Este livro parte de uma reflexão e aproximação ao conceito de espaço, que tem o corpo como primeiro topos e se constitui como um lugar habitado por «deuses domésticos», os objectos internos, produtos da relação do ser humano com o outro. Estabelece uma fronteira interior/exterior, mas também possibilita a definição duma cartografia do espaço mental.
A autora partilha com os leitores o pensamento de Donald Meltzer e a sua teoria do claustrum, numa linguagem fluida, poética (não fosse a autora poetisa, com obra publicada), metafórica e, à semelhança do seu Mestre, nem sempre de fácil compreensão, mas em que o conhecimento dos textos e o domínio da teoria psicanalítica é evidente.
Na primeira parte, o livro traça o fio condutor que, ao longo da história da Psicanálise, nos leva do conceito de identificação descrito por Freud ao conceito de identificação intrusiva descrito por Meltzer.
Não se apresentando com índice, é-nos dado a pensar que o livro é pontuado, não propriamente por capítulos, mas por «marcadores» que ajudam o leitor a acompanhar as várias etapas da evolução deste conceito fundador do sujeito na sua relação com o objecto.
A segunda parte é preenchida por material clínico, em que é descrito longamente um caso de uma criança e, mais sucintamente, dois casos de pacientes adultos.
Sendo o texto atravessado pela noção/enigma de espacialidade, desde logo o conceito de identificação de Freud tem em Totem e Tabu um registo concreto canibalístico, corporal, portanto, espacial — espacialidade que se confirma, e que
Psiquiatra da infância e da adolescência. Psicanalista. Membro titular com funções didácticas da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). Presidente da Comissão de Ensino da SPP. E-mail:
adquire um carácter mental, com o conceito de introjeccção nos textos de «Introdução ao Narcisismo», de 1914, e «Luto e Melancolia», de 1917.
O conceito de identificação projectiva de Klein, associado aos mecanismos de clivagem, descreve como a projecção de partes do self da criança na mãe externa provoca uma modificação do estado da mente do sujeito, explicando os casos de claustrofobia e abrindo, como diz a autora, o caminho para a teoria do claustrum de Meltzer, em que é descrita uma nova fenomenologia dos processos de intrusão e da geografia da mente.
Mas, como o livro ilustra, temos ainda de nos deter em Bion e no seu modelo continente/conteúdo, cuja base é a identificação projectiva, e constatar como a espacialidade própria do encontro do continente materno, exterior, e do interior do bebé/conteúdo com a sua sensorialidade própria dará origem à capacidade de pensar e ao próprio pensamento.
Chegamos então a Meltzer e à teoria do claustrum, em que, nas palavras da autora, «parece haver um aprofundamento da noção de topos como sendo um “aonde” nos tornamos pessoas».
Maria do Carmo Sousa Lima cita o artigo central de Meltzer, «Sobre a masturbação anal», em que ele afirma que a identificação projectiva se passa no interior do objecto interno, dando lugar ao conceito de vida no claustrum. A existência de um espaço no interior da mãe interna — na qual, a parte do self do sujeito, clivada e projectada no interior da mãe externa, passa a viver no interior da mãe interna — só foi possível descobrir através dos estudos clínicos do autismo e da psicose infantil, levados a cabo por Meltzer. Este mecanismo de intrusão do self no interior do objecto interno tem um carácter de concretude e vai alterar dramaticamente a mente do sujeito, dando lugar a angústias claustrofóbicas intensas.
A concretude da fantasia inconsciente é outro aspecto importante da teoria meltzeriana salientado pela autora. Diz-nos ela que a «concretude da fantasia inconsciente é dos conceitos mais fascinantes e difíceis de elaborar no container que é a própria teoria psicanalítica».
Meltzer considera que há cinco espaços em que se joga a vida emocional e mental do sujeito: a realidade externa, a realidade interna, o interior do objecto externo, o interior do objecto interno e o útero.
Nesta linha, a autora, baseando-se nos estudos ecográficos de Paola Negri, que defende a viabilidade dos processos introjectivos in útero, coloca a hipótese de, já no período pré-natal, existir uma dinâmica continente/conteúdo e a possibilidade de haver uma actividade de procura do feto que corresponda a um percursor do objecto relacional dotado de emocionalidade.
A partir da sua teoria da existência do espaço interior do objecto interno, Meltzer cria o conceito de identificação intrusiva para definir o mecanismo de intrusão no objecto interno, o que tem como consequência um outro processo: a criação no interior da mãe interna de espaços onde partes do self do sujeito passam a viver. Esta conceptualização vai dar lugar a uma nova topografia do interior do objecto interno e consequentemente a uma nova fenomenologia, como a autora nos deixa perceber.
Meltzer descreve três espaços no interior do objecto interno que determinam a qualidade da experiência e também a dimensionalidade do tempo e do espaço. São eles: cabeça/seio, o espaço vaginal e o espaço anal, sendo este o mais relevante para Meltzer. Quando se dá a intrusão num destes espaços do objecto interno, o self passa a viver concretamente neste espaço, designado por claustrum, tendo cada um deles uma fenomenologia própria.
Para a autora, a partir do conceito de claustrum, emerge uma nova teoria acerca da dimensionalidade da vida mental que é demonstrada nos casos clínicos que compõem a segunda parte do livro.
Afonso é um menino de quatro anos e é a ele que a autora vai buscar o título do livro — Em que sítio da minha cabeça levo a Maria do Carmo? — quando, no final de uma das sessões, dá corpo à proposta de Meltzer, largamente enfatizada no livro, da geografia espacial da mente e da concretude da fantasia inconsciente.
A descrição da evolução do caso é fascinante e resumi-lo seria amputá-lo da sua essência e também tirar ao leitor o prazer da descoberta. Direi apenas que a forma hábil como a psicanalista reconhece e entrelaça a sua contratransferência com as fantasias destrutivas do paciente (fantasiado como futuro serial-killer), como acompanha de perto os movimentos transferenciais e como transforma a experiência emocional da sessão, com os seus diferentes coloridos, em pensamento, à luz das formulações meltzerianas, mas a que não falta o seu cunho pessoal, torna a leitura do caso uma aventura de que também fazemos parte.
Nos dois casos de análise de mulheres adultas, é muito evidente a experiência de «vida no claustrum». No primeiro, é a experiência caótica e confusional que predomina, enquanto no segundo, predominam as angústias claustrofóbicas. Em ambos, assistimos ao tempo parado e à situação de clausura próprios da experiência de intrusão no interior do objecto interno.
A descrição clínica dos casos é um esclarecedor e precioso auxiliar na compreensão de um pensamento tão complexo como intrigante, que é o de Donald Meltzer.
Em que sítio da minha cabeça levo a Maria do Carmo? é um livro para ler e para pensar.