Francisco Manuel Barreto Alvim nasceu no dia 8 de Novembro de 1917 em Alter do Chão, distrito de Portalegre, Alto Alentejo. Viveu com os seus pais numa casa antiga do século XVIII desta vila - como refere num dos seus artigos -, que ficava na planície alentejana e era envolvida por lendas, mitos e “fantasmas” (Alvim, 1985), que cresciam num ambiente e lugar de importância histórica. Muito perto erguia-se e imponha-se o Castelo de Alter do Chão. Obra de xisto e granito, representativa da arquitetura medieval trecentista, de estilo gótico que, durante muito tempo, teria a função de defender esta região “dos inimigos”. Também seria, perto da sua casa, que nasceria – fundada por D. João V em 1748 -, a Coudelaria de Alter do Chão. Instalada na coutada do Arneiro, onde criavam os cavalos lusitanos, levando-nos a imaginar um ambiente aprazível de liberdade quando imaginamos o trote ou galope dos cavalos nas longas planícies desta vila alentejana. Francisco Alvim nasce numa vila mítica, carregada de lendas e não podemos deixar de imaginar que, como todas as crianças, poderia ter-se permitido brincar nestes recantos de histórias e enigmas.
Francisco Alvim nasce em 1917, uma época ensombrada por uma atmosfera de instabilidades, ameaças e conflitos, ambiente que era vivido no terceiro governo de Afonso Costa. Portugal, no ano do seu nascimento, envolve-se na primeira guerra mundial (1914-1918). Em 1917, após entrarmos na guerra, um contingente de portugueses embarca para Flandres e perdemos, na batalha de La Lys, cerca de 7000 homens. Devido a uma intensa mortandade poucos soldados regressam a Portugal. Um luto de difícil elaboração instala-se e, simultaneamente, assiste-se a uma vaga de intensas proporções de emigração.
Em Alter do Chão, após a proclamação da república, a Caudelaria é integrada no Ministério da Guerra e passa a chamar-me Coudelaria Militar de Alter do Chão, que vai de 1911 a 1941. Interrogamo-nos se estas turbulências sociais tiveram alguma influência no seu imaginário.
Francisco Alvim aos dez anos, em 1927, vai para Lisboa e ingressa no Colégio Militar. Questionamos se este afastamento precoce do conforto familiar teria efeitos na sua vida pessoal. Os seus pais ficaram em Alter do Chão - o seu pai era médico -, e ele vai fazer os estudos secundários neste colégio interno. Terminado o liceu, entrou na Faculdade de Medicina de Lisboa onde se licenciou, tendo-se especializado em neuropsiquiatria e trabalhado nos Hospitais Civis de Lisboa - Hospital de Santa Marta. Trabalhou com o Professor Diogo Furtado que já tinha conhecimento e contactos com as evoluções do pensamento psicanalítico na Europa. Na verdade, no meio médico, antes da institucionalização da psicanálise em Portugal, já existiam tentativas para divulgar o pensamento de Freud. Como refere Pedro Luzes (1997), no meio científico e cultural
Psicóloga clínica e da saúde. Psicoterapeuta e Psicanalista. Membro Titular, com funções didáticas, da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanalistas (IPA). Diretora da Revista Portuguesa de Psicanálise. e-mail:
português, surgiu um interesse pela psicanálise. Egas Moniz mostrou um vivo interesse, na lição inaugural do curso de neurologia, quando falou das “Bases da Psicanálise”. O seu interesse pelo pensamento analítico também o leva a escrever sobre a “Vida Sexual” - com uma tiragem de livros muito significativa. Similarmente escreve sobre Júlio Diniz que, segundo ele, era um psicólogo intuitivo que quase merecia o título de predecessor de Freud (Luzes, 1997). Igualmente, o professor de psiquiatria Sobral Cid (1877-1941), nos seus livros de “Psicopatologia Criminal” e “Vida Psíquica dos Esquizofrénicos”, frisa que “esta concepção se inspira em grande parte nos postulados psicológicos de Freud e que ela representa uma aplicação feliz à teoria das psicoses dos métodos psicanalíticos”, e reconhece a sua gratidão a E. Bleuler e a Freud. Também no campo da literatura, Gaspar Simões interessa-se pelo pensamento psicanalítico que integra nas suas elaborações e críticas literárias.
