Numa curta revisão teórica de alguns conceitos básicos da Psicanálise e da Física Moderna, a autora tenta pôr em evidência a semelhança da conceptualização de alguns modelos nestas áreas do conhecimento.
«Só pensamos através de palavras. As linguagens são verdadeiros métodos analíticos. A Álgebra, que se adapta ao seu propósito em qualquer espécie de expressão, da maneira mais simples, mais exata e melhor possível, é ao mesmo tempo uma linguagem e um método analítico. A arte de raciocinar não é mais do que uma linguagem bem organizada.» Lavoisier numa Memória lida à Academia de Ciências de Paris, em abril de 1787, citando o Abade de Condillac.4
É para todos sobejamente conhecida a influência da termodinâmica e da mecânica clássica no pensamento de Freud. Atualmente, talvez seja oportuno debruçarmo-nos na influência, noutros psicanalistas, de alguns conceitos desenvolvidos recentemente no campo da ciência física/biológica. Estes dois campos do conhecimento estão espetacularmente representados nalgumas intuições premonitórias (visionárias) de Freud.
Assim, abordar-se-ão conceitos como metáfora, representação, modelo, caos, determinismo, mecânica quântica5, campo, tão presentes na nossa expressão elaborativa, tanto no pensamento psicanalítico como no pensamento científico, que os tentaremos associar ao conceito freudiano da segunda tópica, relacionando-os com o processo criativo.
No dizer de Vladimir Nabokov, no seu romance Ada ou Ardor:
«A mente do homem, por natureza monista, não pode aceitar dois nadas; sabe ter havido um nada, a sua inexistência biológica no passado infinito, pois a sua memória está absolutamente em branco e, sendo esse nada passado, não é muito difícil de suportar. Mas o segundo nada — que talvez também não seja muito difícil de suportar — é logicamente inaceitável […] A nossa consciência de ser não é um ponto na eternidade, mas sim uma fenda, uma fissura, uma brecha ao longo de toda a extensão do tempo metafísico […]» (p. 251)
Não existe nenhuma analogia entre tal conceito de eternidade e a nossa breve vida no tempo, porque por muito breve que seja a nossa consciência de ser, não é um ponto na eternidade, mas, sim, uma fenda (incidente), uma brecha ao longo de toda a extensão do tempo metafísico, bisseccionando-o e brilhando, ainda que, muito estreitamente, entre o tempo posterior e o tempo anterior haja uma descontinuidade. Portanto, podemos falar de tempo passado e, de modo mais vago, apesar de familiar, de tempo futuro, mas não podemos pura e simplesmente esperar um segundo nada, um segundo vazio!
Tentando seguir sempre uma ordem cronológica do pensamento e escolhendo aleatoriamente conceitos filosóficos/científicos/matemáticos, iniciaremos pelo determinismo linear.
Artigo recebido em 30 Agosto de 2019 e aceite para publicação em 14 de Setembro de 2019.
A revisão do artigo da matéria relacionada com a Ciência Física foi confiada a Maria Helena Cabral, Professora Associada da FCT/UNL, cuja colaboração agradeço.
Psiquiatra, pedopsiquiatra e psicanalista. Membro convidado permanente da Sociedade Psicanalítica de Paris (SPP), membro associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). E-mail:
Nota: este artigo está escrito conforme o recente Acordo Ortográfico.
Este conceito pode ser assim definido: é um conceito filosófico que diz serem todos os factos baseados em causas, ou seja, todo o acontecimento é regido pela determinação, seja de carácter natural ou sobrenatural, isto é, todos os factos e ações humanas são predeterminadas pela natureza, sendo a «liberdade de escolha» uma mera ilusão da vida.
Exemplo desta conceptualização utilizada em Psicanálise:
1a hipótese: temos um exemplo de compreensão determinística do funcionamento psíquico no conceito de recalcamento. O fantasma já faria parte do inconsciente e a sua tomada de consciência é independente de quem seja o analista.
O traumatismo agiria sobre o aparelho psíquico provocando por parte dele uma reação, consoante a sua capacidade responsiva.
