Este pequeno ensaio aborda alguns aspectos da noção de espaço mental e de espaço potencial na Psicanálise e, sobretudo, no pensamento de D. Winnicott.
Este conceito é expandido para a noção de habitar, de intimidade e das alterações com a actual tecno-sociabilidade. Por último, questiona-se a relação entre a cidade genérica e a Psicanálise, como vivência poética da concentração e como errância.
Freud amava as cidades, a dimensão biográfica das cidades.
De todas elas, Roma terá sido a sua paixão mais neurótica e nela encontrou, na sua visibilidade e invisibilidade topográfica, uma analogia para o próprio aparelho psíquico.
Na sua conceptualização, não se interessou, porém, pela questão do espaço mental, mas tão-só pelos mecanismos e dinamismo dos processos internos e externos. Para Freud, o ego tem de se defrontar com dois territórios estranhos e adversários: o interno (o recalcado) e o externo (a própria realidade).
O interesse da Psicanálise pelo conceito de espaço mental sofreu diversas evoluções pós-freudianas, sobremaneira com a teoria das relações de objecto. Melanie Klein deu ênfase ao mundo interno, aprofundou o conceito de fantasia e introduziu a ideia de posição.
Wilfred Bion, o expoente deste paradigma, criou uma teoria do pensar que não contempla apenas uma função cognitiva. O pensamento é visto como um espaço ocupado por não-coisas, enquanto a geometria euclidiana tem uma origem intrapsíquica, surgindo da experiência de um espaço que, no passado, foi ocupado por um sentimento ou emoção.
Nesta senda, Donald Winnicott, um psicanalista refractário, veio dar um contributo original ao fundamentar uma área intermédia de funcionamento psíquico situada entre a realidade psíquica interna e a realidade exterior, e tornando-se delas mediadora.
Dois conceitos são essenciais na sua obra: o de objeto transicional e o de espaço potencial.
O objecto transicional, como sintetiza Pontalis , não é um brinquedo comum (urso de peluche, dobra do cobertor), ele é, antes, «um objecto situado entre o polegar e o urso de peluche, constituindo-se como a primeira posse de qualquer coisa que não eu por parte da criança»3. Situa-se no campo da ilusão e é criador de ilusão.
Este campo constitui um espaço potencial entre o fora e o dentro, o subjectivo e o objectivo, entre as extensões do eu e do não-eu.4 É a partir desta angular que se poderá entender a interacção entre o brincar, a criatividade, os fenómenos transicionais e a experiência cultural.
O pensamento analítico winnicottiano permitiu também deslocar a concepção freudiana de sonho. O seu estatuto teórico mantém-se, mas o seu estatuto prático altera-se.
De forma simplificada, pode dizer-se que o sentido do sonho é abandonado em favor de uma concepção do sonho como experiência, em que o sonho pode advir como objecto transicional entre o eu e o não-eu. O sonho é entendido enquanto lugar — espaço — que ocupa na tópica subjectiva e no aqui e agora da sessão analítica.
O sonho é um quadro pintado.
O título é tomado de empréstimo a Ruy Belo.
Psicanalista, membro associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e da Intenational Psychoanalytical Association (IPA). Vice-director da Revista Portuguesa de Psicanálise. E-mail:
, Entre o Sonho e a Dor, p. 191.
, Entre o Sonho e a Dor, p. 32.
O psiquismo é sonho.
Dos objectos que encontram no sonho uma representação simbólica, a casa é a representação mais típica e frequente.
Freud (1916–1917) entende a casa como símbolo feminino, como a habitação primária, uma vez que a mulher mesma constitui o espaço no qual o ser humano habita durante a sua vida intra-uterina. Vê, também, como seus equivalentes as representações simbólicas de castelo, fortaleza e cidade.
No seu rasto, será Bachelard (1957) quem nos irá propor uma topoanálise da casa, reflexão admirável sobre a poética do espaço.
A casa deve ser percebida como um lugar de imaginação, uma topografia simbólica e imaginária do nosso íntimo.
A função primeira da casa é a de habitar.
«A casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador, permite-nos sonhar em paz. A casa é um dos maiores poderes de integração para os pensamentos e os sonhos do homem.»5
A casa é uma casa do Paraíso, uma casa onírica. Uma casa da infância.
Ela constitui-se como objecto transicional, algo situado entre o não-eu e o eu, coisa mental que opera além da protecção.
Juhani Pallasmaa (2017), arquitecto finlandês, ao teorizar sobre as questões da identidade, intimidade e domicílio, sobrepõe a noção de lar à noção de casa.
