O autor, que não tem formação em Lacan, procura comentar a Conferência de Carlos Barredo, neste XII Encontro de Lacan, na IPA, que tem como objetivo complementar o diálogo com outras perspetivas — no caso, Freud e Bion — na procura de invariantes (no sentido em que Bion fala delas e que se mantêm em todas as transformações) que permitam o diálogo, uma vez que se pode reconhecer a identidade psicanalítica nos desenvolvimentos e inovações que Lacan, tal como outros pensadores, tem feito e que tanto têm contribuído para renovar a ciência psicanalítica. Mereceram especial atenção o modo como foram abordados os conceitos de mito, fantasia e realidade, bem como foi elaborado o material clínico constante da vinheta.
Para mim e para e outros psicanalistas portugueses presentes neste XII Encontro de Lacan, na IPA, a obra de Lacan não constou da nossa formação e as referências às suas teorias e aos seus conceitos têm aparecido de forma dispersa e, percebo agora, muito distorcida. Por vários motivos, pelo menos no meu caso, nunca fizeram parte de um todo coerente que lhes permitisse dar grande compreensibilidade. Outros psicanalistas, no entanto, e por iniciativa própria, têm desenvolvido grande interesse pela sua obra, e daí a realização deste evento em Lisboa.
Obriguei-me a ler com mais insistência alguns conceitos de Lacan e, num primeiro tempo, senti-me a reagir como alguém perante uma língua nova. Mas estamos a ler psicanálise. Na base, está sempre Freud, obra na qual todos os seguidores se fundamentaram em múltiplas leituras e releituras, dando origem a uma diversidade de desenvolvimentos teóricos e clínicos que têm contribuído para inovar e desenvolver a ciência psicanalítica. Na diversidade, encontramos sempre invariantes que se mantêm e que permitem o seu reconhecimento, como Bion refere no que respeita às transformações. É este o caso. Rapidamente, comecei a achar aspetos interessantes e, de seguida, a sentir-me entusiasmado perante a descoberta de novas perspetivas, novos conceitos e com vontade de melhor os ir percebendo. Tenho consciência, no entanto, de que sou um completo iniciado.
A conferência de Carlos Barredo é de grande densidade. Intui-se um profundo conhecedor da obra de Lacan, muito criativo e de grande rigor conceptual.
Da leitura possível do texto da conferência, e do seu tema — mito, fantasia e realidade —, há vários aspetos a que fui mais sensível.
Começava pelos mitos e o modo como são abordados. O valor do mito em si, pelas suas características próprias, contribui para que seja percebido como tal por qualquer leitor de qualquer região independentemente da língua e da cultura. Mas do ponto de vista clínico, é o mito individual do neurótico que nos merece mais atenção. A constelação original da qual emerge a personalidade, por exemplo, no «homem dos ratos», dá conta da posição relativa de certos elementos no momento do nascimento e do seu valor determinante no curso da sua vida e, através da repetição sobre a configuração dos seus sintomas, parece-nos de enorme importância.
A fantasia é então encarada «como cenário imaginário que dá conta do cumprimento de um desejo ou na forma de sonhos diurnos, manifesta a relação do individuo com as suas imagens». Mas, sobretudo, a fantasia no processo evolutivo do infans que começa a (o) ser falado, como objeto do
Artigo recebido em 28 de Outubro de 2018 e aceite para publicação em 14 de Dezembro de 2018.
Este texto tem como base a comunicação apresentada no XII Encontro Lacan, na IPA, subordinado ao tema «Verdade, Inconsciente e Realidade», organizado pela Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) entre 8 e 10 de Junho de 2018.
Psicanalista. Membro associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). E-mail:
Nota: este artigo está escrito conforme o recente Acordo Ortográfico.
discurso do Outro, ainda antes do seu nascimento, na condição de bebé imaginário — uma condição «pré-histórica» com implicações evolutivas depois do nascimento. Recordemos, ainda, a importância do discurso e das ações do Outro, tal como foram exemplificados por Freud em «uma criança é batida». É que o infans ao aceder à fala, como ser falante, vai-se transformando no falante ser.
A realidade é então concebida não como evidência da perceção sensorial, mas, antes, recorrendo à dimensão metafórica da linguagem, como montagem cinematográfica que deve fazer sentido existencial, o que me parece muito pertinente.
Também me parece relevante a forma de Carlos Barredo salientar o modo como, na perspetiva topológica, fantasia e realidade se interligam e relacionam, como se de uma Banda de Moebius se tratasse, permitindo passar de uma à outra sem atravessar nenhuma margem no percurso que contorna o «abismo» que as separa. Realcemos a grande importância clínica desta perspetiva, que nos mostra como, através da interpretação, é possível provocar um volteio no discurso do analisando, capaz de transformar «realidades» em associações que, pelas suas derivações discursivas, constituem o motor de uma práxis psicanalítica que visa a «colocar em jogo psíquico» a realidade, dando-lhe voos e nuances de fantasia.
Da vinheta clínica, permito-me salientar «o encontro com algo da ordem do real, prazer obscuro e desconhecido» que busca uma via de expressão que lhe permita «travestir-se» de realidade na transferência. Encontro que «deixa transluzir uma presença virtual onde jaz o poder do que não se mostra de modo visível, que está ali em potência, e que nunca entregará um sentido único para a sua leitura […] senão constelações inteiras de sentido, redes das quais não conheceremos jamais a totalidade nem o final». Ou de como para o falante ser a psicanálise permite abrir, no lugar do prazer sempre em falta, da complementaridade de gozos que não existe, um leque de prazeres outros que lhe permitam o aceso à singularidade psíquica, como sujeito sexuado, como sujeito simbólico, de palavra.
A conferência de Carlos Barredo parece-me de grande valor e importância. Por analogia com o modo como fala do mito, referindo que mesmo quando se ignora a língua e a cultura, o mito como história relatada pode ser percebido por qualquer leitor de qualquer região, também a psicanálise tem especificidades que podem ser reconhecidas por quaisquer psicanalistas independentemente das correntes em que se situam ou que mais os influenciaram ou das formações que tiveram. Parece-me essencial esta abertura a novas teorias e a novos modelos e ao modo como se podem relacionar ou complementar. Penso que a psicanálise, como forma de conhecimento, nunca poderá ter limites, e que novas perspetivas, novas teorias e novos modelos continuarão a proliferar. Não concebo que a psicanálise possa «morrer». Pretende-se também neste Encontro, como objetivo complementar, a articulação em diálogo com outras perspetivas, neste caso, Freud, Bion e Lacan. O debate será certamente rico e produtivo.
ABSTRACT
The author, who has no formation in Lacan, tries to comment on the Conference of Carlos Barredo, in this XII Meeting of Lacan in the Ipa that aims to complement the dialogue with other perspectives in the Freud and Bion case, in the search for invariants (in which Bion speaks of them and which remain in all transformations) that allow dialogue, insofar as one can recognize the psychoanalytic identity in the developments and innovations that Lacan, like other thinkers, have done and that has contributed so much to renew psychoanalytic science.
Special attention was paid to the way the concepts of myth, fantasy and reality were approached, as well as the clinical material contained in the vignette.
KEYWORDS: parlêtre, myth, fantasy, reality.