Sob o título «Supervisão Psicanalítica — Uma Aprendizagem pela Experiência», a autora, que é supervisora, evoca e descreve de forma sucinta o pensamento de W. R. Bion, assim como o de D. Winnicott, dois psicanalistas que conceptualizaram a comunicação na díade Mãe-Bebé. Enfatiza a intuição e a rêverie como formas privilegiadas de intersubjetividade (espaço potencial), capazes de originar aprendizagem, ou seja, crescimento mental. Assim descreve o método Comunicativo, Relacional e Experiencial que costuma utilizar.
Na fase em que me encontro como psicanalista, devo confessar que não me sinto disponível para fazer longas e eruditas revisões bibliográficas sobre temas que gosto de abordar, embora me mantenha atenta às inovações e leituras que vou fazendo.
Dou particular importância à experiência clínica e escrever um artigo como este para a nossa RPP é apenas uma proposta pessoal que tem em vista estimular a reflexão dos leitores (psicanalistas), numa área formativa que muitos de nós praticam, mas que não tem sido objeto de escrita ou investigação.
Será a minha forma preferencial de refletir: escrever acerca de.
As referências bibliográficas estão aí e podem ser consultadas, dispensem-me de citações.
Todavia, não deixarei de referir um workshop sobre Supervisão, promovido pela nossa SPP, em 2008, sob orientação do nosso colega sueco Imre Szecsödy, da SPS, que muito me alertou para o Processo de Supervisão, para o seu valor formativo e para o rigor que a Sociedade sueca punha na formação de supervisores, em cursos opcionais de 2 anos.
Szecsödy fez uma investigação acerca do Processo de Supervisão a partir de relatos de material apresentado à supervisão e entrevistas a supervisores (56 relatos e entrevistas). Verifica e confirma que esta tem sido uma área formativa pouco abordada na literatura psicanalítica. Só em 1993, na 6.a Conferência de Formação da IPA foi abordada esta temática.
Em geral, a tarefa de Supervisão era atribuída a analistas credenciados, com bastante experiência clínica e reflexão teórica (didatas), mas que nem sempre eram escolhidos por qualidades pedagógicas, o que os tornou por vezes em personalidades carismáticas e temidas por muitos supervisandos; acerca deles contavam-se as mais curiosas anedotas, verídicas ou não, mas dando conta do poder e do cultivo do cunho de personalidade que tiveram nas Sociedades de Psicanálise. A verdade é que a democratização das Sociedades estendeu essa tarefa a outra categoria de analistas qualificados, de escolha livre pelos candidatos — ganhou-se na opção de escolha, mas caiu-se num certo amadorismo. Nalguma Sociedades, passou a ser exigido um curso ou seminários para a formação de supervisores, dada a valorização crescente da vertente pedagógica nessa aprendizagem. Verificou-se que a qualidade da relação entre supervisor/supervisando é tão ou mais importante do que o saber psicanalítico e o
Artigo recebido em 11 de Abril de 2018 e aceite para publicação em 5 de Outubro de 2018.
Psiquiatra. Psicanalista. Membro titular com funções didácticas da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). E-mail:
Nota: a autora segue o recente Acordo Ortográfico.
domínio da técnica. Está provado que os resultados formativos (no candidato) e terapêuticos (no paciente) dependem da qualidade da relação da dupla.
Ao salientarmos a aprendizagem pela experiência, nesta ação formativa fomos buscar referências a dois notáveis psicanalistas — Winnicott e Bion — e não recorremos, como geralmente vemos descrito no processo cognitivo da aprendizagem, à importante contribuição de J. Piaget sobre a definição de duas operações: assimilação e acomodação. Na Assimilação, dá-se o impacto de uma nova ideia, um novo ponto de vista acerca de um dado de observação, que vem perturbar a certeza e estabilidade daquela ideia, ainda que errónea. Na Acomodação, dá-se uma reconstrução a fim de integrar o novo conhecimento e operar uma mudança.
