O artigo foca-se na intimidade pessoal enquanto aquisição complexa e a longo termo, que se desenvolve a par do desenvolvimento psicológico. Quando a construção de uma ntimidade saudável não é bem-sucedida, a pessoa torna-se num sem-abrigo, incapaz de encontrar acolhimento em si mesma.
A intimidade, a sua territorialidade e a satisfação que nela se alberga, é uma conquista psíquica, tal como vou tentar demonstrar. Tentarei igualmente demonstrar que habitar a intimidade torna em possível a sua partilha e que essa dinâmica interativa propicia e implementa a saúde mental.
Com efeito, a partilha da Intimidade vai ser a experiência paradigmática que possibilita a provisão vitamínica para experimentar o prazer que alicerça a saúde no aqui e agora, em sinergia com o além e então, constituindo assim uma experiência fundamental para sustentar o prazer da existência.
Começando pela definição, diria que a intimidade nos leva diretamente a uma incursão na tópica psíquica, ocupando uma zona do seu território que corresponde à parte mais profunda: daí que provenha de intimus, superlativo de interior.
Entendo a intimidade como o fruto e o testemunho do reconhecimento desse intus ou território intrapsíquico como próprio. O sujeito vai diferenciando dentro de si diferentes zonas, ciente das fronteiras que alberga. Vai-se autoconfigurando e organizando em zonas públicas e privadas num trabalho processual vitalício. A zona mais privada do intus será o território reservado ao íntimo.
O trabalho psíquico na construção da intimidade está ligado ao trabalho da «subjetividade», portanto, ao trabalho de «simbolização primária» que tece o fundo narcisista do sujeito, que vai construindo o terreno psíquico e que leva à aceitação de não ser o criador do externo.5 Essa difícil renúncia tem como correlativo apoderar-se de um âmbito íntimo onde se é rei e senhor. A extensão desse âmbito depende da qualidade do trabalho simbólico, com ótimo acompanhamento dos objetos no devir evolutivo.
Uma das minhas pacientes sente falta deste território quando se zanga com o marido:
Para poder aguentar estas situações preciso de me recluir na minha caverna, não tenho esse sítio dentro, algo do género de uma estrutura psicológica que mo permita. Não tenho esse sítio desenvolvido, isso falha, é como um buraco negro…
Sim. Que me venham buscar à porta da caverna, essa é a aprendizagem que me falta… fazer um parque de campismo cá dentro (rise) e que me deixem em paz!!! Ele aparece? Ótimo. Não aparece? Ótimo, também! E eu, na minha caverna… que fique com saudades minhas! Mas o umbral para fazer a caverna é poder estar sozinha comigo… ainda sou demasiado submissa.
Como é expresso pela minha paciente, a construção da sua caverna/intimidade está também associada ao trabalho psíquico de elaboração da ausência, trabalho associado aos dois anteriores e que o Ego deve acometer num tempo precoce, à saída do narcisismo primário. O umbral a que ela alude é a possibilidade de investir as presenças objetais dentro, na ausência do objeto, neste caso, na ausência do marido. E deste modo, ela poderá criar um território onde depositar aquilo que a ampara e não se revestir de um buraco negro
Artigo recebido em 26 de Fevereiro de 2018 e aceite para publicação em 22 de Maio de 2018.
Comunicação apresentada nas Jornadas Clínicas do IFTP, no dia 24 de Fevereiro de 2018.
Título original: «La Conquista de la Intimidade en el Devenir Evolutivo y su Fracaso». Tradução espanhol-português: Traducciones Iberia (Madrid). Revisão técnica: Sofia Vilar Soares (IFTP/SPP).
Psicóloga, terapeuta familiar e de grupo. Formadora de Técnicos de Saúde Mental. Psicanalista titular da Associação Psicanalítica de Madrid.
Os psicanalistas chamaram a isto «Trabalho de Alteridade», trabalho que leva a uma vivência de vinculação com o meio e, ao mesmo tempo, a uma vivência de diferenciação admitindo a própria singularidade.
Nota: a tradução segue o recente Acordo Ortográfico.
aterrador que a empurra a procurar o referido amparo fora.
A metáfora a que a minha paciente recorre é muito afim à que Santa Teresa usa para falar da alma:
Considerar a alma como um castelo, todo de diamante ou de mui claro cristal onde há inúmeros aposentos, bem como no céu há muitas moradas. A alma do justo é um paraíso onde ele tem as suas delícias. (2006)
O castelo de diamante é uma boa metáfora para descrever o território intrapsíquico, o intus, aquele que acolhe a intimidade. Hoje sabemos que, para que isto se dê, teve de circular o prazer de existir no encontro primário num tempo pré-subjetivo, onde ocorreu:
Um prazer específico no encontro, inclusivamente uma necessidade de partilhar esse prazer. A partilha, a sua reciprocidade… é uma condição sine qua non para que se constitua o afeto do prazer… aquilo que Laplanche denominou de “situação antropológica fundamental”.
Antes de abordar a Intimidade com maior profundidade, é então necessário falar da configuração desse intus, no qual se aloja a Intimidade.
Num primeiro momento, poder-se-ia definir como o espaço que, habitando o sujeito, se encontra reconhecido e subjetivado por ele, podendo diferenciá-lo otimamente do espaço exterior. A configuração do referido espaço dará lugar à geração desse intus ou canal psíquico que ampara o fluido emocional.
A sua qualidade afetiva, o seu nível de amplitude, a sua profundidade e consistência serão os garantes que permitirão contar com uma morada interior, que atenda convenientemente ao longo do percurso vital. No percurso aludido, o canal tem de suportar épocas de cheias onde se vê ameaçado por uma possível inundação e a perda da sua valiosa carga.6
O Intus é o lugar onde se reside velado pelos objetos significativos, o lar de acolhimento da profunda orfandade presente no devir existencial do humano. Orfandade essa pautada pela perda desse objeto que foi tudo e para o qual fomos tudo. A consecução da conquista do Intus será o ninho que acolhe a deceção e permite transformá-la em esperança.
Manuel, um paciente ao qual me hei-de referir no final da minha exposição, sente falta de viver sustentado por um terreno no seu interior quando nos diz:
Se me falta o chão para a minha âncoraNão baixa a maré do medoPorque no fundo só há fundo E entãoOnde me apoio para me levantar e caminhar erguido?
