Na busca de um funcionamento global do ser humano e de uma Teoria Geral da Saúde/Doença, o autor alonga reflexões partidas da clínica e discorre sobre alguns conceitos que nos últimos anos tem sugerido. Considera que só um novo tipo de investigação poderá trazer conhecimento a funcionalidades e disfuncionalidades que descortinamos, mas quase totalmente desconhecemos. Considera que muitas tecnologias tentam apagar o tempo interno e o exercício da memória, característico do H. Sapiens, forçando invasões no corpo/mente que bloqueiam a misteriosidade e despertam estranhas doenças.
(Para além de algumas fontes matriciais de pensamento, como Darwin, Freud, Stephen Hawking, Bernardo Soares, este texto resulta da observação clínica e de reflexões consequentes, ousando conceptualizações pessoais sobre o funcionamento global dos seres humanos e sobre as suas (dis)funções na Saúde/Doença).
Observados sem pressa, todos os seres humanos de si próprios dizem:
penso: logo existo: logo funciono
funciono porque me sinto a funcionar
tenho consciência de funcionamentos que só a mim dizem respeito
pressinto outros que me escapam ao conhecimento
viver é funcionar no meu corpo e na minha subjectividade
existir é funcionar com a energia possível.
Como todos os seres vivos, os seres humanos “sabem” que existem. Sentem-se, palpam-se, movem-se. Disso têm plena consciência com duas acentuadas diferenças relativamente aos demais: incluem raízes emocionais nesse saber e, desde o início, configuram propósitos inatingíveis por todos os outros primatas, mesmo os primos da savana. Reconhecem-se nessas raízes e nesses alcances, percebendo-lhes uma única finalidade: promover bem estar e alongar tempos de vida, se possível com prazer.
Jamais prescindem de todos esses funcionamentos. Nem o poderiam fazer, porque cada um dispõe de uma originária capacidade de sentir e de olhar para si próprio, além de uma pessoalíssima aptidão para se relacionar com o universo dos outros, mobilizadas até ao fim. Dito de outra forma: cada ser humano dispõe dum “aparelho psíquico”, onde irrecusavelmente inscreve os saberes que modela no crescimento e onde, sem saber ler nem escrever, acciona inescapáveis capacidades de integrar passado, presente e futuro, num movimento de prescrição impossível. Esse aparelho psíquico (a mente) faz parte de si, como componente obrigatório de si. Sensibiliza a corporeidade e a representação mental de corpo. Só conveniências teóricas ou poéticas poderão fragmentar-lhe o conjunto. Socorro-me do exemplo da água para melhor me explicar.
Separar o corpo da mente é tão absurdo como separar o oxigénio do hidrogénio na composição da água. Será impossível fazê-lo. Seria desfazer o que somos e o que fomos, decompondo o ser humano.
E não será inocente este exemplo da água. Trata-se de uma realidade tão nuclear que, sem sobressalto, metaforizações simbólicas suscita.
Mais longamente, desenvolvo todos estes temas nos meus livros: A Invenção da Alma , Analista de Interiores… Misteriosidade , Partículas Comensais .
Artigo recebido em 8 de Abril de 2017 e aceite para publicação em 1 de Julho de 2017.
Psiquiatra. Psicanalista. Membro Titular, com funções didácticas da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). Membro Honorário da SPP. e-mail:
Sem ela não existia vida nem Universo, uma vez que não existiram seres humanos (em larga medida feitos de água) para o reconhecer. Dela totalmente dependemos, não sendo a vida, no fundo, mais do que uma água enriquecida de minerais e de sistemas funcionais, sobremaneira no Sapiens.
Sem chuva seríamos Lua (parênquima calcário onde nem lunáticos vagueiam), num mundo definitivamente sossegado e sólido, porque sem água nem relações. Mundo onde passear à tardinha na praia ou ser engolido por um buraco negro seria a mesma viagem, na mesma paisagem.
Corpo e mente não se separam em momento algum, tendo esse facto enorme significado na composição e decomposição do ser humano.
As ciências que nos instruíram e de que somos aplicados agentes têm-nos esclarecido muitíssimas interrogações, mas têm-nos igualmente obscurecido significativas janelas. Apesar do enorme saber que nos têm proporcionado, ou talvez por isso, tal facto transparece sempre que convocamos funcionamentos unitários para o ser humano.
Dentro de nós, como dentro de toda a ciência médica e de toda a ciência psicológica, há estranhas resistências a esse respeito, derivadas do clássico dualismo. Nem sequer dispomos de instrumentos ou de palavras certas para monismos enunciar.
Todos os conceitos que até agora tentaram teorizar a relação corpo/mente, tais como: interacção, reciprocidade, influência, equivalência, homologia, simultaneidade, conjugação, representação, etc., completamente conservam o histórico dualismo, como se estivéssemos irremediavelmente condicionados ou apenas pudéssemos discorrer sobre a influência de um no outro. Falta-lhes o “passo-do-índio”.
O meu conceito de “Psicossomática Estrutural” tenta discernir e unificar. Tenta demonstrar quanto a invenção de uma alma separável do corpo contribuiu e contribui para tão conservadoras manifestações e para tão abençoadas obstruções.
Lembro os prejuízos que daí resultaram, nomeadamente na justificação das guerras, quando no caminho do politeísmo para as monolatrias, depois para os monoteísmos, as religiões conceberam viagens para outros mundos, em categóricos catecismos e comovidamente as ofereceram a todos quantos à sua regra se consagrassem.
Lembro quanto isso ainda prejudica a investigação dos seres humanos em geral, nomeadamente a investigação biomédica, porque completamente separa os marcadores biológicos dos marcadores psicológicos nem disso dando conta.
(Nas leituras religiosas a salvação da alma tudo justifica, mesmo a morte do outro…o herege… indiferentes a tão pequeno detalhe.
O estado islâmico, num exemplo de hoje, apenas subsiste porque os seus crentes depois de mortos voarão para as longínquas paragens onde desfrutarão de imarcescíveis recompensas. Se não separassem corpo/mente, não matariam nem morreriam.
A nossa cultura nada comenta sobre tão grave assalto à inteligência, na atitude politicamente correcta de quem identicamente se comprometeu e compromete.)
Comentando desde já o papel do cérebro e das actividades cerebrais em tão complexas sinfonias, lembrarei que a capacidade de pensar pertence à pessoa, não ao cérebro, mesmo que este se tenha organizado e crescido de forma pessoalizada e seja, obviamente, um indispensável processador, organizador, e suporte de quanto na mente se passa.
Aprofundar o conhecimento biológico e fisiológico do cérebro será um excelente desígnio, agora e no futuro, mas supor que através desse estudo se reconhece a pessoa e a sua subjectividade, não passa de uma abusiva redução daquilo que nos define.
Seria estudar o ouvido e as funções auditivas, pensando descobrir a musicalidade do portador, estudar os órgãos genitais pensando desvendar a sexualidade do interessado, ou estudar as paredes do estômago pensando dirimir as gastralgias dum indivíduo mal disposto.
Seria pensar que as maçãs nascem no supermercado ou, pior ainda, que a água da vida se recolhe em algébricos e normalizados recipientes: que não se modela ao recipiente que por identidade cada um será.
É a pessoa que dá expressão ao cérebro, não o cérebro que dá expressão à pessoa.
As neurociências confirmam, aos olhos mais disponíveis, que a emocionalidade das relações precoces é particularmente determinante na maturação cerebral e na maturação mental de cada um. Mas confirmam processamentos conjuntos, jamais paralelos.
Também parecem aceitar “marcações” cerebrais induzidas por palavras numa psicoterapia bem conduzida: uma interpretação certa, no momento certo, desencadeará “agitações” benfazejas de indelével efeito. Mesmo assim, muitos neurocientistas referem o cérebro como único arguido dos processos psicológicos nada mais considerando, embora, diga-se em seu desconto, já tenhamos ouvido coisas piores. Noutras épocas, os arguidos foram Deus, o Diabo, o Destino, o Acaso, os Astros, o Inconsciente, o Genoma, o ADN, etc., em similares agências totalitárias.
Nessa linha, penso que quando tais cientistas esgotarem as circunvoluções cerebrais outras arranjarão, na eterna tentativa de nos desresponsabilizarmos de nós mesmos.
A racionalidade das ciências biológicas na investigação científica jamais aportará respostas a inúmeras interrogações. Há imensos dados inacessíveis às químicas tecnocêntricas. Todos os Sapiens disso se apercebem, salvo os intoxicados em cientismos e iatrogenismos.
Lembraria que, segundo os dados fundamentais da Biologia, cada partícula de vida transporta em si a sua própria destruição. Transporta a sua própria partícula de morte, sem formato especificado (salvo em raras excepções), sobre a qual irá conjugar-se e construir-se para mais tarde se desconstruir. Significa isso que numa situação ideal é perfeitamente admissível morrer sem dor nem doença, levantando-se esta enorme interrogação: Se morrer é obrigatório, mas adoecer não é… de onde virá a Doença?
