Francisco Alvim surge como um dos impulsionadores da psicanálise em Portugal, numa época onde se vivia um ambiente sócio-político ditatorial, com forte oposição e resistência à psicanálise, levantando grandes dificuldades, por si comparadas às dificuldades sentidas por Freud na implementação e criação da psicanálise na sociedade vienense. No seu centenário, em sua homenagem, fomos saber como o homem, o psicanalista, Francisco Alvim, foi vivido, sentido e recordado por dois psicanalistas, que com ele privaram.
EDVIGES ESPADA GUERREIRO (E. E. G.) E MARIA DA CONCEIÇÃO SIMÕES (M. C. S.) - No início do século XX o pensamento de Freud chegou a Portugal, nomeadamente no círculo médico com Egas Moniz e Sobral Cid, estando presente também na correspondência que Freud manteve com Abel de Castro. Como poderíamos pensar no homem, médico neurologista, que se interessou pela psicanálise e parte conjuntamente com Pedro Luzes, para a Suíça, à procura desse saber?
MARIA JOSÉ GONÇALVES (M. J. G.) - Francisco Alvim deixou-se entusiasmar pelo seu patrono Diogo Furtado, neuro-psiquiatra eminente, conhecedor da obra freudiana e atento à expansão da psicanálise na Europa, depois da segunda guerra mundial.
A psicanálise, ao trazer a sexualidade como fonte dos sintomas neuróticos para o debate médico, e instaurando um método terapêutico inovador, suscitava muita desconfiança e ameaçava a moral vigente.
Num meio intelectual cinzento, retrógrado e isolado em relação à Europa, trazer a psicanálise para Portugal era um desafio a que Francisco Alvim, homem virado para o futuro, entusiasta e, até certo ponto, transgressor, não foi certamente indiferente. Atendendo à sua personalidade, também podemos supor que a curiosidade pelo seu auto-conhecimento tivesse sido despertada por esse projecto e tivesse decidido embarcar nele.
Psiquiatra da Infância e da Adolescência. Psicanalista. Membro Titular, com funções didácticas da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). Presidente da Comissão de Ensino da SPP. e-mail:
Psiquiatra. Psicanalista. Membro Titular, com funções didácticas da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA) e Membro Honorário da SPP. e-mail:
Psicóloga Clínica e da Saúde, Psicoterapeuta, Psicanalista. Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA), assistente editorial da Revista Portuguesa de Psicanálise. e-mail:
Psicóloga Clínica e da Saúde, Psicoterapeuta, Psicanalista. Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA), assistente editorial da Revista Portuguesa de Psicanálise. e-mail:
JAIME MILHEIRO (J. M) - Pensaremos sobretudo na sua capacidade de entender, decidir e contrariar os obscurantismos salazarentos e os academismos bafientos do seu tempo. Era preciso coragem, ambição e espírito combativo para entrar em determinados temas e para “fugir” do país. A sua condição socioeconómica também ajudava.
Neurologista competente, publicamente reconhecido, insatisfeito com as ciências que percorria e as terapêuticas que exercia, F. Alvim buscava novos leituras e novas aberturas para os problemas que encontrava.
E. E. G. e M. C. S. - Como é sabido, Francisco Alvim e Pedro Luzes fazem parte de um movimento da história da psicanálise em Portugal, a que posteriormente se juntou João dos Santos, criando um grupo de estudos, tutorado pela IPA, que mais tarde deu origem à Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Como podemos integrar Francisco Alvim, num ambiente sócio político ditatorial, com uma atmosfera de grande hostilidade, descrédito e forte resistência à psicanálise nos meios científicos da época, que se lança tão obstinadamente em tal empreendimento?
M. J. G. - Alvim, que esteve imerso num ambiente profundamente psicanalítico como era o de Genève do seu tempo, estava convicto da importância científica da psicanálise e dos benefícios da terapêutica psicanalítica e, por essa razão, defendeu muito empenhadamente a sua implantação em Portugal, não se deixando abater pelas dificuldades, que foram muitas. Mas não foi só com o regime político da época que Alvim se confrontou. Havia igualmente grandes obstáculos por parte da comunidade científica, um dos quais era a exigência que a sociedade de psicanálise fosse uma sociedade médica. F. Alvim ganhou a causa e a Sociedade de Psicanálise foi criada em 1973, a nível nacional, em plena era marcelista. Também com a IPA e os seus comités, Alvim teve as suas “guerras” mas, após 15 anos de duras penas e sem nunca abrandar a sua luta, a SPP foi reconhecida como membro componente da IPA em 1981. Podemos dizer que F. Alvim se dedicou de alma e coração à criação, organização, e estabilização da SPP. Mas é justo referir que Alvim não esteve só. Sem fundos próprios e muito poucos sócios, a SPP também se ergueu graças à determinação e ao esforço financeiro de todos os seus fundadores.