Tudo isto concorre para que a construção desse intus seja de vital importância para o infans em vias de ser sujeito. Constrói-se através da presença objetal, presença que deve ir exibindo uma versatilidade funcional, possibilitando a sua configuração através de diversos momentos onde o ótimo vai residir e dosificar, oportunamente e de forma distinta em cada um deles, a experiência do encontrado/criado, sabiamente descrita por Winnicott. Em todas essas experiências, o objeto pode jogar entre fazer a criança acreditar ser uma criação e alguém diferente. Posição dupla em dialética contínua.
Dividi a referida presença objetal em três tempos que acolhem o percurso complexo e pormenorizado na configuração do intus. Em cada um deles, o objeto desenvolverá diferentes funções que irão contribuir para a aludida configuração. Passo então a nomear algumas delas.
O sucesso do encontro com o objeto deixará um rasto, um limo psíquico, que, instalado no interior, vai abrigar o trabalho representativo. O objeto transformador é aquele que soube tutelar a procura pulsional ávida e cega da significância. Um objeto que ajudou a transformar o fluido pulsional agónico e desesperado em satisfação. O primeiro objeto acolhe deste modo a ânsia e as primeiras agonias, ajudando à sua transformação em bem-estar.
Vai-se assim construindo uma memória vivencial onde a libido vai cimentando o solo psíquico, possibilitando a orientação da satisfação para dentro, à espera de obtê-la fora, no contratual.
É a chamada «realização alucinatória do desejo», que, para a sua construção, precisou de um desejo suficientemente satisfeito para que o objeto fosse a testemunha da satisfação, para gerar a equação psíquica: objeto-satisfação. O binómio objeto-satisfação erige-se assim como a célula mnemónica psíquica — célula que desenvolverá estratégias de prazer-distensão calmantes com memórias de satisfação aderidas ao objetal. A capacidade de processar o impacto do externo mediatizando-o com o amparo internalizado do objeto fica, deste modo, garantida.
É um objeto que se possa deixar ir rumo a uma comunicação com esse outro — o infans — num jogo de mútuas com-penetrações. Um jogo onde não haja uma previsibilidade que sustenha o encontro. É um objeto onde o feminino lhe permitirá deixar-se
A Psicanálise designou estas circunstâncias por «clínica do traumático».
É o também chamado objeto simbolizante, aquele que habilita a função do ego de representar.
É o objeto que se edifica como emissário de um meio amável e acolhedor, garantindo assim o vínculo com o exterior.
penetrar pelo ignoto e acolhê-lo no seu interior, transmitindo a satisfação de se deixar habitar. Essa satisfação implica para o nosso sujeito o sentimento de conter uma beleza intrínseca. Um intus belo, prelúdio de investimentos vindouros. As compenetrações mútuas dão igualmente lugar à sintonia relacional que vai assegurando um exterior acolhedor e amável, uma experiência de continuidade onde o bebé sente que faz parte do meio. Meio esse adaptado à sua necessidade.
O Intus é a conquista de uma subjetividade capaz de realizar uma travessia recrutando uma ventura sustentada e sustentável, fruto de um amparo internalizado que sustém a experiência de ser como e ser diferente de.
O objeto, na sua função narcizante, abre-se ao desconhecido desse intus que tutela deixando-o ser não idêntico a si próprio… proximidade do objeto,10 no sentido de Christopher Bollas (1987). Deste modo, poderá elaborar-se no intrapsíquico esse saber-se sendo, onde a identidade se processe num contínuo de reconhecimento/desconhecimento e ressignificação. A própria subjetividade é um desenvolvimento para a vida, cujas ferramentas requereram a tutela por parte do objeto, adaptada à tolerância do enigma do outro sem ingerências narcisistas.
É este o objeto que custodia o enigmático. O seu papel: permitir a vivência de fazer parte do mundo circundante e, em simultâneo, sentir-se singular e diferente, sem que isso leve ao sentimento de marginalidade e exclusão. Isto é, proporcionar ao sujeito viver incluído, mas não similar.
O objeto, no seu papel libidinizante, gerará uma atmosfera afetiva envolvente, um microclima externo, um abraço incondicional que, uma vez internalizado, habita o sujeito num clima próprio que lhe vai permitir criar o seu próprio abrigo: um espaço onde habitar, retirar-se para descansar e onde aninhar para reunir forças e sair equipado de recursos libidinais para enfrentar a vida. As regressões objetalizadas estão deste modo garantidas e o nosso sujeito gozará assim das competências necessárias para fazer frente ao trabalho de luto inerente ao caminhar existencial. Poderá desta forma contemplar a adversidade como uma circunstância, e não como um destino.
Seguidamente, o intus vai-se configurando noutro território interativo e ambas as posições se orientam para outros compromissos.
O eco inicial apoiado no polo do criado teve de se apresentar posteriormente como um outro, embaixador de um exterior desconhecido. Num segundo tempo, a tutela exigirá que o outro polo, o do encontrado, se apresente com mais evidência; para isso, o nosso objeto tem de contar com uma masculinidade primária que resista à tentação de se deixar levar no gozo fusional seduzido pela querença que se lhe solicita vinda do sujeito. Tem de poder apresentar-se suficientemente como um outro, como o outro.
O trabalho de alteridade assim propiciado requererá a esse outro que ajude a viver o mundo circundante como um âmbito próprio e também alheio e surpreendente, mas não por isso aterrador. O objeto neste papel teve de mostrar a alteridade. Ser um objeto que, ao apresentar-se mais como encontrado, não criado, sustenta com benevolência a surpresa de se aproximar do diferente com curiosidade. Vai ser o objeto que veicula uma desnarcização da visão do meio.
O Terceiro tempo propiciará um objeto instalado dentro, velando o intus e dirigindo as suas fronteiras. O investimento afetivo no objeto — que parte do sujeito — alarga-se significativamente a outros objetos, que obrigam à abertura ao espaço exterior de diferentes eixos. Essa expansão em investimentos radiais significativos permite acolher uma espacialidade interior. Um intus em amplitude e profundidade, onde também reside o desconhecido de cada um, aquele território que escapa à consciência, fonte contínua de procura, exploração e curiosidade.
A custódia objetal, neste momento, requer que os objetos possam transmitir um não dosificado e adaptado — mais tarde, umas leis que eles também possam acatar. Requer que sustenha o testemunho da realidade com a transmissão da tripla diferença: geracional, sexual e sexualidade infantil e adulta. Desta forma, pode-se ir construindo um Superego processual e amparador, autêntico guardião desse intus que vela e protege a morada interior.
Tentei transmitir muito brevemente o caminho processual da construção do intus e a qualidade do cuidado objetal requerido.