Como sabemos, Piaget foi um psicólogo que estudou a evolução dos processos cognitivos. Freud abordou mais os aspetos afetivo-pulsionais do desenvolvimento. Os pós-freudianos D. Winnicott e W. R. Bion deram uma importante contribuição à formação do Self, e valorizaram a importância dos fenómenos emocionais na própria evolução do pensamento. Bion chamou a atenção para a turbulência emocional e até angústia catastrófica face a uma «ideia nova» e Winnicott alertou para o aspeto traumático que uma forte desilusão pode causar, assim como para a ferida narcísica que fica quando a mãe não tem a suficiente intuição para manter a ilusão, até que o seu bebé possa tolerar a dor mental. Numa perspetiva de relação de objeto, poderíamos situar este movimento intersubjetivo e intrapsíquico na passagem da Identificação projetiva para a identificação intrassubjetiva (M. Klein, Fairbairn, Bion).
São estes momentos emocionais que se exprimem através de movimentos transferenciais e contratransferenciais, mais até do que a coerência cognitiva, que interferem na aprendizagem pela experiência, na Supervisão. Não tanto a informação, a explicação da técnica, mas o clima relacional, a confiança, a aliança de trabalho que deverá acontecer no processo de Supervisão. Voltaremos a estas questões mais adiante.
À notável descoberta da Transferência por Freud, resultado da sua perspicaz observação clínica , e à inovação da Identificação Projetiva trazida por Melanie Klein junta-se a viragem de perspetiva acerca da Contratransferência quase simultaneamente percebida por Paula Heimann e Racker ; novos conceitos que remetem a Psicanálise para a sua vocação clínica. A Psicanálise com aspirações hermenêuticas e filosóficas passou à difícil tarefa de conseguir alguma mudança na estrutura da personalidade dos pacientes que a procuram.
As Teorias e as Metáforas que se foram criando acerca do aparelho psíquico e seu funcionamento (Freud, M. Klein, Winnicott, Fairbairn, Bion, Lacan, A. Green) foram aliciantes e fecundas para a compreensão da dinâmica do par analítico, com vista à dita transformação.
A evolução da Teoria Psicanalítica tem vindo a demonstrar o seu pluralismo, e a sua aplicação clínica mais abrangente obrigou a adaptações técnicas em função da psicopatologia. Fatores de ordem sociocultural, vieram também influenciar essa evolução, pois foram grandes as mudanças que se operaram na época contemporânea. Se Freud valorizou a influência da sociedade e dos valores na organização familiar, não podia a Psicanálise ficar imune às mudanças aceleradas e profundas da atualidade.
Na minha opinião, a Psicanálise do ponto de vista epistemológico veio a afastar-se de uma Ciência ou de uma Filosofia e preferimos hoje defini-la como uma Estratégia de Comunicação Intersubjetiva, uma vez que utiliza a personalidade do analista como instrumento privilegiado de ação terapêutica.
A enorme diversidade do par analítico condiciona os resultados, mesmo quando a técnica se adapta às variações de funcionamento psíquico do paciente (idade, etnia, psicopatologia, etc.).
A própria Medicina mais próxima de uma Ciência Aplicada tem alguma imprevisibilidade e a sua eficácia curativa joga com a probabilidade estatística. A «Psicanálise privilegia o conhecimento que se adquiriu pela experiência vivida e, por isso, só pode aspirar a resultados aproximados, tal como a Psicologia. Prigogine diz que as probabilidades já não exprimem o grau da nossa ignorância. O conceito que fazemos do Universo, tal como o do Psiquismo são fruto do nosso imaginário».3
Vem esta introdução a propósito da importância que daremos, na Formação Analítica, à Aprendizagem pela Experiência, quer na Análise Pessoal, quer no treino que o psicanalista terá de fazer sob Supervisão. Com efeito, não se aprende lendo livros de técnica, embora seja importante conhecê-los, mas vivendo uma experiência emocional na relação intersubjetiva.