2a hipótese: o analista é responsável pelo levantamento parcial, mas igualmente eficaz, do recalcamento — uma mínima flutuação por parte do analista abala a organização psíquica do analisando, que estava sob tensão. Provocar-se-ia, assim, aquilo que se chama de desordem desintegradora com reorganização criativa, dando um novo sentido.
Habitualmente, ao conjunto destas duas hipóteses, dá-se o nome de bifurcação. Foi o reconhecimento desta bifurcação que rapidamente criou uma incerteza quanto ao objeto científico da Psicanálise.
Paralelamente, a Física, com a sua ferramenta preciosa que é a Matemática, especificamente a Física Quântica e a Física do Caos, sai desta construção determinista construindo a noção de modelo global. Esta nova forma de abordar o conhecimento pela sua abrangência de múltiplas variáveis e pela curiosidade humana do muito pequeno e do infinitamente grande só vai ser possível através da perda do estaticismo e da aquisição da noção do aleatório. Matematicamente, traduz-se pela teoria do caos, assente na probabilidade, e pela noção de estado quântico, sendo este qualquer estado possível em que um sistema mecânico quântico se possa encontrar. Um estado quântico plenamente especificado pode ser descrito por um vetor de estado, por uma função de onda ou por um conjunto completo de números quânticos para um dado sistema. Vetores de estado quântico, na interpretação mais comum da mecânica quântica, não têm realidade física. O que tem significado físico são as probabilidades que podem ser calculadas a partir deles, e não os vetores em si. Ao estado quântico de menor energia possível dá-se o nome de estado quântico fundamental.
Um estado quântico fornece uma distribuição de probabilidade para o valor de cada variável observável, ou seja, para o resultado de cada medida possível no sistema. O conhecimento do estado quântico juntamente com as regras para a evolução do sistema no tempo esgota tudo o que se pode prever acerca do comportamento do sistema.
Em Psicanálise, e em França, Cristian David (1984) apresenta o conceito: «un rien qui bouge et tout est changé». Com esta frase, o autor refere que será impossível distinguir onde — se no analista, se no analisando — se produzem as transformações.
Nesta linha, André Green (1995) introduz uma noção original, claramente por influência da física quântica: o princípio de incerteza psicanalítica. Saímos do paradigma analista/observador, que seria neutro e que não mudaria nada no processo analítico, para analista relacional, em que ele próprio não conheceria a sua limitação atuante.
É na primeira consulta que se pode observar que efetivamente o analista não é estático nem apenas observador — o que em Física é equivalente ao fenómeno da sensibilidade às condições essenciais. A Psicanálise, ousaremos dizer, pelo seu modelo de cariz metafórico, insere-se hoje no grupo das Ciências do Caos.
Vamos agora tentar pôr em evidência o facto de haver um avanço das ciências ditas objetivas em paralelo com a Psicanálise.
Tal como já foi dito, a Física Quântica e a Psicanálise alteram o paradigma passando do modelo de determinismo linear para o modelo das probabilidades. Veremos que o determinismo dos sistemas dinâmicos é paradoxalmente ligado à imprevisibilidade, sendo esta característica pertença da teoria do caos. Este facto foi posto em evidência por Daniel Widlocher (1970). Este autor ocupava-se do que hoje chamamos por vezes de «novas patologias», ou seja, de estruturas que habitualmente não eram objeto do método psicanalítico (borderline, perversão e psicossomática), que nos levaram a aplicar estes modelos científicos. Introduziu o conceito do «casal analítico» para fazer emergir o «novo», pondo em evidência o papel fundamental do pré-consciente comum. Assim sendo, torna-se produtiva a partilha do risco da angústia do desconhecido e do mau estar perante a perda de controlo dos pontos de referência teóricos.
Nesta mesma linha de pensamento, Michel de M'Uzan acrescenta que o analista deverá aceitar, durante a sessão, momentos de desorganização ou mesmo de destruturação, criando um espaço comum onde o trabalho analítico poderá prosseguir.