J. M. - Foi um risco, em múltiplos sentidos. Mas há sempre quem do risco faça caminho, erigindo conhecimento. Pensar nas facturas inconscientes que cada ser humano transporta, tentar metodologias francamente opostas às sufocações tradicionais e às quadraturas habituais… A Psicanálise era a liberdade, provavelmente também a libertação… Traduzia fascínios implícitos e movimentos deliberados.
F. Alvim sempre revelou uma efectiva atracção pela Psicanálise, pelas suas venturas e desventuras… Atracção que o tempo nunca desfez… Numa espécie de idealização transgressora, impulsionadora de si mas ponderada de raiz.
Fazer Psicanálise pessoal, fazer formação para transmitir, era naquela altura substancialmente mais intenso do que hoje, porque contrariando as focalizações determinantes exigia esforço suplementar. Só autenticamente comprometido alguém saltava barreiras e participava nas lutas que adivinhava, bem perto conduzidas.
E. E. G. e M. C. S. - Apesar de Francisco Alvim ter sido sobretudo um clínico, escreveu uma série de artigos e participou em conferências internacionais, dando conta, já na altura, não só de uma ligação entre psicanalistas portugueses e europeus, como também da relevância da escrita como veículo de, como dizia Francisco Alvim, “criação de um meio psicanalítico”. Falando agora da Revista Portuguesa de Psicanálise, da qual Francisco Alvim, foi o primeiro Director, ainda numa versão policopiada,
qual o papel que este órgão passou a ter e tem na formação e divulgação da psicanálise?
M. J. G. - É verdade, a publicação da RPP foi um marco muito importante na vida da SPP. Na minha opinião, a RPP é uma revista científica vocacionada para a publicação de artigos que abordem a teoria e a prática psicanalíticas, as interfaces com disciplinas afins, bem como a psicanálise aplicada. É, portanto, uma revista que se dirige à comunidade psicanalítica, nacional em primeiro lugar, mas também internacional. Órgão oficial da SPP é a publicação onde os psicanalistas publicam os seus trabalhos, as suas investigações, e dão a conhecê-las aos seus pares e aos estudiosos da psicanálise. Do ponto de vista internacional, a RPP não só publica autores estrangeiros como circula nos meios internacionais através de trocas de publicações com outras sociedades.
Deste modo, é um veículo fundamental para a formação e actualização dos psicanalistas, e é verdade que foi fundamental para a criação de uma comunidade psicanalítica portuguesa, mas não me parece que o seu objectivo seja a divulgação da psicanálise fora do meio psicanalítico.
Acresce que a revista não tem uma distribuição, nem uma procura que a torne um meio de divulgação da psicanálise eficaz. Por um lado, ainda há muita resistência e descrença em relação à psicanálise, que se tem intensificado nos últimos anos, por outro porque as leis do mercado dificultam a sua distribuição. Portanto, eu diria que a RPP, no que respeita à formação, é um auxiliar precioso e um meio fundamental no diálogo entre psicanalistas, mas que a divulgação da psicanálise nos meios extra-analíticos terá recursos mais adequados e eficazes, nomeadamente a partilha de informação gerada através dos meios tecnológicos.
J. M. - Organizar um novo método supõe espaço de pensar, discutir e divulgar, sem interdições no subsolo. Esse foi um seu grande desígnio, em assíduo contacto com a Europa, sobretudo França e Suíça.
Recordo o sorriso com que se referia às suas “modernidades de alentejano”, antes e depois do 25 de Abril, na atitude de quem espera e afirmativamente deseja. E lembro o seu orgulho pela expansão da Psicanálise em Portugal, ao verificar no início da década de oitenta que o número de praticantes e aspirantes largamente excedia o que vinte anos antes supusera.
Nessa linha, arranjar uma sede e fundar uma Revista seria imprescindível, num País onde o ensino das questões psiquiátricas e psicológicas consistia em alardear citações de autores estrangeiros de duas em duas frases e debitar palavras difíceis, com os doentes embalsamados em nomenclaturas botânico-descritivas.
E. E. G. e M. C. S. - Partindo agora para a sua vivência do pensamento analítico, como conheceu Francisco Alvim e que lugar lhe atribui no processo de formação da sua identidade psicanalítica?
M. J. G. - Quando cheguei a Portugal, vinda também de Genève, um meio muito rico e estimulante do ponto de vista psicanalítico, já trazia o projecto de me tornar psicanalista. F. Alvim era a referência óbvia na psicanálise e assim me tornei sua analisanda, enquanto trabalhava com João dos Santos no Centro de Saúde Mental Infantil. São as minhas duas primeiras referências no campo psicanalítico.
