Este livro, elaborado e escrito por quatro psicanalistas de crianças e adolescentes, constitui um admirável contributo para a compreensão e expansão da literatura psicanalítica contemporânea. As autoras mostram-nos, sob o ponto de vista teórico e clínico, como construíram, em filigrana, o espaço e o encontro psicanalítico. Com empenho e entusiasmo, estas quatro analistas, através da apresentação de casos de crianças em análise, convidam o leitor a partilhar com elas a coesão e, simultaneamente, a diversidade teórica e clínica deste livro. Este livro de psicanálise da criança — Psicanalisarium – Quatro Crianças no Divã — lê-se com prazer e conduz o leitor a um espaço feito de interrogações e, simultaneamente, de diálogo com a dupla analítica. A leitura dos casos apresentados implica-nos na dinâmica da relação e conduz-nos a um mundo de fantasia e de sonho e, sem desejarmos, somos envolvidos, metaforicamente, nas dinâmicas psíquicas destes jovens pacientes com os seus psicanalistas.
É um livro que se lê com entusiasmo porque nos questiona acerca da diversidade de formas de trabalhar analiticamente com crianças e adolescentes. É um trabalho que, por um lado, nos obriga a mergulhar no nosso mundo interno, permitindo-nos criar espaços de diálogo e de interrogações, e, por outro, não nos deixa indiferentes, suscitando e empurrando para um debate com as autoras.
Quando começamos a ler o livro, ficamos a saber — pois Ana Belchior Melícias, coordenadora deste projecto, duma forma clara e profunda, avisa-nos logo na apresentação — que este é o resultado do encontro de quatro psicanalistas que aceitaram o seu desafio de reunir a diversidade
Psicóloga clínica e da saúde, psicoterapeuta. Psicanalista, membro titular, com funções didácticas, da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). Directora da Revista Portuguesa de Psicanálise (SPP).
da construção do encontro psicanalítico com quatro crianças. A coordenadora sublinha que não houve preocupação unificadora, nem a nível da teoria ou da técnica, nem a nível formal, mas, sobretudo, o desejo de poder mostrar o espaço potencial criado pela dupla analítica — criança e analista. Mostra-nos ainda a importância do longo percurso histórico da construção da psicanálise da criança e do adolescente — citando vários autores importantes para o seu desenvolvimento — e das suas vicissitudes ao longo dos anos. Este livro tem a força da «pluridimensionalidade do processo de duas mentes em interação na psicanálise com a criança, assim como a originalidade de cada processo analítico», descreve Ana Belchior Melícias na sua apresentação.
Como podem imaginar, é muito difícil alguém de fora entrar na dinâmica analítica, porque é um espaço único entre duas pessoas que constroem um campo de relação com especificidades próprias vividas na transferência e contratransferência. Por isso, preferimos dar espaço ao leitor para que, com cada psicanalista como guia, possa viajar pelos meandros psíquicos e descobrir o desenvolvimento da criança ao longo do processo analítico.
No primeiro capítulo — organizado pela psicanalista de crianças e adolescentes Isabel Quinta da Costa —, descreve-se uma análise de uma menina em que os conflitos geracionais invadem o seu espaço psíquico, dificultando o seu crescimento autónomo das figuras parentais. «A Menina do Mar — a transformação da ilusão em desenvolvimento» mostra-nos claramente a importância da dupla transferência e as suas vicissitudes vividas entre a criança e os seus pais. Descreve um longo caminho que passa pelas trevas da dor mental até ao sentimento de maior confiança e «mais segura e com maior capacidade de autonomização experimentando capacidades até então desconhecidas».
No segundo capítulo — escrito pela psicanalista de crianças e de adolescentes Elsa Couchinho —, abordam-se as qualidades psíquicas que emergem da relação do psicanalista no seu contacto com a realidade psíquica do paciente, e como essas experiências emocionais podem questionar e pôr à prova a capacidade analítica. Este capítulo é designado por «Morridas, Dormidas, Sonhadas — da imersão na sensorialidade à possibilidade de pensar» e inspira-se no processo psicanalítico duma criança. A autora descreve, em três partes, o estado mental da dupla analítica: «Morridas» representa os primeiros tempos que se caracterizavam pela necessidade de confirmação e de aprovação da resiliência do objecto e da sua capacidade de transformar e conter o sofrimento psíquico; «Dormidas» aborda a contratransferência da analista que funciona como um continente resiliente e transformador desses conteúdos assustadores dos seus «sonhos» vividos nas «dormidas»; «Sonhadas» é o despertar das fantasias inconscientes. Por fim, aborda a vivência de um final de análise mostrando como o crescimento psíquico precisa dum longo caminho de elaboração.
No terceiro capítulo — organizado e escrito pela psicanalista de crianças e adolescentes Raquel Quelhas Lima —, é elaborado e apresentado um menino de quatro anos que parecia viver, metaforicamente, numa casa assombrada de fantasmas que o perseguiam e o inquietavam, mas em que a dor psíquica emergia da fantasia interna de não poder confiar na qualidade e segurança dos objectos internos. O título deste capítulo do livro é «O Fantasma Mil Fantasmas — da fome de mil bebés à possibilidade progressiva de simbolização». Na descrição deste caso, percebe-se a evolução desta criança, sobretudo quando se sente capaz de guardar a analista dentro de si e, por isso, ter maior capacidade de elaboração da presença e ausência do objecto. Os objectos internos, como o processo psicanalítico demonstra, fazem um longo caminho de transformação: duma fase esquizo-paranóide para uma fase depressiva, percebendo-se os caminhos da conquista de autonomia desta criança.
No quarto capítulo — concebido pela psicanalista de crianças e de adolescentes Ana Belchior Melícias —, descreve-se e elabora-se, sob o ponto de vista psicanalítico, a evolução de um rapazinho de seis anos que se apresenta com «um grande sofrimento depressivo marcado por graves angústias de separação». A descrição do processo analítico traduz um longo caminho feito de uma comunicação por desenho e jogo, a partir do qual é possível contactar com os fantasmas originários «permitindo a figurabilidade/narratividade da experiencia emocional no nível histórico» que vai «das garatujas indiferenciadas para se aproximar gradativamente do seu enigma da esfinge egípcia/edípica». É mostrado, também, de forma muito criativa, o procedimento do nascimento psíquico desta criança, assim como a sua evolução ao longo do processo psicanalítico. A autora, a propósito da evolução psíquica desta criança, sublinha a importância dos elos entre o prazer e a realidade, entre os fantasmas esquizo-paranóides e depressivos que se entrecruzam e permitem a construção duma relação de objecto mais simbolizada e mais criativa.
Este livro termina com um «Posfácio» de Celeste Malpique, que faz vários comentários muito interessantes sobre o processo analítico destes quatro casos.
É um livro cativante, que nos abre a porta e nos oferece um espaço de sonho e fantasia que é possível ser vivido na relação psicanalítica com estas quatro crianças.