Sérgio Eduardo Nick é psicanalista de adultos, de crianças e adolescentes – COCAP-IPA. Membro efectivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro – SBPRJ e da International Psychoanalytical Association. Chair do Comitê de Programa Científico do Congresso Internacional de Psicanálise da IPA – Boston/2015 e, actualmente, vice-presidente da IPA-International Psychoanlalytic (2017–2019). Médico e psiquiatra, possui pós-graduação em Psiquiatria e Psicoterapia da Criança e do Adolescente e em Direito da Criança e do Adolescente. Do ponto de vista profissional, há a destacar, durante a sua formação, o desempenho de funções como psiquiatra militar e em instituição hospitalar. A partir de 1981, e até hoje, dedicou-se ao exercício da psicanálise em clínica privada. Paralelamente, tem desenvolvido um trabalho importante de articulação entre Psicanálise e Direito, nomeadamente em perícias na área de Família, Órfãos e Sucessões. Realça-se também um investimento profissional na vertente organizacional, evidenciado pelo trabalho que desenvolveu na FEBRASI, SBPRJ, FEPAL, IPA, onde ocupou os cargos mais variados. Co-autor de diversos livros, nomeadamente, A Nova Família - Problemas e Perspectivas, Psiquiatria e Psicanalise, Vida Morte e Dignidade Humana, Cuidado e Responsabilidade. É autor do ensaio Dano moral e a falta do pai – Algumas considerações sobre a produção independente e colaborador regular de revistas e debates em áreas ligadas à família e à sociedade em geral.
EEG E MCS: Sabendo que a sua formação de base é medicina, com um interesse inicial na psiquiatria, poderia falar-nos um pouco acerca do percurso que o levou à psicanálise?
SN: Bom dia! Em primeiro lugar, gostaria de agradecer aos editores da RPP pela oportunidade de apresentar algumas das minhas ideias, bem como algo da minha história. É uma grande honra para mim!
Quanto à essa primeira pergunta, devo dizer que já entrei na faculdade de medicina pensando em ser psiquiatra e psicanalista. Meu interesse pelos problemas humanos, logicamente baseados no meu interesse em compreender meus próprios processos, data de minha adolescência, das leituras de romances, e de uma inata capacidade de ler a alma humana. Assim que entrei na faculdade, comecei a fazer psicanálise e fui me entranhando nesse árduo processo de me conhecer, me subjetivar, e ir encontrando novos caminhos psíquicos para os conflitos que me afetavam à época. De este modo, ao terminar a faculdade de medicina, eu já estava em pleno processo transferencial e com muita fé e gratidão por tudo que a psicanálise pessoal me havia oferecido. Ao meu redor, via pessoas em dificuldades que, sem se
Psicóloga Clínica e da Saúde, psicoterapeuta, psicanalista. Membro associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). Assistente editorial da Revista Portuguesa de Psicanálise. E-mail:
Psicóloga Clínica e da Saúde, psicoterapeuta, psicanalista. Membro associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). Assistente editorial da Revista Portuguesa de Psicanálise. E-mail:
aventurar nesse duro processo de autoconhecimento, estavam estagnadas em seus desenvolvimentos pessoais, enquanto aqueles que faziam análise me pareciam evoluir e melhorar suas vidas. Para um jovem como eu, sempre ávido por leituras, o caminho natural foi buscar grupos de estudos que desembocaram numa pós-graduação lato sensu em Psiquiatria e Psicoterapia de Crianças e Adolescentes, com forte viés psicanalítico baseado na escola kleiniana. Ao fim desses estudos, me vi trabalhando com pacientes de variadas faixas etárias e a natural procura por supervisão foi mais um elemento importante na minha posterior busca pela formação psicanalítica. Penso que todo esse processo também se alimentava da enorme influência que o movimento psicanalítico tinha sobre a cultura da época. Não tenho dúvidas de que minha primeira analista teve enorme impacto nesta busca, uma vez que com ela pude elaborar inúmeras ansiedades, conflitos e dores psíquicas.
EEG E MCS: Enquanto psicanalista, evidenciamos um forte interesse seu, desde o início, em pensar as instituições e as suas dinâmicas. Estando a psicanálise intrinsecamente ligada às instituições e sabendo que a sua história nos conta, desde Freud, momentos de grandes impasses, conflitos e ruturas, tanto nas sociedades como nos institutos, qual será a causa deste mal-estar e que medidas se poderão tomar para modificar este padrão de funcionamento?
