A direcção e o corpo editorial da Revista Portuguesa de Psicanálise (RPP) gostariam de partilhar com os seus leitores a celebração do centenário do International Journal of Psychoanalysis (1918–2019), evento que nos mostra o desenvolvimento e a evolução do pensamento analítico. Este jornal (IJP) — conhecido e de leitura obrigatória entre os analistas — tem acompanhado a história do pensamento psicanalítico ao longo dos últimos cem anos. Tornou-se, assim, desde o tempo de Freud até aos nossos dias, num espaço de debate e de controvérsias que surge a partir das diferentes descobertas que se fazem no campo da investigação clínica. O pensamento psicanalítico tem sofrido — como pode ser constatado a partir duma leitura mais aprofundada do IJP — ao longo dos anos uma constante evolução, e apercebemo-nos de como os diferentes conceitos psicanalíticos tiveram assinaláveis desenvolvimentos desde a sua origem. A investigação clínica mostra-nos diferentes patologias — sobretudo do agir — e como presenciamos uma significativa evolução e transformação teórica do sentido de certos conceitos. Assim, parafraseando Freud (1917), «o nosso trabalho deve avançar com base não em dúvidas, mas nas nossas descobertas». Desta forma, esta celebração surge, como salienta Birksted-Breen, com «um tempo de reflexão e de balanço do nosso conhecimento de forma a olhar para o futuro».
Assim, a RPP pensou, no contexto desta comemoração, fazer uma entrevista à actual editora chefe do International Journal of Psychoanalysis, Dana Birksted-Breen, que dirige uma equipa que integra quatro regiões e cem membros. Como não podia deixar de ser, abordámos, de entre outros aspectos, o processo criativo da escrita analítica. Foi-nos dado, assim, um testemunho pessoal da sua maneira de elaborar e pensar através da escrita psicanalítica: «espero que algo me aconteça no meu trabalho clínico, às vezes é algo muito pequeno… eu tomo nota disso e, passados meses ou até anos, retomo… e escrevo».
Também, ainda neste contexto, apresentamos um artigo de Ana Mónica Dias — «A escrita psicanalítica na formação do analista» —, no qual considera, através duma revisão bibliográfica, que o acto de escrever funciona como «um pilar decisivo no caminho de se “tornar psicanalista”». Mostra também como a escrita é um processo indissociável da formação do psicanalista, pois é através dela que o analista se pode reencontrar consigo próprio“ (Gabbard & Ogden, 2011).
Apresentamos também um trabalho de Filipe Leão Miranda, em que descreve a conferência realizada em Londres aquando da comemoração do centenário do IJP. Desenvolve e narra a história da construção desta revista científica e acrescenta, duma forma sintética, o objectivo deste evento, através das palavras da actual editora Dana Birksted-Breen, que conduziu a ordem de trabalhos «daquela que seria uma conferência de tributo ao passado, mas com uma preocupação colocada no futuro».
Na segunda parte deste número da RPP, publicamos as diferentes conferências e comunicações que se realizaram no Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, cujo título foi: «Espaço (In)finito: Psicanálise e interseção de lugares». Assim, divulgamos a conferência de Martin Gauthier, «Theo's Cavern: Where Do We Live Today?», bem como o comentário feito por Conceição Tavares Almeida.
Publicamos também as diferentes comunicações que se realizaram neste Colóquio, como sejam: «Espaço Psíquico do Encontro Analítico: O Sonho Como Modelo», de Maria Fernanda Alexandre; «Acolher o estrangeiro, sonhar o que ainda não aconteceu», de Maria Teresa Sá; «Espaço do Sonho e de Outros Lugares em Psicanálise: Deriva a Partir da Poética Pessoana», de Manuela Fleming; «Psicanálise e Física moderna: o fim da ditadura da razão», de Maria Luís Borges de Castro; «O través da casa: Desenraizamento e dor psíquica», de Tiago Pires Marques.
Numa terceira parte, apresentamos textos clínicos e teóricos como: «Origem da vida psíquica, nascimento psíquico e originário», de Maria José Gonçalves; «Este corpo é meu ou da minha mãe? — O impacto da gravidez da analista na elaboração da relação das mulheres com o corpo», de Ana Teresa Vale.
Também apresentamos, neste número da revista, dois artigos que fazem uma ponte entre a psicanálise e a cultura. São os seguintes: «Psicanálise e Criação Literária», de Maria José Martins de Azevedo; e «“Amor de Perdição” em Agustina Bessa-Luís», de Celeste Malpique.
A equipa editorial agradece a participação de todos os colaboradores deste número da RPP, esperando que a sua leitura seja um forte incentivo para investigar e escrever acerca da evolução do pensamento psicanalítico.