Temos o prazer de publicar, neste número da Revista Portuguesa de Psicanálise (38-1), uma longa e incentivante entrevista com Stefano Bolognini — feita por duas colegas do corpo editorial da nossa revista —, na qual ressalta a sua sensibilidade, clareza e originalidade de pensamento, sobretudo quando descreve a sua experiência como presidente da International Psychoanalytical Association (IPA). Stefano Bolognini recorda e relata como introduziu no seu mandato, realizado entre 2010 e 2017, importantes inovações, como colmatou os obstáculos que foram surgindo, como analisou as questões que se colocaram em relação aos modelos de Psicanálise e, finalmente, descreve como elabora o presente e prevê a evolução do pensamento psicanalítico. É uma entrevista estimulante que nos incita a uma atenta e agradável leitura.
A Revista Portuguesa de Psicanálise (RPP) publica, neste número, as comunicações que se realizaram em Outubro de 2017, na V Jornada Ibérica Teórico-Clínica de Psicanálise, cujo título foi «Modificações do Corpo, Identidade e Disrupção». Este é um encontro científico marcado por trocas de experiências e partilhas no campo da Psicanálise e que se inscreve numa longa tradição de 29 anos de publicações conjuntas entre as três sociedades psicanalíticas ibéricas, sendo o Anuário Ibérico de Psicanálise um dos muitos exemplos dessa cooperação. Em torno do tema principal desta V Jornada, os diferentes analistas apresentaram diversas comunicações, que temos o prazer de publicar neste número da revista, partilhando assim com os leitores várias formas de pensar e de trabalhar analiticamente este complexo tema. Os colegas da Sociedade Espanhola de Psicanálise, de Barcelona, Jorge Tió e Begoña Vázquez, apresentaram a seguinte comunicação: «“Mi cuerpo es mío” – Algunos usos del cuerpo en la adolescencia». A psicanalista Elsa Duña Llamosas, da Associação Psicanalítica de Madrid, mostra-nos o seguinte artigo: «Algunos avatares de la transformación psíquica y de su ausencia». A psicanalista Maria Teresa Flores, do Núcleo Português de Psicanálise, expõe-nos e coloca questões de ordem teórica e técnica no seu artigo «A colonização do corpo pela mente como defesa face a angústias primitivas de aniquilação». Por fim, a psicanalista Conceição Melo Almeida, membro associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, apresenta-nos uma comunicação onde elabora sob o ponto de vista psicanalítico: «Corpo: o lugar relacional do inconsciente primitivo». São quatro comunicações que nos mostram diferentes questões teóricas e clínicas, e onde é manifesta a qualidade da dinâmica da relação entre psicanalista e estes pacientes difíceis, com profundas problemáticas de identidade.
Apresentamos também um conjunto de artigos teóricos e clínicos. No artigo escrito por Alexandra Coimbra, Ana Luísa Duarte Ferreira e Rita Marta, com o título «Corporal(mente) – A contratransferência somática», é proposto, através de vinhetas clínicas, aprofundar o conceito de contratransferência somática, de representação simbólica e de campo analítico. Publicamos também neste número o artigo feito por Nadja Nara Barbosa Pinheiro, com o título «Sonhar e brincar: caminhos para o viver criativo – Apontamentos a partir de Freud e de Winnicott». A autora, inspirando-se em Freud e Winnicott, propõe e sustenta a ideia «do sonhar e do brincar como paradigmas da constituição subjetiva» e dos «caminhos para o viver criativo». O nosso colega Vasco Santos apresenta-nos um artigo muito criativo sobre «O problema da habitação – Alguns aspectos», em que sublinha que «a abertura para o Outro é o que interroga e recria o espaço urbano e também a experiência analítica». Alexandra Raposo de Medeiros apresenta-nos o artigo «Schopenhauer no divã », pretendendo, através dele, encontrar «a criança psicanalítica de Schopenhauer através da construção de uma narrativa».
Terminamos, como é habitual, com recensões de livros que foram oferecidos à RPP ou à biblioteca da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Apresentamos uma recensão feita por Maria José Gonçalves ao livro escrito por Maria do Carmo Sousa Lima, Em que sítio da minha cabeça levo a Maria do Carmo – Da génese e destino da identificação projectiva. Também Ångela Vila-Real escreve sobre um livro de Orlando von Doellinger, Corpo e Identidade: Perspetiva Psicodinâmica da Unidade Somatopsíquica. Manuela Harthley fala sobre o livro de Orlando Fialho: Sujeito e Objecto na Cura Analítica. E, finalmente, Maria Fernanda Alexandre faz uma recensão do livro escrito por quatro analistas, com a coordenação de Ana Melícias, Psicanalisarum – Quatro Crianças no Divã.
Agradecemos a todos os colaboradores da Revista Portuguesa de Psicanálise. Esperamos que a leitura deste número suscite interesse e entusiamo pelo pensamento e pela escrita psicanalítica.