O psicanalista Dr. James S. Grotstein (1925-2015) foi considerado um dos mais profícuos, brilhantes e importantes investigadores e divulgadores da obra de Bion. Os seus artigos, quer teóricos como clínicos, tiveram um enorme impacto no pensamento psicanalítico contemporâneo de muitos analistas do mundo inteiro, incluindo Portugal. James S. Grotstein inspirou-se no pensamento e trabalho de Bion – seu analista e professor – para elaborar e escrever os seus trabalhos teóricos e clínicos. No prefácio dos livros agradece a todos pacientes, aos que ajudou e aos que não pôde ajudar, afirmando:
Foram os pacientes que me levaram a reflectir sobre mim e a consultar diversas escolas de pensamento psicanalítico, até que eu ficasse imerso na escola kleiniana - e, agora, póskleiniana e bioniana -, ao mesmo tempo em que sou grato e utilizo a sabedoria de outras escolas.
O autor, com simplicidade, mas com profundidade, mostrou nesta obra a sua forma de pensar e trabalhar na clínica psicanalítica, assim como a importância que deu à partilha teórica e prática com outros analistas, como podemos constatar através da apresentação dos seus casos. O agradecimento e a dedicatória que expressa no princípio do livro a Wilfred Bion, Ronald Britton, Albert Mason, Thomas Ogden e Antonino Ferro, mostra bem a sua generosidade, assim como a sua capacidade de criar espaços de debate entre o seu pensamento clínico e teórico com outros analistas.
Tivemos o privilégio de ler a primeira edição destes dois livros em 2009, em língua inglesa. Foi com prazer que nessa altura - embora já conhecêssemos a sua obra anterior - pudemos contactar de perto com a síntese do seu
Psicóloga clínica e da Saúde. Psicoterapeuta pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Psicanalista, membro Titular, com funções didáticas, pela Sociedade Portuguesa de Psicanalise (SPP) e pela International Psychoanalytical Association (IPA). Directora da Revista Portuguesa de Psicanalise (SPP) e- mail: mfalexandre@mail.telepac.pt
pensamento teórico e clínico. Felizmente, estes dois volumes foram traduzidos, este ano, para língua portuguesa, alargando e criando a oportunidade para que os leitores tenham acesso mais fácil ao seu fecundo pensamento. Nesta recensão quisemos somente abordar alguns aspectos relevantes deste trabalho, que nos pareceram de importância considerável para a clínica, mas deixaremos aos leitores a liberdade e o prazer de descobrirem os aspectos e temas que mais lhes agradarem.
No primeiro volume o autor cria pontes de elaboração teórica entre a sua experiência e o pensamento kleiniano, pós-kleiniano e bioniano.
Assim, no capitulo três do seu livro, aborda de uma forma clara e didática, a evolução dos conceitos da técnica kleiniana para a “pós-kleiniana”, assim como para a bioniana. Sublinha e enfatiza a relevância, nestas correntes de pensamento, da evolução de certos conceitos, como por exemplo “o papel da reconstrução” e do “aqui e agora”. Este autor sublinha que o conceito de “aqui e agora” refere-se não apenas ao “passado apresentado”, mas “também ao clima emocional que se instala entre o analisando e o analista, um evento em andamento ao qual Bion, se referia de maneiras variadas como turbulência mental ou emocional, mudança catastrófica ou transformações em O. Neste capitulo, explicita a importância da introdução do conceito de Klein, a propósito da transferência, a que a autora chamava de ”situações totais“. Isto é a transferência, representa a passagem do passado para o presente, mas envolve e traz consigo as respetivas emoções, as defesas e as relações objectais. Acrescenta, citando Joseph, que a transferências por definição devem incluir tudo o que o paciente traz para a relação. Assim, a sessão analítica, na sua totalidade, é constituída por transferência, contratransferência, rêverie. O autor, de uma forma muita clara, sublinha que ”o passado do qual nos lembramos nunca permanece no passado; ele continua e se repete até que seja encarado e compreendido (passado apresentado, Bion)“. Acrescenta ainda que devemos aceitar que não pode haver ”aqui e agora“, se não tiver havido um ”lá e então“, e que ambos se reúnem na análise. Conclui neste capitulo que a diferença mais significativa entre a técnica kleiniana tradicional e a técnica pós-kleiniana é que, na primeira, o analista geralmente observa o paciente a uma distância respeitosa e, na segunda, os dois são claramente participantes mútuos numa relação de partilha.