Vamos então buscar à obra seminal de W. Bion, Aprendendo pela Experiência (1965), alguns dos conceitos fundamentais em que nos baseamos.
Bion adota o modelo continente/conteúdo para explicar os fenómenos de Identificação Projetiva e a oscilação Ps–D na formação do Self (M. Klein). É uma metáfora, digamos assim, que nos oferece o holograma da díade Mãe/Bebé. A Mãe continente do seu Bebé, o bebé conteúdo solicitando avidamente a satisfação das suas necessidades e projetando a sua raiva e frustração
in Textos Psicanalíticos. Lisboa: Fim de Século, 2003.
quando não é satisfeito. Apaziguado, retorna à fantasia omnipotente fusional; oscila entre angústias caóticas de dispersão (Ps) e momentos cada vez mais longos de satisfação e integração (D). Será da repetição de boas experiências de satisfação que ele aprende a esperar e descobre que é separado da Mãe, mas guardará dela a memória (a representação) de um Bom Objeto interno (D). As boas experiências dependem da capacidade que a Mãe terá de intuir as necessidades do seu bebé (capacidade de rêverie da mãe, segundo Bion), a sua tolerância à frustração, a sua capacidade de guardar na memoria as experiências emocionais e sensoriais (transformação de elementos beta em elementos alfa) que tornam as suas angústias em mais toleráveis, porque são mentalizadas ou pensadas.
Assim, segundo Bion, o psiquismo da Mãe, nessa íntima comunicação de inconsciente a inconsciente, e através de uma Barreira de Contacto semiporosa e ativa, vai originando o psiquismo do Bebé (esboço do Self), ou seja, vai-se expandindo a sua capacidade de pensar (função alfa) através de um aparelho de pensar os pensamentos. Influenciado por Kant, Bion admite que há na Mente Humana pensamentos «a priori» — ou seja pré-conceções —, mas que tem de surgir uma experiência emocional no contacto com o outro ou com o Mundo (a realização) para que da preconceção se passe ao Conceito, que é já uma forma mais elaborada, abstrata, de pensar. A Realização é então a experiência emocional (com fortes componentes somáticos e sensoriais na criança) que na comunicação intersubjetiva com o outro (pais, irmãos, por exemplo) corresponde à Aprendizagem e ao crescimento mental. Aprendizagem é uma aquisição, uma descoberta acerca de si, do outro ou do Mundo; e pode chegar ao Conceito.
Bion, para melhor explicar a origem do pensamento, introduz ainda a noção de Vínculos, que se refere à experiência emocional em que duas pessoas ou partes de uma pessoa se relacionam, e definiu três emoções básicas: Amor (L), Ódio (H) e Conhecimento (K).
O núcleo do Self consolida-se na interação dinâmica entre K e L e leva à confiança básica (Erikson), ou seja, à constância de um Bom Objeto Interno, que assegura a separação Self-Objeto e favorece o crescimento mental. Bion deu ainda uma contribuição importante à funcionalidade da Identificação Projetiva — que Melanie Klein descreveu como clivagem defensiva (Bom e Mau objeto) — e considerou que, no processo de Identificação, esse mecanismo pode ser também uma forma de comunicação empática, em espelho, com o interlocutor.
Outro psicanalista que muito nos ajudou a compreender a díade Mãe-Bebé e a aprendizagem pela experiência foi D. Winnicott, quando no seu livro Jogo e Realidade nos fala da utilização da Mãe como objeto, permitindo que o próprio bebé tenha a ilusão de o ter criado. A Mãe, mantendo a ilusão dessa omnipotência infantil, vai dar-lhe segurança e convicção (o objeto é subjetivado) e vai permitir-lhe tolerar melhor a frustração da realidade, isto é, a separação.
