Este artigo objetiva esboçar uma compreensão da melancolia que considere a experiência intersubjetiva na constituição psíquica, mais especificamente, o que se dá na relação entre mãe e bebê. Para tanto, inicia-se com a descrição sucinta dessa afecção, a partir do conceito kleiniano de objeto bom; em seguida, busca-se ampliar a compreensão da constituição psíquica melancólica, tendo como referência o conceito de continente-contido, de Wilfred Bion, inspirado na teorização kleiniana da identificação projetiva. De modo a iluminar tais conceitos, são apresentados alguns trechos do diário e da obra literária da poetisa portuguesa Florbela Espanca.
Compreendi por fim que nada compreendi, que mesmo nada poderia ter compreendido de mim. Restam-me os outros… talvez por eles possa chegar às infinitas possibilidades do meu ser misterioso, intangível, secreto.
A epígrafe que abre este artigo faz parte da primeira anotação do diário de Florbela Espanca, morta por suicídio em 1930, aos 36 anos. Nele, a poetisa portuguesa explica as razões para começar a escrever um diário e se pergunta: «Para mim? Para ti?»; e ela mesma responde: «Para ninguém», referindo-se à ausência de interlocutores para quem endereçar o que ali seria registrado.
Interessante é pensarmos no paradoxo que se faz presente entre escrever um diário, a priori um registro íntimo, e, ao mesmo tempo, esperar que um outro, em algum momento, o leia. «Restam-me os outros», anseia Florbela — e é por esses outros que espera alcançar alguma compreensão de seu «ser misterioso».
Ora, esse «ser misterioso» não parece ser, para a poetisa, um lugar de descanso, em que pudesse se retirar da invasão do mundo externo; ao contrário, parece ser motivo de tormento diante do desconhecido. Tanto é que, em outro trecho dessa mesma anotação, revela:
Quando morrer, é possível que alguém, ao ler estes descosidos monólogos, leia o que sente sem o saber dizer, que essa coisa tão rara neste mundo — uma alma — se debruce com um pouco de piedade, um pouco de compreensão, em silêncio, sobre o que eu fui ou o que julguei ser. E realize o que eu não pude: conhecer-me. (Espanca, F., 1982, p. 35)
Esse clamor por alguém que venha a conhecê-la, por alguém que se debruce nos seus escritos
Artigo recebido em 25 de Outubro de 2017 e aceite para publicação em 31 de Janeiro de 2018
Psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia da USP. E-mail:
Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e professora titular aposentada no Instituto de Psicologia da USP. E-mail: .
Professora doutora do Instituto de Psicologia da USP e membro efetivo do Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. E-mail:
com «um pouco de compreensão», parece ser o clamor de quem não pôde ter a sua experiência emocional satisfatoriamente significada por um continente capaz de realizar o trabalho psicológico junto com ela — um outro que a compreendesse, que recebesse e suportasse suas projeções; mais do que isso, as contivesse e significasse. O diário seria, pois, a última tentativa de buscar esse objeto continente, de maneira que ela mesma pudesse não se ver no outro, mas conhecer a si mesma.
Quem seria, por conseguinte, o interlocutor deste diário? Ninguém, como a própria Florbela expressa no início. Um diário, diferente de uma epístola, não tem remetente. É um documento íntimo, um lugar secreto. Por outro lado, o diário parece se apresentar como última esperança de encontro com um objeto capaz de suportar a experiência emocional que Florbela não poderia suportar sozinha. Ali, ela lança suas «reflexões, impressões, ideias, maneiras de ver, de sentir — todo o meu espírito paradoxal, talvez frívolo, talvez profundo»; isto é, tudo aquilo que «os ouvidos dos outros não recolhem» (Espanca, F., 1982, p. 35). Não recolhem ou não podem recolher? Ou não podem suportar?
A leitura do diário de Florbela, escrito no último ano de sua vida, nos mobiliza a pensar em questões ligadas à dinâmica melancólica e, mobilizados por estas questões, trazemos a seguir alguns aportes teóricos para nos auxiliar em nossas reflexões.
