Neste número da Revista Portuguesa de Psicanálise (38-2), apresentamos uma entrevista — feita por duas colegas do corpo editorial da nossa revista — com o psiquiatra e psicanalista Sérgio Eduardo Nick. Este psicanalista de crianças, adolescentes e adultos — especialista em direito da criança e do adolescente — tem tido um importante papel na articulação destes dois campos de acção e, mais especificamente, na ligação entre a psicanálise e a área da família. O seu percurso, como psicanalista com formação jurídica, tem-lhe permitido desenvolver e elaborar um intenso trabalho no campo organizacional de mediação em instituições psicanalíticas onde exerceu vários cargos. Sérgio Nick, que ocupa neste momento o lugar de vice-presidente na International Psychoanalytical Association (IPA), fez questão de assinalar que esta entrevista não foi dada enquanto representante dessa instituição, embora nela reflicta, evidentemente, o seu próprio pensamento, construído e desenvolvido ao longo de uma sólida carreira de psicanalista. Uma entrevista importante que nos estimula a uma atenta e interessante leitura!
A Revista Portuguesa de Psicanálise apresenta, neste número, uma conferência do psicanalista Antonio Pérez-Sánchez, realizada em Lisboa, com o seguinte título: «Vigencia del aquí y ahora y técnica analítica». Neste artigo, ressalta a importância do «aqui e agora» no processo analítico, enfatizando a interação entre paciente e analista e facilitando, assim, a compreensão da realidade psíquica da dupla analítica. Ilustra, do ponto de vista clínico, a comparação de um sonho trazido por uma paciente no «aqui e agora» com um outro que já tinha sido anteriormente trabalhado e que no «agora» teria sido evocado pelo analista. Esta conferência foi comentada pelo psicanalista Rui Aragão Oliveira, que sublinhou a importância deste conceito de «aqui e agora», que, segundo o seu ponto de vista, «combina uma dimensão conceptual com aspectos de maior relevo na história evolutiva da teoria da técnica psicanalítica». Este artigo e comentário merecem uma leitura atenta uma vez que abordam questões teóricas e clínicas representativas da forma de trabalhar no campo da psicanálise contemporânea.
Nos artigos teóricos/clínicos, abordamos, em primeiro lugar, o artigo da psicanalista espanhola Pilar Puertas Tejedor — «A conquista da intimidade no decurso evolutivo e seu fracasso» —, que foi apresentado no Instituto do Porto. A autora, neste trabalho, «foca-se na intimidade pessoal enquanto aquisição complexa que se desenvolve a par do desenvolvimento psicológico». Em seguida, apresentamos um trabalho da psicanalista Celeste Malpique acerca de «Supervisão psicanalítica — Uma aprendizagem pela experiência». Sublinha neste artigo a importância de enfatizar «a intuição e a revêrie como formas privilegiadas de intersubjetividade (espaço potencial), capazes de originar aprendizagem, ou seja, crescimento mental». Também o psicanalista Orlando von Doellinger apresenta um artigo com o seguinte título: «Autorrevelações em psicanálise: a pessoa do analista». Neste texto, o autor faz uma revisão «do conceito de autorrevelação e do seu papel na(s) prática(s) psicanalítica(s), sublinhando a importância da (contínua) formação em psicanálise na construção de uma identidade psicanalítica». Apresentamos, também, um extenso e profundo trabalho acerca da «Supervisão: diálogo entre realidades e ficções narrativas», apresentado no 30.° Congresso da Federação Latino-América de Psicanalise (FEPAL), pelos seguintes psicanalistas: Carlos Farate, Carlos Barredo, Guillermo Bigliani, Mónica Chama e Regina Tralhão. Estes autores, separadamente e, algumas vezes, em forma de notas, abordam os seus pontos de vista acerca da supervisão. Neste número da revista, também apresentamos um trabalho — «Três aproximações a um objeto cultural: o filme Under the Skin» — feito por três analistas: Ana Belchior Melícias, Lecy Cabral e João A. Frayze-Pereira. Neste artigo, apresentam «três aproximações do filme […] que correspondem a três vértices interpretativos». Finalmente, nesta secção de artigos teóricos/clínicos, apresentamos um trabalho de Janderson Farias Silvestre dos Santos, Eva Maria Migliavacca e Marina Ferreira da Rosa Ribeiro com o seguinte título: «Melancolia: uma leitura a partir do conceito de continente-contido. O “caso” Florbela Espanca». Estes autores, a partir de alguns «trechos do diário e da obra literária da poetisa portuguesa Florbela Espanca», elaboram e aprofundam a compreensão da melancolia «a partir da experiência intersubjetiva na constituição psíquica».
Também apresentamos, como é habitual, recensões de livros feitas por membros da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.
Finalmente, agradecemos a generosa participação de todos os colaboradores deste número da Revista. Esperamos que a sua leitura suscite entusiasmo e incentivo à escrita da investigação clínica, assim como do pensamento psicanalítico.