Numa Área Intermediária, num Espaço Potencial que a Mãe favorece e sustenta, surge o Objeto Transicional, que, não sendo nem completamente externo nem ainda um Objeto interno, permite à criança jogar «como se», fantasiar, e sentir-se acompanhada. Será o esboço da atividade simbólica. A criança usará o jogo, a brincadeira, para se exprimir, para se treinar, para aprender com essa experiência emocional, para descobrir o Outro e o Mundo que a cerca.
A criança, «brincando só junto de alguém», entra progressivamente em contacto com o seu mundo interno e esboça «essa capacidade de estar só» (Winnicott), que é consoladora e maturativa, pois corresponde a sentir-se compreendida e aceite.
É nessa natural empatia e comunicação com os pais que a criança desenvolve um «Verdadeiro Self», que é autêntica, porque sente que é genuína a aceitação dos pais. O «Falso Self », ainda uma noção de Winnicott, é a máscara defensiva que a criança pode ter de utilizar para agradar aos pais, para tentar adaptar-se às exigências dos outros. É muitas vezes uma aprendizagem forçada, falsa e mortífera. Deteriora ou mata partes do Verdadeiro Self, cria desarmonia.
Winnicott chama ainda a atenção para o permanente dinamismo entre destrutividade e reparação. A criança está sempre a recuperar a Mãe da sua ausência, sempre a repará-la, movida pela culpa de a ter destruído; a sua sobrevivência aos ataques será tranquilizadora, é a certeza de ser amada e perdoada.
Muito interessante esta aprendizagem pela experiência emocional! Bion, na ausência do Objeto, vê a origem do pensamento; Winnicott enfatiza a reparação do Objeto, no caminho para a consolidação do Self.
Todos estes conceitos psicanalíticos nos levam a confirmar que a Intuição é o instrumento essencial da comunicação intersubjetiva e da clínica. Gosto de citar Eduardo Sá, que lhe dá a dimensão clínica: «a intuição permite evitar a dor desnecessária e integrar a dor inevitável do insight»4. Exatamente! A intuição da Mãe, a sua capacidade de rêverie, intui a necessidade do bebé, como a do clínico intui a oportunidade da intervenção com o paciente. Ambos percebem, intuem, a tolerância à dor mental, o poder suportar a crueza do real (externa e interna) e da verdade.
Como não haveríamos de relembrar estas noções-chave do pensamento psicanalítico, antes de falarmos do Projeto Formativo em psicanálise?
A experiência emocional surgirá na comunicação intersubjetiva, de inconsciente
in Textos Psicanalíticos. Lisboa: Fim de Século, 2003.
a inconsciente, entre analista e paciente, simultaneamente em atenção flutuante e associação livre, ou seja, próxima do estado de rêverie (Freud, Bion, Winnicott, Ogden, Bollas, etc.), e de preferência «sem desejo, sem memória e sem compreensão», como aconselhou Bion. Mentes livres, não saturadas.
Se é assim que o processo analítico progride, com os obstáculos e vicissitudes que lhe conhecemos, é também a ele que recorremos no processo de Supervisão psicanalítica. Nem poderia ser diferente a transmissão da Psicanálise. Há uma passagem de testemunho que se organizou, a partir de Eitington (Berlin, 1922–24), e seguindo a proposta de Freud, no projeto tripartido: análise pessoal, informação teórica e supervisão psicanalítica de candidatos.
Desejável seria que na Supervisão a atitude do par supervisor-supervisando se aproximasse do modelo do processo analítico, ainda que o objetivo pedagógico e avaliativo origine algum constrangimento na Instituição que o exige e utiliza.
Mas Aprender é Crescer, Ensinar é apoiar o crescimento — muito se aprende ensinando —, e será nesse permanente intercâmbio relacional que se acrescentará o conhecimento de nós-mesmos, do outro e do Mundo.
