É com muita honra que redijo estas linhas acerca da reedição deste pequeno grande livro de João Seabra Diniz, 26 anos após a sua primeira edição, agora com a chancela da Freud & Companhia, editora portuguesa que se tem preocupado em promover o pensamento psicanalítico português e à qual damos as especiais felicitações por este seu importante feito. Esta reedição constitui-se como uma homenagem ao autor, e um privilégio para todos nós pela hipótese de a ler, de perceber a necessidade de se repensar a densa e complexa questão da adopção sobre a perspectiva psicanalítica.
João Seabra Diniz, reconhecido pela sua grande cultura humanista e invulgar discrição, é membro titular e didacta da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, reconhecido pela Associação Psicanalítica Internacional como psicanalista de crianças e adolescentes. É ex-presidente da SPP e do IP, foi director do Serviço de Acção Social da Misericórdia de Lisboa, onde trabalhou na área de apoio às crianças e suas famílias, salientando-se o seu papel no processo das adopções. Destaco, de entre as suas várias actividades, a sua colaboração como supervisor no departamento de Saúde Mental Infantil no Hospital da Estefânia e no Hospital São Roque e o seu (ainda actual) papel de formador de psicanalistas, candidatos e futuros candidatos a psicanalistas, bem como de outros profissionais de saúde. Transmitir o seu saber e a sua compreensão do que entende ser a natureza das relações que caracterizam o ser humano no seio da sua história e da sua cultura tem sido uma das suas grandes preocupações, atribuindo à teoria psicanalítica a melhor forma de perceber o humano a partir de si mesmo, a partir das relações afectivas que o caracterizam: «Nesta perspectiva, a compreensão futura das relações familiares primárias revela-se duma riqueza que parece inesgotável para a compreensão do homem e das sociedades por ele formadas e organizadas. Perceber o que é uma mãe, o que é um filho, o que é um pai, perceber como eles se relacionam e interagem, é um desafio fascinante que se coloca a todo o ser humano que quiser compreender-se a si próprio e à história da sua cultura.» (Diniz, S., 2019, p. 17)
De facto, a complexidade do pensamento de Seabra Diniz é de imediato evidenciada pela escolha do título, Este meu filho que eu não tive: a adopção e os seus problemas, o qual é munido de uma carga emocional imensa e desconcertante, oriunda do encontro entre a ausência e a impossibilidade de ter um filho e, ao mesmo tempo, a possibilidade do seu preenchimento pela adopção. Este livro traduz a longa experiência do autor nesta área, que com a sua inteligência e sensibilidade é capaz de nos transmitir fora do jargão psicanalítico e de uma forma simples, viva e muito pessoal, isenta de sentimentalismos e/ou idealizações, a sua compreensão do tema da adopção à luz da teoria psicanalítica, concebendo-se então esta obra como um livro de psicanálise.
Começando pelo fim, é curioso pensar na sua bibliografia «circunstancial» ou «pessoal», como refere o próprio autor. Esta, não muito extensa — «Mas é evidente que devo muito aos autores da escola psicanalítica, que há muitos anos estudo com assiduidade.» (Diniz, S., 2019, p. 19) —, é constituída por 23 elementos, pelo número de letras que compõem o alfabeto português (o qual é construído a partir do alfabeto latino original), o que me leva a considerar que podemos pensar neste livro como uma nova gramática, uma nova linguagem, que integra o amplo conceito da adopção, importante não só para todos aqueles que se interessem por esta questão mas também, e sobretudo, essencial para todos os que trabalhem na área das crianças
Membro associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). E-mail:
e suas famílias adoptadas e adoptantes.
De realçar é também o apêndice e a forma como o apresenta, explicando que se trata de uma síntese da problemática da adopção enaltecendo a sua importância: «Para os que dispõem de pouco tempo, poderá ser um instrumento de trabalho útil» (Diniz, S., 2019, p. 19), evidenciando-se aqui mais uma vez a sensibilidade e a sapiência que tão bem caracterizam a pessoa de Seabra Diniz.
O prefácio do juiz Armando Gomes Leandro, figura proeminente nacional no que concerne aos direitos e à protecção das crianças e jovens em risco, consiste também numa homenagem ao autor e ao livro. Nele, explicita as conceituações jurídicas da adopção, de como esta se constitui como um direito da criança e de como a formação a este nível se torna crucial: «Este livro da autoria do Dr. João Seabra Diniz, vem responder a essa exigência de informação e de formação de qualidade.» (Diniz, S., 2019, p. 11) Mais à frente, prossegue: «Acredito que a leitura e a reflexão crítica deste livro irão estimular procedimentos que permitam uma mais clara, segura e atempada definição das situações e das respostas, e a consideração equilibrada e justa dos interesses e direitos das personagens que integram o triângulo adoptivo: a criança, a família adoptiva e a família natural. Será, assim, mais um passo para o enraizar de uma cultura que facilite a realização quotidiana da concepção da criança como sujeito autónomo de direitos.» (Diniz, S., 2019, p. 15).