Paul Denis (1996), privilegiando o contexto metapsicológico (tópica, dinâmica e económica), considera que a mudança de estrutura deve ter essencialmente como finalidade desenvolver o registo do desenvolvimento das instâncias e das representações. Poder-se-ia então dizer que se provoca uma mudança de estado (segunda tópica)
— passagem de um sistema de organização para outro. Então, sob o ponto de vista metafórico, cria-se uma verdadeira mudança de estado e de comportamento do estado físico/emocional, já atrás descrito. Pode assim verificar-se que o paradigma de pensamento psicanalítico continua a transformar-se da mesma maneira que o das ciências físico-químicas.
Conforme o 2.° princípio da Termodinâmica, num sistema fechado a energia vai-se degradando e a entropia vai aumentando até ao seu valor máximo, criando-se uma situação de desordem, ou agitação desordenada.
Como consequência desta nova maneira de encarar a clínica, todos estes autores afirmam ser cada vez mais difícil a sua prática.
De onde vem, então, o novo que emerge na cura analítica?
Resulta desta premissa: a realidade sempre nova e o intrapsiquismo sempre novo resultam da teoria do caos, ou seja, da impossibilidade de prever, que tem que ver com o determinismo, mas com o desconhecimento das condições iniciais.
Segundo B. Grumberger (1982), «a análise pretende ajudar o sujeito a encontrar-se tal como virtualmente ele é, ou seja, como ele próprio pensa que deveria ser.»
Ainda nesta linha de pensamento, Georges e Sylvie Pragier (1996) propuseram uma terceira via de compreensão da relação psicanalítica, que eu chamaria pensar e agir na Metapsicologia. Esta via foi apelidada de simulação. Não será nem teórica (haverá necessidade de revisitar a metapsicologia), nem empírica (clínica). Consistirá em desenvolver as consequências dum sistema complexo de hipóteses, fazendo «como se…».
No desenvolvimento psicoafetivo infantil, não será o pensamento desde o início uma experiência de simulação? Como exemplos da construção do pensamento, teremos a necessidade dos jogos identificatórios desenvolvidos na construção da identidade ou, mais tarde, na adolescência, a criação de grupos oponentes, onde os jovens podem viver o perigo de ganhar e perder em grupo e assim se irem criando identidades coletivas.
Nestes casos, o «como se» é um bom exemplo de antecipação criadora do pensamento, da construção do «eu». A simulação é um caminho de investigação quando não há acesso à experimentação, e, por isso, pode ser aplicável tanto na Psicanálise como na Astrofísica.
Consideremos, agora, o conceito de estrutura, tanto sob o ponto de vista psicanalítico como sob o ponto de vista da Termodinâmica.
Conforme o 2.° princípio da Termodinâmica, se considerarmos um sistema aberto, ou seja, que possa ir recebendo energia exterior, a entropia poderá baixar de valor, podendo a agitação desordenada transformar-se em ORDEM, e formar-se uma nova estrutura designada de dissipativa (desperdício).
O mesmo se passa na situação analítica: a introdução do analista, abrindo o sistema, dando outro nível de energia relacional, cria a ordem e baixa a entropia. Poder-se-á compreender facilmente a analogia entre a noção de entropia e a de ansiedade criada pelo sistema.
Seguindo os conceitos psicanalíticos, para combater este desperdício, o inconsciente recorre a mecanismos de defesa, que habitualmente são variados (consoante as estruturas), mas sempre recorrentes. São exemplos a clivagem, a denegação, o evitamento, o recalcamento e a sublimação, onde a energia inicial se vai perdendo e transformando numa nova estrutura chamada dissipativa.
E assim, sucessivamente, todo o sistema contém um potencial de transformação, mas a formação de uma nova estrutura depende de uma provocação aleatória. O acontecimento aleatório joga, portanto, um papel primordial na relação binária repetida. Aqui, a relação, que pode provocar a transformação, é o conteúdo aleatório analista//analisado. Abre-se caminho para a formação de uma nova estrutura que é a finalidade do processo analítico.
Experiências, impressões, traços mnésicos são posteriormente reorganizados em função de novas experiências, dando acesso ao desenvolvimento psíquico, como acentuou Freud (1937), e posteriormente Jacques Lacan, através do seu modelo estruturalista do inconsciente.