A morada interior, solidamente estabelecida, vai requerer o trabalho da latência posterior. O intus precisa de adaptar as suas leis às outras leis impostas pelo mundo exterior que se abre no seu caminho, o dos outros. Estas aquisições são próprias da latência, momento em que se vão configurando e diferenciando com mais nuances: o social, o familiar e o próprio. É então que se vai tornar em possível a abertura do subjetivo ao mundo da realidade dos outros. Isto é, com-partilhar: só assim se poderá chamar quando houver o reconhecimento de dois intus diferenciados a comunicar entre si.
Uma paciente diz-me: «o meu marido e eu repartimos, não compartilhamos». Esta frase condensa
É o objeto no seu papel narcizante, aquele que sustém o prazer de ser diferente.
Remete para a presença do objeto e sua disponibilidade para os encontros/desencontros em torno das necessidades psicossomáticas do bebé (necessidades de apego e neurobiológicas): objeto presente, mas que oportunamente é capaz de se ausentar; objeto que é sabido antes de ser pensado. (Nota da revisão técnica.)
É o objeto na sua função libidinizante, envolvendo o infante num investimento afetivo, garante do prazer de existir.
O objeto apresenta-se aqui como o emissário do desconhecido.
o drama de se estar unido num vínculo onde a entrega implícita da partilha não se dá. Na analidade não se compartilha, re-parte-se.
O prefixo «re» remete para uma temporalidade onde existe um trabalho psíquico recorrente que se há de dar; portanto, re-partir alude a ter de partir uma e outra vez para não se confundir com o do outro; logo, é anal, já que o entrincheiramento reiterado naquilo que é de cada um alude ao temor, à confusão própria do universo anal, onde o narcisismo ainda não conta com apoios internos sólidos. No com-partilhar há jogo, no re-partir, não. Com-partilhar remete para estar unido, mas não confundido; unido com um vínculo solidamente sustentado na união das diferenças. É a organização edípica que permitirá torná-lo em viável.
O ato de compartilhar requer, portanto, um desenvolvimento da própria subjetividade, uma clara distinção entre próprio e alheio, uma capacidade de discriminar no exterior com quem e em que momento sim, e com quem e em que momento não. Isto é um trabalho de alteridade conseguido e evoluído, rumo a uma matização do meio muito sofisticada, atravessando as reorganizações pulsionais que sustentam as travessias anais, fálicas e edípicas.
O prazer de compartilhar requer, assim, a reestruturação edípica e a evolução simbólica e representativa que permite a latência. Sem estas aquisições, o jogo satisfatório com o mundo exterior não está garantido. Compartilhar é um jogo, um estabelecimento da transicionalidade intersubjetiva.
O estabelecimento do jogo com a realidade externa, animada ou inanimada, criou-se na sua origem com a permanência do objeto primário e com a dinâmica interativa possibilitadora do acesso à representação da realidade externa e ao intercâmbio com ela, através da transicionalidade. Mas é sobretudo a partir de agora, quando é um jogo de compartilhar, ou seja, um comércio exterior, que se dá a possibilidade de estar muito próximo e com um nível de diferenciação que torna em possível a sinergia de hetero e auto investimentos no encontro.
A morada sustentada dentro garante o deixar-se ir mais para fora, podendo voltar ao próprio. Deixar-se ir num movimento especular de jogar a ser e não ser uno com o objeto. É um jogo que impulsiona o próprio crescimento ao ajudar a enriquecer exponencialmente esse intus.
O intus, reconhecido como próprio, irá acolher um espaço para onde se retirar para pensar e negociar as consequências que, no mundo interior, esse comércio exterior implicado em compartilhar vai ocasionar. Deste modo, a atividade mental vai resultar num processo permanente de transformação e ressignificação em contacto com a realidade externa.
O intercâmbio com o mundo exterior, em função do alcance do compartilhado, vai gerando um impacto de menor ou maior alcance no acervo representacional consciente-inconsciente, que obriga ao trabalho de ressignificação aprés-coup. Logo, compartilhar no relacional assume um âmbito simbolizante e estimulador do crescimento próprio.
Voltando agora ao tema que nos ocupa, irei prosseguir centrando-me na Intimidade, definindo-a e destacando a experiência de compartilhá-la, para terminar por falar do fracasso na construção do íntimo.
Eis que chegou o momento de nos centrarmos na Intimidade. Irei referir-me agora a ela observando-a de um prisma narcisista e de um prisma objetal. São duas óticas que nos permitem contemplá-la a partir dos dois planos que melhor a cingem.
Do prisma narcisista, a intimidade é a residência do mais próximo do singular, do essencial de cada um, raiando a zona proibida; corresponderia, às vezes, ao «inconfessável». É por isso que corre o risco de atravessar a tópica pré-consciente e voltar às alcovas do esquecimento. O enfrentamento processual desse desconhecido/encontrado de cada um, o seu confronto com o Ideal do Ego e o assédio da vergonha de ser obrigam a um reset autoconfigurativo também processual, custoso e, por vezes, doloroso, onde aparece a deriva tentadora de o colocar noutro lugar, noutra tópica. Por isso, a intimidade aloja um território em relação proporcional e direta com o trabalho de subjetividade do Ego.
Do prisma objetal, a intimidade é a residência dos investimentos objetais secretos, amores e ódios que dão sentido e acompanham o devir existencial. Também aqui, o perigo espreita face ao proibido. A qualidade do Superego, o seu nível evolutivo e a manutenção no seu seio de uma transicionalidade intrapsíquica, marcará os níveis de legitimidade em manter as fantasias interativas e a extensão e a profundidade do território do íntimo. Este vai requerer a custódia das instâncias herdeiras daqueles objetos que a exerceram a partir do externo. Dizíamos que a amplitude, a profundidade e a textura afetiva deste território estão em relação direta e proporcional com o nível de qualidade evolutiva das referidas instâncias.
As instâncias narcisistas requerem uma transformação ótima do velho Ego Ideal em Ideal do Ego. Quando isto fracassa e o Ideal do Ego não agarra no testemunho do Ego Ideal, a intimidade limita-se a uma franja muito exígua, eludindo o compromisso de abarcar e tutelar com amplitude esse «saber-se sendo» narcisista com a elasticidade necessária para descobrir a própria autenticidade. Nestes casos, o íntimo vai perder território e a franja do carismático/privado aproximar-se-á muito do público, do adaptativo.