No sexto capitulo, aborda a evolução do conceito do terceiro analítico, que teve origem em Jung e que foi desenvolvido por Hanna Segal, e mais tarde por Thomas Ogden e pelo próprio Grotstein e André Green. Contudo, segundo o autor, parece ter diferentes significados na psicanálise. Ogden considera que este conceito “inclui de forma indivisível a subjectividade do analisando e do analista” incluindo, como o autor sublinha, “o terceiro sujeito subjugante”, o sujeito “combinado operante que dirige inconscientemente os comportamentos do analisando e do analista, um conceito que completa de forma bela a teoria bioniana de rêverie”.
Descreve também, num dos capítulos deste volume, a importância da sessão psicanalítica como sonho, teatro de improviso e drama sagrado. Sublinha, citando Bion, que a sessão psicanalítica pode ser concebida como um sonho em si e é consequentemente interpretável através da análise dos sonhos. Sublinha que “um sonho relatado durante uma sessão constitui, por sua vez, um sonho dentro do sonho e é contextualizado dentro da matriz associativa que, geralmente, precedem e sucedem o sonho na sessão”. Salienta, um aspecto clínico relevante, que faz parte da experiência dos psicanalistas, que o sonho dentro sonho e as associações circundantes se interligam “halograficamente”. Acrescenta ainda uma observação importante que diz respeito ao processo psicanalítico sublinhando que “pedir que o analisando faça associações, embora seja uma intervenção válida por parte do analista, implica o risco de se isolar o sonho e suspendê-lo da sua matriz e contexto, assim como de despertar o analisando do seu transe analítico pré-consciente”.
Escreve e explora, igualmente, no capitulo 14, “O papel preponderante da fantasia inconsciente”, sublinhando que “todos os mecanismos de defesa em si constituem fantasias inconscientes sobre a inter-relação entre objectos internos e entre estes e o self”. As fantasias inconscientes são imagens em movimento que tem origem no período pré-léxico da hegemonia das imagens. Concordamos com o ponto de vista dos kleinianos/bionianos, quando dizem que as fantasias inconscientes são as transformações narrativas sensoriais que têm início nas impressões sensoriais ou de estímulos internos e externos e que surgem, como sabemos, nos primórdios da infância, antes da aquisição da linguagem verbal. O autor sugere que a fantasia inconsciente constitui “pensamento inconsciente” e que surge, normalmente, como uma combinação dos princípios da verdade, da realidade e dos processos primários e secundários do prazer e também da função-alfa que é uma combinação. Acrescenta ainda que a fantasia não serve necessária ou exclusivamente ao princípio do prazer - como Freud propôs - mas, como o autor sublinha, à força orientadora do inconsciente que é o impulso que dá apoio aos princípios da verdade e da realidade. Assim, chama a atenção igualmente - confirmado por aquilo que verificamos no campo da psicopatologia - que uma falha na função de sonho-fantasia representa igualmente uma carência na rêverie, na contenção e na função-alfa maternas. O autor considera, tal como Bion sublinhou, que
sonho e fantasia representam o mesmo processo, mas vivenciados de modos deferentes - visualmente versus verbalmente. A tarefa do processo analítico é permitir ampliar a capacidade do analista de forma a poder “reparar a rede de fantasias do analisando, isto é, a barreira de contacto entre a consciência e o inconsciente” que, o autor concebe, como uma continua corrente mítica.
Outro capitulo, que também merece uma leitura e uma reflexão, é aquele que diz respeito à importância organizadora da identificação projectiva. O autor sublinha que a projecção e a identificação projectiva são “idênticas” ou inseparáveis. O autor precisa estes conceitos, sublinhando que o sujeito “des-identifica” um aspecto de si mesmo, e projecta no objecto que então “se torna identificado com ele na opinião do sujeito que projecta”. Neste capitulo, o autor salienta a importância do contributo de Bion na ampliação deste conceito, que passa do efeito único estático da identificação projectiva sobre o objecto, a modelo de “duas pessoas-binocular” que, abre para múltiplos efeitos possíveis sobre o objecto, como a psicanálise contemporânea tem demonstrado.