SN: Penso que antes de tudo devemos evitar considerar os conflitos, rupturas e impasses como maléficos para o movimento psicanalítico. Por mais que o mal-estar causado possa ser difícil de ser experimentado, ele é parte do processo de evolução de qualquer cultura, movimento científico, ou agrupamento humano. Na Psicanálise, não é diferente. O que me parece mister separar são os conflitos decorrentes de diferenças de pensamento daqueles que se originam de funcionamentos perversos ou puramente destrutivos. Temos, por exemplo, o recente resgate do pensamento ferecziano, após anos em que foi relegado para um limbo por dificuldades na compreensão de seu discurso.
A IPA, uma vez que tem sido chamada a intervir em conflitos societários de toda ordem, foi acumulando uma experiência que hoje desemboca num variado arco institucional, o qual posso apenas resumir aqui, devido a questões de espaço. Temos assim vários comitês que se encarregam dessas questões, como o ING, que cuida do desenvolvimento de novos grupos (muitos fruto de cisões societárias de caráter variado). Temos ainda o comitê de assuntos institucionais, que visa pensar nas instituições psicanalíticas, seus impasses e como ajudá-las em suas crises. Quando o conflito tem por base funcionamentos perversos, o comitê de Ética também pode ser chamado a intervir, muitas vezes com ações que diminuem bastante o dano.
Eu não tenho dúvidas de que o ideal, em casos de conflito, seria que uma sociedade pudesse receber uma ajuda calcada nos conhecidos processos de mediação e de dinâmica de grupo. Essa é uma proposta nova que estamos estudando, assim como a melhor forma de a implementar sem que uma sociedade componente a sinta como uma intervenção. Seria uma ferramenta a mais em situações de conflito.
Recentemente, ouvi de um colega, que experimentou há tempos uma cisão, a reflexão de que ambos os lados erraram, de que a separação não resolveu bem as questões que levaram a esse desenlace, e que esforços deveriam ser feitos no sentido de elaborar melhor as questões internas de cada associação. Penso que, para que isso se dê, é preciso muita maturidade emocional. Sabemos que em momentos de conflito há uma natural regressão, com consequente perda de capacidades mentais anteriormente adquiridas. Sabemos também que o manejo desses conflitos é complexo e delicado.
Assim, não existe saída fácil para a questão que vocês levantam.
EEG E MCS: O futuro da psicanálise e das instituições que a representam depende da sua transmissão a gerações futuras. Que aspectos são essenciais para garantir uma transmissão eficaz do pensamento e prática analítica?
SN: Quando entrei para a minha sociedade, alguns pilares eram fundamentais para minha escolha por esse difícil caminho: aquilo que a psicanálise me trouxe como terapia e investigação do meu Inconsciente, o encontro com mestres e supervisores que muito me somaram, e a crença num compromisso ético com o Humanismo. Ao começar a minha formação, uma vez que as reuniões e assembleias eram abertas aos candidatos, me vi envolto em uma comunidade democrática, muito argumentativa, e com amplo espaço para o confronto de ideias. Esse encontro se materializou em tese com o chamado «quarto pilar» da formação psicanalítica proposto por Stefano Bolognini. Ao ouvi-lo, já o tinha incorporado em mim nas vivências societárias.
Com isso em mente, acredito que a transmissão da psicanálise possa se dar eficazmente. Acrescentaria aqui aquilo que me move desde cedo, e que agora é uma área da IPA criada por Virginia Ungar, a «IPA in the Community area». Ao sairmos do consultório, levamos ao público leigo a nossa maneira de pensar, de tratar e de abordar os fenómenos psíquicos. Até que ponto lograremos sucesso com a empreitada, só o futuro dirá, mas o meu percurso na área jurídica me dá a esperança necessária para tentarmos!
EEG E MCS: Assistimos a uma mudança sistemática de paradigmas na sociedade contemporânea, com interferência no próprio coração da psicanálise. Salientamos, por exemplo, análises e formação por skype, a introdução das novas tecnologias nos processos analíticos, de entre outras. Como é que as novas tecnologias podem influenciar a formação dos novos psicanalistas, e até mesmo os próprios processos analíticos, num tempo em que estas novas ferramentas se têm afirmado como essenciais no quotidiano de cada pessoa?
SN: Estamos para terminar um relatório realizado pelo Comitê da IPA acerca de Confidencialidade. Nele, deixamos claro que a segurança na rede não existe, e isso está confirmado por especialistas e pela realidade (vide Snowden, e o caso das recentes eleições americanas).