É possível perceber a formação desta nova estrutura, essencialmente «après coup». Dito de outra forma, e segundo René Diatkine (2001), no processo da cura analítica é impossível prever a expressão oral do conteúdo da sessão seguinte; a estrutura esteve lá desde o início e é na relação com o analista, e desde o primeiro momento, que a estrutura se rompe.
Segundo este autor, poderíamos fazer a analogia com a teoria do caos, que se refere à «sensibilidade às condições iniciais». Para esta abordagem, na compreensão de um sistema complexo aceita-se que o enorme número de possíveis perturbações das condições iniciais, mesmo aquelas consideradas mínimas, pode, a longo prazo, resultar em erros e, portanto, tornar incerta a predição futura. No modelo conhecido como «efeito borboleta»6, uma minúscula falha inicial nos cálculos, em razão de arredondamentos, provoca um erro que cresce exponencialmente à medida que o cálculo prossegue, até alcançar resultado sem relação com o anterior. Teríamos, assim, consequências consideráveis de acontecimentos menores.
No setting analítico, temos como exemplo as pequenas intervenções exclamativas, o franzir de sobrancelha e, por vezes, o silêncio.
Continuando a associar o conceito de estrutura
psicodinâmica à ciência física, consideremos agora Serge Viderman (1982). Este autor põe em foco a importância da situação edipiana como eixo principal do espaço psicanalítico, mas acrescentando o seu papel fundamental em termos de atrator, definido em física matemática. Assim, este seria algo de gravitacional e definido como o conjunto de comportamentos (no caso da Psicanálise sentimentos/afetos) característicos para o qual evoluiu um sistema dinâmico, independentemente do ponto de partida.
A díada analista/analisando estaria como que ligada numa orbita transferencial sempre dependente do polo atrativo edipiano. O analista deve fixar-se nessa orbita para se analisar, analisando.
Na linha do enfoque edipiano, Michel Ody (1990) acrescenta que do encontro analítico resulta uma oscilação entre desordem e ordem edipianas, o que cria uma instabilidade estrutural.
O triângulo edipiano corresponderia ao triângulo de Helge von Koch, ou seja, um triângulo em que se multiplicariam os lados até ao infinito, de forma fractal, sempre igual e repetitiva. A rutura repetida do triângulo seria a figura da perversão. A repetição do triângulo intacto seria a neurose. Freud já teria afirmado que a perversão seria o negativo da neurose.
A metáfora edipiana foi a percursora da metáfora em psicanálise, e por semelhança com o conceito de atrator: este funcionaria como tal, o ponto inicial do caos.
A metáfora do atrator corresponderia à ideia de uma estrutura oferecida pelo analista para evitar «à priori» algo constrangedor. Consideremos o conceito de atrator: é o conjunto de comportamentos característicos para o qual evoluiu um sistema dinâmico independentemente do ponto de partida. Num sistema complexo, o atrator tem características especiais e denomina-se atrator estranho.
No atrator estranho, o sistema flutua para sempre entre vários estados de um modo que não é aleatório, nem fixo, nem oscilatório, mas, sim, uma flutuação contínua e caótica.
No atrator circular, o movimento é repetitivo, sendo o fim igual ao princípio.
A situação edipiana seria o início do caos e um atrator flutuante, estranho, mas nunca circular.
Assim sendo, na psicanálise, os mecanismos de defesa poderão ser diversos, mas sempre os mesmos, repetidamente. Em psicanálise, a discrição de atrator dá-nos um sentimento de estranheza inquietante (agressividade, pulsão de morte, situação edipiana).
Consideremos, agora, a trajetória em torno do atrator: esta pode ser deformada, original ou repetitiva. Habitualmente, as duas primeiras estão sempre presentes; a última seria, segundo Freud (1937), a análise pessoal, que deixaria de ser uma tarefa com um fim para se tornar numa tarefa sem fim.
Daqui se infere que o processo psicanalítico tem como finalidade a modificação da estrutura psicodinâmica e que esta pode ser definida pelo tipo da relação de objeto e a escolha e aplicação dos mecanismos de defesa utilizados.