A perda do objeto de amor é um fator central na dinâmica da melancolia e, mais precisamente, no surto melancólico (Freud, S., 1996b). Ainda que não seja necessariamente concreta (Freud, S., 1996a), remete a um abandono fundamental, recriando na psique do sujeito a ferida narcísica sofrida na infância primitiva, o que remete, segundo Abraham (1970), para a situação arcaica de abandono. A importância da perda objetal posterior, concreta ou abstrata, só pode ser plenamente apreendida, pois, a partir da análise das relações objetais primordiais.
A teoria kleiniana das posições e dos objetos internos nos defronta, exatamente, com esse mundo de relações objetais internas e externas, permeado por uma complexa rede de fantasias, ansiedades e pulsões. A partir dessa nova compreensão da estruturação do psiquismo, como entender então a relevância que adquire a perda do objeto na melancolia? A teoria dos objetos internos e do mundo interno mostra que, no início da vida, o sujeito não é somente formado pelo ego, superego e pelo id e suas exigências pulsionais, mas que, ao lado deles, convive uma multiplicidade de objetos internos que, na fantasia do sujeito, efetivamente estão dentro de seu corpo; isto é, são sentidos como objetos concretos. O reconhecimento disso nos impõe a questão: Qual é, de fato, a perda que importa?
Melanie Klein não nega toda a descrição de Freud e Abraham, mas suas teorias acerca dos objetos internos e da posição depressiva (Klein, M., 1996) ampliam a compreensão da dimensão dessa perda ao mostrar que se trata, fundamentalmente, da perda do objeto bom. É isso que diferencia a melancolia do luto normal (Klein, M., 1996).
No surto de melancolia, há a introjeção do objeto perdido. Mas, tendo em vista que os movimentos de projeção e introjeção estão continuamente ativos desde o início da vida, qual é a importância dessa introjeção específica?
Para esboçar uma resposta a essa questão, recorremos à leitura que Jean Michel Petot realiza do texto kleiniano. Petot (2002) observa que o uso que Klein faz da noção de perda do objeto e de introjeção de objeto não se dá no mesmo sentido que a noção de perda e de introjeção melancólica, como descritas por Freud e Abraham. Klein evoca a questão da perda do objeto apenas para discutir a natureza deste e as especificidades das relações de objeto, de modo que se destaque que uma verdadeira perda só pode ocorrer quando há uma verdadeira relação objetal, isto é, quando há uma relação com o objeto total. Nessa perspectiva, o ineditismo da introjeção que acontece no advento da posição depressiva é que o objeto introjetado é, pela primeira vez, um objeto total, uma pessoa, inteira e unificada.
Esse objeto introjetado, que pela primeira vez é um objeto inteiro, traz a marca da dicotomia humana: amor/ódio, prazer/frustração, bem/mal, e tantas outras ambiguidades próprias da natureza humana. O reconhecimento dessas ambiguidades do objeto confronta o bebê com uma realidade em que a inexistência do objeto ideal se faz presente, pois aqueles mesmos objetos que o satisfazem também o frustram. Ou seja, prazer e desprazer, dor e alegria podem derivar do mesmo objeto. O grande desafio é o bebê conseguir sustentar o amor pelo objeto, apesar dessa dolorosa percepção. Trata-se de um dos critérios para que a posição depressiva seja satisfatoriamente elaborada e ele possa, a partir de então, ingressar sadiamente num mundo de relações objetais complexas.
O sujeito enlutado se defronta com o mesmo desafio e consegue atravessá-lo satisfatoriamente, sustentando o amor pelo objeto perdido ao mesmo tempo que, no final do trabalho de luto, pode realizar novos investimentos. Isso se deve ao fato de que, na infância primitiva, o sujeito pôde elaborar com sucesso a posição depressiva. O melancólico, por outro lado, por não ter tido sucesso nessa elaboração, não pode, quando da ocorrência da perda, sustentar o amor pelo objeto ambíguo, «contaminado». Esse modo divergente de lidar com a perda no melancólico e no enlutado
depende, pois, das vivências desse sujeito na infância primitiva, que podem levar ou não à firme internalização do objeto bom.