É, pois, neste ambiente de entusiasmo e de curiosidade, que Francisco Alvim, muito impulsionado pelo Professor Diogo Furtado e também, pelo desejo do desconhecido, parte em 1952, para a Suíça para fazer a sua formação em psicanálise. Assim, aos trinta e cinco anos, com a família já constituída - tendo já os seus três filhos -, parte para Genebra à procura de respostas às questões que lhe eram colocadas pela sua experiência interna, assim como a sua pratica clínica. Depressa percebeu que ter interesse e curiosidade intelectual pela psicanálise era muito diferente do caminho de formação e prática que teria de fazer para se tornar psicanalista. A equipa de psicanalistas de Genebra muito contribuiu para seu crescimento como futuro psicanalista.
Em Genebra, Francisco Alvim encontra um ambiente promissor e de um “grande dinamismo no desenvolvimento da psicanálise” . Integra-se no grupo de Genebra, orientado por Raymond de Saussure. Depois de anos de preparação - análise pessoal, seminários teóricos, prática clínica de psicanálise –, integra-se e é aceite como membro titular da Sociedade Psicanalítica Suíça. A sua tese para membro titular foi sobre “A imagem do corpo”, tema que, como veremos posteriormente, vai continuar a investigar até ao final da sua vida, utilizando várias e diversas formas de abordagem.
Nessa época, o centro do dinamismo intelectual em Genebra era Raymond de Saussurre - médico e psicanalista - que, após a grande guerra, regressou em 1952 dos Estados Unidos da América. Depois de uma análise com Freud e Franz Alexander, em Berlim, seguida de uma estadia em Paris, onde fez uma nova análise com Rudolph Lovewenstein, coloca o seu “vigor e entusiasmo” na evolução da psicanálise Suíça. Juntamente com Michel Gressot e Marcelle Spira, organizam seminários de formação e criam um ambiente propício ao desenvolvimento da psicanálise. Foi Presidente da Sociedade Suíça de 1960 a 1967. No plano internacional, foi um dos Vice-Presidentes da Associação Internacional de Psicanálise (API), de 1955 a 1961. Também participou, em 1966, na fundação da Federação Europeia de Psicanálise (FEP), e foi um dos fundadores da Sociedade Psicanalítica de Paris, em 1926. Participou na criação da Revista Francesa de Psicanálise e do Congresso dos psicanalistas de língua francesa. Francisco Alvim, neste ambiente de entusiasmo e de construção da sua formação psicanalítica, escolheu Raymond de Saussurre como seu supervisor. Tinha por ele admiração e gratidão, como podemos confirmar na abertura do XXIX Congresso de Psicanálise de Línguas Românicas, em 1962 - primeiro realizado em Portugal - organizado pelo Grupo de Estudos Psicanalítico Português. Salienta então:
Saúdo de uma forma muito especial o meu Mestre e amigo de Genebra Dr. Raymonde de Saussure o qual hoje, para nossa grande satisfação, ocupa o lugar de Presidente da Comissão de Patronagem da Associação Psicanalítica Internacional para o nosso grupo. Foi o seu exemplo e o seu ensino que nos mantiveram nos momentos difíceis e ingratos do nosso mister (Alvim, 1962).
Francisco Alvim, na sua formação psicanalítica em Genebra, escolheu como analista Michel Gressot . Foi um analista com um papel importante da dinâmica da formação de muitos analistas na Suíça . A profundidade do seu trabalho teórico e a sua abertura a diferentes correntes de pensamento está patente na sua obra, que foi reunida após a sua morte, por Michel de M'Uzan – “Le royaume intermédiaire” .
Francisco Alvim, na apresentação do seu relatório “Troubles de l' Identification et Image Corporelle” (RFP-26-1962), agradece a Michel Gressot o seu empenho e apoio na leitura do seu manuscrito mostrando, desta forma, “um testemunho da sua amizade”. Acrescenta ainda neste relatório:
Gostaria igualmente de testemunhar a minha gratidão a Raymond de Saussure porque as suas próprias ideias sobre a teoria do prazer/desprazer tiveram uma considerável influencia sobre a minha maneira de encarar atualmente este problema e muito me ajudou na elaboração deste relatório .