O Superego e o Ideal do Ego, entrincheirados pela culpa e pela vergonha, pautarão assim o tolerável ou não tolerável no habitáculo do íntimo. A aliança das duas instâncias num nível evoluído garante fazer um ótimo uso da intimidade, tanto no âmbito intrapsíquico como no intersubjetivo.
Passo agora a descrever o território do íntimo no intersubjetivo… na partilha.
A partilha da intimidade é propiciada pela procura das vitaminas anímicas que o sujeito requer para sustentar uma identidade diferenciada incluída no âmbito relacional. A intimidade compartilhada só é viável em determinadas condições psíquicas. É também uma conquista do ou dos sujeitos que podem relacionar-se deste modo. A intimidade compartilhada pode dar-se se houver uma garantia de sustentabilidade narcisista que resista à possível deceção causada no exterior.
Esta experiência pressupõe o auge do prazer no encontro com os outros; a sua territorialidade atravessada pela idiossincrasia mútua compara e exalta o prazer da vinculação com o outro.
Irei centrar-me no âmbito privilegiado de compartilhar a intimidade que gravita sobre a sexualidade e no âmbito que percorremos diariamente: a cura psicanalítica.
Dentro do âmbito íntimo, a sua manifestação máxima vai ser a intimidade, gozar do prazer sexual na união das diferenças.
A entrega do corpo libidinizado alarga as fronteiras do que se dá no jogo de ser e não ser uno com o objeto, experimentando-o agora com as ferramentas de um Ego que pode deixar-se ir para um estado fusional transitório com esse outro distinto.
O prazer no encontro sexual pressupõe algo que transcende o casal e vincula os seus protagonistas à descoberta de pertencer a uma existência que se renova no encontro e se criou noutro encontro, noutro tempo. É, portanto, um ato de homenagem-reparação das cenas originárias mútuas.
A experiência integra o prazer sexual e afetivo no encontro mais íntimo com o outro diferente. É, por conseguinte, uma experiência máxima no devir existencial humano, sempre tentada a regressar ao prazer do idêntico.
O encontro amoroso sexualizado é fruto de um longo e doloroso percurso pejado de dúvidas e renúncias. A experiência amorosa situa-se num território de alto risco, já dizia o poeta:
Vamos, poema de amor, levanta-te do meio de vidros partidos, porque chegou a hora de cantar. Ajuda-me, poema de amor, a restabelecer a integridade, a cantar sobre a dor. (Neruda, 1974, p. 379)
Prosseguirei com a reflexão acerca da experiência de compartilhar a intimidade centrando-me no nosso trabalho, na cura.
O analista é o artesão da intimidade. Habitamos a intimidade do paciente em sintonia com a nossa. É um jogo no interativo que requer uma lide específica na confluência das intimidades mútuas, lide em que se desencadeia uma competência artística particular (do latim ars-artis: habilidade): a arte de ser um a pensar no outro ou, por outras palavras, de habitar em simultâneo duas intimidades sem as confundir.
Se defendemos que a intimidade compartilhada pressupõe uma experiência humana que implementa a saúde psíquica, o dispositivo da cura é em si próprio um marco terapêutico, desde que se possa dar essa particular sintonia de confluência de ambas as intimidades sem as confundir.
Quando um paciente nos faz um pedido, o que está implícito é que está disposto a entregar essa intimidade para que zelemos por ela, alarguemos o seu território e lha devolvamos enriquecida. Aí, reside o aspeto artístico da nossa função.
A construção da intimidade vai fracassar naquelas estruturas que não puderam evoluir rumo a uma configuração neurótica. O habitáculo íntimo, a sua construção e manutenção requerem competências do Ego apenas acessíveis às estruturas mais evoluídas. Santa Teresa descreve-o à sua maneira:
Mas haveis de entender que vai muito de estar a estar; que há muitas almas que ficam à volta do castelo […]. Há almas tão enfermas e tão habituadas às coisas exteriores que não há remédio, nem parece que possam entrar dentro de si mesmas; porque é tal o costume de tratarem com as sevandijas e alimárias que estão em redor do castelo, que já quase se tornaram como elas e, sendo de natureza tão rica e podendo ter a sua conversação nada menos do que com Deus, não têm remédio. (2006)
A intuição psicológica da autora manifesta-se nesta citação, onde adverte dos perigos e da deterioração que implica funcionar com carências na configuração narcísica de base, que obriga a um excesso de adaptação externa.
Há diferentes quadros clínicos que parecem corresponder a estar nesse redor do castelo. Escolhi três que testemunham com evidência o sofrimento inerente a viver em volta sem poder entrar, sem poder habitar-se. São estados onde a existência está perto dos desamparados, dos sem-abrigo, dos homeless que deambulam pelo exterior mendigando o amparo do investimento alheio, e não contam com uma morada dotada de recursos libidinais que os acolham. Roussillon designa-os de Transtornos
Identitários Narcisistas, tendo dedicado os últimos anos ao seu estudo.
Um deles é o chamado Pensamento Operatório, advindo de uma situação traumática precoce como é um estado de Depressão Essencial, que despojou o Ego das suas fontes pulsionais e que, devido a isso, teve de se organizar à volta, no público, sobreinvestindo assim o espaço exterior e desinvestindo o interior, numa tentativa de se sustentar adaptativamente. Isto leva a que o sujeito não possa contar com uma subjetividade que proporcione a vivência de ter um abrigo próprio, um castelo de diamante.13
Vejamos como Smadja o descreve:
A doença operatória corresponderia a um desinvestimento do Ego enquanto objeto psíquico, à perda também de uma qualidade libidinal, submetendo-se então à força desobjetalizante da pulsão de morte […] a realidade operatória permite ao Ego a melhor adaptação possível às condições traumáticas com as quais foi confrontado. (2005, p. 109)
Passo a ilustrar estes conteúdos com uma paciente minha, a Maria.
Foi uma menina cuja mãe não lhe pôde dar colo por ter nascido um ano e meio depois de uma irmãzinha que morreu poucos dias após o nascimento. No seio de uma família numerosa, sempre ansiou pela presença de uns pais que lhe transmitissem interesse ou relevância. Quando era pequena, a sua brincadeira preferida era recriar um habitáculo pequeno onde abrigar as suas bonecas mendigas que viviam na rua. Era uma brincadeira recorrente, uma das poucas de que se lembra. A adolescência mergulhou-a numa bulimia que arrasou qualquer possibilidade de encontrar uma via social para a sua procura identitária. Dedicou-se a estudar numa casa de banho minúscula que a abrigava dentro da casa paterna e lhe permitia eludir o sentimento de se perder no espaço: «gosto de buraquinhos porque me podem abrigar», diz ela. Maria passou nos exames e conseguiu um lugar num concurso público que lhe permite viver folgadamente. Um trabalho que realiza sem qualquer satisfação, onde passa o tempo à espera que passem as horas para chegar ao almoço e que o café com leite que percorre a sua garganta lhe proporcione o prazer sensorial do calor a fluir para o seu interior…
A sua vida é um deserto que se distribui entre ginásio, trabalho e caminhadas a pé. Angustia-a o encontro consigo mesma, e não tem atividades que a distraiam desse confronto com um vazio intolerável.