Nas palavras de Klein (1996, p. 333), é necessário que a criança «caia sob a influência do círculo benévolo», em que as experiências reais de satisfação abrandam a intensidade das fantasias aterrorizantes, bem como o medo de retaliação, criando uma harmonia no mundo interno. Diferentemente do sujeito enlutado, na experiência do melancólico não houve a instalação satisfatória desse círculo benévolo.
No movimento da passagem da posição esquizo-paranóide para a posição depressiva, não há uma simples mudança de ansiedades, de defesas, de fantasias e de predominância de pulsões. A organização psíquica esquizo-paranóide passa a coexistir com a dinâmica que emerge da posição depressiva. Ou seja, a percepção do objeto inteiro, a culpa e os sentimentos de pesar pelas agressões fantasiadas e a ânsia de reparar os danos causados passam a existir juntamente com a angústia de perseguição, com a angústia suscitada pela própria pulsão de morte e com o intenso sadismo.
Para Petot (2002), é essa complexa configuração que levou Klein (1996) a considerar que a posição depressiva é central no desenvolvimento. O autor observa que o abrandamento do sadismo — um dos critérios para a elaboração bem-sucedida da posição depressiva — não acontece de maneira natural pelo simples desenvolvimento maturacional. Ao contrário, para que seja mitigado, é necessário um intenso trabalho que envolve a diminuição das defesas esquizo-paranóides e o desenvolvimento da capacidade de reparação real. Tudo isso depende, em grande medida, das experiências reais de gratificação da criança, experiências que levarão à internalização do bom objeto e à construção de um mundo interno suficientemente bom, fazendo uso dessa excelente expressão de Winnicott.
E é nisto que reside um dos problemas da melancolia: a inexistência de um mundo interno suficientemente bom, o que significa que o sujeito não foi capaz de lidar satisfatoriamente com a ambivalência fundamental, com os aspectos contraditórios do objeto e, principalmente, não houve uma sobrepujação do ódio pelo amor. Desse modo, não foi possível internalizar firmemente o bom objeto primordial, que se tornaria o núcleo do mundo interno. É a perda desse objeto bom primordial que tem importância basal na dinâmica melancólica. A perda na melancolia remete à falta desse objeto, remete à situação de abandono construída pela falta de gratificação na infância primitiva, pela grande ausência de situações de contato íntimo e feliz, isto é, momentos que poderiam aliviar a ansiedade paranóide, diminuir a crença no próprio potencial destrutivo e aumentar a crença na sua capacidade de amor e reparação. Todos esses momentos vão construindo o objeto bom primordial, que, como escrevem Cintra e Figueiredo (2004), é uma reserva interna de situações boas às quais o sujeito pode se voltar nos momentos de perda e frustração.
Steiner (1994) propõe dividir a posição depressiva em duas fases. A primeira seria a fase de medo da perda do objeto e a segunda de experiência da perda. Ambas seriam atualizadas nas perdas posteriores, correspondendo às fases do trabalho de luto. Na fase inicial, o sujeito tenta negar a realidade da perda por meio de uma maciça identificação, esvanecendo a separação entre sujeito e objeto. Quando o sujeito atravessa essa fase, podendo viver a experiência da perda, «a identificação projetiva é revertida e partes do self antes atribuídas ao objeto são revertidas ao ego» (Steiner, J., 1994, p. 68).
Abandonar o objeto de amor, isto é, aceitar sua perda, é ter de se haver com toda a experiência emocional que essa aceitação suscita. Pensamos que o desenvolvimento da capacidade de suportar a experiência de perda e ultrapassar a primeira fase do luto, em que há um uso intenso de identificação projetiva, depende, em parte, da possibilidade de constituição exitosa, na relação primitiva mãe-bebê, de um aparelho psíquico capaz de significar e elaborar as experiências emocionais.
No processo de luto, o sujeito dispõe dos mesmos mecanismos utilizados na elaboração da posição depressiva infantil, passando, transitoriamente, por um tipo de estado maníaco-depressivo. A perda convoca então a idealização, a negação, as reparações maníacas e obsessivas. Quando é possível elaborá-la, há uma mitigação do ódio pelo amor e a possibilidade de reparação real (Klein, M., 1996).
