O autor trabalha num tema mais antigo do que a Psicanálise, mas que adquire uma nova pertinência e complexidade na actualidade: o da relação entre soma e psique.
Tal como Freud, também Orlando von Doellinger considera que corpo e identidade estão ligados. Esta é a ideia central que dá o título à obra.
O autor apresenta-nos um importante trabalho que atravessa vários períodos e autores: desde os primórdios da Psicanálise até à actualidade. Muitos dirão que tanto o conceito de identidade como o de género não são de cariz psicanalítico, mas um e outro têm vindo a ser usados por psicanalistas e talvez nos devêssemos apropriar deles, aprofundando-os. É o que faz Orlando von Doellinger.
O seu ponto de partida é a teoria da evolução libidinal de Freud (1905), a qual expõe sugerindo, pari passu, a progressiva organização de uma subjectividade enraizada nas funções corporais e na sua maturação. É a partir da sexualidade que Freud concebe o desenvolvimento de uma identidade. Inicialmente, como sabemos, Freud não contempla o objecto como condição para o desenvolvimento. Mahler (1967) introduz a mãe que, como objecto simbiótico, constitui a condição de base para que se dê a separação-individuação e se forme um Eu corporal.
A forma como os corpos da mãe e do bebé se misturam influenciando o mundo interior é, então, uma ideia inovadora que se encontra na organização teórica de autores actuais. Estes, como Mahler, teorizam que a criança se constitui enquanto indivíduo moldado pela mãe e em resposta à sua necessidade inconsciente. Como von Doellinger refere, esta teoria está presente
Psicanalista, membro associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP). Membro da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). Professora auxiliar do ISPA. E-mail: angelavila-real@sapo.pt
e é desenvolvida por Lemma (2010) e, antes mesmo, de algum modo por Stoller (1968), que sublinha a importância do desejo materno na definição da identidade de género do filho.
O autor dá uma percepção cuidada do modo como Freud desenvolveu o conceito de identificação evidenciando significações várias e mudanças no que diz respeito à sua dinâmica e funções. Contudo, é salientada a sua função estruturante de um psiquismo, que não exactamente de uma identidade, conceito pouco presente em Freud. É Grinberg (1976) quem depois dá conta da complexidade dos processos de identificação enquanto estruturantes do Eu, destacando as suas variedades e funções. A ele se acrescenta Coimbra de Matos (1996), que apresenta duas concepções de grande actualidade e pertinência: a de que de algum modo o sujeito é um criador de si mesmo através da identificação idiomórfica e a de que o sujeito se identifica ao modelo amado ou admirado. Esta aparente indistinção aproxima-se de certa maneira de formulações actuais (Chodorow, N., 1975), segundo as quais não haverá, ao contrário do que Freud formulou, a necessidade de separar a identificação da eleição objectal. Embora von Doellinger não o esclareça, estamos em crer que quando adiciona Winnicott (1960) aos restantes autores que abordam a identidade, na sua distinção entre o verdadeiro e o falso self, sugere o desenvolvimento de dois modos de ser que resultam de uma necessidade de adaptação e protecção, que coloca o sujeito como um agente activo na interacção com o objecto materno ao mesmo tempo que é absolutamente dependente. Esta dinâmica parece por vezes presente em identidades frágeis não binárias.
Ao longo da obra, a sexualidade vai sendo abordada diversas vezes, dada a sua centralidade na concepção psicanalítica desde a origem. Todavia, von Doellinger não pode deixar de a focar a propósito da adolescência, a altura em que aparentemente ela se encerra e se define como elemento identitário, com a sua definição ligada ao género e à escolha objectal. São naturalmente abordadas as teorizações de Freud, que, muitas vezes, têm uma aparência monista, e, muitas outras, revelam uma finura de análise resultante da sua abordagem à clínica. São ainda abordadas as contestações à teoria monista feitas sobretudo por mulheres psicanalistas que se centram nas concepções anatómicas e nas funções corporais femininas.
O curioso destas posições reside no facto de elas não terem tido um grande impacto sobre as questões da representação do feminino e da diferença dos sexos, nem socialmente, nem cientificamente. Claro que a base corporal de que Freud parte e que manteve o seu papel central na compreensão da sexualidade humana e na sua articulação com a identidade foi a diferença anatómica, o que não deixa de ser redutor. Outras abordagens ulteriores, desde Merleau-Ponty (1945) a Anzieu (1974) ou Winnicott (1949), também elas na continuidade de outras elaborações freudianas, revelam-se mais complexas. Aproximações mais recentes mencionam igualmente as diversas acepções em que deve ser tomado o somático (genético, hormonal, etc.).
Seria naturalmente impossível abordar a identidade de género, como von Doellinger faz, sem falar da bissexualidade. Por um lado, ela alicerça-se no corpo, mas, por outro, é a bissexualidade psíquica que todos encontramos na clínica como constituinte de todos os seres humanos em resultado de identificações directas ou cruzadas. O autor encontra na(s) masculinidade(s) o que também já havia sido encontrado na(s) feminilidade(s): uma inclusão e integração do outro género. Todavia — e este é um aspecto que revela maior pertinência no trabalho clínico —, este discurso parte do pressuposto da conservação da bipolaridade dos estereótipos de género, que constantemente tem vindo a modificar-se.
Se atentarmos ao trabalho clínico, quer o apresentado pelo autor, quer o que actualmente se nos apresenta, depressa constatamos um sem número de dificuldades que nos obrigam a um esforço acrescido na compreensão da dinâmica transfero-contratransferencial. A dinâmica complexifica-se ainda mais quando se verifica uma não coincidência entre sexo e género.
Por isso, e porque, de um modo geral, muitas dificuldades se manifestam actualmente na organização de coerências identitárias, este trabalho é de grande importância.