Nos anos cinquenta o grupo de Genebra, liderado por Raymond de Saussure, reunia-se,
discutia e elaborava, com entusiasmo, a teoria e a clínica psicanalítica. Faziam parte desse grupo dois portugueses, Francisco Alvim e Pedro Luzes. Próximo deste grupo de portugueses também estavam em formação os analistas espanhóis Pedro Bofill, Pere Folch Mateu, Jose Rallo Romero. A casa de Francisco Alvim, em Genebra – como relembra a sua filha - era frequentada diariamente por colegas de diferentes especialidades e de várias nacionalidades. Os colegas espanhóis frequentavam a sua casa. As conversas andavam à volta da psicanálise e da cultura, pois Francisco Alvim interessava-se, particularmente, por pintura e literatura, como ressalta a sua filha. Esta aproximação e o interesse pela psicanálise impulsionam este grupo de portugueses e espanhóis a criar a Sociedade Psicanalítica Luso-Espanhola. No XXI Congresso Internacional da Associação Psicanalítica, em Paris de 1959, é constituído o “Grupo de Estudos” luso-espanhol. Dois anos mais tarde, em 1961, no Congresso Internacional de Copenhaga, este grupo de estudos foi admitido como Sociedade componente da Associação Internacional de Psicanalistas.
Francisco Alvim, membro titular, com funções didáticas, da Sociedade Suíça e da Sociedade Luso-Espanhola, regressa a Portugal no “Outono de 1959” (Alvim, 1968). Inicia a sua pratica clínica e, como membro didácta, dedica-se à formação psicanalítica de candidatos. Em 1966, surge uma rutura com o grupo espanhol - pensamos que as distâncias e o desejo de independência da parte dos portugueses poderá estar na origem desta separação – e, assim, nasce o “Grupo de Estudo Psicanalítico Português”. Francisco Alvim, no seu discurso de abertura do XXIX Congresso de Psicanalistas de Línguas Românicas, organizado por este grupo, em 1968, salienta:
O Grupo de Estudo Psicanalítico Português está ainda nos seus primeiros passos do caminho do movimento psicanalítico mundial. Coube à minha pessoa dar o sinal de partida para este vigoroso e irresistível processo dinâmico. A sociedade Luso-Espanhola foi reconhecida pela Associação Psicanalítica Internacional no seu XXI Congresso, reunido em Copenhaga, em julho de 1959. Por curiosa coincidência, foi também em Copenhaga, no Verão de 1967, que o XXVII Congresso de Associação Psicanalítica Internacional reconheceu a autonomia do Grupo Português, aceitando-o como grupo filiado independente. O germe da futura Sociedade Portuguesa de Psicanálise está a caminho da sua concretização.
Mas a concretização deste sonho teve que passar por diferentes vicissitudes. Os primeiros analistas – Francisco Alvim, Pedro Luzes e, mais tarde, João dos Santos – mantiveram uma longa batalha em várias frentes. Por um lado, organizarem-se internamente de forma a encontrar uma unidade e uma força interna, que os fizesse contactar com as adversidades que se apresentavam na altura. Tal objetivo foi muito facilitado pelas visitas regulares da delegação da Associação Internacional de Psicanálise, que se fazia representar pela “Comissão de Patronagem Internacional” (Alvim, 1977).
Segundo Francisco Alvim:
O trabalho desta Comissão deu-nos apoio e reconhecimento internacional cientifico. Não obstante, e talvez que tal não tivesse sido consciencializado integralmente pelos membros da referida Comissão, o valor intrínseco do funcionamento dinâmico do Grupo Português fica a dever-se à persistência, coragem, determinação e generosidade de todos nós e, especialmente, à dos mais novos. O nosso grupo, trabalhando num meio cultural onde a imagem da psicanálise era exclusivamente um dado de erudição livresca ou de abstracta imitação, teve que trabalhar colectivamente e individualmente em condições hostis de adversa e óbvia oposição (Alvim, 1977).