Christopher Bollas (1991, 1993, 2009) o mais winnicottiano dos psicanalistas contemporâneos, preconiza com profundo sentido clínico que o analista se ofereça como objeto, ou seja, ofereça a sua personalidade ao paciente na busca do seu Verdadeiro Self; mais do que a Verdade (?), procura a Autenticidade! Mergulhados que estamos, como Humanos, no Mundo (World Object), Bollas solicita-nos a construir a nossa existência (Destiny). Mensagem profundamente humanista vinda de um psicanalista.
É nesta leitura do funcionamento do par analítico transposta para o Processo de Supervisão (supervisor/supervisando-paciente) que definimos a Supervisão Psicanalítica como uma forma de Aprendizagem pela Experiência.
Com efeito, não há grandes diferenças. O objetivo é o mesmo: transformar e obter crescimento mental. Ser analista é próximo de ser supervisor, ser supervisando é próximo de ser analisando. É uma relação assimétrica, uma vez que um é mais experiente do que o outro, «já que fez a experiência», mas não tem garantias de ser superior, porque são diferentes. Ao ocupar «lugar do suposto saber» (Lacan), ocupa o lugar do Imaginário, e admitir o Simbólico, o Incognoscível (K-O de Bion ou a A de Lacan), é uma meta que se procura, mas jamais se encontra. É nessa atitude humilde e socrática que nos devemos colocar, aceitando a incerteza e a ignorância, com respeito por princípios éticos.
Tudo faremos para ajudar (ensinar) o nosso paciente e o nosso supervisando a ser mais autónomos e responsáveis. Qualquer um deles descobrirá a sua Verdade, o seu estilo, a sua vida.
Vejamos algumas precauções ou condicionamentos técnicos que nos levarão a alertar para a definição das ténues fronteiras que separam a terapia da supervisão, sobretudo numa organização formativa da Sociedade Psicanalítica (Comissão de Ensino).
Pertenço à geração (década de ) em que a análise pessoal precedia a Supervisão. Só depois de terminada, ou próxima do final, se podia tomar um caso em supervisão. Procurava manter-se uma certa independência entre supervisor e analista, para assegurar a confidencialidade; o analista pessoal não se deveria pronunciar acerca da admissão e carreira psicanalítica do futuro analista.
Sabíamos que algumas Sociedades europeias e americanas eram mais abertas e consideravam até que era vantajoso que um candidato em análise pudesse manter uma supervisão. Competia ao supervisor avaliar o que, na evolução do caso, era mais do foro terapêutico (respeitando à analise pessoal e à contratransferência do candidato) ou mais do foro técnico. Entretanto, a partilha de informações entre os dois era evitada e competia à CE a avaliação final.
Atualmente, é mais aceite a simultaneidade, pelo menos parcial, dos dois processos formativos (Ogden, T., 1997, Martin, E., 2005, Driver, C., 2005) — com vantagens, na minha opinião. A aprendizagem faz-se pela experiência com duas pessoas, e o supervisando vai ter de se olhar nos dois papeis e transpor a sua própria vivência, ora como objeto (supervisando), ora como sujeito (terapeuta). Vai aprender a gerir a transferência e a contratransferência — tal como acontece em qualquer análise, tal como acontece em qualquer supervisão. Será que a dificuldade que sente na sua análise é semelhante à dificuldade que sente na supervisão? Será que está mais à-vontade com o seu analista e sente o seu supervisor como crítico e persecutório?
O tipo de resistência é semelhante, ou não fosse a mesma personalidade que está em jogo. O formando dependente, inseguro, bloqueia a associação livre e espera orientações do seu supervisor. O formando narcísico e autossuficiente, ou racionalizante, não atende aos avisos do seu supervisor, queixa-se de que o seu paciente é difícil, não o ouve e não muda.
Transferência e contratransferência (concordante ou complementar) estão sempre em jogo, movimentos que um analista experimentado deve saber gerir. Melhor: com a experiência, aprende a gerir!