Maria carece de uma morada interior que a possa acolher. Vai fabricando habitáculos onde residir no exterior — o ginásio, o escritório —, numa fuga permanente de um sentimento de estar acolhida pelo nada. O trabalho deficitário de simbolização primária na construção do seu terreno psíquico deixou a morada interior com zonas inóspitas e desabitadas; zonas que geraram um intus desconfigurado e, portanto, um estado de homeless que a incapacitou de contar com uma intimidade reconfortante. A brincadeira com as bonecas mendigas ilustra-o bem.
O infeliz protagonismo na sua vida do Ego Ideal, e a aliança do mesmo com a ligação masoquista, sustenta-a com a culpa e sedu-la com a expectativa de encontrar a plenitude no sacrifício, um sacrum facere, ou tornar em sagrada a privação à procura da morada prometida, privação na restrição alimentar, em obrigar-se a ter um corpo esforçado para poder ser investido a partir da disciplina do exercício. Um corpo mortificado para evitar vivê-lo como um saco desprezível.
Em certas ocasiões, revolta-se perante tanta disciplina e tão poucas satisfações e entrega-se a arrebates bulímicos desesperados, nos quais afoga a ânsia de mudar de vida rompendo a precária sustentabilidade que adquiriu.
Seguem-se umas linhas para nos centrarmos na devastação intrapsíquica gerada pelo protagonismo desse Ego ideal.
Maria procura um apoio na enganadora exigência do seu Ego ideal, fazendo dele um escudo mágico perante um mundo hostil e ameaçador. A sua defesa, entrincheirando-se atrás desse arcaísmo residual do seu narcisismo primário, impede o trabalho de transformação e ressignificação através do aprés-coup. O Ego Ideal colapsa-a numa congelação de vida, impedindo-a de se nutrir e enriquecer com a dinâmica interativa e intrapsíquica.
Nestas condições, o trabalho de alteridade também fica estagnado mantendo-se, portanto, a apreensão do desconhecido como estranho e ameaçador, pois não recebeu um status representativo suficientemente subjetivado.
O desconhecido exterior e interior, observando-se desse Ego Ideal que se rege pelo Ego Prazer, vai tentar configurar-se a partir de uma figuração que, nestes casos, pela inquietação e desassossego que o não subjetivado gera, tende a ser má ou desprezível. Esta é a solução fecal, solução que trata de figurar, deste modo, uma apreensão hostil e ameaçadora que reside dentro.
Com tudo isto, entende-se melhor que o mundo visto através do pensamento operatório é um mundo a partir de um em redor. O interior do castelo é inapreensível, produz a vergonha de não contar com uma morada interior e, se nos aproximamos para tentar figurá-la, essa figuração vai ser fecal.
Esta tentativa de autoconfiguração íntima está próxima da conceção que os Botellas têm do pesadelo.
Não é banal a metáfora usada por Santa Teresa já que o diamante tem uma grande capacidade de refletir a luz; proveniente da libido objetal permite que o próprio castelo transmita luminosidade afetiva ou opacidade sombria.
O perigo fundamental na lide da relação de objeto não é a ausência do objeto mas o desvanecimento durante este investimento da representação […] a perda da representação de objeto torna-se num equivalente à perda de representação de si […] o Ego prazer-purificado será livrado à perceção vivida como estranha e má, e o psiquismo sofrerá na sua globalidade uma espécie de implosão, a perceção odiada sob a forma de afeto de terror irrepresentável: nenhuma representação, nenhuma perceção, só o afeto desbocado de um desamparo não pensável e não figurável, salvo se o Ego em regressão utilizar o efeito dessas implosões na figuração de um pesadelo. (1997, p. 57)
Maria passou um longo período da sua cura com a necessidade compulsiva de acumular lixo em casa, recriando assim com a vista um mundo interior em vias de procurar um registo simbólico. Deste modo, realizava uma passagem ao ato, à procura de um olhar objetal que lhe permitisse poder levar a cabo o trabalho reflexivo de se apropriar do assédio fecalizante ao qual o seu Ego Ideal a submetia. Apropriar-se para levá-la a um registo representativo que lhe permitisse depor a sua compulsão agida. Portanto, uma passagem mensageira ao ato, onde o trabalho pulsional procurava um objeto no qual refletir e significar a sua agonia14.
Neste momento da cura, Maria conseguiu deixar de estar rodeada de lixo e figura o seu interior como «uma sala vazia». A compulsão fecalizante do seu habitat ficou para trás. O nosso objetivo terapêutico é fazer dessa sala vazia um lugar habitável, um lugar onde a sua libido não se afogue no desespero e no ódio existencial, onde o vazio se possa encher de investimentos objetais e narcisistas que a amparem e dêem sentido à sua vida… ainda nos falta um longo caminho.
Algumas vinhetas clínicas servir-nos-ão para fazer um acompanhamento.
Numa sessão anterior às férias da Páscoa, falou-nos assim:
P: Estou pior do que nunca, como a primeira coisa que me vem à mão, sem controlo, o que importa é devorar, não tenho fome e até sinto nojo do que como. Já sei que me vai dizer que é por causa das férias. Vão-se todos embora, mas sabê-lo não muda a situação, continuo a devorar.
A: Enche-se de comida-lixo para sentir pelo menos alguma coisa dentro? É uma maneira de se tentar consolar?
P: Consolar-me eu? Ora essa! Se eu sou o pior. Como é que me vou consolar!
Maria não consegue sustentar-se na solidão. A ausência dos seus entes queridos não pode ser compensada com investimentos representativos que a acompanhem, o que a mergulha num vazio que enche desesperadamente de comida. Também utiliza a ingestão desbocada para sentir nojo de si própria e, deste modo, apoiar-se no desprezo como último reduto para não cair no nada desobjetalizante. A sua vida é uma luta permanente contra a tendência para a regressividade extintiva e tentadora da pulsão de morte. A inatividade horroriza-a pelo temor que lhe suscita deixar-se ir para o nada, para a morte psíquica.