É importante recordar que as leis vigentes, no tempo do Estado Novo, decretavam que o direito de associação era muito restrito e necessitava dum parecer do Ministério da Educação Nacional. Para que uma sociedade científica como a nossa – Sociedade Portuguesa de Psicanálise – se formasse, necessitava de vários pareceres favoráveis dos Professores de Psiquiatria de Lisboa, Porto e Coimbra, assim como das três secções regionais da Ordem dos Médicos (é preciso lembrar que nessa época a Psicologia ainda não tinha sido implantada nas faculdades e só existia no privado). Em 1973, com os pareceres positivos maioritários, o Ministro da Educação autoriza a constituição da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Francisco Alvim descreve bem o ambiente psíquico dessa época:
De facto, sei que todos trabalhámos em condições hostis, tendo que afrontar e vencer toda a espécie de resistências à Psicanálise, umas já conhecidas, outras que até tivemos que vencer pela primeira vez. Desde o descrédito puro e simples às tentativas de manipulação, de enquadramento psiquiátrico, de integração filosófica, até à troça, ao ensaio de politização até à calúnia sobre as nossas vidas privadas,
Page 87tudo foi experimentado e ensaiado pelo meio ignorante e agressivo (Alvim, 1977).
Aceite oficialmente a Sociedade Portuguesa de Psicanálise em Portugal, realizou-se a sessão inaugurar no Grémio Literário, a 24 de fevereiro de 1973. O seu primeiro presidente foi o Dr. Francisco Manuel Barreto Alvim. Na sua conferencia inaugural salienta que:
Um sentimento que é, simultaneamente, de exaltação, de orgulho, e de responsabilidade, dificultar-me-á porventura comunicar-vos o que poderia chamar um depoimento sobre a psicanálise e a profissão psicanalítica, decorrente de reflexão e experiência vividas desde há cerca de vinte anos. Este apelo ao passado, à experiência, poderá ser interpretada como um privilégio da velhice, desta teoria de estrutura, quando a sua verdadeira intenção consiste, pelo contrário, em antecipar, no vosso espirito, a problemática do futuro, exactamente agora iniciado, a qual envolve as grandezas desta profissão, desta técnica, desta teoria, desta ciência, desta teoria da estruturação e das funções da psique, numa palavra da psicanálise, tal como Freud infatigavelmente a cultivou e que todos nós vamos continuar a desenvolver, em obediência aos dois primeiros artigos dos nossos estatutos .
Em 1977, o grupo transforma-se em Sociedade Provisória de Psicanálise. Em 1981, no congresso de Helsínquia, passa a ser Sociedade componente da Associação Internacional de Psicanalistas. Os membros da sociedade tiveram que esperar longos sete anos, feitos de receios e inquietações, para que fosse oficializada como sociedade científica em Portugal. Igualmente, os seus membros aguardaram extensos quinze anos para que a Sociedade Portuguesa de Psicanálise se tornasse componente da Associação Internacional de Psicanalistas.
Nesses tempos de espera inquietante, os psicanalistas portugueses mantiveram, com esperança, o seu trabalho e a sua criatividade. Francisco Alvim, que foi o primeiro director da Revista Portuguesa de Psicanálise, salienta, a este propósito, o seguinte:
A minha homenagem vai aqui para os mais novos, aqueles que tiveram que fazer este trabalho sem estarem ou terem estado jamais integrados num “meio psicanalítico” que, como disse acima, não existia entre nós. Nós criámos todos em Portugal um “meio psicanalítico” do qual o nosso Instituto é a expressão concreta. Esta nossa Revista pretende ser ainda mais uma etapa desta capacidade de resposta criando justamente um órgão do nosso meio que não poderá deixar de ter impacto no mundo que nos envolve… (Alvim, 1977).
É de ressaltar que, a par de uma luta pela independência institucional, os primeiros psicanalistas portugueses necessitaram – como aconteceu em quase todos os países do mundo –, de expandir e dar a conhecer a teoria e a prática psicanalítica. A revolução de Abril de 1974, em Portugal, vai permitir uma maior abertura e uma grande expansão das ideias psicanalíticas e assim, inicia-se a divulgação da teoria e prática psicanalítica nas universidades, hospitais, instituições ligadas à saúde e à educação. Francisco Alvim foi professor convidado da Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa até 1984 – ano da sua morte – onde dava a cadeira de psicanálise. Da mesma forma, Pedro Luzes foi Professor Catedrático de psicanálise na Faculdade de Psicologia e muitos outros psicanalistas tiveram posições de relevo nas universidades portuguesas, assim como em lugares de chefia nas instituições de saúde mental, em hospitais e na educação.
