Neste número da Revista Portuguesa de Psicanalise (39-1), publicamos diferentes artigos que foram apresentados no «XII Encontro Lacan», na IPA, em Lisboa. Estes encontros — que são realizados por um conjunto de analistas da Associação Internacional de Psicanálise (IPA) — efectuam-se, habitualmente, em diferentes países. Este grupo, em estreita colaboração com a Sociedade Portuguesa de Psicanálise, privilegiou uma reflexão teórica-clínica em torno do tema «Verdade, Inconsciente e Realidade». Neste evento científico, foi dada uma particular atenção à verdade psíquica, à volta da qual foi possível contactar com as convergências e divergências entre o pensamento de Lacan e de Bion.
Na sequência deste encontro científico, apresentamos e publicamos assim diferentes conferências que foram realizadas neste evento. O primeiro artigo é do psicanalista Rui Aragão Oliveira, com o seguinte título: «Da interpretação: lugar e oportunidade para o objecto psicanalítico». Neste trabalho, o autor elabora e aprofunda a conceptualização do objecto em psicanálise e sua interdependência com a interpretação. Investiga, igualmente, as aproximações e as divergências teóricas entre o pensamento de Bion e de Lacan. Também apresentamos o artigo de Carlos Barredo, com o incentivante título «Mito-Fantasia-Realidade», que nos permite descobrir um amplo espaço de elaboração psíquica que, segundo o autor, poderá ser feita através de um «eixo constituído pelas noções de parlêtre e lalangue, inventadas por Lacan» de forma que se perceba o «seu funcionamento dentro do dispositivo analítico». Este artigo foi comentado por António Mendonça, psicanalista português, que sublinhou a importância dos conceitos de mito, de fantasia e de realidade na construção psíquica, tal como foi ilustrado no material clínico. Publicamos também neste número um artigo de Jaime Szpilka acerca de «Reflexiones sobre el concepto de verdad», que é constantemente questionada apontando para a impossibilidade, a falta e o nada. Aborda, de certa maneira, a teoria do negativo. No artigo de Daniel E. Schoffer Kraut — «Encuentro con lo real, afecto de verdade y desenlaces transferenciales» —, o autor escolhe como investigação clínica a transferência e desenvolve este tema segundo o olhar de Freud depois de ler Lacan e de Lacan depois de reler Freud. O colega Alberto César Cabral apresenta um artigo sobre «Encuentros con lo real del deseo del analista: sobre perros y incondicionalidades». O autor, neste artigo, a partir de casos clínicos, demonstra um aspecto que Lacan denominava transferência real. Da mesma forma, o psicanalista Juan Francisco Artaloytia apresenta o seguinte artigo: «Convicção na análise do analista: verdades de transferência em diferentes releituras sincrónicas», onde, a partir do conceito freudiano de convicção, faz uma reflexão acerca do real, da verdade e da transferência. Também Enrique R. Torres, no seu artigo «Verdad y sujeto», e ao inspirar-se numa referência a Fernando Pessoa, descreve as diferenças e, ao mesmo tempo, a proximidade entre saber e verdade, assim como a relação entre a verdade e sentido, incluindo os laços entre verdade e Real. O psicanalista Carlos Farate apresenta, neste número, um artigo com o seguinte título: «O Gozo além do princípio do prazer e aquém da lei do significante e da função α, ou A “falha” na subjetivação de um desejo inefável». Neste ensaio de reflexão crítica, aborda «a relevância do conceito de Gozo para pensar o sofrimento do Homem contemporâneo».
Neste número da revista, publicamos igualmente diferentes artigos temáticos. A psicanalista Ana Belchior Melícias apresenta o seguinte trabalho: «Da segunda pele à pele rítmica-psíquica: (des)harmonias entre conjugalidade e parentalidade». Esta autora, «partindo da observação da dupla mãe-bebé na família segundo o método Esther Bick, […] começa por evocar as exigências contratransferenciais que este modelo tripartido propõe ao observador». O psicanalista Orlando von Doellinguer apresenta um artigo acerca de «Inteligência artificial e psicanálise: do funcional e do relacional». Demonstra e conclui, no decurso do seu trabalho, «da impossibilidade de desenvolvimento de um sistema que ultrapasse o nível cognitivo e funcional». Ricardo Ribeiro de Almeida apresenta o artigo «Violência e não violência em Psicanálise. O caso Gandhi», onde investiga, sob o ponto de vista psicanalítico, «o método não violento de intervenção política e social, criado por Gandhi, com a designação de satyagraha».
A equipa editorial agradece a importante participação de todos os colaboradores deste número da nossa Revista. Esperamos que a sua leitura seja um incentivo que desencadeie curiosidade e entusiamo pelo pensamento psicanalítico.