Ora, o ápice da elaboração da posição depressiva, que determina o sucesso do trabalho do luto, é a internalização eficaz do objeto bom primordial. No sujeito melancólico, por não ter elaborado a posição depressiva e, por conseguinte, internalizado satisfatoriamente o bom objeto primordial, há a impossibilidade de realização do trabalho do luto, havendo, pois, o que Cintra (2011) chama de um «luto impossível».
Cabe-nos, pois, questionarmo-nos acerca de quais são os processos que levam à internalização desse objeto. Klein (1996, p. 390) se refere a «experiências de contato íntimo e feliz» com a mãe, bem como a instauração de um «círculo benévolo» (Klein, 1996, p. 333). A continuidade dessas experiências reforça o potencial de amor do bebê e diminui as ansiedades persecutórias, permitindo, como vimos, que o sujeito crie dentro de si uma reserva de experiências prazerosas para onde
voltar-se nos momentos de perda e frustração, o que é, em última instância, o objeto bom (Cintra, E. M. & Figueiredo, L. C., 2004).
Embora Klein enfatize a importância das reais experiências de satisfação proporcionadas pelo cuidado oferecido pela mãe, suas investigações se centram muito mais na mente do bebê do que no que se passa na relação interpsíquica entre ambos e que constitui o psiquismo do infante. Ela própria reconhece as limitações de sua pesquisa — numa nota de rodapé do artigo «Amor, culpa e reparação», ao referir-se ao exame feito por ela dos impulsos arcaicos e fantasias inconscientes da criança, ressalta:
[…] isso leva necessariamente a uma apresentação condensada e esquemática, pois dessa maneira não há como fazer jus aos múltiplos fatores que, na interação permanente entre as influências originárias do mundo externo e as forças internas do indivíduo, trabalham juntos para criar uma relação adulta. (Klein, M., 1996, p. 354)
De todo modo, algumas expressões da própria Klein, já supracitadas, nos abrem um grande terreno para pensarmos na dimensão da intersubjetividade e nas qualidades da mente materna como importantes fatores na constituição do psiquismo do bebê. Esse terreno é alargado ainda mais quando pensamos na intersubjetividade a partir do conceito de identificação projetiva (Klein, M., 1991), que deu subsídios para o conceito bioniano de continente-contido (Ribeiro, M. F. R., 2016).
Bion (1991) compreende o conceito de continente-contido como constitutivo da maneira como pensamos; isto é, como a experiência bruta (elemento beta), quando contida por outra mente (função alfa), se transforma em um conteúdo inconsciente, um elemento alfa.
Hinshelwood (1992) pontua que, na descrição de Susan Isaacs (1978), de que a fantasia inconsciente é o representante psíquico da pulsão, está contida a ideia de um processo de conversão que se dá no «descontínuo corpo mente», processo que Bion denominou de função-alfa, isto é, «[…] o processo desconhecido que se acha envolvido em tomar dados sensórios brutos e deles gerar conteúdos mentais que possuem significado e podem ser utilizados para pensar» (Hinshelwood, R. D., 1992, p. 348).
O bebê, todavia, ainda não tem essa capacidade, por não ter um psiquismo suficientemente constituído, um aparelho para pensar, que lhe permita elaborar a experiência emocional vivida. Para isso, ele necessita da mente da mãe e das qualidades psíquicas do psiquismo materno. A relação primordial mãe-bebê deve permitir, então, que o bebê utilize a mente da mãe como receptáculo dos conteúdos que ele não consegue elaborar por si mesmo. A mãe, em contrapartida, deve estar disponível para isso, em um estado de «calma receptividade» (Hinshelwood, R. D., 1992, p. 464), de devaneio, em que possa receber as identificações projetivas do bebê, elaborá-las, transformando-as em conteúdo assimilável. A continuidade desse processo permitirá que, gradualmente, o psiquismo do infante desenvolva a capacidade de elaborar as próprias experiências.