Isto posto, há que deixar claro que aquilo que é a base do atendimento
proposto pela Psicanálise (intimidade, confiança e associação livre) está comprometido. Esperamos que no futuro se possa resolver isso, uma vez que essas tecnologias entraram para sempre no nosso cotidiano.
Temos já alguns psicanalistas formados com o uso dessas novas tecnologias (destarte que a IPA exige períodos de sessões presenciais), e creio que somente com as pesquisas e estudos dessas formações poderemos saber no que resultou.
Por outro lado, existem vários grupos estudando as ditas «análises remotas», com resultados interessantes e que vão instigar novas teorias e novas pesquisas. Acredito que ainda seja cedo para sabermos o que advirá daí.
EEG E MCS: Falemos agora da Psicanálise e sua relação com a sociedade. Como psicanalista, tem tido uma presença participativa no debate de questões como a alienação parental, saúde mental e eutanásia, entre outras. Que contributos sente que a Psicanálise pode trazer para estes debates? Por outro lado, que medidas se devem tomar para estimular o psicanalista a ter uma voz mais activa na sociedade?
SN: Por estar atuando no campo jurídico desde 1981, penso que temos muitíssimo a contribuir e dialogar com os colegas de outras áreas. Mas não são áreas simples onde se caminhar. Trago como exemplo um tema que foi recentemente objeto de reportagem aqui no Rio de Janeiro. Enquanto psicanalistas, lutamos muito para a inclusão do pai na vida da prole quando havia separação do casal. O Estatuto da Criança e do Adolescente, a Lei da Guarda Compartilhada e a Lei da Alienação Parental são consequências dessas lutas, das quais participaram profissionais de vários campos do saber. Hoje, sabemos que ambas as leis são usadas para fins espúrios, como a diminuição do pagamento da pensão alimentícia, para calar um genitor que deveria acusar o outro de condutas abusivas (dentre outras), ou para simplesmente atacar o ex-cônjuge quando a separação não foi bem elaborada. Isso demonstra como um olhar humanista e psicanalítico interfere de forma positiva no Campo Jurídico e ao mesmo tempo deixa suas sequelas. Mesmo tendo consciência disso, penso que devemos seguir entrando nestes debates, uma vez que a mirada de um psicanalista permite que se compreendam as situações humanas para lá da superfície consciente. Os colegas do campo jurídico, em geral, se mostram abertos e receptivos a tal diálogo.
EEG E MCS: O mundo atual está cada vez mais globalizado e a psicanálise tem vindo a acompanhar este movimento, expandindo-se por todos os continentes. Como é possível integrar as diferenças culturais e, simultaneamente, manter
uma identidade psicanalítica? No fim de contas, quais os invariantes da psicanálise que não devem ser esquecidos?
SN: A Psicanálise tem circulado por várias culturas e quadrantes mundiais, com desenvolvimentos importantes oriundos destes vários mundos por onde ela circula. Há pouco tempo, estive na Conferência Psicanalítica da região Ásia-Pacífico em Tóquio, onde se reuniram muitos colegas daquela região para discutir variados temas. A apresentação dos trabalhos escolhidos (keynote papers) já me trazia uma surpresa, que era a impactante diferença cultural de povos como os Japoneses, os Sul-Coreanos, ou os Indianos. Porém, todos me pareciam ter os conceitos psicanalíticos básicos em mente ao escrever seus trabalhos. Nos seminários clínicos, ficou patente que a abordagem clínica psicanalítica não prescindia de conceitos como Transferência/ /Contratransferência, Conflitos e suas Defesas, a idéia de Aparelho Psíquico ou Psiquismo, etc. Penso que todo aquele que vai trabalhar com Psicanálise deve ter em mente o Subjetivo, o Inconsciente, e os mecanismos psíquicos nos quais sua(s) teoria(s) se baseia(m) para abordar o psiquismo do outro. Creio que, antes de tudo, conhecer Freud é a base de onde todos devem partir, para então desenvolver suas próprias ideias ou seguir as que considere as mais apropriadas. Tenho pensado muito nas diferenças de teorias consagradas e naquilo que elas possuem em comum, ou nas pontes que se pode construir entre elas. Acredito que, uma vez que tratamos do ser humano e sua Psique, temos mais pontos em comum do que possa parecer.