Pasche (1974) postula a obstinação do analisando, ou, dito de outra forma, aceita a compulsão de repetição, uma vez que o traço mnésico recalcado tende sempre a manifestar-se, como no caso do «souvenir écran», que corresponde ao recalcamento primário. O traço mnésico das sessões anteriores corresponde ao recalcamento secundário, formando-se, assim, representações mais ou menos conscientes.
É fácil concluir-se a semelhança com o modelo fractal em que o mais pequeno fragmento reproduz a forma global.
Consideremos agora a metáfora da mudança. O modelo físico que mais se aproxima da mudança de estrutura em psicanálise é o 2.° princípio da termodinâmica e o conceito de entropia. Esta define-se como a medida da desordem de um sistema. Considerando um modelo isolado, a energia perde-se na sua conversão em trabalho, levando ao aumento da entropia, e este aumento leva à desordem crescente e à estagnação.
Num sistema aberto, onde aparecem novas fontes de energia, em vez de aparecer a desordem crescente, aparece, sim, uma estrutura nova, dita dissipativa. Se o sistema continua a receber energia, a agitação desordenada pode transformar-se em ordem. No caso da biologia, leva à auto-organização do ser vivo.
Aplicando este modelo ao setting analítico, podemos considerar que o analista representa uma nova entrada de energia no modelo aberto, criando uma estrutura dissipativa semelhante à descrita, onde baixaria a entropia (excitação/perda de energia) e se criaria uma situação de maior estabilidade, e consequentemente mais organizada.
Este setting induz a uma relação de forças, todas elas do foro simbólico e que produzem uma economia do afeto. Em resumo, esta díada analista//analisando constitui uma dupla ligada por uma relação de incerteza objetiva.
A consequência mais comum da metáfora da mudança é a metáfora de repetição. Consideremos que qualquer mudança implica muitas variáveis, umas mais estáveis do que outras, que serão muito mais plásticas. Durante o processo analítico, a repetição é constante, mas deverá ser determinada, e sempre aleatória. A repetição determinada, mas aleatória, dá origem ao conceito geométrico de fractal.
Ouso, então, dizer que a vivência psicanalítica será em tudo semelhante à árvore da vida dos
afetos, que se desenvolve em ramos dispostos como um fractal, ou seja, em simetria com diversas escalas de desenvolvimento.
Segundo André Green (1995), o processo psicanalítico implica desenvolvimento e desfecho, mas sempre através de uma conjuntura que, por sua vez, depende dos acontecimentos, da estrutura psicodinâmica do analisando, do objeto, e todos sempre regidos e em consonância com o afeto.
O esquema pode ser assim representado e põe em evidência o já descrito anteriormente:
De seguida, abordaremos a Psicopatologia Dinâmica, começando pela psicose.
Todo o futuro psicoafetivo, ou seja, o seu desenvolvimento, é resultado da ligação do psiquismo da criança ao dos pais, com a linha orientadora do afeto. No entanto, não é possível conhecer antecipadamente como se processa a forma de compromisso entre a organização e a desorganização na estruturação futura, que resultará em cada um deles (pais e crianças).
No setting analítico e como método de investigação, poderemos verificar, de forma mais objetiva e relacional entre psicanalista e analisando, que, como diria Piera Aulagnier (discípula de Lacan): «o processo psicanalítico de subjetivação existente na neurose, falha na psicose onde a ausência de origem do representável entrava o desenvolvimento do necessário romance de que se constrói o eu na infância a partir dos traços pré-verbais corporais».
No caso da psicose, o círculo anteriormente descrito está bloqueado. O sujeito falha na tentativa de pensar o tempo. Reproduz indefinidamente o mesmo, o que é também uma maneira de o negar, tendo como consequência a perda do sentimento de continuidade da vida.
O que se não deu na psicose foi a criação dos três fantasmas originários, que levam à construção da triangulação. A ligação entre os três parceiros da situação edipiana aparece, essencialmente, sob a forma destes três fantasmas primitivos. Esta lógica ficará completa e permitirá a capacidade de pensar em processo secundário.
Para melhor compreensão, consideremos a construção da triangulação. Os três fantasmas originários que levam a esta construção são: a cena primitiva — «Eles amam-se»; a castração — «Eles querem-me eliminar»; a sedução — «Eles amam-me».
Voltando à psicose, e pondo em evidência a importância da relação dual, verificamos que a existência do terceiro elemento não é reconhecida. Na lógica a dois, faltam os fantasmas recíprocos e o terceiro fantasma, o da cena primitiva. Sendo somente um dos progenitores realmente investido, há, portanto, dificuldade de representação da sexualidade. Assim, a criança fica refém da paixão fusional e da violência destrutiva; os seus fantasmas são arcaicos e não podem ser classificados de originários, visto não serem organizadores da triangulação. Chegamos, assim, à construção//introjeção do objeto maligno verificada na esquizofrenia e na melancolia.
Passemos a outra situação de não triangulação, que é a perturbação falo-narcísica grave. Aqui, vamos encontrar a exclusão dos dois outros elementos do triângulo em que sobrevive o sujeito, o que vai implicar a criação de uma lógica narcísica com a consequente denegação do objeto. Nesta lógica, persiste o fantasma omnipotente, isolando a pessoa do mundo em geral e dos fantasmas parentais, cujo reconhecimento é denegado. O sujeito domina o seu ambiente e impõe a potência do seu desejo. O seu pensamento está enclausurado, não aceitando o princípio da realidade. Há como que uma invisibilidade dos terceiros. E assim, mais uma vez, pensando no pensamento lógico racional, chegamos à noção física de mundo quântico. Esta construção teórica tem como base a invisibilidade.
A teoria quântica foi estabelecida cerca de 50 anos depois da morte de Freud. Dela, surgiram múltiplas aplicações práticas, como sejam o laser, supercondutores, superfluidos, transístores, etc.
Havia já no pensamento de Freud (1984) três paradigmas importantes, que ele chamou de humilhações narcísicas: a Cosmológica, com a perda do sentimento da terra ser o centro do Universo devido à descoberta do modelo construído por Copérnico; a Biológica, ou divina, ou de supremacia do humanoide, com a perda da origem devido à teoria evolucionista de Darwin; a Psicológica, com a perda do controlo absoluto do «eu» devido à teoria psicanalítica, que refere que o Eu não controla os seus desejos e não conhece os seus processos inconscientes.
Os Pragiers (1996) acrescentam atualmente outra humilhação do Homem: o mundo não obedece à lógica racional casualista, mas, sim, a um determinismo caótico. Esta necessidade de pensamento resulta de os fenómenos não serem detetáveis diretamente, mas através dos seus efeitos. Os dois campos do conhecimento onde este facto se torna mais evidente existem no domínio da psicologia e da astrofísica, sendo impossível a sua experimentação — utilizando-se, portanto, a simulação. O mundo quântico mostra-se análogo ao inconsciente descrito por Freud, que não pode ser objeto de observação sem alteração de outras variáveis, logo, move-se na invisibilidade.
Para Alex Kipman7 (engenheiro, investigador, programador e com vasta experiência psicanalítica), a psicanálise poderia ser apresentada como a ciência quântica do pensamento, ou seja, para ele, esta psicanálise encontra o seu estatuto científico.
O conceito da teoria quântica com maior aplicação em psicanálise é o princípio da indeterminação de Heisenberg. Este conceito aproxima os psicanalistas das incertezas, que seriam a essência do seu trabalho científico, com conclusões práticas importantes, como a seguinte: a resposta do paciente ao seu analista pode ser interpretada num sentido que convenha num determinado momento ao seu desenvolvimento — ao seu desenvolvimento psicoafetivo —, reconhecido pelo seu analista.
Assim, haverá uma semelhança «major» entre o objeto quântico observado e o inconsciente: ambos de efeitos visíveis, com características que nos retiram a possibilidade de conhecimento de outras vertentes, e passíveis de interpretação/ilação. Logo, nada é determinado, nem sequer no «aqui/agora».