As práticas biomédicas e o seu fabuloso desenvolvimento tratam bastante bem as doenças derivadas das agressões externas, porque as conhecem. Compensam bastante bem os múltiplos desgastes dos órgãos internos a que chamam doenças, porque os reconhecem. Mas pouco sabem sobre múltiplas patologias que dizem sem motivo, embora este tenha de existir, tangencial à originária desconstrução.
Desvalorizando as determinantes pessoais, tais ciências apenas investigam os tumultos visíveis, na intenção de os extirpar ou elidir à maneira de furúnculos, nos paradigmas que percorremos.
Nas gavetas deste último grupo jazem cancros, depressões, doenças auto-imunes, reumatologias, “psicotizações” da imagem do corpo (anorexias mentais, transexualidades), e muitas outras de incidência crescente. Doenças que muito se devem, em minha opinião, à tentativa de eliminação do tempo interno que a cultura alardeia e ao apagamento da subjectividade (negação, anulação, denegação) que tal eliminação cultiva.
Na zona oculta de tais patologias muitos indícios colhi (eu e os meus pacientes) de silenciosas necessidades de autodestruição dessa maneira movidas.
Por isso as apelido de “suicídios parcelares”, contextualizando as situações em que, para além dos eventuais dissabores, a Doença será “obra minha”, como dirá o portador sem lucidamente o dizer. De forma semelhante à “pérola”, de um corpo incapaz de suportar a depressividade em que mergulhou, o doente isola e condensa as nocividades que o atormentam, no mesmo movimento preservando a sua própria capacidade de funcionar.
(O volume do cérebro não entra em tais equações. Vivemos com o tamanho que a evolução nos conferiu e esperamos que ele continue a crescer para lhe configurarmos novas potencialidades, mas somos obrigados a reconhecer que a lentidão evolutiva é quase o contraponto da velocidade cósmica. Sem alterações perceptíveis nos manteremos milénios e milénios. Bastará verificar quanto Cícero ou Platão nos deslumbram, passados mais de 2000 anos, para percebermos que só sendo deuses, ou seja, só quando loucamente nos pensarmos capazes de “criar” outros Sapiens, poderemos reconfigurar aquilo que nos caracteriza e que nunca serão dados de computador.)
Acentuarei, a propósito, que um computador não erra nem julga porque não esquece. Não dispõe, nem jamais disporá, da capacidade emocional de esquecer/sonhar/recordar as suas próprias vivências e funcionamentos. Retoma ou apaga em definitivo, sem fantasias nem demoras. Também não estabelece relações afectivas com ninguém, salvo em situações esquizofrénicas, porque não dispõe dos indispensáveis condimentos inconscientes para interagir.
Num computador não chove: não há água nem desassossego. Ele não cria, não sofre, não “pensa” para além do introduzido, ao contrário da mente que resulta da história, da memória e do património emocional de cada um, em permanente dinamismo.
A inteligência artificial também nunca passará de um instrumento metálico e dessalinizado, mesmo em robotizações de utilidade assegurada.
Comparar a mente humana a um computador será comparar o automóvel ao dono do automóvel. A lucidez não se mecaniza nem mumifica.
No circuito vital, os seres humanos obrigam-se a uma progressiva escala de necessidades.
Às mais básicas, de sobrevivência, seguem-se muitas outras cada vez elaboradas e cada vez mais próximas de uma organização subjectiva: necessidades de afecto, ligação, segurança, confiança, identidade, realização, etc. Só uma inultrapassável depressividade as dispensará.
Como nasce prematuro e por completo dependente de quem o agasalhe, o bebé só sobrevive muitíssimo protegido. Interioriza quanto vive e sofre na relação com as figuras de quem depende, buscando as melhores soluções e os melhores compromissos. Tendencialmente repetirá, ao longo da vida, os mais profícuos mecanismos dessa fase.
Mãe, pai, família, professores, ídolos e outros adultos significativos acabarão por reportar inescapáveis referências a todo esse crescimento. Instalam as suas faces boas e más, os seus modelos
e princípios, as suas gratificações e frustrações, num edifício entrelaçado e de difícil alteração. Trata-se de uma inerência do Sapiens, completamente independente das posteriores regras e educações.
Será através dessas referências, das suas imitações e identificações, que a criança “visualiza” realidades e fantasias, liberdades e inibições, através delas orientando a sua relação com o mundo na globalidade corpo/mente. Armazenará, no caminho, numerosas arestas não resolvidas por impossibilidade de metabolizar todos os estímulos que recebeu.
