O novo livro de Margot Waddell, ON ADOLESCENCE: Inside stories (NA ADOLESCÊNCIA: Histórias Interiores), editado em 2018 pela Karnac Books, constitui-se num livro de leitura obrigatória para todos aqueles que trabalham com adolescentes e que queiram aprofundar e reflectir na sua forma de estar íntima, no seu modo de pensar e naquilo que caracteriza este tipo tão particular de pensamento dos estados mentais adolescentes.
Margot Waddell, membro da Sociedade Britânica de Psicanálise e actualmente presidente editorial das suas publicações, é também psicanalista de crianças e adolescentes e co-editora e editora das publicações da Tavistock Clinic, centro de psicoterapia psicanalítica fundado em 1920, orientado para crianças, adolescentes, jovens adultos e famílias e adultos.
A partir da sua longa experiência clínica não só como psicoterapeuta mas também como supervisora e orientadora de seminários, Waddell tem escrito inúmeros artigos acerca desta temática, destacando-se o seu livro Inside Lives: Psychoanalysis and the Growth of the Personality, editado pela Karnac Books em 2002 e, em português, pela Assírio & Alvim, com o título Vida interior: Psicanálise e desenvolvimento da realidade.
A sua belíssima escrita, influenciada pela sua formação académica literária (Waddell é formada em Estudos Clássicos e Literatura e tem um PhD pela Universidade de Cambridge sobre as novelas de George Eliot), leva-nos a adentrar nestes mundos interiores adolescentes e a acompanhá-los no desenrolar destas suas intensas emoções. O seu propósito neste livro On Adolescence não é o de descrever este período de vida, mas o de explorar a partir da sua própria experiência de vida e do pensamento psicanalítico a dança dos dois estados mentais do mundo interno do adolescente: o da criança que já não é e o do adulto que ainda não foi. «O cerne deste livro reside na exploração da vida interior destes jovens, quer eles encontrem ou não o caminho para os serviços clínicos — uma exploração do que lhes vai no seu interior durante este período de angústia transicional, de que tipo de coisas correm mal e como nós nos podemos aproximar deles, de como podemos suportar a sua emergência através do caos agido ou retraído que procura a construção do seu próprio de self.» (Waddell, 2018, p. xvi, tradução minha.)
Numa toada de esperança, Waddell, através do seu pensamento psicanalítico kleiniano e pós-kleiniano, procura mostrar-nos a partir das suas histórias interiores, das suas vinhetas clínicas, como se dá a construção de um espaço próprio, de um «quarto mental interno», onde as formas de aprendizagem, que vão do aprender adesivo, ao projectivo e ao introjectivo, possibilitam o aprender mais maduro, o de querer perceber a natureza do mundo que habita pela identificação e interiorização daquele que verdadeiramente o escuta, e pelo qual se sente contido, compreendido
Membro associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). E-mail:
e aceite na sua igualdade e diferença. A partir deste encontro, e reencontrado, o adolescente consegue aprender pela experiência, desenvolver o seu espaço mental e, percorrer o seu caminho real. Parafraseando a autora: «Como Freud sugeriu, e dada a complexidade das tarefas da agenda adolescente — psicológica, comportamental, intelectual, sexual — torna-se espantoso como é que se conseguem ultrapassar estes anos. De facto, alguns demoram-se, outros tropeçam e outros, porventura, até caem no caminho. Porém, no geral, a maioria consegue. Estes capítulos pretendem traçar algumas das vicissitudes das histórias interiores deste turbulento grupo de idade e das suas famílias, embora eu prefira afastar-me da noção exacta cronológica de grupo de idade como tal e concentrar-me, antes, em estados mentais. Porque os estados mentais que irei descrever são característicos desses anos, mas também podem ser encontrados, talvez de modo fugaz, numa criança de 8 anos, ou até, num adulto de 38 anos ou mais.» (Waddell, 2018, p. 16, tradução minha.)
O livro é dividido em quatro partes, sendo, no entanto, todas elas percorridas por vinhetas clínicas e excertos literários, os quais adensam estas histórias interiores e estimulam a leitura de fio a pavio, não obstante, sempre com cuidado de a saborear, levando-nos a pensar que se trata afinal não de um livro técnico, mas de um ensaio literário sobre a adolescência.
Na primeira parte, é descrito o contexto em que surge o conceito da adolescência e do mundo interior, sobressaindo o mundo interno e a sua definição, em que a conversa entre Alice e Humpty Dumpty, de Carol, nos ilustra a necessidade de um outro que contenha este período de crescimento gerador de confusão e turbulência emocional, e a poesia de Yeats nos descreve o que do ponto de vista analítico é suposto acontecer neste período, ou seja: «o quadro psicanalítico coloca a ênfase na complexidade das relações entre os estados internos e as tarefas externas; nas capacidades ao invés das habilidades; na tónica do sentido que a experiência tem para o próprio e não nas relações causais ou contratuais. Assim, penso menos em termos de cronologia enquanto tal e mais nos diferentes estados da mente — aqueles que predominam, mesmo que temporariamente, em qualquer idade ou estádio, pois se a psicanálise trata de algo, é acerca da expansão do sentido» (Waddell, 2018, p. 15, tradução minha).
A segunda parte, dedicada aos aspectos da experiência adolescente, é constituída por uma série de capítulos densos, onde a autora atravessa as várias áreas deste tempo de estar na vida. Aqui, quero apenas realçar o recurso «à hora do estranho» de D. H. Lawrence, à forma genial como este autor descreve a puberdade e que corresponde a mais uma demonstração de como a arte da palavra nos ajuda a compreender a dimensão da natureza humana.
A terceira parte é dedicada aos quadros clínicos e à compreensão que Waddell faz dos mesmos, à necessidade de compreender e suportar estes quadros não como formas patológicas estanques, mas como estados mentais adolescentes que fazem parte de um processo evolutivo de maturação da mente. «Durante a adolescência, é sempre um trabalho de interpretação subtil o de deslindar da ordem mental da desordem mental, desafiando formulações e categorias vigentes.» (Waddell, 2018, p. 171, tradução minha.)
A quarta e última parte é acerca do mundo da ficção e desdobra-se num andamento que flui entra a clínica e a literatura, entre as vinhetas e Shakespeare, Austen, Brontë e Eliot, num desenrolar elegante e sucessivo de narrativas que intensificam a trama e prendem o leitor, terminando no «Appendix» e, neste, no culminar da apoteose psicanalítica, a narrativa do Édipo de Sófocles.
Posto isto, pouco mais me resta escrever senão para agradecer e recomendar a leitura deste excelente ensaio psicanalítico sobre os estados adolescentes da mente!