros onde é visível, na minha opinião e com todo o respeito e admiração pela artista, que a certa altura da entrevista, sinceramente se interroga: “mas é assim com toda a gente, não é? Nossa Senhora era uma mulher de carne e osso, não era?”. Pois é verdade, todos temos algo de oculto, de misterioso, de perverso, mas mais escondido (a parte psicótica da personalidade, como nos ensinou W.Bion). Paula Rego mostra-a, fascina-a, faz medo …mas serve para brincar! Há drama, há sofrimento, há um choro mal contido, nesse riso fácil!
Paula parece que revelou tendência depressiva desde criança. Valorizamos, por exemplo, o facto dos pais saírem para a Inglaterra quando ela tinha apenas ano e meio, e a deixaram entregue aos avós na Ericeira, de quem guardou boas recordações, mas quando os pais voltaram dessa ausência de um ano, não reconheceu a mãe. Quando o marido morreu teve uma grande depressão e atravessou um período de grande quebra na sua criatividade (esteve sem fazer nada durante 6 meses) e foi a partir daí que começou a utilizar modelos vivos; Lila passou a ter grande protagonismo na sua obra.
Quando Anabela M. Ribeiro lhe pergunta se pensou em suicídio, respondeu. “Não, só depressão, tristeza, não sou dada a matanças! Matanças só do porco!” (ri-se). Que interessa que utilize defesas maníacas para lidar com o seu fundo depressivo?! Outra resposta significativa que deu espontaneamente, a propósito de narrativas figuradas de domínio e desejos de castração, foi: “Castração? Não! Talvez antes separação!”.
Achámos interessante, pois sabemos que na mulher a angústia de castração, que também existe,
se exprime geralmente através do medo de ser abandonada, ou medo de perder o amor do objeto (mãe ou pai), ou seja, de um sentimento depressivo. Outra resposta que vai neste sentido, quando a jornalista pergunta: “Quando engravidou aos 20 anos, pensou no aborto?”, Paula afirma “Não, eu gostava muito do Vic!”.
Há nos seus quadros um nítido predomínio da figura feminina. Os homens são raros, efeminados, velhos, enquanto as mulheres, muitas vezes andróginas, feias, sérias, altivas, desconfiadas, grávidas, com vestidos chamativos de renda ou brocado, pernas grossas, sem a tradicional graciosidade feminina. Nas cenas familiares que pinta, as criadas estão por todo o lado, em serviços domésticos ou subservientes à patroa, e as crianças aproximam-se dos animais domésticos.
No quadro A Familia (1988), talvez um dos mais representativos da sua obra (Fig.1), o homem apertado numa cadeira é manietado por uma mulher (criada?) que lhe tapa a boca com o braço, enquanto a filha se atira sobre ele num ato que parece de assédio sexual. A menina, que ao fundo, à direita, projeta a sombra, parece o duplo da filha, que observa a cena, atenta. Numa gravura do oratório, S. Jorge mata o dragão, para chegar à princesa.
Em outros dois quadros que Paula Rego aprecia e que lhe levaram muito tempo a pintar, A Filha do Soldado e A Filha do Polícia (1987), retrata mulheres novas e vigorosas; a primeira depena um ganso branco que aperta entre as pernas; no segundo uma jovem vestida de branco engraxa com energia uma bota alta do pai enfiando o braço esquerdo até ao fundo do cano da bota (Fig. 2 e Fig. 3) Comentário da pintora: “o ganso branco transforma-se na rapariga vestida de branco, na filha do polícia!”.
E o meu comentário: o corpo fálico da rapariga ali representada parece traduzir a sua fixação pregenital à fase fálica, com forte componente agressivo-penetrante, ou seja, tendente a uma identificação com a figura masculina, condições para um Édipo invertido.
A Mulher-Cão (1994), outro quadro famoso de Paula Rego, retrata uma mulher com uma postura de cão raivoso a rosnar, é a expressão dessa agressividade. Sobre Aborto, uma série que pinta em 1998, em reação à hipocrisia do aborto clandestino em Portugal (que era criminalizado): uma série dramática da figuração de mulheres em posturas dolorosas e inestéticas, a provocar aborto, que contrastam nitidamente com os quadros de 1982-3 (Fig.4) em que uma coelhinha anuncia aos pais que está grávida; eles gesticulam e o pai pega numa faca no de 83, mas no de 82 apenas pega no cigarro. Aliás, o coelho é um animal da preferência de Paula Rego, por ser macio, sedutor e um objeto sexual muito fecundo. Como se quisesse dizer, num humor negro subtil, “a mulher não é nenhuma coelhinha!”.
Ter-se-ia obrigado a praticar o aborto, em jovem. Sofreu e pode sentir no corpo a ameaça e o conflito que tal decisão envolve, mas nunca deixou de se revoltar contra o fatalismo biológico e social da condição feminina. Defendeu ideais feministas.