O livro é composto por nove capítulos que se interligam entre si, atravessados por um fio condutor que assenta na importância das relações emocionais precoces para o bom desenvolvimento da personalidade, da consciência que cada um tem de si e do outro, interno ou externo. Ao longo destes capítulos, o autor vai expondo de forma clara e simples a importância do determinismo psíquico na construção da ideia do que é isto de ser filho, de ser mãe e de ser pai, constructos mentais que se começam a pronunciar desde muito cedo. E consegue esta proeza de forma subtil, porque só alguém tão verdadeiramente capaz de entrar em contacto com o mundo interno da criança pode entender como o sonho, o desejo e a fantasia estão presentes desde os primeiros tempos da construção desta representação interior, do que é isto do desejo de ser um filho e de ser um pai, ou seja, do direito à pertença a uma família que toda a criança deve ter.
Seabra Diniz, a partir da sua longa experiência de vida e de psicanalista e tendo sempre em vista o interesse da criança, compreende sem hesitações a importância da família e de, para crescer e se desenvolver num ambiente salutar, a criança estar inserida num ambiente familiar estável, regular e com continuidade: «o desejo do filho surge no quadro da normal evolução do processo edipiano, partindo da convicção de que o prazer passa pela identificação com o pai do mesmo sexo e pela possibilidade de fazer como ele fez, isto é, escolher e investir um objecto de amor da mesma geração» (Diniz, S., 2019, p. 84). Só assim conseguirá um bom nível de identificação aos pais de forma que se promova a edificação de bons objectos internos e de boas relações intra e interpessoais, decisivas para as posteriores relações com o mundo que o rodeia. Nunca é demais dizer como as boas representações internas constituem o suporte basilar de todo o bom desenvolvimento da personalidade, como tantas vezes ouvi Seabra Diniz dizer: «enquanto o bebé mama no colo da mãe, o importante é o olhar. O leite, esse, escorre por acaso».
É nesta toada emocional que desenvolve as suas ideias, que reflete a perspectiva da constelação triangular entre adoptados, adoptantes e técnicos, dirigindo-se sobretudo a estes últimos para que se consciencializem destes determinantes inconscientes na adopção de uma criança. «A adopção não é um daqueles temas de que se fala desapaixonadamente […] Tem a ver com a infância, com o sentimento de pertença a uma família […] Acorda assim as mais precoces e intensas experiências emocionais […] Parece-me indispensável que o técnico que trabalha neste campo seja capaz de clarificar os princípios a que se refere, que fundamentam a sua prática e as decisões que é levado a tomar.» (Diniz, S., 2019, p. 20). E trata deste tema sem rodeios ou torneios, sem idealizações ou preciosismos, oferecendo-nos uma ideia muito real da adopção, num jeito muito próprio e comovente, onde a empatia, o amor, a disponibilidade, a escuta e, por fim, não menos importante, o «bom-senso» predominam, constituindo-se como ferramentas fundamentais. Considera ainda que não há uma patologia da adopção: «Resumindo numa frase a minha forma de pensar a este respeito, direi que sou levado a acreditar que os filhos adoptados não terão especiais problemas se os pais adoptivos tiverem ultrapassado razoavelmente os seus» (Diniz, S., 2019, p. 97), e acredita profundamente na irreversibilidade afectiva e social de se ter um filho, quer natural quer adoptivo, pois «Quem poderá avaliar bem o prejuízo de um sonho que se desfez?» (Diniz, S., 2019, p. 142).
São palavras que nos tocam e permanecem num eco inquietante, que nos levam a pensar no destino destas crianças, destes pais e destas famílias, de como a sociedade e as políticas governamentais se encontram ainda tão distantes do que realmente importa para que se minimizem os danos emocionais das crianças e jovens em risco, e de todos os elementos a eles associados.
Por tudo isto que nos escreve e por muito mais que nos conta e que está ainda por escrever, é com gratidão que me pronuncio sobre o quão fundamental é Este meu filho que eu não tive: a adopção e os seus problemas, e de como se inaugura como uma obra ímpar, imprescindível para tentarmos entender as raízes emocionais e tão precoces do muito inquietante e apaixonante tema: a adopção!