Há uma vincada pessoalização em tal edifício, de importância capital na funcionalidade de cada um. A capacidade de representação mental de um objecto, a capacidade de “ver” e “modificar” esse objecto com os olhos fechados, a capacidade de simbolizar (sobretudo a capacidade de comunicar e de fazer creditar, através de palavras-símbolos, factos e ideias completamente abstractos), de adiar o desejo, de distinguir afectos, bonito e feio, bom e mau, a superior capacidade de mentir e de fazer arte-poesia-humor sobre si próprio e sobre os outros, são características fundamentais dos humanos, às quais acrescento uma outra a que chamo de “misteriosidade”: que será a capacidade de focalizar encantos prospectivos sobre o desconhecido, contrariando o medo que por condição ele gera. A capacidade que sendo o grande fermento do melhor que aspiramos, será igualmente o grande motor de todas as humanas investigações e de todas as humanas idealizações.
Misto de curiosidade e desejo, perplexidade e temor, tal misteriosidade constitui, em meu entender, uma característica específica e absolutamente caracterizadora do H. Sapiens. Nela irrecorrivelmente anunciamos e pronunciamos quanto vivemos, sonhamos e sofremos, além de tudo quanto formatamos, criamos e investigamos, gerando uma privilegiada prerrogativa que nos distingue dos irmãos da pradaria. Será o que nos propicia prazer de busca e nos eleva comensalidades, porque atrai o objecto em vez de o excluir. Aproxima-nos do “outro”, tornando-o um apetecido objecto de encontro, por razões que nada têm que ver com a sexualidade nem com a agressividade pulsionais, prevenindo inúmeros conflitos sem ansiedade nem sofrimento.
Sem misteriosidade, o desconhecido permaneceria um pouco confiável organismo, portador de inquietantes armarias e de desassossegos sem fim.
(Numa pesquisa científica, por exemplo, não será o objecto de estudo que é misterioso: será a misteriosidade do investigador que nisso se mobiliza. Se o objecto for outro ser humano, dela igualmente portador, tudo obviamente se complica ou pode complicar.)
Nos primatas, como nos mamíferos em geral, as fêmeas não têm os órgãos sexuais estrategicamente escondidos, menos ainda fortemente resguardados por tensos músculos adutores fechados em tenaz. Volátil cauda os encobre, bastando moscardos por perto ou uns “arzinhos” de cio para abertamente se exporem. Neles não se fixam os insondáveis esconderijos da fêmea do Sapiens, apenas visíveis nas noites de Lua Cheia ou nas alturas de parto, cujos furtivos recantos, imensas especiarias levantam pela misteriosidade que estimulam.
Foi a evolução que a isso nos conduziu. Que nos propiciou essa especialíssima condição que poderíamos designar por “recalcamento sexual orgânico”, catalisadora e impulsionadora dos inúmeros recalcamentos psicológicos que irão seguir-se e que, para o melhor e para o pior, significativa parte do desassossego e da inteligência do Sapiens sempre determinaram e determinam.
Aos Neendertais, Denisovans, Florenses e outros irmãos Erectus, idêntica circunstância se ofereceu. Mas eles não souberam desenrolar o filme que a posição de pé graciosamente lhes concedia. Presumo que não souberam adaptar-se, menos ainda assimilar, a acentuada misteriosidade que o novo tipo de encontro lhes impunha. Não evoluíram do sexo para a sexualidade, nem da genitalidade para a subjectividade, ficando no que sempre foram: anartísticos grosseiros, pouco dotados, selvagens, apesar de alguns possuírem cérebros maiores que os do Sapiens. Exterminaram-se (genocídio?) por isso: pela sua insuficiente capacitação criativa sobre o real, o simbólico e o imaginário. Neles, o desconhecido continuou medo e luta, ataque e defesa, incapazes de incluir misteriosidade na compulsão de o (re)encontrar.
Só os Sapiens o terão feito. No Paraíso, há pouco mais de 50.000 anos, só eles terão conseguido imaginar para além da floresta de pêlos da fêmea, e fantasiado para além do concreto. Só eles se inquietaram, tomaram iniciativas, investigaram. Ganhando pudores, tapando vergonhas, saltando tapumes, só eles introduziram comensalidade na linguagem e passaram do grunhido cavernícola ao abstraccionismo informado, gerando o estranhíssimo conceito de estupidez para os encalhados que não partilhassem. E, no mesmo movimento, vitoriosamente se “auto-expulsaram” da irmandade, da confraria e da pradaria.
Criando necessidades para além da sobrevivência, os Sapiens tornaram-se “suicidas parcelares” a partir daí, porque jamais se interromperam no furor da descoberta e jamais abandonaram um orgulhoso frenesi.
Foi, de facto, na sequência da ocultação do desejo, no objecto do desejo e na misteriosidade acrescida pela verticalização do corpo que os Sapiens passaram a homens e as Sapiens a mulheres.