Foi neste contexto que, em Agosto de 1977, surge a primeira edição portuguesa da Standart Edition – toda a obra de Freud – que sairá numa editora brasileira, sob a direcção e revisão de Jayme Salomão, com a colaboração de um conselho permanente de consulta onde se incluíam dois psicanalistas portugueses - Francisco Alvim e Pedro Luzes.
Francisco Alvim, infelizmente, morreu muito cedo, o que não lhe permitiu deixar muita obra escrita. Os artigos que deixou em revistas da especialidade, em Portugal como em França, apresentavam-se, geralmente, como ensaios onde integrava a investigação clínica, que nascia da sua sólida experiência como psicanalista e que interlaçava com a teoria psicanalítica, sobretudo próxima do pensamento freudiano, assim como dos seu “Mestre e Amigo” Dr. Raymond de Saussure. Para entendermos a sua obra escrita e as questões que lhe interessavam investigar, é necessário mergulhar numa época em que os psicanalistas – influenciados pela grande obra de Freud, os “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”, considerado o segundo mais importante livro da sua vastíssima obra –, investigavam as vicissitudes da sexualidade humana na clínica analítica. A descoberta da precocidade do desenvolvimento da sexualidade que teria início na infância, ao contrário do que se pensava até então (que era na puberdade) desencadeou perplexidades, mas também, entusiasmos. Freud recomendava aos seus colegas que não descurassem da observação directa do desenvolvimento da sexualidade das crianças, no sentido de confirmar e validar as suas descobertas. É neste contexto de entusiasmo e de interesse que surge a descrição do “pequeno Hans” . Uma releitura deste caso mostra como Freud estava interessado em validar, através da observação directa, as questões que se colocavam no material clínico dos seus pacientes adultos,
sobretudo no que diz respeito à importância da realidade da bissexualidade – jogo de identificações em relação à figura paterna e materna, constituindo a bissexualidade uma característica normal e universal de todo o ser humano –, das pulsões genitais e pré genitais, do complexo de Édipo, dos sentimentos de castração e dos factores traumáticos na origem da angústia de castração ao longo do desenvolvimento da criança.
Francisco Alvim, em todos os seus trabalhos escritos, cita e refere-se ao pensamento e à obra de Freud. Assim, apresentou em Lisboa, em 1962, um ensaio sobre “Troubles de l'Indentification et Image Corporelle” (RFP, 1962) onde elabora e discute “a ideia central que era a de utilizar a observação clínica das afeções neurológicas da existência dum esquema mental em relação ao corpo humano e de aplicar à clínica psicanalítica com o objectivo de melhor compreender as perturbações dos processos de identificação”.
Em 1979, em conjunto com Valle, M.A.M.; Santos, O.S., Alvim, F., Luzes, apresenta na International Review of Psycho- Analysis, as quatro cartas escritas por Freud a Abel de Castro, entre 1924 e 1929, e que representam um facto que enriquece a história da psicanálise em Portugal. Publica também na revista francesa de psicanálise (RFP, 1983) uma comunicação sobre “Perversion, Image du Corps et Fonctionnement du Surmoi”. Neste artigo, retoma o pensamento de Freud e a partir dele e da sua própria experiência, como o caso clinico apresentado – que hoje diríamos tratar-se dum caso limite grave-mostra e faz um “…paralelo entre o mecanismo perverso e as perturbações da imagem do corpo”. Em 1980, na Revista Psicologia (I,2:151-154), escreve um artigo: “Leitura psicanalítica do romance ‘Sinais de Fogo’ de Jorge de Sena” onde revisita os “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade – as Transformações da puberdade” de Freud.
A proximidade dos conflitos vividos pelos autores não lhe confere um necessário recuo para os formalizar em termos de um processo psicológico evolutivo. Por isso, “Sinais de Fogo” só pode ser uma obra tardia e quiçá inspirada por uma ideia de morte e, através da qual, a rememoração faz o seu efeito. Convém aqui relembrar que também os “Três Ensaios” de Freud são uma obra de reconstrução feita através das descrições dadas pelos clientes adultos vistos na pratica psicanalítica… Jorge de Sena foi um adolescente do meu tempo. Eu conheci-o… eu o escolhi para ilustrar a minha conceptualização sobre o processo analítico demostrado pelo ensaio freudiano, a meu ver um dos grandes momentos da criatividade do Mestre da Psicanálise (Alvim, 1980).