O autor faz uma síntese, onde esclarece que se pode compreender a identificação projectiva como a evacuação de experiências dolorosas do self no objecto – como continente –, que “influencia sobre ou manipulação do objecto e a manifestação no pensamento analítico sob a forma de deslocamento”.
No segundo volume, o autor cria pontes de elaboração teórica entre a sua experiência e o pensamento kleiniano, pós-kleiniano e bioniano. Assim, após uma breve recapitulação da aplicação da técnica Kleiniana, pós-Kleiniana e Bioniana, ilustra estes pontos de vista através de detalhados relatos de casos clínicos. Na primeira parte do livro, aborda aspectos ligados à importância técnica das primeiras entrevistas com as respectivas indicações e contra-indicações para iniciar o processo analítico. Mostra claramente a importância das primeiras entrevistas e as diferentes técnicas de abordá-las. Sublinha que certas escolas do pensamento psicanalítico fazem uma distinção clara entre a consulta original face a face e a análise futura. O autor salienta, contudo, que “Klein e os seus seguidores, inclusive Bion, pareciam fazer frequentemente algo diferente disso”. Acrescenta a este propósito que “eles consideram que a análise já começou desde o início da entrevista inicial e, embora, se interessem pela história passada, não perguntam diretamente sobre ela, mas permitem que se revele por conta própria”. Em outras palavras, eles seguem as associações livres do analisando e “interpretam a transferência desde o princípio”. Estes pontos de vista parecem ser muito importantes, mas na verdade sentimos uma maior sintonia com o autor quando sublinha aspectos da sua experiência clínica, que vão ao encontro dos nossos. Desta forma esclarece que descobriu que pode ser útil em certas ocasiões estender a entrevista inicial por até seis sessões consecutivas para uma melhor avaliação e para uma análise mais adequada. Explicita o seu pensamento dizendo: “a minha postura varia de um analisando para outro, no que se refere a recolha do material da história”. O autor enfatiza que prefere – a nossa experiência vai no mesmo sentido- não o fazer, mas sim entrar em contacto com a história que emerge durante a análise. Contudo, estamos em sintonia com ele, quando explicita que podem surgir situações onde é importante se focar sobre a história, por acreditar que naquele momento se deve proceder. Sintetiza, através duma “piada bioniana apócrifa”, para que o leitor perceba melhor a profundidade destas questões: “não há problema em fazer uma história deste que se esqueça dela rapidamente”.
O autor, num outro capitulo, aborda uma questão de grande importância técnica no campo da psicanálise, que é a construção do quadro – o estabelecimento do “setting” analítico, a sua manutenção e sua preservação. Sublinha, neste capitulo, que os analistas gradualmente têm se dado conta de que o “setting” analítico favorece uma sensação de permanência para o analisando e constrói e estabelece aquilo que Tustin chamou “de ritmo de segurança”. Acrescenta ainda que o divã dramatiza, amplia e permite que o inconsciente selecione, mostrando que o facto de se deitar facilita uma mudança do mundo real para o mundo imaginativo, fantasmático e/ ou o ilusório. O que obriga uma capacidade de escuta e de compreensão, da parte do analista, em relação ao drama representado e vivido na relação do campo analítico.
Neste segundo volume, o autor apresenta ainda vários capítulos de importância relevante para a compreensão do processo analítico mas, por um lado, a exiguidade de espaço não nos permite abordar e por outro, parece-nos essencial dar lugar ao leitor para que ele se permita usufruir das descobertas que este livro desencadeia em nós.
Assim o autor, para além de alguns capítulos de grande importância teórica - “como ouvir e o que interpretar”, “o tratamento psicanalítico de estados psicóticos e borderline e outros transtornos mentais primitivos” -, apresenta cerca de vinte capítulos que descrevem casos clínicos apresentados pelo autor e por psicanalistas por si convidados.
Os últimos capítulos, de apresentação de casos clínicos, têm um grande interesse didático, porque conduzem o leitor para um espaço de diálogo imaginário com o autor que se apresenta sempre disponível para responder às questões que vão surgindo do material exposto.
Lisboa, 30 de agosto de 2017