Cresceram e multiplicaram-se. De frágeis criaturas passaram a donos do planeta. Civilizaram-se segundo consta, eficazmente se dando à competição, à insatisfação, à destruição. Nunca chegados ao fim, mesmo com tudo aparentemente resolvido, deram-se ao cúmulo mais recente de erotizar espelhos e endeusar instrumentos.
Vincularam-se a tão frustrantes desejos de omnipotência que, pelos seus excessos, Némesis um dia lhes fará o que eles aos outros fizeram: separa-lhes o corpo da mente e extermina-os.
Por via duma idealização tendencial, sobretudo duma idealização que inclua emblemas mágicos infantis, parte da misteriosidade inicial evolui para a chamada “religiosidade”. Torna “sobrenaturais” ideologias que estremece, sacralizando imaginários e atribuindo-lhes transcendências. Orienta-se então para inconcussos mistérios: para os “maravilhosos mistérios da minha religião, a única verdadeira”, num encadeamento tão perfumado e tortuoso como inanalisável por definição.
Tal movimento faz parte de todos, na sequência da misteriosidade primordial e da habilidade que os Sapiens sempre tiveram para arranjar patrocínios nas questões de Justiça e de Saúde/Doença.
Todos os Sapiens, de todas as tribos, o comportaram desde o paleolítico, na busca de poderes fora de si que lhes resolvessem os problemas… Entre as invenções-instrumento que até agora conceberam só o dinheiro tem mais crentes-fieis do que as religiões… mas estas capturaram o movimento e tomaram-no como seu em dogmáticos enquadramentos.
(Moradas de deuses, olimpos, paraísos e outras fantasias compensatórias do medo da morte que lhe subjaz fomentaram organizações que fervorosamente se antagonizam e tribalmente se destroçam. Repercutindo “revelações” dum Deus único entre os únicos, todas as religiões divinizam “espiritualidades” que dizem exclusivas da sua sacristia, como se pensar, iludir, mentir, não fosse característico de todos os Sapiens, em iguais potencialidades).
Mas a religiosidade não tem encontro marcado apenas com as religiões. Espreita todas as humanas idealizações, mesmo as de laicidade assegurada, subsolando-lhes apertos e descaminhos. Pode contaminar todas as actividades e todos os núcleos das mais lícitas proposições, particularmente das que exijam molduras bem definidas para os objectivos primordiais.
Não ocupará espaço na Arte, por exemplo, que será sempre terreno duma misteriosidade idealizada mas não sacralizada, mas poderá contaminar ciências, tecnicidades e múltiplos outros campos operatórios, convertendo-os em quase religiões. Incitando clubismos, cientismos, academismos, tais actividades poderão deixar de ser instrumentos de vida para se transformarem na própria vida de quem exerce.
Ninguém duvida das vantagens de isolar para ver melhor e reconhecer, mas diafragmas asfixiantes potenciam desajustes.
Nas marés vivas ninguém nasce coxo ou vencedor: nem com Saúde nem com Doença.
O bebé transporta elementos que no crescimento informa nas relações que tiver. Não traçará apenas desenhos de aprendiz, de sentido escolar ou comportamental, até porque o mesmo comportamento pode ter razões e significados muito diferentes de pessoa para pessoa: apenas fará a regulamentação das leis da espécie na sua própria individualidade.
Progressivamente organiza propostas éticas e morais (só circunstâncias muitíssimo disruptivas o poderão impedir), levantando um primeiro tribunal: um tribunal interno, muito anterior aos tribunais civis e religiosos com que mais tarde terá de confrontar-se e que só existem por insuficiência operativa desse primeiro.
As culpas, os julgamentos, as sanções desse tribunal serão elementos muitíssimo significativos na funcionalidade/disfuncionalidade, satisfação/insatisfação, tristeza/alegria, Saúde/Doença do portador, além de inquestionavelmente interagirem com o tribunal dos outros.
Incompletos mesmo quando saturados, eternos rabiscadores de balancetes sobre ditos e feitos, procedimentos e fantasias, juízos e penitências (mesmo os designados psicopatas, que apenas o serão porque clivaram pagamentos nas portagens e denegaram culpabilidades nas primárias), os Sapiens acabam por desaguar neste irremediável paradoxo pela evolução criado:
São capazes de pensar e desejar muito além das próprias dotações, censurando-se pelo insucesso da sua própria impossibilidade.
Pagam pelo que fizeram e não fizeram nem poderiam fazer, em posicionamentos de gloriosa irracionalidade.
Transformam o dessossego em depressividade quando se sentem incapazes de elaborar a misteriosidade que os encaminha, depressividade que será sempre uma partícula essencial da Doença em si.