Revisitando os vários modelos metodológicos de supervisão (Zaslascky, J. et al., 2008):
1 – Clássico ou Demonstrativo, centrado no paciente, em que o material apresentado pelo supervisando é acompanhado pelo supervisor, que chama a atenção para a técnica e formula hipóteses interpretativas.
2 – Corretivo ou Comunicativo, centrado no supervisando, em que este valoriza aspetos inconscientes do paciente e, inclusivamente, algumas das suas associações espontâneas, que nem sempre verbaliza na supervisão. O supervisor pode detetá-las, explicá-las, explicar porque o faz, mas deixa que o supervisando as leve para a sua análise pessoal. Szecsödy talvez utilize este método chamando a atenção para o tipo de dificuldade que o supervisando apresenta: mais ao nível da falha (pouco conhecimento, pouca habilidade, inexperiência), ou mais ao nível do conflito (atitude predominantemente defensiva).
3 – Compreensivo, Relacional ou Experiencial, centrado na interação da dupla, em que o supervisor participa na experiência de aprendizagem, a nível empático, e pode verbalizar algumas das suas associações espontâneas e fazer algumas hipóteses interpretativas. A transferência e contratransferência são abordadas diretamente na supervisão: o supervisor pode sugerir que certos aspetos, geralmente repetitivos ou cegos, sejam levados para a análise pessoal.
Lembremos que estes três modelos são complementares.
Eu situo-me, de preferência, no último. Penso que vai mais ao encontro da teoria da Aprendizagem pela Experiência de Bion e de Winnicott, que sintetizámos no início.
Esquematizando:
o relato do material é uma transformação sujeita a novas transformações.
O é incognoscível.
K-O tenta-se pela intuição da dupla (rêverie, associação livre/atenção flutuante, capacidade negativa do analista, sonhos de contratransferência, jogo no espaço potencial da dupla).
Pode chegar-se a um facto selecionado: o facto selecionado é elaborado pela dupla, e pode conduzir a uma interpretação, ou melhor, a uma hipótese interpretativa, que será testada no curso da terapia.
Mais centrada na intersubjetividade e interação da dupla (supervisor/supervisando), tento participar na experiência de aprendizagem do formando com empatia, ouvindo em atenção flutuante e fazendo associações, e anotando apenas momentos ou palavras-frases que me parecem significativas; por vezes, chego a verbalizar algumas associações pessoais. Procuro que o formando faça o mesmo a propósito do material que apresenta agora e na altura em que o ouvia; o que sentiu, o que disse e o que evitou dizer, e porquê. Prefere escrever ou simplesmente evocar o que se passou, e o que se lhe oferece dizer, agora, acerca disso? Vamos encontrando, de comum acordo, um método de apresentação e uma forma de escuta. A associação livre/atenção flutuante é um jogo que preenche esse «espaço potencial» em que ambos estamos mergulhados e procuramos tornar em criativo. Como diz C. Bollas (2009), a associação livre subverte a tendência autoritária do supervisor (do analista) e o desejo do paciente (supervisando) em ser conduzido. Não devemos ter o monopólio do insight; aliás, qualquer ideia é apenas uma hipótese e, como Freud nos avisou, o analista não tem forçosamente de compreender, no aqui e agora, tudo o que o paciente diz ou faz.
O fluxo da associação livre é por mim muito valorizado e procuro estimular, participar, e detetar certos bloqueios no supervisando, chamar a atenção para pontos cegos, e, com alguma frequência, verifico que o formando me fala da sua contratransferência espontaneamente. Todavia, só quando esse bloqueio é repetitivo e difícil de ultrapassar, o remeto à sua análise pessoal. De contrário, admito que a supervisão não se limita ao ensino da técnica, que «a associação livre é importante mas não é suficiente» (Crawford, S., 2005), mas pode estimular o aprofundamento da análise pessoal. Beneficia o supervisando e beneficia o paciente que nos ocupa. O processo de Supervisão entra numa «aliança de trabalho» participada e criativa.
