Orlando Fialho, no livro Sujeito e Objecto na Cura Analítica, aborda o pensamento psicanalítico contemporâneo como uma teorização e uma clínica em constante construção. É o psicanalista que não fala do lugar daquele que é suposto Tudo Saber acerca do analisando. Afirma o encontro analítico entre analista e analisando, em cada sessão, como diferente e transformador, para ambos.
É do lugar da Psicanálise, em permanente diferenciação, do mundo interno dos dois sujeitos, analista e analisando, que o livro nos fala. Ao longo dos seus sete capítulos, a Psicanálise contemporânea aparece na continuidade dos grandes pensadores da Psicanálise: Freud, Fairbairn, Klein, Lacan, Bion, Winnicott, Annie Anzieu, Meltzer, André Green.
A Intersubjectividade versus a Intra-subjectividade, a Contratransferência e a Rêverie são abordadas, acrescentando-lhes novas leituras, através dos contributos de Thomas Ogden. E assim vai construindo o Terceiro Analítico, ancorando-se no tripé contratransferência, intersubjectividade e rêverie. Compara o jogo da bobine ao terceiro analítico.
«Com a evolução das teorias psicanalíticas, verificamos que os conceitos vão sendo transformados e depurados. No plano simbólico, a bobine do neto de Freud tem o mesmo significado que, mais tarde, o urso de peluche ou uma interpretação do analista. O sonho do analisando que ocorre na sessão e que constitui uma co-construção entre o sujeito e o objecto, no setting analítico, representa também o terceiro analítico» (p. 90).
Ao caos segue-se a ordem e à nova ordem segue-se outro caos. Separação não é ruptura, porque a separação pode ser criativa e é na
Matemática, psicanalista, membro titular da SPP, IPA, FEP. Hipnoterapeuta clínica do LCCH. E-mail:
separação do analista e do analisando, entre sessões, que se vai organizando o mundo interno.
A cura analítica e a escuta na clínica psicanalítica são a procura das infinitas possibilidades que só a Verdade de uma experiência emocional, entre os dois Seres Humanos, analista e analisando, permite.
«A base é a intersubjectidade, é a multiplicidade de factores que irão interferir nos processos intra-subjectivos, através da relação que se estabelece entre analista e analisando. Estamos a falar da relação entre dois mundos intra-subjectivos e, neste sentido, tanto podemos falar da escuta como da surdez do analista e do analisando» (p.74). São essas as transformações psíquicas que vão continuando a nossa construção enquanto sujeito.
«O impasse terapêutico decorre, em meu entender, de factores inerentes ao analista, ao analisando e à díada. O impasse não é apenas unilateral, tudo o que se passa na cura analítica e na relação entre analista e analisando decorre de problemas, quer de um, quer de outro, que são reactivados em determinado momento e que podem paralisar o processo» (p. 79).
Ao longo de todo o livro, as diferentes ilustrações clínicas criam o lugar do sentir da aprendizagem: interacção entre teoria e prática clínica. O rigor desta dialéctica dinâmica, do seu pensamento psicanalítico e da sua longa prática clínica, permite um processo de expansão da mente, a cada um dos leitores. É a afirmação do princípio do fundador da Psicanálise: «Interroga-te, vai mais Longe.»
Como em Freud e vários outros psicanalistas, a cultura e as facetas criativas estão presentes, quer nas suas teorizações, quer na sua prática clínica. Sai da estrita teorização psicanalítica abrindo o diálogo a todas as áreas do conhecimento.
Através deste livro, podemos ver que a manifestação artística é uma expressão do inconsciente, construindo-se numa linguagem pessoal através da liberdade criativa.
Visitamos Alberto Caeiro, Henri Michaux, Jorge Luís Borges. Visitamos Orlando Fialho, nessa dimensão artística em que, através da capa do seu livro, podemos observar um dos quadros por ele pintados.
Muito mais se pode aprender neste livro que tem a qualidade rara de fazer pensar todos os que o lerem.
Ao longo da vida, desfazemo-nos das armadilhas, das amarras que colocamos a nós próprios. O conhecimento e o pensamento são uma valorização constante, mas devolvem a cada um o lugar de se Criar, afirma a Psicanálise pela busca da Verdade Individual, como um projecto de Humanidade e de Liberdade.