Dualizam corpo/mente disso fazendo “cura”. Costumo dizer: “o corpo sabe”.
Através da particularíssima integração corpo/mente que no trajecto vai compondo, até sabe fagocitar partículas inconvenientes. Mas esse saber empalidece se a depressividade o entretece.
O ser humano funciona no prazer de funcionar. Nem nisso pensando, com gosto flui entre vitalidades aconchegantes e fibroses periclitantes,
resolvendo-se naturalmente. A desertificação do prazer bloqueia esse saber e apronta os “suicídios parcelares” que atrás referia, simultâneos das cicatrizações mentais que essa mesma ausência de prazer (o sentimento de vazio) alicia. Os toxicodependentes são disso um aberto mostruário, quando incapazes de prazer apenas se movem no alívio do desprazer.
Nenhum suicídio (parcelar ou total) aparece de geração espontânea: nem no conteúdo nem no despertar. Segundo os indicadores que recolho, há sempre grãos e fermentos nas rotundas da transgressão.
O Sapiens nasce desassossegado e descalço. Cresce subindo escadarias: as escadarias do conhecimento, da comunicação, da criatividade. Cresce para cima, como as árvores, não é preciso puxar, muitas vezes contra as poderosas forças da gravidade, da parentalidade e da vulgaridade. Sobrevive a numerosos conflitos e organiza-se segundo factores genéticos, epigenéticos e circunstanciais, não apenas segundo o que as “mães científicas” desejam ou as catequeses narcísicas postulam.
Paulatinamente distingue conhecido e desconhecido, afectos e travessuras, gostos e desgostos, invejas e gratidões, jamais concluindo porque as escadarias e os desassossegos jamais terminam. Enriquece horizontes. Deduz ideias e números, espaços e tempos, interroga corpo e sofrimento: levanta-o para caminhar, estende-o para dormir.
No percurso, sedimenta três alicerces fundamentais: sentimentos de autonomia, sentimentos de responsabilização e sentimentos de consciência de si, em quantitativosvariáveis. Por norma arregimenta-se nos mandamentos da comunidade a que pertence (“da sua boa cultura, da sua boa religião, da sua boa civilização”) e despreza os restantes, nem considerando que nascido noutras veredas deglutiria as respectivas cartilhas.
Historicamente assim tem sido, até que educações sem guarita e pedagogias sem sentinela possam mais sapientemente o Sapiens erigir.
Outras aquisições, como capacidades de decisão e de escolha, sentido de justeza e de justiça, respeito pelos outros, tolerância à frustração, aceitação das diferenças, repúdio da vitimização, distinção da solidão e do estar só, nesses alicerces se argamassam, programando a “profissão de viver” que irá presidir aos equilíbrios e desequilíbrios de cada um.
Sempre instáveis, mais frágeis ou mais resilientes segundo a coesão que sedimentam, tais equilíbrios também dependem da dimensão invasiva do exterior: das partículas externas, mesmo das aparentemente não convidadas. Mas a subjectividade nunca poderá ser um edifício cujas virtudes e defeitos cataloguem geometrias vindas de fora, mesmo que em todos os seres humanos possam ocorrer “pequenas coisas” cujo valor só o juízo final reconhece, ou seja, só quando a limpeza de percurso o permite, mesmo que a receptividade positiva ou negativa dependa sempre do terreno.
(Será justo supor que “pequenas coisas” tenham accionado Galileu, Napoleão ou Pessoa? “Sentimento de Percurso” será a consciência da importância da história e da memória no funcionamento de cada um. Será a intuição do princípio e do fim, da vida e da morte, numa certeza que a criança percebe mesmo que ninguém lho ensine.
“Sentimento de eternidade do tempo interno”, muito visível no desejo de viver num tempo sem tempo, brota dos sonhos que sempre entrelaçam passado, presente e futuro no mesmo texto narrativo. Consiste na integração do tempo externo (o tempo do relógio) na (in)temporalização interna de si. É na propaganda desse tempo sem tempo que as religiões se fortalecem, miraculando medos e injustiças pelo Sapiens não esquecidos).
Saúde será a desenvoltura funcional de todas estas funcionalidades, sem queixas que diminuam o sujeito no gosto de funcionar. Será uma dinamização activa e activadora, característica da vida, que paradoxalmente pode coexistir com a Doença, desde que esta não seja considerada estranha a quem pertence. Desde que o doente, mesmo contradizendo-se, sinta (“saiba”) que ela lhe compensa o sofrimento que o atormenta e a cuja indefinição abnegadamente quer fugir. Inúmeras vezes tal observei. Tal expressionismo, vertido para a comunicação segundo o grau de liberdade de cada um, será sempre independente dos incontornáveis abafamentos médicos de ruídos e sintomas.
