Não é muito abundante entre nós a publicação de estudos originais acerca da experiência da psicanálise por parte de autores de língua portuguesa. Este livro de Maria José Martins de Azevedo possui a particularidade de não seguir apenas uma vertente isolada da teoria psicanalítica, mas, sobretudo, a de relacionar diferentes perspetivas, desde as «clássicas» às mais recentes, por forma a conjugá-las e a abrir novos caminhos no universo da psicanálise, o qual, e conforme o leitor pode observar através dos oito ensaios aqui reunidos, compreende uma linha ascensional que vai da tradição inaugurada por Freud, e reinventada por Melanie Klein, passando pela psicanálise relacional, cujas bases pioneiras compreendem os trabalhos de Sándor Ferenczi e da própria Klein, linha baseada na relação de objeto por ela inaugurada, bem como por Wilfred R. Bion e ainda por contemporâneos como Joan Coderch, Jay R. Greenberg e Stephen A. Mitchell. Para lá de se apoiar na metapsicologia freudiana, a autora desenvolve o pensamento psicanalítico recorrendo a diferentes autores, destacando-se alguns psicanalistas que marcaram a abordagem intersubjetiva e relacional, de entre os quais são referidos os nomes de Heinz Kohut, Donald Winnicott, Thomas Ogden e Otto Kernberg.
Ao entrar na sua «oficina» de psicanálise, é com entusiasmo que partilho com o leitor a delicada arte da filigrana onde se encontram artesãos e aprendizes num trabalho pessoal e sensível. É um trabalho criador de peças únicas e, tal como numa oficina, trata-se de um trabalho pessoal e íntimo onde se forjam peças irrepetíveis. A palavra «oficina» conduziu-me às memórias da minha infância. Nessa época, a palavra tinha outro significado: o de «tenda». Foi assim na minha Madeira (na Camacha), onde «armar uma tenda de conversa» significava que as pessoas começavam a falar de um determinado tema, enquanto outras, embora presentes, ficavam fora da conversa. Na minha freguesia, havia várias tendas onde os artesãos fabricavam obras em vime. Era aí que surgiam sempre conversas: contavam-se histórias dos vizinhos e dos casais que haviam emigrado, bem como dos últimos escândalos. Eram tecidas formas interessantes de convívio, enquanto se tiravam liaças, se punham os vimes de molho ou se faziam os cestos.
É na tenda, esse local mágico de conversa, que Maria José Martins de Azevedo nos convida a entrar, o local onde a autora afirma que «para aprender o aprendido não vale a pena o esforço» e que haverá sempre o momento da libertação, no qual Coimbra de Matos lhe dizia: «Agora vá sozinha, seja você própria e autêntica». Nesta oficina, não se trata de aprender o que já é conhecido, mas sim de inscrever o que há de vir através da nova relação sanígena, ou seja, através da retoma da relação que havia ficado suspensa no tempo e no espaço.
Coimbra de Matos, autor e mestre aqui inúmeras vezes referido pela autora, é o seu criador de holdings e handlings psicanalíticos, um aparelho de viver as emoções que permite gerar novos pensamentos.
Se tivesse de selecionar as palavras que mais me tocaram nesta obra, escolheria, de entre muitas, trauma, criatividade, responsabilidade e sonho, pois como nos diz o poeta norte-americano Delmore Schwartz , é «nos sonhos que começam as responsabilidades», sobretudo quando os sonhos
Psiquiatra, psicoterapeuta e psicanalista, formador na Sociedade Portuguesa de Psicanálise, membro da IPA (International Psychoanalytical Association), da FEP (Fédération Européenne de Psychanalyse) e da SEPEA (Société Européenne pour la Psychanalyse de l'Enfant et de l'Adolescent). E-mail:
Nota: o autor da recensão segue o recente Acordo Ortográfico.
são sonhos-projetos, segundo Coimbra de Matos.
Não é um trabalho onde o conhecimento se repete. É um livro que interroga o leitor acerca do que é ser psicoterapeuta e psicanalista na sociedade atual e em que a autora não esquece o seu percurso de supervisanda a supervisora, atividade fundamental que parte da prática clínica para a transmissão do saber. O princípio da responsabilidade terapêutica é aqui tratado através da narrativa do tratamento de uma adulta e também da narrativa pormenorizada do tratamento de uma criança autista. Outro caso relatado neste livro remete o leitor para as noções de «perda» e de consequente «transformação» através da descrição da evolução psicodinâmica de um adolescente tratado num setting psicanalítico. Outra questão fundamental dos desafios que a autora nos coloca é o tratamento de patologias psicossomáticas através da descrição do caso de uma mulher asmática. Neste ensaio, a autora remete-nos para a obra de Freud, mas, também, para a escola psicossomática francesa, da qual fazem parte nomes de referência como os de Pierre Marty, Christophe Dejours, Joyce McDougall, Paul Denis, Catherine Parat e Michel Fan. No domínio das patologias, a autora dedica também um capítulo às questões referentes à problemática do narcisismo. Ilustra a sua reflexão com o caso de um paciente com patologia narcísica, considerando os aspetos da dinâmica psíquica desta patologia, partindo de Freud, passando por Klein e Fairbairn, Kohut, Kernberg e Arnold Cooper.
O último capítulo deste livro compreende uma entrevista imaginária a Donald Winnicott a partir dos textos do autor. Neste capítulo, são abordados alguns conceitos fundamentais da sua obra, a partir dessa entrevista imaginária, fundamentados com o caso de uma paciente adulta com um falso self num quadro de uma depressão grave. A autora conduz a entrevista num espaço imaginado, o qual apelida expressivamente de hologramoteca, um lugar utópico onde é possível dialogar com os grandes teóricos da psicanálise.
Este livro termina com um apêndice documental, o que não deixa de ser curioso dado tratar-se do depoimento de uma criança concedido a uma revista para jovens. Nesse depoimento, a criança fala abertamente da relação psicanalítica que manteve com a autora.
Maria José Martins de Azevedo não receia novos pensamentos, pois coloca em causa o poder da tradição. Este aspeto permite-me invocar e trazer para a leitura da sua «oficina» outros pensadores não psicanalistas. Pensei, por exemplo, em Giordano Bruno, ex-monge dominicano, filósofo e astrónomo, julgado na fogueira como herege no já longínquo fevereiro de 1600. Qual o seu crime, pode o leitor interrogar-se: simplesmente o de questionar os dogmas que eram fruto das superstições que negavam o método científico da observação. Qual o seu mal? O de pôr em cheque o poder mantido pela força do medo e da superstição, afirmando (entre outras ideias) que o universo era infinito. Jean Laplanche lembra-nos muito bem desse poder das trevas ao afirmar que «quando alguém é parte do movimento, e participou na glória da “causa”, ele ou ela podem apoiar tantas diferenças teóricas quantas gostem. Mas, uma vez que não faças parte do movimento, serás excluído, não interessando mesmo que repitas as teses antes admiradas».
Posso afirmar que Maria José Martins de Azevedo não recua na procura da verdade no seu trabalho clínico, questionando-nos acerca da verdade do espírito humano, e não apenas a verdade psicanalítica radicalizada pelos poderes dos pensadores.
Tal como Giordano Bruno, Maria José Martins de Azevedo faz sentir ao leitor que a ignorância e a arrogância são duas irmãs inseparáveis com um só corpo e uma só alma, e que pensar de modo diferente constrói o poder de sermos nós próprios — não recuando, assim, perante a verdade de ser ela própria.
A propósito desta questão, registo uma frase de Almada Negreiros na qual o artista afirma que «a universalidade humana e a vida coletiva dependem do reconhecimento do particular de cada um». No livro da Maria José, na sua «oficina», não se branqueia o passado das teorias ou a importância da pré-história de todos nós, mas antes se manifesta a capacidade de observar aquilo que é antigo com um olhar livre de preconceitos, criando novos vínculos: o do amor, por exemplo. Este sentimento tão poderoso na história da humanidade é o vínculo de todos os vínculos, sobretudo se considerarmos a riqueza, quer da sua particularidade, quer da sua universalidade.
A autora mostra-nos, neste livro, o amor terapêutico, o seu amor enquanto pessoa e terapeuta, arriscando e criando a subversão necessária para que a nova relação se instale na vida psíquica da dupla paciente e terapeuta.
E, para terminar a observação do trabalho psicanalítico que a autora nos apresenta e que executa na sua «oficina», posso dizer que é um trabalho de peças únicas e autênticas, fruto do encontro entre duas mentes, nessa tenda da minha memória onde se armam conversas e de onde saem novos criadores. E é a partir desta imagem que julgo legítimo afirmar que este livro esclarece o leitor acerca do que é ser psicoterapeuta e psicanalista no mundo contemporâneo.