Não esqueçamos, todavia, que o Supervisor é o guardião da Supervisão. É fundamental, como na Análise pessoal, manter o setting e os limites entre supervisor-supervisando, entre processo de Supervisão/Processo Analítico, entre Processo de Supervisão/Regulamento Institucional — tarefa difícil e, muitas vezes, melindrosa porque todos conhecemos a ambiguidade subjacente à supervisão, decorrente do papel de avaliador que a Instituição atribui ao supervisor.
Um supervisando em análise pessoal há 3 anos resolve trazer um caso que considera difícil e que segue há 4anos em face a face; está num impasse, ainda que tenha feito alguns progressos a nível profissional e nos contactos sociais organizados (escuteiros e voluntariado).
O paciente é um engenheiro informático de 30 anos, trabalha numa empresa internacional e desloca-se com a equipa de trabalho a cidades europeias para controlo e orientação de programas de investigação. Todavia, foi sempre muito inibido e bloqueado nas suas relações interpessoais: não tem namorada nem amigos; vive com a mãe, da qual é bastante dependente; o pai faleceu há 6 anos. Desde bastante cedo, tem crises de pânico em que chega a desmaiar e momentos em que adormece sem encontrar motivos. Tem medo de adoecer e de ficar só, angústia noturna e medo do escuro desde criança.
O paciente é muito assíduo, avisa e pede substituição das sessões quando tem de faltar por motivos profissionais. O terapeuta está muito atento e procura satisfazer o seu paciente e, ao longo deste contacto, sem se dar conta, foi entrando na ritualização que o próprio paciente foi impondo. Por exemplo, este iniciava a sessão sempre com a mesma pergunta, fazia frequentes silêncios, ficava repentinamente sonolento; o terapeuta sentia-se também sonolento, vazio e sem ideias, queixa que o paciente também apresentava. Outra queixa frequente do paciente era a fobia de estar numa fila (de automóveis, na cantina para o almoço, etc.). Não trazia sonhos. Falavam vagamente no medo de perder o controlo, quando iniciou a supervisão.
Notei que o terapeuta estava realmente bloqueado, sem ver saída para a terapia, incapaz de pensar, de imaginar, de fazer associação livre ou de a promover no paciente. Pareceu-me uma situação de Contra Identificação Projetiva (Grinberg, L., 2001) e disse ao terapeuta que ele, sem querer, estava a submeter-se a um comportamento que o seu paciente lhe impunha inconscientemente, ao serviço de uma enorme resistência. Aliás, a queixa que o paciente às vezes verbalizava era que «nunca mais conseguia realizar o seu sonho de ter uma namorada, e já ali andava há 4 anos!»
A minha tática nesta supervisão foi estimular em mim e no terapeuta a associação livre/atenção flutuante, e comecei a avançar com associações que me surpreenderam, a mim e ao meu formando. Mas a verdade é que, a partir de então, trouxe dois sonhos contratransferenciais, falou de algumas dificuldades na sua análise, começou ele próprio a associar, e o paciente está mais comunicativo e já sonha. Nada do que se passou entre nós foi comunicado ao paciente. Desencadeei uma experiência emocional e espero que, a partir daí, venha uma aprendizagem, um facto selecionado, que origine transformações no supervisando, no paciente e, seguramente, em mim.
ABSTRACT
The author describes the methodology (relational experiencial). That she carries on during the psychoanalytical training in supervion. She considers that Analytic and Supervision Processes are forms of learning by emocional experience and she evokes W. R. Bion and Winnicott theories about the comunication between Mother-Baby. She enfazises the intuition, the rêverie and free association, between superviser-supervisee to arise a select fact, and a better understanding of patient.
KEYWORDS: psychoanalytic supervision, learning by experience, supervision models, cure vs. teaching.