Num meio tão pequeno, como era na altura a comunidade psicanalítica, o contacto extra-analítico dos candidatos com os analistas séniores era inevitável e, portanto, conheci-o relativamente bem, como pessoa. Era um homem afectuoso, generoso, impulsivo, bastante autoritário, embora ele não se desse conta dessa sua faceta, que funcionava com as suas próprias regras, nem sempre as mais apropriadas, mas que se impunha como figura de referência. Numa palavra, era um patriarca.
Com Alvim, aprendi sobretudo a estar na psicanálise, a respeitar o setting, a ouvir, a intervir apenas quando necessário. Manter-me discreta em relação aos analisandos foi uma opção em contra-corrente à minha experiência pessoal.
Alvim não era um teórico, mas as intervenções dele nas reuniões tinham uma verdade clínica que ainda hoje me servem de orientação e, talvez por isso, ainda hoje me considero uma psicanalista sobretudo próxima da clínica.
J. M. - “Conheci-o” a partir de 1967, deitado no seu divã, três ou quatro vezes por semana, durante cinco anos e meio. Vinha do Porto, passava dois dias em Lisboa, deambulava por dentro e por fora de mim. Dessa maneira respondia à inundação psicanalítica que como bolseiro tinha frequentado em Paris, nos serviços de Psiquiatria da Faculdade de Medicina.
F. Alvim ocupou lugar cimeiro no meu entendimento pessoal, num registo de poucas palavras e de empáticos desconfortos, segundo a técnica da época, em que para além das transferências e contratransferências predominavam frustrações e teorias pulsionais. Conheci-o depois noutras paridades, em Lisboa e no Porto, onde ainda antes do 25 de Abril, por insistência minha, veio fazer públicas observações de doentes. Nos seus dois últimos anos de vida ( e ), ambos integrámos a Comissão de Ensino da SPP, nas reuniões transparecendo o seu gosto pela cultura, a sua provocante vivacidade e a sua desenvoltura.
F. Alvim foi um pioneiro e um exemplo. Foi alguém que, de certa maneira, nos ensinou a sorrir e a valorizar as coisas boas do presente e o futuro, sem cartilhas nem sentinelas. Dele me resta uma profunda admiração e respeito.
E. E. G. e M. C. S. - Analista de uma época, muito influenciado pela obra de Freud e imaginando que Francisco Alvim faria parte deste debate, como seria o vosso diálogo sobre a psicanálise de ontem versus a psicanálise de hoje?
M. J. G. - Talvez o nosso diálogo se centrasse na importância da contra-transferência, naquela altura reconhecida, mas ainda pouco utilizada, e também na formulação e gestão das interpretações.
Outra área muito controversa nos dias de hoje seria o lugar da sexualidade no funcionamento mental (e parece que o estou a ouvir a defender acaloradamente a psicossexualidade infantil), bem como a especificidade da psicanálise, assunto em que, parece-me, seria intransigente.
F. Alvim é alguém que me faz bem recordar, pela sua afectividade e pela sua coragem e determinação.
J. M. - A Psicanálise será eterna… Enquanto houver seres humanos… Enquanto houver problemas encapsulados… Enquanto houver desejos de os esclarecer… Enquanto os Sapiens se mantiverem no que somos. Mas terá de responder aos projectos, técnicas e integrações científicas e sociais que evoluem.
Hoje, com muito interesse, tertuliaria com F. Alvim sobre o desenrolar da Psicanálise e da sua História em Portugal e no mundo, sobre o seu papel no conhecimento, os seus altos e baixos, o seu derrame na cultura, a sua influência na Arte, a sua contribuição para a pedagogia. Jamais esquecendo os alcances clínicos que a determinaram e determinam… Devidamente apreciando quanto de positivo nos trouxe.
Penso que sorriríamos sobre os malabarismos de linguagem que em certos nichos tomaram conta da cidadela e fortemente contribuíram para rejeições e descréditos; que faríamos troça dos filosofismos que muitos passaram a frequentar em expansões narcísicas de aparência pensadora: que arrasaríamos os psicologismos ditos psicanalíticos que se sentam em grelhas e hieróglifos para explicar o funcionamento da mente humana, num regresso à geometria psicológica que Freud derrubou… Com muito gosto o fazendo.
Analisaríamos depois, num registo já mais preocupado, as interfaces onde a Psicanálise actualmente se choca, melhora, piora ou adia, tentando desmontar as dificuldades nas três zonas onde, quase por definição, a sua integração permanece insuficientemente esclarecida: o corpo, as neurociências e a estupidez… Renovando interesses e considerando que valeu a pena… Considerando, sobretudo, que a Psicanálise foi o melhor que fizemos na vida profissional.
O nosso muito obrigada por terem aceitado fazer esta entrevista.
Lisboa, 22 de Julho de 2017