Neste breve, mas profundo, ensaio clínico, a autora sugere a noção de espaço como elemento estruturante do desenvolvimento do mundo mental.
E com o «espaço» em mente, dá-nos uma nova e refrescante perspectiva de constructos fundamentais da teoria psicanalítica: o espaço que habitamos e o espaço que ocupam as muitas coisas que nos preenchem; a espacialidade interior presente em Freud nos seus múltiplos textos, mas agora revisitados sob o olhar sábio e sensível de Maria do Carmo — o espaço dos textos iniciais de Freud, o espaço inovador em «o Luto e a Melancolia» e na «Psicologia do grupo», ou ainda no fracturante «Clivagem do Ego».
Numa primeira parte, cruzamo-nos bastante com Freud através de uma escrita elegante e inspiradora. Revemos velhos textos clássicos, bem conhecidos, que, porém, nos surpreendem, guiados agora por Maria do Carmo.
Desta nova forma, constatamos como o «espaço», e a sua constituição, esteve sempre inerente às concepções da comunicação inconsciente, às definições de diferentes estruturas ou funções mentais, à vinculação, aos ataques à ligação, à definição de fronteiras ou aos processos de retaliação. E ainda ao acesso ao conhecimento e à possibilidade interna de ocorrer a descoberta.
A autora encaminha-nos para uma redescoberta de ideias conhecidas de Melanie Klein, mas igualmente de Hanna Segal, Rosenfeld e Betty Joseph. Por fim, Wilfred Bion e, de forma bem vincada, Donald Meltzer, com quem trabalhou e investigou profundamente nestas últimas décadas.
«A Psicologia pós-kleiniana dir-se-á “geográfica” quanto à investigação dos espaços emocionais da mente — possibilitando novas abordagens epistemológicas, estéticas e mesmo éticas». Será o propósito da reflexão clínica que este livro apresenta, juntamente com a reflexão acerca do «que é e onde começo a “pensar”»?!
A intensa narrativa que nos apresenta em torno de um caso de psicanálise da criança — Afonso, como lhe chama — remete-nos para um delicado, mas por vezes angustiante e brutal, trabalho criativo de re-construção espacial.
«Difícil renunciar à vingança megalómana de viver concretamente o espaço claustral e proteger a capacidade de escolher a intimidade que possa permitir a expansão do espaço do pensar/imaginar, a liberdade sem fim de representar, simbolizar. Todo um apaixonado trabalho interior de aceitar um seio/continente (Bion) que permite que mesmo a morte (maior separação) e a descoberta da transigência da vida (o que implica o trabalho da posição depressiva) sejam condição de auroras de conhecimento, renunciando aos prazeres onanísticos do claustrum».
E assim percebemos que «a curiosidade apaixonada sobre qualquer espaço (externo/ /interno) não existe sem uma fé que sustente a capacidade de tolerar a iminência do desastre, da catástrofe. E uma “indómita audácia” como Goethe chama poeticamente à esperança».
Por fim, nos dois casos clínicos de adultos, o material escolhido é bem expressivo da complexidade dos processos inconscientes debatidos, onde a relação dos espaços internos e externos se confunde e se manifesta.
É um livro iminentemente clínico que aparentemente ocupa um espaço pequeno na nossa estante, mas que se revela enorme e bem presente no espaço da nossa biblioteca psicanalítica.
Psicanalista. Membro titular, com funções didácticas, da Sociedade Portuguesa de Psicanalise (SPP) e da International Psychoanalytical Association (IPA). Presidente da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. E-mail: