A autora, inspirando-se na obra de Fernando Pessoa, procede a um exercício de intersecção de espaços: como opera a psicanálise enquanto instrumento de transformação//interpretação do indizível emocional. Tenta-se uma analogia, ou melhor, uma ousadia, entre a capacidade psicanalítica de operar mudança e a capacidade transformadora da poesia.
Proponho-me com esta reflexão em torno do tema «Espaço de sonho e o vazio» proceder a uma deriva a partir da poética de Fernando Pessoa porque me parece possível tecer pontes entre os espaços da Psicanálise e os da Literatura.
Ocorre-me o poema «Tabacaria», de Fernando Pessoa, do qual cito aqui o início:
«Não sou nada.Nunca serei nada.Não posso querer ser nada.À parte isso, tenho em mim todos os sonhosdo mundo.Janelas do meu quarto[…]»
Vejo o poeta sozinho no seu quarto, sentindo-se porventura mergulhado no vazio emocional, mas assim que abre a janela, pode partir… e a deriva leva-o ao espaço da criação de imagens, de metáforas, de sentidos, ao espaço do sonho.
Como transformar o sentimento de vazio é também um dos desafios que se colocam ao psicanalista, quando, à cabeceira do seu analisando, tenta abrir as janelas do imaginário, às vezes do inconsciente, e criar novas realidades.
Fernando Pessoa, embora visse na Psicanálise freudiana um método utilíssimo pela descoberta do Inconsciente, também criticou a Psicanálise por se tratar, e passo a citar, de um método «imperfeito porque não dispõe da chave definitiva da compreensão universal da alma humana» (apud Simões, J. G., 1970).
Assim é: a Psicanálise não dispõe desse método perfeito (quanto a mim, uma ideia utópica) e ainda bem! Mas os psicanalistas vão beber a todas as fontes que permitam alargar a compreensão do funcionamento mental — vão beber à Arte e sobretudo aos poetas e aos escritores, porque precederam Freud no desvelamento do inconsciente.
Edvard Munch, não sendo um grande poeta, mas, sim, um extraordinário pintor, um ano antes de pintar o célebre quadro O Grito, escreveu no seu diário estas palavras:
«Passeava por um caminho com dois amigos — o sol pôs-se — de repente o céu tingiu-se de vermelho sangue […] meus amigos continuaram e eu fiquei quieto, tremendo de ansiedade, senti um grito infinito que atravessava a natureza (apud Restán, J., 2015).
Que sabemos de Edvard Munch? Muito cedo na vida (antes dos seus 5 anos), sofreu devido à morte da mãe e também da irmã. Talvez uma angústia arcaica, uma dor mental insuportável, o acompanhasse e o tivesse levado a escrever sobre si
Artigo recebido em 27 de Abril de 2019 e aceite para publicação em 14 de Setembro de 2019.
Este artigo tem como base a comunicação apresentada no XXIX Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, «ESPAÇO (IN)FINITO: Psicanálise e Interseção de Lugares», Lisboa, 15 de Março, 2019.
Membro titular, com funções didácticas, da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanalistas (IPA). Professora catedrática de Psicologia, no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, Universidade do Porto. E-mail:
mesmo: «A enfermidade, a loucura e a morte foram os anjos que rodearam o meu berço e me seguiram durante toda a minha vida» (apud Restán, J., 2015).
Como psicanalistas, sabemos que nada há de mais determinante e significativo para a mente humana do que o arcaico, porque ficou gravado numa época em que a criança não dispunha ainda da capacidade de elaborar e de atribuir sentido. Não havendo inscrição, poderá resultar o vazio, o oco, uma ameaça permanente de desestruturação da vida psíquica, ou, no dizer de Munch, sentimentos que «me seguiram durante toda a minha vida».
Terá a Arte a capacidade de dar expressão, de dar forma ao inominável poder da insuportável dor humana?
Terá o psicanalista no seu labor interpretativo alguma arte, algum engenho, que permita transformar e dar nome ao grito? Talvez seja uma grande ousadia da minha parte, mas vou arriscar: ouso dizer que no processo criativo de Fernando Pessoa se revela a mesma dialéctica do método psicanalítico.