Consideremos agora a Descontinuidade Quântica/Descontinuidade Psíquica. A descontinuidade é uma propriedade essencial das partículas quânticas: estas não descrevem trajetórias contínuas, mas, sim, dispõem-se em patamares quantitativos sucessivos, sem ligação entre eles, à semelhança de uma escada (ex.: eletrão em torno do núcleo atómico). Esta propriedade transformada em metáfora foi usada por Denise Braunschweig e Michel Fain (1971) para pôr em evidência a descontinuidade do investimento do sujeito em relação aos seus objetos. Esta descontinuidade de investimento na introjeção do objeto leva à descontinuidade afetiva da vida psíquica, que será condicionada pelos diferentes aspetos traumáticos aleatórios experienciados.
Recursividade é um termo usado de maneira mais geral para descrever o processo de repetição de um objeto, de forma similar ao que já fora mostrado. Um bom exemplo disso são as imagens repetidas que aparecem quando dois espelhos são apontados um para o outro. Este fenómeno é de extrema importância no mundo quântico porque restabelece a continuidade dos fenómenos físicos, alterada pela descontinuidade atrás referida.
Voltando à Psicanálise: a noção psicanalítica de «après-coup» apresenta uma forma de recursividade evidente, onde o futuro age retroativamente sobre o passado, passado esse que vai determinar o seu significado.
Claude Le Guen (1982) exprimia, em relação a este fenómeno, a sua perplexidade afirmando: como é que algo que não existe ainda poderá provocar um acontecimento que o fará existir?
Surgem, então, as seguintes dúvidas: Será o primeiro acontecimento, que seria transformado pelo «après-coup»? Não será, antes, a sua recordação que o modifica? Ou o sujeito que viveu a experiência possui em si traços mnésicos ainda não investidos? Depois da ligação estabelecida, haveria lugar a uma nova organização? Será que a interpretação analítica agiria como um terceiro tempo, mudando os traços mnésicos do passado?
A intuição notável de Freud permitiu-lhe relacionar de forma mais evidente este fenómeno psíquico com a compulsão de repetição, tão importante na teoria psicanalítica. Assim, os traços mnésicos, mais as situações de «après-coup», poderiam ser, por vezes, o motor da compulsão de repetição!
A realidade quântica e a realidade psíquica inconsciente aproximam-se pelos seus dois pontos comuns mais evidentes: o ilogismo e o indeterminismo.
Bion (1984), em resultado do seu trabalho com pacientes borderline e psicóticos, desenvolveu uma teoria — que se poderia dizer quântica — da psicanálise assente em símbolos grecomatemáticos α e β. Estes elementos β teriam propriedades quânticas: seriam indeterminados, irrepresentáveis, logo, não simbolizáveis, e flutuariam no infinito, onde o analista através da interpretação os reorganiza no domínio do pensamento lógico e finito.
O autor faz uma tentativa de aproximação a Heisenberg na construção de uma grelha graficamente semelhante às matrizes deste físico.
https://www.allamericanspeakers.com/celebritytalentbios/Alex+Kipman/390722
MATRIZ DE HEISENBERG
| 1 Hipótese definitóira | 2 ψ | 3 Notaçãoi | 4 Atenção | 5 Investigação |
|---|
Muitos analistas seguiram esta forma de pensar de Bion. Mas damos destaque a Antonino Ferro (2009), por ter posto em evidência a cautela na interpretação. Assim, esta não deverá ser saturada, não deverá ser resultante de mecanismos projetivos patológicos do analista, nem ser sempre resultante da mesma teoria e nível interpretativo. Terá de se ter igualmente, e sempre, atenção ao nível da transferência. «Todas as personagens devem representar o seu papel e de forma aleatória.» Neste sentido, para Umberto Eco, a psicanálise tornar-se-á Obra Aberta e Verdade Narrativa.
Pode considerar-se que a noção de campo surgiu inicialmente como uma construção matemática na descrição da gravitação newtoniana. No século XIX, tal formalismo foi estendido, tanto para fenómenos elétricos quanto magnéticos, por físicos como Ampère, Ohm e Faraday.
Devido aos trabalhos de Maxwell, o conceito de campo passou a ocupar o papel de maior importância na descrição fenomenológica da realidade. Maxwell mostrou, através de um conjunto de equações, que receberam o seu nome, que os fenómenos magnéticos e elétricos estão intrinsecamente associados e que devem ser descritos por uma única entidade: o campo eletromagnético.
Veremos a importância desta união e consequentemente da formação duma identidade única na teoria dos campos em Psicanálise.
A teoria dos campos não é uma escola psicanalítica, é uma forma de pensar o homem no seu mundo, considerando o Homem e o mundo como um todo. Esta teoria surge da crítica de Fábio Herrmann (2001) à Psicanálise dominante na segunda metade do século XX, no Brasil. Tal como no campo eletromagnético, aqui existe uma única identidade, que é o Homem//Mundo e a sua substancialidade.
Esta crítica assenta na redução da interpre tação à interpretação transferencial, tomando o lugar do método e único produtor do efeito terapêutico da Psicanálise.
Na teoria dos campos, o método é tomado no seu sentido etimológico: caminho (hodós) e fim (meta). Propõe-se a volta ao método como um caminho da retoma heurística da Psicanálise, ou seja, a exploração da psique — do sentido humano — em direção à formulação de novos conhecimentos.
O mundo em que vivemos constitui algo de real que foi superando, para o bem e para o mal, a própria substancialidade. Nesta teoria, a realidade vai tornar-se tão humanizada que passa a constituir uma espécie de psique — chamada de psique do real — que poderá corresponder ao psiquismo social. O nosso mundo passou a ser des-substancializado, o objeto concreto passou a ser substituído por representações, ou sistemas de representações.
Assim, Herrmann dizia: «a psicanálise é um sistema do mundo da super-representação e um excelente instrumento para com ele lidar». Neste constructo teórico, chegou-se então à conclusão de que a psique humana tem um universo mais lato, onde a representação da realidade (psique do real) provavelmente se funde com aquilo que antigamente se considerava somente psique, formando uma só identidade como na onda eletromagnética.
O método recuperado será a rutura do campo, isto é, a escuta descentrada do assunto//tema do discurso do paciente, para lá do tema proposto. Ainda segundo esta teoria, a Psicanálise, considerada do ponto de vista do seu método, representa para os nossos dias um especial momento de transição da arte para a ciência e vice-versa.
O Modelo desta teoria: a teoria proposta para a clínica resulta diretamente da reflexão acerca do método psicanalítico aplicado numa sessão de análise.
Nesta teoria, o método, isto é, a análise do constructo interpretativo, é evidentemente anterior a qualquer procedimento, seja o da construção do conhecimento teórico, seja o da técnica. A função terapêutica da análise situa-se no campo transferencial!
Esta é uma análise que está, antes de tudo, a tentar extrair o mecanismo de funcionamento do pensamento produzido na obra de Freud na segunda metade do século XX.
Com a aplicação deste método, verifica-se que a maior parte dos conhecimentos psicanalíticos adquiridos pela interpretação serve apenas no contexto da sua descoberta. Quando são transpostos para outros contextos, há uma acomodação abusiva de conhecimentos.
Assim, para finalizar, diria que tentei de forma
sucinta expressar que todo o trabalho elaborativo ao serviço da criatividade, seja em que disciplina científica for, se faz através de modelos cuja norma obedece às mesmas regras de pensamento que estão ao serviço da investigação, e que não são mais do que uma «imitação» da realidade interna e externa da vida, desde o infinitamente pequeno ao infinitamente grande.
ABSTRACT
In a short theoretical review of some basic concepts of Psychoanalysis and Modern Physics, the author tries to bring forward the similarity of model concepts in these areas of knowledge.
| 7 …n |
|---|
| A Elementos-β | A1 | A2 | A6 | ||||
| B Elementos-α | B1 | B2 | B3 | B4 | B5 | B6 | … Bn |
| C Pensamentos oníricos, sonhos e mitos | C1 | C2 | C3 | C4 | C5 | C6 | … Cn |
| D Pré-concepção | D1 | D2 | D3 | D4 | D5 | D6 | … Dn |
| E Concepção | E1 | E2 | E3 | E4 | E5 | E6 | … En |
| F Conceito | F1 | F2 | F3 | F4 | F5 | F6 | … Fn |
| G Sistema cientifico dedutivo | G2 | ||||||
| H Cálculo algébrico |