Recentemente, apareceu um material esperançado.
Abril de 2016:
P: Estou desesperada, louca. Como não me consigo acalmar por mim própria, andei a ver mordedores de cão, chupetas na Internet e por fim lembrei-me de comprar uma boneca, chama-se Célia, é de pano. Não queria animais, queria uma rapariga, tinha de me lembrar de mim própria na adolescência, com ar de pobrezinha, vagabunda.
Preciso de lhe poder contar coisas, que estou péssima; como eu não mo consigo dizer, dizê-lo a alguém.
Nestes dois últimos dias, tenho andado mais calma porque tive um almoço com os meus irmãos, isso acalma-me.
Também me acalma dizer ao meu irmão como me sinto, ele facilita-me a vida. Na sexta-feira, comprei um presente para os meus irmãos e permiti-me o prazer de um petisco pelo gosto de lhes ter comprado uma prenda e aí abriu-se a comporta e descontrolei-me. Também é porque vejo pessoas nos seus tempos livres, é sexta-feira… e eu sozinha.
A: Sim, parece que a boneca lhe proporciona uma presença afetiva que a acompanha quando está sozinha; teve alguma boneca especial quando era pequena?
P: A Lurdes. Deram-ma quando fiz a primeira comunhão; tinha um ar andrajoso, embora estivesse vestida de comunhão, brincava com ela a sermos pobres.
A: Agora tem a Célia.
P: Quero receber calor através da boneca… Estou louca desvairada, tenho 52 anos! (ri-se).
A: Alguém com quem partilhar a sua intimidade, o que sente.
P: Hoje dizia-lhe: «vamos ver a Pilar para ela te conhecer» (mostra-a).
A: Também me quer dizer que passa mal de uma sessão para a outra, sente que a deixo só e a Célia acompanha-a.
P: Isto foi propiciado pela relação que tenho agora com a minha mãe, como-a com beijos, abre os olhos e sorri e isso é tudo para mim.
(Presentemente, a sua mãe padece de Alzheimer, está acamada e numa situação de invalidez absoluta.)
A: Talvez neste momento sofra mais de bulimia porque não foge nas rotinas escravas disso que a assola por dentro. Está mais aberta a sentir.
P: Durante a semana, era o que fazia, meter-me nas rotinas e agora à tarde é quando mais me dá.
Comentário: A minha paciente está a conseguir abrir um espaço de jogo objetalizante para ir encontrando uma via psíquica onde acalmar as suas eclosões de angústia, ali onde a repetição mortífera reside. Fê-lo habitualmente através dos chamados procedimentos autocalmantes do Ego, que, como sabemos, tentam estabelecer uma ligação num nível comportamental.
Agonia na linha definida por Winnicott no seu artigo «O Medo do Colapso»: agonias primitivas ou estados afetivos órfãos de significação simbólica.
Trata-se aqui de reencontrar fisicamente, corporalmente, na realidade material, com a ajuda da perceção e da motricidade, o embalo materno que não deu lugar a uma introjeção psíquica de qualidade suficiente. (Szwec, 2014, p. 53)
Questiono-me se este funcionamento se prende de perto com o diálogo com as bestas a que Santa Teresa aludia, aquele que conduz a uma situação onde não há remédio.
Por isso mesmo, a boneca Célia é um marco na sua trajetória, marco que se prende com a tentativa de alcançar introjeções objetais que a acolham na ausência dos seus objetos de referência. Uma reedição de um objeto transicional que, no passado, fracassou no seu intuito: veicular para dentro o de fora investido libidinalmente.
Irei prosseguir com outro testemunho clínico do sofrimento que a ausência de morada, de castelo interior, impõe. Neste caso, por um desalojamento, outro estado de home-less, mas, aqui, consequente de uma vivência traumática de perda gerada pela des-habitação.
Manuel foi uma criança cuja primeira infância foi passada no campo, em casa dos avós paternos. A sua família nuclear emigrou para outro país por motivos de trabalho e Manuel perdeu o seu pequeno paraíso, tal como ele o recorda. O apoio que os seus avós implicavam no equilíbrio da dinâmica familiar deixou de estar presente e foi assistindo paulatinamente à deterioração do clima familiar e à descompensação dos seus pais, o que derivou em patologias de dependência em ambos.
Algum tempo após o abandono do que para ele era o seu lar, Manuel começou a ter ataques de ansiedade muito recorrentes, que eram despertados pela consciência de existir e estar neste mundo. O desalojamento do seu interior foi uma medida extrema para deixar de sofrer. Manuel colocou em funcionamento o narcisismo negativo, esbatendo a sua configuração objetal e identitária. Abandonou o seu castelo deixando-o a meio da sua edificação e ficou preso em seu redor, envolto por um mundo hostil e sem poder refugiar-se nele. A forma de sobreviver foi concebendo um falso self. Vejamos como ele o exprime:
A minha biografia emocional está inscrita em páginas em branco, como se essas páginas se tivessem desbotado e ficado em branco. Tratei de apagar essas páginas. O que sinto com muita premência é todo o medo pelo qual passei (chora), vivi borrado de medo das represálias do meio; tudo me põe em perigo: quando sinto ou penso, estou sempre a pecar, é uma vida muito cansativa, dá cabo de mim!
Manuel viveu alienado ao longo da sua existência. Os ataques de ansiedade que o foram acompanhando davam conta do fracasso na constituição do seu falso self como último reduto onde se alojar. Também davam conta de que tinha de se realojar e abordar os lutos pendentes. A hipótese clínica, hoje, estaria em torno de uma vivência traumática de perda na mudança de vida quando era criança. O seu mundo foi-se desvanecendo à luz da desfiguração da sua vivência identitária, foi-se dessubjetivando e, perante essa hemorragia do ser, o mundo externo assumiu contornos aterradores. Destransicionalizou15 (Roussillon) perdendo a vivência feliz de continuidade com a realidade externa quando o impacto das suas perdas afetou a sua configuração narcisista de base.
Vejamos um material recente.