Pensamos que o desenvolvimento dessa capacidade está em paralelo com a introjeção do objeto bom primordial, sendo essa capacidade uma das facetas ou uma das funções desse objeto. O objeto bom, de acordo com a descrição kleiniana, está relacionado com as experiências de satisfação, a diminuição da persecutoriedade, o desenvolvimento da capacidade de amar, a possibilidade de tolerar a ambivalência, a possibilidade de adiar a satisfação e de lidar com a frustração. Nessa perspectiva, esse objeto, que constitui o núcleo do mundo interno, permite também ao sujeito o desenvolvimento da capacidade de significar a experiência emocional. A esse respeito, Hanna Segal (1981), em seu trabalho acerca do tratamento psicanalítico das psicoses, afirma que, após a mãe receber e suportar as identificações projetivas do bebê, este pode reintrojetar não apenas sua ansiedade outrora projetada, agora modificada pelo continente materno, mas também um objeto capaz de conter e compreender as ansiedades. Ressalta, ainda, que a contenção da ansiedade por meio desse objeto interno é o início da estabilidade mental.
Cintra e Figueiredo (2004, p. 90) expõem que a elaboração suficientemente bem-sucedida da posição depressiva cria um «espaço psíquico» onde os conflitos poderão ser enfrentados, elaborados, isto é, o objeto bom. Esse espaço psíquico está, portanto, inicialmente fora do bebê, dentro do psiquismo da mãe — e se ela consegue suportar a situação de ser o espaço psíquico do bebê, permitirá que, gradualmente, ele construa esse espaço dentro de si mesmo. Podemos pensar em uma gradação. Primeiramente, o bebê está dentro da mãe, em uma unidade intra-uterina. Na cesura do nascimento, há uma separação corpórea, mas a continência materna, a proximidade com o seio gratificador, «restaura, se tudo corre bem, a perdida unidade pré-natal com a mãe e o sentimento de segurança que a acompanha» (Klein, M., 1991, p. 210), sustentando o frágil ego do bebê e permitindo que, aos poucos, ele possa tolerar as experiências de perda e frustração.
Trata-se de um processo contínuo de libidinização, ofertado pelos cuidados do objeto materno, que potencializa o desenvolvimento libidinal e permite que as pulsões amorosas
suplantem as destrutivas, podendo haver uma boa fusão pulsional. Essa boa fusão acontece concomitantemente à internalização do objeto bom, que é a terceira etapa da gradação supracitada; «o bebê, que antes estava dentro da mãe, tem agora a mãe dentro de si.» (Klein, M., 1991, p. 210).
Essa internalização eficaz que se dá na elaboração da posição depressiva infantil constrói não somente um mundo interno harmônico, que proporcionará um sentimento de esperança e crença na própria bondade e capacidade de reparar — componentes vitais na superação de perdas —, mas também constrói um aparelho psíquico capaz de elaborar as experiências, incluindo a experiência de perda.
Essa capacidade não é plenamente desenvolvida no psiquismo do melancólico. Como refere Ogden (2014), o melancólico fica preso em sua relação narcísica com o objeto internalizado, isto é, numa relação bidimensional, furtando-se da possibilidade de um relacionamento fecundo tridimensional (sujeito — mundo interno — mundo externo) e de um enriquecimento de seu mundo interno. Pensamos que o continente, a capacidade para o trabalho psicológico do sonhar, está relacionada com essa tridimensionalidade, ou seja, com o intercâmbio entre sujeito — mundo interno — mundo externo, ideia que está implícita em uma afirmação de outro texto do autor:
O “continente” não é uma coisa, mas um processo. É a capacidade para o trabalho psicológico de sonhar, operando em conjunção com a capacidade de pensamento pré-consciente semelhante ao sonho (devaneio) e a capacidade para pensamento de processo secundário plenamente consciente. (Ogden, T., 2010, p. 129)
A capacidade de sonhar a própria experiência, isto é, de transformá-las em conteúdos inconscientes passíveis de serem assimilados e elaborados psicologicamente, depende desta possibilidade de continência psíquica da mãe. A falha desse processo, no melancólico, provavelmente se deve, em parte, ao fato de que a mãe, no início da vida, não pôde realizar suficientemente a função continente, de modo que proporcionasse ao bebê um lugar onde as experiências emocionais insuportáveis pudessem ser sonhadas; isto é, um lugar em que seus conteúdos psíquicos pudessem ser elaborados e retornados a ele de uma forma mais suportável. Podemos pensar que o enclausuramento narcísico do melancólico é fruto, em parte, do fato de ele não poder suportar a experiência emocional suscitada pelo encontro com a alteridade, pois as experiências alteritárias estão sempre marcadas pelas fantasias mais primitivas que envolvem ódio, destrutividade e culpa. Esses conteúdos emocionais não foram satisfatoriamente transformados no psiquismo da mãe e devolvidos como conteúdos passíveis de serem elaborados no psiquismo ainda incipiente do infante.