Saúde Mental será o sentimento positivo ou negativo do funcionamento silencioso de raiz. Perpassa dia e noite e os demais não participam, salvo quando relacionalmente interajam.
Será a vivência duma tríplice capacidade, em constante provimento: a capacidade de se relacionar consigo mesmo, a capacidade de se relacionar com os outros e a capacidade de se relacionar eficazmente com as circunstâncias de vida, num dinamismo pleno de repercussões. Bastará faltar uma parte para dúvidas surgirem, ansiedades desabrocharem, descompensações acontecerem.
Bloqueada a misteriosidade, desmorona-se o prazer de funcionar e perturba-se o “saber do corpo”: a insatisfação ganha volume, o desassossego deprime, o “suicídio” começa.
Representantes separados de uma duplicidade de observação, Saúde e Saúde Mental serão sempre fusionais.
Na organização da interioridade, cada ser humano providencia uma “Oficina Psicossomática” de laboração permanente, na qual participam todas as suas emoções, relações e comportamentos, tal como todas as suas biologias, fisiologias, endocrinologias e sistemas de prazer/desprazer. Procura estruturar um sentimento de identidade que será sempre uma “Identidade Psicossomática”.
Não sendo de presumir aleatórios em questões tão oficinais, será forçoso interrogar o que levará situações exteriormente iguais a resultados por completo diferentes.
Porque será, por exemplo, que raivas acumuladas desencadeiam perturbações na pele dalgumas pessoas, perturbações cardíacas noutras, manifestações depressivas em muitas e nada provocam noutras tantas?
Porque será que, em situações de perda afectiva, há pessoas que reagem com cefaleias, outras com perturbações digestivas, outras com desvios de comportamento?
Porque será que na chamada “fibromialgia” os músculos intensamente doem em pessoas sedentárias, cuja mente vive numa constante correria?
E porque será, noutro plano, que acordará muitíssimo dorido e assim permanecerá durante dias, sem na cama sequer se ter mexido, um indivíduo que a sonhar fez um esforço em que ultrapassou todos os seus limites?
Porque ejaculará com orgasmo um indivíduo a sonhar, sem para isso fazer qualquer movimento?
Quem orientará tudo isso: como e porquê?
Sabemos muito pouco. E não serão, por certo, umas quantas superficialidades ditas neuro psicológicas que satisfarão tais interrogações.
Só com novos conceitos e novos paradigmas investigacionais poderemos chegar a bom porto.
(Em minha opinião, o futuro consistirá na investigação duma ideia tão simples como esta: O processo de identificação com o “outro”, absolutamente essencial no crescimento e na organização global do ser humano, não consistirá apenas na interiorização psicológica daquilo que a criança no outro admira e para si própria pretende, como habitualmente se diz.
Acarretará marcas doutro cariz: marcas no corpo, escolhas de “corporização” (encarnação), das quais haverá sinais (“planetas” não descobertos de que pressentimos a existência), associados a depressividades emergentes por misteriosidades sufocadas.
Se tal corporização (conceito muito diferente de “incorporação”, “interiorização”, “introjecção”, que se reportam ao corpo imaginário) não se cumprir na fluência desejada, os desajustes transformar-se-ão em doenças subliminarmente equacionadas. Mas como investigar tudo isto, nas técnicas que conhecemos?
Como avalisar?
Apenas tacteamos, levantando hipóteses.)
Continuando a interrogar situações clínicas longamente observadas:
De que estaremos a falar quando falamos de vulnerabilidades, resiliências, resistências, predisposições à doença, descompensações? Não estaremos apenas a falar, de facto, de depressividades instaláveis, de limitações do prazer de funcionar, de consequências dessas limitações no “saber” do corpo?
Sabendo-se que milhões de células cancerígenas por todos os corpos vagueiam e só nalguns se fixam.
Sabendo-se que milhões de bactérias por todos os corpos circulam e só alguns infectam.
Sabendo-se que milhões de atropelos imunitários em todos os corpos acontecem e só alguns vitimizam.
Sabendo-se que milhões de sofrimentos em todos os corpos existem e só alguns adoecem…
Não estaremos apenas a falar, dito doutra forma, dos fantasmas de cada um e da nossa falta de inteligência emocional para os entender?
Não será apenas disso que estaremos a falar: não de órgãos separáveis, de sistemas separáveis, ou, pior ainda, de idiopatias incontornáveis?
Não continuaremos demasiado vinculados à religiosidade duma alma separável do corpo?
Não permaneceremos enclausurados em desígnios que fizeram época, omitindo formatos integrados e complementares?