A raiva dos animais domésticos muitas vezes escolhidos (cão, coelho) é a raiva que uma mulher domesticada pode sentir, mas deve esconder. Lila permitiu-lhe expressar mais ostensivamente esse sentimento de revolta, na altivez e fealdade das suas noivas (1994). Expressou a sua revolta contra a guerra do Iraque num célebre quadro (Fig.5), intitulado WAR (2004).
As cenas religiosas que interpreta merecem-lhe atenção e respeito, pois admira pintores que lhe consagraram a sua arte (Murillo, Ticiano), mas a sua narrativa é arrojada e dessacralizada. Fica-se pela Virgem Maria e pelos Anjos. A Virgem surge como uma menina tímida e submissa (2002), enquanto os Anjos, que não costumam ter sexo, são representados como mulheres poderosas, envergando vestidos de renda ou brocado, de fisionomia séria e rude, com asas brancas pesadas que mais parecem escudos de proteção, do que asas para subir ao céu; um deles até traz uma espada numa mão e uma esponja na outra (1998). Anjos da Guarda, sentinelas protetoras, num mundo perigoso (o mundo dos homens).
A Natividade é um parto doloroso e quase solitário. “A Nossa Senhora é de carne e osso como nós; eu vejo-a assim”! A PIETÁ (2002) da qual tem vários desenhos e pinturas é confrangedora porque o corpo de Cristo, filho adulto morto, se extende hirto no chão, e a Mãe condoída não lhe oferece colo. Chega a incomodar, não desperta compaixão.
É assim Paula Rego! Anabela M. Ribeiro acha que ela não tem maldade, fica encantada com o seu lado pueril. Eu que só conheço os quadros, e referi muito poucos, vejo-os carregados de Raiva e Humor Negro.
A sua feminilidade é cheia de ambivalência. Nasceu e cresceu no meio de mulheres (a mãe, a avó, as criadas, as professoras, a costureira, etc.). Foi uma menina mimada da alta burguesia lisboeta. Gostava muito de ir às compras com a mãe, que era elegante e vestia bem; guardou muitos dos seus vestidos (o quadro A Prova, 1990). Foi uma menina submissa e bem comportada, mas nunca teve grande intimidade com a mãe. A sua figura de identificação foi o pai, que sempre a apoiou e lhe reconheceu o talento, mandando-a cedo para Londres, onde se apaixonou por um colega da escola que muito a estimulou “a desenhar sempre cada vez melhor e arrojadamente, que procurava histórias para ela, e de quem engravidou aos 20 anos. Parece-nos que a identificação foi com as figuras masculinas. Do pai recebeu sempre o ressentimento contra o regime repressivo de Salazar e foi ele que a libertou da submissão a que estaria sujeita se ficasse em Portugal. O pai, convictamente anglófilo, cultivou nela a subversão, a independência e propensão a defender ideais feministas. Perdidas as duas figuras masculinas que indubitavelmente amou e admirou, o pai e o marido, a sua obra ganhou renome internacional, e a essa metamorfose artística não será alheio o primado que deu ao modelo vivo e à presença de Lila Nunes (portuguesa de gema!). A sua obra é então uma co-produção luso-britânica.
Não foi por acaso que em 1960 Paula Rego pinta um quadro surrealista, com um título clarificador SALAZAR A VOMITAR A PÁTRIA; na minha opinião, é um quadro confuso e macabro. Aliás, a crueza visceral de Paula Rego vai exprimir-se ao longo da sua obra pela metáfora portuguesa, FAZER DAS TRIPAS CORAÇÃO, carregada do tal Humor Negro, que nela tanto aprecio!
Termino com algumas considerações sobre criatividade, manifestação fundamental em artistas e cientistas, que mobiliza toda a vida psíquica quer no sentido defensivo sublimatório ou catártico, quer na convergência de todas as instancias psíquicas, do inconsciente pulsional ao consciente cognitivo, através do preconsciente, fértil na intuição e no imaginário, capaz de criar algo de novo, que surpreende tanto o criador como o espetador. Geralmente é uma atividade ao serviço do EU, dá sentido à realização pessoal (Ideal do Eu) permite a expansão e comunicação e vai buscar e(nergia) a EROS.
ABSTRACT
The author attempts to do a psychoanalytical analysis of the painter Paula Rego and some pictures, emphasizing Meltzer psychoanalytic concepts _ (aesthetic impact / aesthetic conflict), and writing some comments about painter's answers during five intervews (2003-2011) that the portuguese jornalist Anabela Mota Ribeiro have published in 2016,
The author considers that the notable pictures of Paula Rego are a co-prodution luso–britanic, because they make a perfect wedding between black humour (very british) and the performance of the model Lila Nunes (very portuguese), to whom the painter gives hight value, in last years.