Ogden (2014) refere que, em função da característica narcísica de personalidade do melancólico, há nele uma incapacidade de vivenciar a dolorosa realidade da perda do objeto, o que leva a um aprisionamento mútuo entre objeto e sujeito — este último, desligando-se da realidade externa, fica então impossibilitado de desenvolver-se aprendendo com a experiência. Ora, para aprender com a experiência, é necessário que o sujeito possa suportá-la e elaborá-la psicologicamente, isto é, sonhá-la. No início, esse «aprender com a experiência» é possibilitado pela mente da mãe, que poderá transformar a experiência insuportável, impossível de ser sonhada pelo próprio bebê, em uma experiência passível de ser apreendida e sonhada.
Na melancolia, falhas na relação mãe-bebê impossibilitam a constituição satisfatória da capacidade de continência do sujeito, de modo que a experiência de perda suscita conteúdos inconscientes insuportáveis que, na impossibilidade de serem elaborados, precisam de ser negados. Referimo-nos a falhas na relação mãe-bebê para deslocar o foco apenas da capacidade materna de ser continente, enfocando também as características constitucionais do bebê. Segal (1981), por exemplo, comenta que a estabilidade mental do bebê pode ser perturbada por duas fontes: de um lado, pela incapacidade da mãe de suportar as angústias projetadas do bebê e, de outro, uma excessiva onipotência destrutiva deste.
Hinshelwood (1992), por sua vez, assinala quatro razões que podem levar a uma falha no processo de rêverie da mãe, que incluem não apenas a indisponibilidade para tal e/ou a fraqueza do continente materno, mas também a excessiva inveja do bebê, que pode levá-lo a atacar o continente, despojando-o de sua utilidade ou projetando a inveja no objeto continente e tornando-o num continente invejoso «que priva de qualquer significado as projeções do bebê» (Hinshelwood, R. D., 1992, p. 464).
Ogden escreve:
Cada indivíduo não pode simplesmente tornar-se um sujeito autoconsciente ao ver a si mesmo no outro, ou seja, ao se projetar na outra pessoa e vivenciar o outro como si mesmo […]. É somente por meio do reconhecimento por um outro que é reconhecido como uma pessoa separada (mas interdependente) que nos tornamos cada vez mais (auto reflexivamente) humanos. (1996, p. 99)
Essa citação de Ogden nos remete aos dois tempos da constituição psíquica do sujeito em sua
relação interpsíquica com o objeto materno. O primeiro tempo é aquele em que o bebê projeta no objeto suas angústias intoleráveis, o objeto recebe essa projeção e, como relata Segal (1981), faz o que quer que seja para diminuir a angústia do bebê, devolvendo a ele seus conteúdos projetados agora modificados, de uma forma que possam ser assimilados pelo psiquismo do infante.
No melancólico, a falha parece ter havido precisamente neste segundo tempo, o momento de reconhecimento por meio de um outro, a partir do qual o bebê pode constituir-se como sujeito. É possível que, em parte em função disso, o melancólico não consiga abrandar a identificação projetiva no advento da perda objetal, pois a relação com o objeto foi em alto grau permeada por essa identificação, por esse «ver-se no outro», e muito menos por «o outro reconhecendo-me e dando um significado à minha experiência».