Em 1983, na Análise Psicológica (4 (III); 441-444), publica, em português, um artigo em que retoma um tema anterior com algumas mudanças – “Perversão sexual, imagem do corpo e constituição do super-ego”. Sublinha neste trabalho:
Considero a perversão como uma falência completa da organização edipiana. Nestas condições certas moções pulsionais não podem ser integradas no Ego, como objectos vivos, e terão como destino o terem que ser evacuadas sob a forma de acting-out. Diria que a característica essencial de toda a organização perversa é o facto de ter que ser exprimida por acting-out“ (Alvim, 1983).
Em 1984 - ano da sua morte e de perdas pessoais importantes - apresenta no Congresso de Línguas Românicas, realizado no Estoril, um trabalho clínico com uma elaboração teórica, a propósito do caso de uma paciente. Este trabalho, que foi publicado na Revista Francesa de Psicanálise em 1985 com o título de “Nevrose d'angoisse ou nevrose primordiale”. Na conclusão sublinha: “Admite-se a hipótese que a nevrose de angustia é provavelmente a neurose básica que pode organizar todas as outras segundo as vicissitudes da pulsão e do contra-investimento” .
Dois anos após a sua morte, em 1986, a revista “Psicologia V II-15” publica um trabalho seu, que anteriormente tinha sido apresentado em Genebra a um grupo de pais, com o seguinte título – “Meus pais não ousaram falar – Educação Sexual”. Salienta, como introdução, que esta lição teve um eco inesperado na pacata e puritana Genebra e em muitos jornais diários, entre os quais o conhecido Jornal de Genebra, que dedicou coluna e meia na sua segunda página. “Para mim foi muito estimulante” .
É importante recordar as palavras de Francisco Alvim, escritas no editorial do primeiro número da Revista Portuguesa de Psicanálise, em Abril de 1977. Como fundador desta revista salienta o seguinte:
A nossa determinação no passado dá-nos a futura garantia de que iremos prosseguir no mesmo espirito de que sem auxílios ou pressões que nos possam vincular a qualquer coisa que não seja a da psicanálise cada vez mais independente e criativa (Alvim, 1977).
Francisco Alvim, infelizmente, morreu precoce e inesperadamente, enquanto estava de férias, em 1984. Na sessão de homenagem, realizada a 5 de Dezembro de 1984, Mário Casimiro – que infelizmente também já morreu –, enalteceu-o de uma forma profunda e brilhante:
(…) o homem de grande coração que merece ser evocado, não de uma maneira maquinal…
Page 89um homem como Alvim deveria ser evocado de outra maneira mais viva, por recordações mais calorosas e mais autenticas, naquela zona de experiência situada na interacção entre o interno e o externo, do diálogo entre a criatividade do evocado e a do evocador, que se situa numa zona intermedia entre as duas. Era isso que Alvim era capaz de fazer com uma magistral intuição, como poucos farão e que eu não saberei fazer neste momento, infelizmente… Era admirável generosidade, a ilimitada liberdade que se revelava a todo o momento… Não negando qualquer sacrifício, sendo o grande obreiro da fundação da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, trabalho que continuou na formação de novos psicanalistas… Dedicava-se de corpo e alma ao Instituto de Psicanálise em que sempre foi o maior obreiro e animador (Casimiro, 1984).
Tivemos o privilégio de contactar de perto com o Dr. Francisco Manuel Barreto Alvim, como psicanalista e como formador. Mas ao pensarmos nele, parece que não conseguimos encontrar as palavras adequadas em relação aos sentimentos fortes que ele ainda nos evoca. Encontramos a memória de uma imagem de uma vigorosa e calorosa presença, sempre disponível para mostrar as contradições da vida psíquica que impediam a verdadeira liberdade dos afectos. Não podemos deixar de o recordar, pedindo emprestadas as palavras dos poetas, que traduzem melhor o que não podemos exprimir emocionalmente. Devemos a ele a simplicidade do encontro com os afectos mais profundos. Como Goethe sublinhava, “onde se deve procurar a liberdade é nos sentimentos. Esses é que dão a essência viva da alma”. Foi esta a última lição que Francisco Alvim nos deu.
Lisboa, 24 de agosto de 2017