Quanto à segunda pergunta, creio que nem todos saibamos bem nos comunicar com o público. Temos um saber que é eivado de complexidades e a maioria das pessoas não tem interesse ou não consegue entender um pensamento complexo. Falar para a sociedade, portanto, demanda uma série de estratégias, as quais vão depender do campo a ser atingido e do objetivo proposto. Só como exemplo, uma coisa é escrever para uma página de opinião de um jornal, a outra é responder a perguntas num programa de televisão de um canal aberto. Mas existem, ainda, inúmeros canais, nos quais incluo o «IPA in the Community», o novo IPA Blog, os Webinars, e as bibliotecas virtuais. Neles, buscamos um diálogo com um público universitário, que por suposto tem enorme influência na sociedade como um todo.
EEG E MCS: Para terminar, falemos agora um pouco da questão da virtualidade do espaço nas suas vertentes física, temporal e mental, com uma presença transformadora do presente e, inexoravelmente, do futuro. Como se devem posicionar o psicanalista e as sociedades científicas na forma de pensar e discutir a importância desta pluralidade de espaços? Por outro lado, qual será para si o maior desafio que a psicanálise poderá vir a enfrentar no tempo porvir?
SN: Essa questão é bem ampla e só posso respondê-la parcialmente. De princípio, posso dizer que a IPA tem se ocupado de alguns vértices dessa questão, como o relatório do Comitê de Confidencialidade que vai ser
apresentado ao «Board» da IPA em janeiro. Nesse relatório, apresentamos algumas idéias para serem discutidas nas sociedades componentes, opondo a «sociedade virtual» ao modelo psicanalítico montado na possibilidade da Associação Livre e na certeza de que haverá um espaço confidencial entre analista e analisando. Essa confidencialidade, condição sine qua non para a associação livre, não pode ser garantida nas análises ditas remotas, e existem riscos de ser comprometida pelos aparatos tecnológicos trazidos à sala de análise, tanto por paciente como pelo analista.
Sob um outro viés, temos que a Humanidade está mudando e exigindo dos psicanalistas adaptações difíceis, onde conceitos como privacidade, corporalidade e afetos estão afetados pelos câmbios no ser e no fazer contemporâneo.
Nós montamos recentemente um grupo chamado «Think Tank sobre o Futuro da Psicanálise», cujo objetivo é justamente ouvir os jovens e entender como eles veem essas mudanças e qual futuro nos espera. Pensamos ainda em buscar estar cada vez mais próximos dos candidatos («o nosso presente!») para que eles possam nos guiar aonde não enxergamos. Quem nasceu no mundo digital, o compreende e o apreende de uma forma bem diferente daqueles que nasceram no mundo analógico. É um desafio para nós, que somente será abordado com coerência se pudermos promover um encontro de gerações.
Ainda sob um outro vértice, montamos os «Webinars», onde a tecnologia pode ser utilizada para aproximar os psicanalistas das várias regiões em torno de um tema que lhes interesse. Já temos alguns grupos oferecendo toda sorte de dispositivos para aumentar a troca de saberes, como os seminários virtuais, as conferencias por streaming, os cursos à distância, os «IPAblogs», etc. São ferramentas muito úteis e que encurtam distâncias.
Quanto ao maior desafio que a psicanálise poderá vir a enfrentar no tempo porvir, creio que devemos dividir a questão em duas partes: os que vêm de dentro e os de fora. Muitos dos de dentro já foram mapeados, como o narcisismo dos analistas e as lutas pelas «pequenas diferenças», as lutas por poder, e certas heranças transgeracionais que fazem muito mal ao campo. Temos buscado implementar medidas que ajudem as sociedades que venham a pedir auxílio em caso de crises, bem como ouvir muito acerca dos problemas e dos desejos de cada grupo, de forma a acolhê-los sem que os conflitos terminem em cisões. Costumo dizer que já temos muitos inimigos externos para perdermos muito tempo com as brigas internas.
Assim, para mim, o maior desafio, e ao mesmo tempo nossa melhor aposta para nossa sobrevivência, é enfrentar os ataques ao Humanismo advindos de inúmeros vértices externos. Da mesma forma que afirmo que o contato analista-paciente é um potente bastião na luta pela nossa humanidade, penso que é mister sair dos consultórios para levar essa escuta e esse pensar a outros campos. Sabemos que um contato humanizado é transformador e que temos ferramentas muito bem desenvolvidas para promover o contato com o subjetivo que habita cada ser humano.
Se vamos vencer essa luta ou não, só o futuro o dirá…
Muito obrigado!