Antes de chegar à escrita diarística, Florbela transitou por outros gêneros de escrita. Seu primeiro poema de que se tem notícia data de 1902, quando a poetisa tinha apenas 8 anos. Ela então deu início a uma intensa produção escrita que vai da poesia à prosa, entremeada pela constante escrita epistolar e chegando, no último ano de vida, à escrita do diário.
Da produção poética florbeliana, destacamos o primeiro livro publicado, O livro de mágoas (Espanca, F., 2002a). Em 1927, alguns anos após a publicação deste manuscrito, Florbela se refere a ele como o livro «onde encerrara os sonhos da minha dolorosa mocidade» (Espanca, F., 1985, p. 23), fazendo alusão, pois, a uma relação entre sua vida emocional e a escrita poética. Esse livro, declara Florbela no poema de abertura, é um «Livro de Mágoas… Dores… Ansiedades!/Livro de Sombras… Névoas… e Saudades!» (Espanca, F., 2002a, p. 125). Transformando a dor em texto, ela espera encontrar comunhão e compreensão:
Este livro é de mágoas. DesgraçadosQue no mundo passais, chorai ao lê-lo!Somente a vossa dor de TorturadosPode, talvez, senti-lo… e compreendê-lo.[…]Irmãos na Dor, os olhos rasos de água,Chorai comigo a minha imensa mágoa,Lendo o meu livro só de mágoas cheio!…
O livro termina, todavia, com uma declaração de desesperança, uma afirmação da impossibilidade de ter a experiência emocional contida pela escrita poética: «A minha Dor não cabe/Nos cem milhões de versos que eu fizera!…» (Espanca, 2002a, p. 162). Talvez por isso, a escritora fale de seu desânimo em relação à escrita de poesias, numa carta datada de 15 de maio de 1927: «Os portugueses parecem-me saturados de versos e eu, francamente, um pouco saturada de os fazer […]» (Espanca, F., 2002b, p. 239). Florbela se volta então para a escrita de prosa, publicando um livro de contos dedicado à memória do irmão morto. E relaciona novamente o conteúdo do livro à sua experiência emocional:
[…] não queria que o meu morto morresse comigo, não queria! E escrevi estas páginas… Este livro é o livro de um Morto, este livro é o livro do meu Morto. Tudo quanto nele vibra de subtil e profundo, tudo quanto nele é alado, tudo que nas suas páginas é luminosa e exaltante emoção, todo o sonho que lá lhe pus, toda a espiritualidade de que o enchi, a beleza dolorosa que, pobrezinho e humilde, o eleva acima de tudo, as almas que criei e que dentro dele são gritos e soluços e amor, tudo é d'Ele, tudo é do meu Morto! (Espanca, F., 1985, p. 24)
Entretanto, mesmo passando a escrever também em prosa (Florbela não abandona a escrita poética), a autora continua se frustrando com a escrita. Em seu último ano de vida, numa anotação de seu diário, ela diz: «Se o Prince Charmant vier, que lhe direi eu de novo, de sincero, de verdadeiramente sentido? Tão pobres somos que as mesmas palavras nos servem para exprimir a mentira e a verdade!» (Espanca, F., 1982, p. 57). Parece ser também por isso que Florbela dirá numa carta dirigida a Guido Batelli, de 27 de agosto de 1930, que tem horror às «frases feitas, às palavras que já serviram» (Espanca, F., 2002b, p. 273). Semelhantemente, no poema Tortura, Florbela expressa toda sua desilusão com o uso dos versos:
São assim ocos, rudes, os meus versos:Rimas perdidas, vendavais dispersos,Com que eu iludo os outros, com que minto!Quem me dera encontrar o verso puro,O verso altivo e forte, estranho e duro,Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!