«O acto de habitar é o modo básico de alguém se relacionar com o mundo. O acto de habitar é também um acto simbólico que, imperceptivelmente, organiza todo o mundo do habitante. Não apenas os nossos corpos e necessidades físicas, mas também as nossas mentes, memórias, sonhos e desejos devem ser acomodados e habitados. Habitar é parte do nosso próprio ser, da nossa identidade.»6
Para a Psicanálise, justamente, o ser humano precisa de uma fronteira para o íntimo. Sem um dentro protegido não conseguimos afrontar o exterior. A psicanálise é uma vivência poética da concentração. Como acto político que também é, o acto psicanalítico precisa de um lugar estável para poder escutar a singularidade que refaz a história do sujeito e a metaforiza. E o lugar onde acontece o acto político na cidade requer um lugar estável, a pólis.
Em 1902, Georg Simmel escreve A Metrópole e a Vida Mental, que inicia assim:
«Os problemas mais graves da vida moderna derivam da reivindicação que faz o indivíduo de preservar a autonomia e a individualidade da sua existência, em face das esmagadoras forças sociais, da herança histórica, da cultura externa e da técnica de vida.»7
A cidade moderna, sede da economia monetária, vai operar uma mudança na subjectividade e na relação entre o espaço público e o privado.
A criação freudiana acompanha este movimento da modernidade e é sua intérprete. Mas à vertigem da aceleração opõe a vertigem do retardamento, uma presentificação do movimento, análoga à pintura duchampiana.
No seu ensaio clássico O Inquietante (Das Unheimliche), Freud (1919) mostra como o familiar, o conhecido, o íntimo, o que evoca o lar, acaba por incorporar o não familiar. O estranho é a repetição, o retorno do recalcado.
Poder-se-á objectar que se a intimidade é um conceito fundamental da modernidade, ele já não é pregnante no presente, pulverizado pela exposição e circulação permanentes.
Viveríamos, pois, numa época de humanidade disseminada em que a intimidade teria dado lugar à extimidade. Este neologismo inventado por Lacan é hoje reapropriado pela Antropologia para interpretar a subjectividade no tempo da tecno-sociabilidade.
Assim sendo, a casa perderia o seu estatuto metafísico e seria apenas o lugar onde se enviam e recebem mensagens. A cabana do eremita seria agora a solidão centrada no meu iphone.
Mas não é o humano que é inesgotável, é a pulsão.
A proposta ideológica de Yona Friedman, na década de 1950, de uma arquitectura móvel, de uma sociedade móvel, juntamente com os conceitos de mobilidade, redes, plasticidade e de movimento social, estaria hoje a ter a sua celebração.
O seu revolucionário projecto urbanístico a que chamou «Ville Spatiale» não seria já um ponto distante e abstracto, mas apenas aquilo que não se deixa reconhecer com exactidão.
Perguntar-se-á: e a Psicanálise não é hoje questionada pela sociologia da cidade genérica num mundo genérico?
Georg Simmel, no ensaio atrás referido, afirma que «O facto de estarmos todos comprimidos uns contra os outros e o fluxo de trânsito das grandes cidades seria insuportável sem um distanciamento psicológico. Sermos obrigados, na civilização urbana, a movimentarmo-nos tão colados uns aos outros, poderia fazer com que o ser humano caísse num estado de desespero total se a objectivação dos relacionamentos sociais não determinasse também um limite interno e um tipo especial de privacidade.»8
E isso não se alterou.
, La Poétique de L'espace, p. 27.
, Habitar, pp. 8–9.
, A Metrópole e a Vida Mental, p. 13.
, A Metrópole e a Vida Mental, p. 61.
A Psicanálise esteve sempre ciente da dimensão social da vida mental.
A abertura para o Outro é o que interroga e recria o espaço urbano e também a experiência analítica . E nesse aspecto, a errância faz parte desse trabalho, destinando-se à ruptura dos campos psíquicos, não limitando, como reiterou Herrmann (2001), o analisando a uma psicogeografia formada por ruas de sentido único.
A uma mente cristalográfica e a uma psicanálise arqueológica sucede hoje uma mente fractal e uma psicanálise nómada que se interessa pela própria fenomenologia da sessão, e assim a alegria é uma casa recém-construída.
ABSTRACT
This little essay discusses some aspects of the concept of mental space and potential space in psychoanalysis and in particular in the thought of D. Winnicott. This concept is expanded to the notion of inhabiting, of intimacy and of the changes arising from current techno-sociability. Finally it argues whether the relationship between the generic city is psychoanalysis as a poetic life experience of concentration and as wandering.
KEYWORDS: Space, dream, home, dwell, city, intimacy, extimity, wandering.