Desconsiderar tais interrogações obstaculiza perspectivas.
Será esquecer o que somos e porque somos.
Será limitar a liberdade interna e a lucidez que secularmente obtivemos.
Será desmerecer a nossa capacidade de elaboração, instituindo simulacros tecnológicos e defensivos.
Será negar a insatisfação e a depressividade autodestrutiva que a todos frequenta (sejamos simpáticos: que a todos pode frequentar) e as suas prováveis consequências.
O Sapiens precisa muitíssimo da Ciência, do Laboratório e da Medicina.
Mas precisa igualmente de reflectir sobre si próprio e sobre as energias e métodos que utiliza.
A doença não deflagra sozinha. Não há doenças “sem razão”. Todas transportam benefícios primários e secundários, às vezes muito claros, que as tornam desejadas sem que o furor científico entenda.
Às vezes congemino as diferenças entre cientistas, sábios e pensadores.
Cientista será sempre um jovem, mesmo com oitenta anos. Eternamente curioso e perspicaz, será alguém que alimenta a ventura da descoberta, num laboratório renovado e em renovação. Poderá ser o Infante em pessoa.
Sábio não será obrigatoriamente cientista, nem terá idade: há crianças sábias e velhos sábios, há crianças e velhos sem sabedoria nenhuma. Será o que organiza as partículas, interrogando-as e transmitindo-as, pessoal e colectivamente. Poderá ser a Universidade em pessoa.
Pensador será um idoso, mesmo sem idade. Poderá não ser cientista nem sábio, embora nem um nem outro dispense. Será o que aprendeu com a experiência e com ela se alonga, dispensando as altíssimas tecnologias e nunca se afastando da observação nem da Arte. Poderá ser a Medicina em pessoa.
A Humanidade e a humanização muito ganhariam se cientistas, sábios e pensadores em conjunto trabalhassem na Saúde/Doença.
Seria um desafio. Um enorme desafio. Mas ninguém pensa nisso.
Nem a projectada “medicação individual selectiva” nisso pensa.
Numa espécie de regresso à pré-ciência levando a ciência no bornal, para além do Bosão de Higgs e dos caríssimos aceleradores de partículas da nossa actual devoção, tal conjunto pesquisaria o que chamo:
“bosão da interioridade manifesta”
ou seja, o cimento da coesão interna de todos e de cada um, para isso se obrigando ao que também tenho vindo a chamar:
“o passo-do-índio”.
(“Nos índios não há conflitos entre corpo/espírito, ou entre ciência e/ /religião.
O Índio não acredita no sobrenatural, porque não conhece a divisão entre natural e sobrenatural.
É tudo uma coisa só, físico e espírito.
O mundo espiritual deles, algo misterioso e milenar, simplesmente os rodeia.
Não dá para explicar mais do que isto… a vida do índio é, de certo modo, uma ininterrupta cerimónia espiritual“.
… estas observações são de Orlando Villas-Boas, um dos três irmãos Villas-Boas, famosos antropólogos brasileiros, que longamente estudaram os índios da Amazónia na segunda metade do século XX.)
Neste momento há sete mil milhões de subjectividades no planeta.
Todas diferentes, todas com nome próprio, todas funcionam em corpos da mesma espécie, ou seja, em corpos intrinsecamente iguais.
Todos os Sapiens no mais fundo de si funcionam como índios, embora grande parte não queira que se saiba.
Na busca de uma Teoria Geral da Saúde/Doença, em meu entender:
O corpo do Sapiens, de que o cérebro será significativa parte, não é a vida: é apenas o suporte pessoalizado duma vida pessoalizada.
Os cérebros de Jesus Cristo, Einstein e Hitler nada teriam que os distinguisse, tal como o coração. A diferença não vem daí. Voltando à metáfora da água, vem do recipiente que lhe dá forma. Se mudassem de vaso mudariam de calibre. Há intervenientes mais preciosos do que o corpo ou o cérebro na composição e decomposição dos seres humanos.
(Nota final: quem pensou e escreveu este texto não foi o meu cérebro: fui eu… embora sem ele não o pudesse fazer.)
SUMMARY
In the search for a global functioning of the human being and a General Theory of Health / Illness, the author extends the reflections that start of the clinic and discusses some concepts he has suggested in the last years.
He considers that only a new type of investigation can bring knowledge to the functionalities and dysfunctionalities that today we uncover but almost totally we do not know.
He considers that many technologies try to erase the internal time and the exercise of H. Sapiens' characteristic memory, forcing invasions in the body / mind that block mysteriousness and awaken strange diseases.
KEY WORDS
Functioning, Mysteriousness, Depressivity, Health / Sickness, Indian Step.