A desesperança em relação aos versos e, mais ainda, ao uso das palavras, beira o desespero. Para constatar isso, basta nos atentarmos para o título do poema supracitado. O sujeito poético que Florbela expressa neste poema vive como uma verdadeira tortura a impossibilidade de encontrar palavras para expressar o que sente. Acreditamos, todavia, que o que leva ao desespero não é algo intrínseco à natureza das palavras, que tão frágeis são que, ao serem ditas, tornam-se como que em mentiras, não levando com elas a verdade da experiência emocional. A «mentira» deriva não das palavras em si, mas do fato de elas não retornarem
significadas por um continente. Ao serem ditas ou escritas, elas se tornam, pois, vazias, ocas, como mentiras. Se perdem e se dispersam, despidas de significado. Significado este que deveria ter sido encontrado na relação com aquele objeto continente primordial. Entretanto, da relação primordial, Florbela diz: «A minha pobre Mãe tão branca e fria/Deu-me a beber a Mágoa no seu leite!» (Espanca, F., 2002a, p. 139).
A busca pelo objeto continente se expande também para a escrita epistolar. Vemos, por exemplo, numa carta a Batelli, datada de 3 de agosto de 1930:
Estou hoje num dos meus dias maus, não lhe devia escrever; mas, erguer todos estes fantasmas em frente da sua alma compreensiva e boa, da sua alma amiga, é um alívio e um refrigério. Perdoe o egoísmo à sua pobre Soror Saudade; hoje mais Soror saudade do que nunca. (Espanca, F., 2002b, p. 275)
A última esperança de encontrar o objeto continente é, como já dissemos, o diário. O diário íntimo de Florbela parece apresentar-se como um lugar de silêncio, mas não de solitário silêncio e sim de um silêncio compartilhado com o outro que, em algum momento, poderia auxiliá-la na tarefa de se constituir como sujeito capaz de suportar e compreender suas experiências emocionais.
Mas quem seria esse outro? Pensamos que é o diário, enquanto objeto capaz de conter a experiência, aquilo que os outros (humanos) não podem, o que parece estar implícito na anotação de 22 de fevereiro de 1930: «O olhar dum bicho comove-me mais profundamente que um olhar humano. Há lá dentro uma alma que quer falar e não pode…» (p. 49). Lembremos de que, na primeira página do diário, a poetisa se refere à alma como «uma coisa tão rara neste mundo» (p. 35). Ora, ela encontra essa coisa tão rara no olhar de um bicho. A raridade parece estar, pois, no olhar humano. Parece ser essa a falência da possibilidade de compreensão por meio de um outro, por uma alma que compreenda: os humanos falharam, e os bichos não falam…
Ecoa novamente a pergunta: quem seria o outro? Apenas o diário? Ou também cada um de nós, seus leitores? Todos que nos empenhamos na tentativa de compreender seus inúmeros escritos, seja o diário, sejam seus poemas ou seus contos. Todos poderíamos servir de continente à experiência emocional de Florbela, auxiliando-a a sair de seu isolamento: «Está escrito que hei-de ser sempre a mesma eterna isolada… Porquê?» (Espanca, F., 1982, p. 57, 2 de agosto de ).
Infelizmente, a esperança de compreensão por parte de Florbela findou-se. Foi-se a esperança de que suas palavras e seus gestos pudessem ser compreendidos e devolvidos a ela de maneira que pudesse se compreender. Assim, em 2 dezembro de 1930, seis dias antes de seu suicídio, a poetisa lançou uma última e curta anotação em seu diário, anotação que expressa a força de sua desesperança: «E não haver gestos novos nem palavras novas» (Espanca, F., 1982, p. 61).
MELANCHOLY: A READING FROM THE CONCEPT OF CONTAINER-CONTAINED The Florbela Espanca Case
ABSTRACT
The objective of the present article is to enhance the understanding of melancholy, considering the intersubjective experience in the constitution of the psyche; more specifically, in the relationship between mother and baby. Initially, this relationship of affection is briefly described based on the Kleinian concept of good object. Subsequently, the understanding of the melancholic constitution of the psyche is expanded, with reference to Wilfred Bion's concept of container/contained, which was derived from M. Klein's theory of projective identification. In order to illustrate such concepts, several sections of the Portuguese poetess's diary and literary work, Florbela Espanca, are cited.
KEYWORDS: melancholy; container/contained; projective identification; Florbela Espanca.