Para ilustrar esta ideia, vejamos a forma como Fernando Pessoa lidou com a sua fobia das trovoadas, ao compor o poema «Abdicação» — o que me permite fazer uma leitura dessa mesma passagem à minha maneira.
Invadido por uma grande perturbação emocional, por um medo atroz de uma trovoada nos céus de Lisboa, Fernando Pessoa corre para casa onde se refugia e escreve…
«Toma-me, ó noite eterna, nos teus braçosE chama-me teu filho»E mais adiante, nesse mesmo poema, escreve:«Despi a realeza, corpo e alma,E regressei à noite antiga e calma»
Poderíamos dizer que Pessoa transforma a emoção dolorosa sentida numa criação poética. Escreve o poema «Abdicação», onde simbolicamente podemos ver na casa e na «noite antiga e calma» a figura de uma Mãe calma, acolhedora e apaziguadora da tempestade emocional.
«É na invasão do Real no Simbólico que se engendra o acto poético e acontece o gozo falante», refere o psicanalista Jorge Santos (2012).
É também na invasão do Real no Simbólico que se engendra o sintoma psicopatológico, e é pela procura do seu simbolismo que o psicanalista procede, interpretando, no sentido de apaziguar a tempestade emocional contida e expressa através do sintoma.
Fernando Pessoa também considerou a Psicanálise como um método utilíssimo porque identificou nesse método o mecanismo da TRANSLAÇÃO de certos elementos psíquicos mediante processos de DESLOCAMENTO, METONÍMIA e CONDENSAÇÃO.
Ou seja, na minha forma de ver, estamos a falar dos tropos e dos topos maiores da gramática interpretativa do Inconsciente.
A alma, conceito tão caro a Fernando Pessoa e omnipresente na Literatura, será, ouso dizer, um duplo constitutivo do Humano, mesmo se sob a forma de heterónimos (como em Pessoa), ou «um energético desmentido da morte», como diz o psicanalista Otto Rank?
Pelos interstícios, esgueiram-se os DUPLOS, esboços arcaicos do EU primitivo nunca integrados no EU «definitivo», mas largados no cenário da escrita-vida.
Os DUPLOS, fantasmas ou avantesmas, entram na arena da existência e corporizam-se em figuras permanentes providas de nome e de biografia pessoal (Alexander, Álvaro, Alberto, Ricardo), na poética do criador.
Em nós, seres banais (falo por mim), os nossos duplos, bem mais comezinhos, aparecem no EU IDEAL, mascarados de super-homem ou de super-mulher, reizinhos, ou outras fantasias grandiosas.
Para finalizar, revisito Fernando Pessoa, e mais especificamente o seu poema «Passagem das Horas». Aí escreve:
«Multipliquei-me para me sentirPara me sentir, precisei sentir tudoTransbordei, não fiz senão extravasar-me»
Ao transbordar e ao querer sentir tudo, Pessoa cresce em consciência de si mesmo e em capacidade de metaforizar e de pôr em palavras o que sente; cresce em querer saber e simbolizar, e, por essa via, previne o adoecer mental.
Fernando Pessoa não quer ser psicanalisado, mas tem, na minha leitura da sua obra, uma alma psicanalítica, uma vez que toda a sua obra se constitui como uma profunda investigação acerca da dimensão sensorial e emocional da mente humana.
Pessoa não quer ser psicanalisado por outros, mas deseja conhecer-se a si próprio, e nesse desígnio é capaz de conter e identificar as suas emoções, é capaz de as simbolizar, servindo-se, na minha perspectiva, de continentes ou contentores auxiliares: os seus heterónimos.
Ao transformá-las em obra poética, Fernando Pessoa atribui sentido às sensações e emoções que desassossegam o seu mundo interno e por aí se tranquiliza e sonha.
ABSTRACT
The author, drawing on the work of Fernando Pessoa, proceeds to an intersection exercise of spaces: how psychoanalysis operates as an instrument of transformation / interpretation of the emotional unspeakable. An analogy, or rather a boldness, is attempted between the psychoanalytic capacity to operate change and the transformative capacity of poetry.
KEYWORDS: dream, void, Fernando Pessoa.