O Psicanalista Italiano Andrea Marzi reúne nesta obra um conjunto de textos notáveis na sua profundidade e actualidade, numa complexa tarefa de reflectir psicanaliticamente novas tecnologias, ciberespaço, e a omnipresença da internet nos nossos dias.
Se o título principal é bem óbvio no que pretende introduzir – “Psicanálise, identidade e a internet” -, já o subtítulo nos remete para problemáticas algo mais enigmáticas, próprias ao carácter exploratório, que penso que define na sua excelência a estrutura deste livro.
O conjunto de reflexões teóricas permitem compreender melhor alguns fenómenos sociais e relacionais, drasticamente influenciados pelas tecnologias e sua extraordinária expansão no decorrer deste século.
Este livro é absolutamente inovador e fundamental a todos os psicanalistas e psicoterapeutas. Por um lado, permite uma melhor compreensão de estruturas psíquicas e sua organização, nas múltiplas formas de expressão através do ciberespaço. Por outro lado, analisa de forma cuidada a noção de identidade e seus desenvolvimentos. Por fim, introduz ainda as particularidades decorrentes nas alterações de técnica clínica, muito para além da simples viabilidade e limitações de uso do skype.
O brilhante foreword de Antonino Ferro, que merece uma leitura cuidadosa, denominado “People, characters, holograms”, determina só por si o quanto de importância esta temática se tem tornado para os psicanalistas e para o futuro da Psicanálise.
Também a introdução ao livro que Andrea Marzi elabora nos permite questionar se a realidade
Psicanalista, Membro Titular, com funções didáticas, pela Sociedade Portuguesa de Psicanalise (SPP) e pela International Psychoanalytical Association (IPA). Presidente da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. e-mail:
virtual, o ciberespaço, a atividade de sonhar e de fantasiar, e seus potenciais, surgem como uma nova dimensão de experiência humana, cuja descoberta ainda apenas iniciámos.
O sentimento de nos “expandirmos” mentalmente, um pouco através das múltiplas plataformas e tecnologias, onde demarcamos o nosso espaço, nossos gostos, atitudes e interesses parece colocar-nos numa mudança paradigmática galopante, por vezes confusa e estranha, e que merece uma atenção cuidadosa dos psicanalistas sobre estas “extensões” do Mundo Intrapsíquico e dimensões relacionais.
O livro encontra-se dividido em três partes.
Inicialmente, discute conceitos de ciberespaço, cibernética e sua evolução histórica nas Ciências Sociais e Humanas. A utilização da tecnologia tem permitido vivências intensas, onde os fenómenos de imersão, interacção e imaginação são experienciados a graus por vezes difíceis de conceber, exigentes para a diferenciação da realidade interna e externa.
Os fenómenos de exposição e omnipotência e o sentimento de controlo promovidos pelo ciberespaço são detalhadamente abordados por Valeria Egidi Morpurgo, no capítulo três, referindo-se ao uso de tecnologia que favorecem a expressão. “Tenho o Mundo na minha mão” (que permite acesso a informação em tempo real e vasto conhecimento no tablet, no celular, etc.), contrapondo com o intenso receio de perda dos limites do Self e da sua privacidade.
Também Marco Longo, no capítulo quarto, se debruça sobre a cada vez mais difícil definição da fronteira entre o real e o virtual, expondo o seu interessante percurso na utilização de ferramentas ou plataformas (facebook, second life, etc.), defendendo a necessidade de os psicanalistas serem parte ativa nestas inovações sociais.
Numa segunda parte – “Identidade e ciberespaço” -, o livro introduz uma preocupação de se relacionar com a clínica psicanalítica, onde para além de abordar diversas problemáticas, propõe-se reflectir igualmente sobre potencialidades transformadoras, aproximando-se de conceitos winnicottianos de espaço potencial.
Andrea Marzi intitula o seu contributo “Cyberghosts from the depths”, perspectivando o ciberespeaço como expressão do processo fantasmático, onde diversos e complexos fenómenos permitem desenvolver conceitos associados a funcionamentos mentais tão diversos como de Claustrum, criatividade, perturbações intrusivas ou manifestações sadomasoquistas.
Por fim, a terceira parte, são capítulos de natureza clínica, que abordam perturbações tremendas e o afastamento do contacto com a realidade, em que os autores discutem circunstâncias clínicas de enorme gravidade, remetendo para temáticas da dependência aos jogos ou à imersão psíquica na net, a elaboração à dor mental e ao impulso epistemofílico.
É um livro corajoso, que assume alguns riscos pela grande actualidade do tema. Escrito de forma muito rigorosa, permite uma reflexão psicanalítica compreensiva e com utilidade clínica de temas associados à extraordinária expansão da tecnologia no mundo atual.
Lisboa, Janeiro de 2017