Julho de 2016:
P: Quanto mais me reabito, mais sangro, esta questão está muito presente; é do caraças, o cagaço que isto me produz! A intensidade da angústia é menor do que antes e a frequência de me reabitar é maior. Antes, uma vez a cada três meses, agora, 12 vezes por dia até me dizer que sim! É verdade que estou aqui! Quando sucede, nem sempre sinto o mesmo, vai desde: “Que caraças, o que é que se passa!” até: “Que susto!”. Quando me reabito é como se me dissesse: “ Vamos pôr-te perante um precipício onde o corrimão está em más condições, tem uma má fixação.” Reabitar-me é heróico, o regresso é de uma grande audácia. Quando faço o exercício de voltar, tomo consciência de que existo e isso é acompanhado por medo e/ou estranheza, sensação de ser alheio a esse sítio ao qual volto, é como se fôssemos transportados para outra cultura que se nos afigura estranha, para outro mundo!
Quando me encontro mais comigo, a emoção de temor e insegurança diminui, sou capaz de viver essa existência de forma menos trémula.
A: Parece que teve de cortar o vínculo emocional com esse meio, com o sentir-se fazer parte dele. Agora, quando volta, parece-lhe estranho. Esse corrimão é o nosso vínculo, ainda receia que lhe falhe, mas vai-lhe permitindo assomar-se… P: Faz sentido, calculo que me adaptei, mas não era o mesmo. Se tivesse sido possível de forma genuína, não teria sido tão estranha a sensação de existência… ter-lhe-ia dado o meu próprio matiz, teria guardado a minha própria singularidade.
Imagino que na vinculação se articulam os primeiros elementos para a identidade. No genuíno, esse estar na vida é menos estranho e ligo-me de forma mais sustentável, menos artificial.
Agosto de 2016:
P: Vou tomando cada vez mais consciência da minha existência, estou de volta depois desse suicídio virtual ao cenário de onde fugi porque era insuportável. Acho que devemos prestar atenção ao efeito que me produz o regresso a esse cenário.
A causa do meu sofrimento está aí, é um dos nós
O conceito faz referência à perda das competências do Ego para processar a realidade, competências que os fenómenos transicionais proporcionam.
nevrálgicos, necessito de transmitir o que sinto ao voltar, já que isto é uma via de sentido único depois de muitíssimos anos. É uma questão que me angustia muitíssimo… volto a esse abismo. Para mim, a versão que fabriquei da existência era de abismo, de terror.
Por outro lado, está o ambiente hostil, dividi ambas as coisas, como se as tivesse dissociado no meu interior; acho que estou a começar a senti-lo de forma combinada. O terror a habitar-me, a existir, e o terror ao meio… como se fosse uma carga… percebo que respiro mal por medo e isso faz com que o medo pela minha saúde também me assole. Ando como se tivesse uma cinta posta… por estar angustiado ou por ameaça ou por vergonha.
A: Está a ser capaz de se compreender melhor porque se olha com mais carinho, é esse o amparo que agora está a desenvolver por si, no seu interior. Deve ser aquele amparo que sentiu ter perdido quando se separou dos seus avós.
P: Acho que tive um acidente, uma ferida no apego. O apego era um olhar mais confiante do que é o meio… À medida que puder suportar tomar consciência de uma existência permanente, irei confiando. Mas quem é que me vai dar isso?
A: Pois… eu própria ao seu serviço! (rimo-nos) Bom, é mais a nossa relação onde parece que circula afetivamente algo que lhe permite voltar a este mundo.
P: Fiquei com lágrimas nos olhos (embaciam-se-lhe os olhos) ao comprovar a importância que a volta à existência tem para mim, esse lugar do qual fugi porque me era insuportável… E porquê? Julgo que, pelos medos dos meus pais, eu era um miúdo e via que eles não podiam… O conceito de existência é: “eu não posso com isto”… o lugar ao qual volto é uma aldeia síria bombardeada pelos russos, saqueada pelo Ísis, um lugar onde houve torturas e perseguições…volto a esse lugar tão, tão horrível…é por um triz, mesmo por um triz que não caio.
Comentário: Manuel facultou-nos um testemunho carregado de um enorme dramatismo das vivências que a reabitação do seu castelo interior lhe suscitam. O seu discurso, que alinhava o afetivo na narrativa secundarizada dando conta desse modo da recuperação da sua capacidade metafórica, permite-nos estabelecer contacto com o terror de viver num castelo/aldeia síria, cenário residual do horror e da violência.
Após cinco anos de tratamento, oferece-nos esta poesia que dá conta da reconstrução do seu habitat. Diz assim:
A cicatriz tem o tato diferente.
Noto-o tanto nos dedos ao tocá-la como na sua pele fina e polida.
Embora seja grande, já não me limita em nada a vida porque agora é pele.
Alguma vez assoma o eco daquela ferida, Nesses momentos de ânimo ténue, volta a lembrança de quando ainda era pústula e ameaçava sempre lágrimas vermelhas e confusas.
Vou concluir este percurso na clínica da des-habitação íntima com a patologia perversa, patologia que faz da intimidade um ardil enganador.
Dentro do breve percurso que elaborei através de alguns quadros que mostram a desventura de viver sem habitat e, portanto, sem intimidade, a perversão ilustra com evidência como tratar de sobreviver sem ela, fecalizando-a, privando-a da sua beleza e do seu enigma.
Nestes casos, há um requerimento desesperado dos outros, dos de fora, para poderem reeditar essa sintonia que não se pôde dar. O característico desta patologia é o requerimento objetal desesperado, habitualmente através da sexualidade e de umas paixões fingidas, para acabar por atacar e denegrir os seus objetos por inveja.
Prosseguindo com a metáfora do em redor, o perverso seduz a partir dela, fazendo a ostentação de possuir o castelo com mais diamantes para atrair os seus objetos que, deslumbrados pela sua luminosidade, se abeiram maravilhados. Espera-lhes o fracasso do desencontro no vínculo. O perverso tenta habitar-se através deles, mas permanece noutro plano, observando, sem poder partilhar. Esta incapacidade inabilita o vínculo para reparar a sua ausência de morada.
O perverso é outro home-less, mas a sua defesa desemboca numa destrutividade maligna dado que se lhe afigura insuportável o usufruto pelos outros dessa experiência íntima.
Masud Khan desenvolveu uma teorização acerca destas estruturas, colocando em evidência a perversão da intimidade como um núcleo patognomónico nelas. Chama técnica de Intimidade a uma intimidade fingida, que trata de induzir no outro um estado particular de entrega com esbatimento de limites, para assim poder apropriar-se das funções objetais que não puderam dar-se com o objeto primário, neste caso, sob a cobertura aparente de partilhar uma intimidade num âmbito sexual apaixonado. A falta de implicação autêntica na situação leva ao fracasso e a retroalimentar o sentimento de vazio e fastio vital. Vejamos como o autor o expressa:
A técnica de intimidade deriva do fracasso maturativo do Ego dentro do contexto da relação de cuidado do bebé […] o rasgo proeminente da técnica de intimidade é criar uma situação fingida que na maioria dos casos implica a cooperação seduzida e voluntária de um objeto externo […] porém, existe sempre um requisito: o perverso não pode entregar-se à experiência e conserva o controlo da situação, o que constitui o seu êxito e o seu fracasso na situação íntima […]
É uma dramatização sem a internalização afetiva ou psíquica do objeto. O sentimento de inveja deriva da
Page 29perceção real e da suspeita de que o outro tirou mais proveito. Isto incita a maioria dos perversos a comportar-se de forma maligna e mesquinha com os seus objetos e impele-os compulsivamente a rejeitá-los e a fazer-lhes mal.
Vemos como a solução perversa, vindo também a socorrer o déficit narcísico-identitário, se dirige mais para o interativo e necessita da participação do outro, tratando de reeditar o jogo do duplo no objetal. Na solução perversa, não se partilha a intimidade que é antes exibida e fecalizada sob a aparência de ser partilhada. O perverso é um viciado num olhar com ecos do duplo, que funciona como um fogo-de-artifício: deslumbra repentinamente, maravilha, encanta, para logo voltar à escuridão do nada.
A partir do aspeto invejoso sabiamente descrito por M. Khan, o perverso vai tentar destruir no outro/nos outros o prazer experienciado de contar com uma intimidade que se possa partilhar. Daí que o seu propósito seja a anulação das diferenças que remetem para o facto de ter podido elaborar a castração e a perda. O Ego organiza uma defesa na tentativa de renegar e triunfar sobre a representação de uma realidade feita de e com as diferenças.
A solução perversa consiste basicamente na reviravolta dos valores que se fundamenta na aceitação dessas diferenças. A orgia perversa faz da sua pantomima íntima e sexual um cenário sabiamente organizado para a anulação dessas diferenças. Se elas não existem, também não carece da falta da falta16. Esta marca o fracasso maturativo que, qual calcanhar de Aquiles, os faz sentir sempre vulneráveis.
Noutro plano, fica também esbatida a diferença entre o público e o íntimo. A intimidade é assim desprovida do seu aspeto secreto, privado; é igualmente negada e abolida a longa travessia que requer uma diferença no interior e desse interior com o exterior. O castelo não conta com um muro entre o interior e o seu redor, nem sequer com diferentes aposentos que marcam a diferença entre o que se publicita e o que não.
Nesta linha, o facto de mostrar ostentosamente o íntimo e secreto é uma manobra defensiva do triunfo fálico sobre a angústia de não ser e não ter que acompanha esta patologia narcisista identitária, que na longa travessia evolutiva ficou órfã desse ser. O a qualquer momento, tudo e com qualquer um vai desprezando maniacamente o longo e trabalhoso percurso que o Ego teve de fazer até à configuração edípica, tendo de ir selecionando aquilo que se partilha, onde, quando o quê e com quem.
Não vou aqui expor material clínico já que, como sabemos, são pacientes que dificilmente pedem ajuda. A ilustração clínica pode inspirar-se em alguns «costumes» que se vão instalando na nossa sociedade, promovidos como «evolutivos» e «progressistas» quando não são mais do que o testemunho da defesa perversa a instalar-se como referente narcisista. São tentativas de se manter na falácia de ser tudo e poder optar por tudo com apenas um desejo. A exibição da intimidade sexual iria nesta linha… o pornográfico a fazer-se passar pelo íntimo sexual numa exibição descarada da sua fecalização.
Atrever-me-ia a dizer que o empobrecimento da conquista íntima vai gerando uma defesa instalada na sociedade, uma negação, a partir da qual o perverso se insinua como o horizonte a conquistar, a estrela de Belém que perdeu o rumo. Quiçá seja esta a causa de os psicanalistas andarem inquietos, sem saberem como expressar uma denúncia que não fique fagocitada no ataque de que habitualmente são objeto: o estar caducos, fora de moda.
Sou assaltada por uma pergunta inspirada pelo tema deste colóquio. Porque escolhemos a Intimidade para os nossos debates? Estamos inquietos, enquanto psicanalistas, com a desconstrução da Intimidade na nossa sociedade?
Se a intimidade é uma conquista simbólica, um território que reside no interior ou intus, não estaremos a assistir a uma deterioração progressiva e paulatina do referido território? O intrapsíquico não estará a ser assaltado pelo excesso de uma oferta na satisfação contratual com o risco de empobrecer o cuidado do íntimo, do privado e de seu investimento? A riqueza propiciada pela elaboração da ausência não estará muito ausente?
Poder-se-á manter hoje aquela famosa frase dos Botellas: o objeto está sempre dentro, às vezes fora? O objeto exterior sempre ao alcance não arruína o de dentro? Não vamos para uma sociedade onde os seus sujeitos se estão a organizar aditivamente…?
Deixo estas questões em aberto para o nosso debate e concluo dizendo:
Ao longo da reflexão exposta neste trabalho, tentei transmitir que a experiência da intimidade é o testemunho de um longo percurso evolutivo; percurso esse iniciado com a construção do intus como lugar onde se aloja a Intimidade.
De um prisma narcisista, implica contar com uns aposentos onde instalar o mais genuíno e secreto dentro desse castelo de diamante que é o próprio habitat. Implica a experiência de contar com uma morada interior onde o prazer de se sentir ser recria e apoia o narcisismo. Na intimidade, residem os reservatórios libidinais que amparam e custodiam o próprio devir existencial.
A partir do objetal, recria e relança o jogo especular do além e, assim, com esse outro que permite viver no agora a continuidade com o externo, enriquecer-se com os seus contributos. Constitui então uma experiência que sustenta e
A falta da falta alude à falta da elaboração da falta. À incapacidade de integrar o deficit narcísico por parte do Ego, ao inelaborado desse deficit por não estar simbolizado.
estimula os aspetos mais evoluídos da construção psíquica. Experiência que estaria no centro da felicidade de viver.
Pois como dizia o poeta A. Machado:
Prestai atenção:
Um coração solitário
não é coração
ABSTRACT
The article focuses on personal Intimacy as a long term and difficult achievement wich grows alongside psychological development.
When the construction of a healthy Intimacy is unsuccessful the person becomes homeless unable to find shelter in himself.
KEYWORDS: intimacy, failure, construction, homeless.