Em A Casa e o Mundo, encontram-se Manuel Aires Mateus (arquitecto), Vasco Santos (psicanalista) e os Musa Paradisíaca (artistas) para meditarem, a partir das suas práticas, sobre os substantivos que constam no título do livro. O ponto de partida, tal como a introdução deixa claro, não é uma determinação positiva do que quer que possamos pensar serem os referentes para «casa» e «mundo». O resultado não é também uma elaboração do significado geral com que compreendemos ser «uma casa», ser «o mundo». Se assim fosse, poder-se-ia antecipar uma eventual melhoria da compreensão do que já entendemos ser aqueles dois objectos. Ficaríamos, assim, a conhecer melhor e mais pormenorizadamente o que estes especialistas da arquitectura e da psicanálise concebem literal ou figuradamente como o ser casa. Não importa aqui se a reflexão da arquitectura é a literal ou a figurada, nem se apenas podemos atribuir à psicanálise competências exclusivas no sentido figurado. O elemento comum às duas disciplinas é existirem por serem capazes de produzir uma projecção concreta, seja ela à letra ou figurada, real ou virtual. A compreensão simbólica, a expressão artística, o desenho, o material, o olhar e o habitar, o poder e não poder, o ser e não ser capaz de morar numa casa, seja ela a casa do sentido, seja ela a nossa morada física, esboçam ligações indissociáveis entre todos estes terminais. Além disso, a própria representação da casa, a ideia que fazemos do ser casa, entronca na própria ideia que temos do mundo, na representação do mundo em que vivemos.
O ponto de partida das reflexões que resultam da conversa mantida entre os interlocutores é negativo, se assim se pode dizer. Não se trata de uma negação adjectiva. O processo reflexivo que medita a partir da especificidade do agente arquitecto e do agente psicanalista tem como laboratório a própria casa, a nossa relação com a casa ou as casas, em que queremos viver, em que vivemos, que projectamos física ou virtualmente.
Ser casa e ser mundo encontram-se assim num horizonte que tem como limites as condições mínimas da — e suficientes para a — sua habitabilidade. Há também um limite que, uma vez ultrapassado, impossibilita a habitabilidade da casa, o nosso-ser-em-mundos. Os níveis de habitabilidade e da sua impossibilidade não se reduzem obviamente à deterioração dos materiais, à vizinhança, à utilização ou não do edifício. Uma casa pode tornar-se impossível porque não conseguimos ter quotidiano nela, por motivo da presença nela de alguém e também por motivo de ausência de alguém nela. Fazer a experiência de não ter casa e de não ter mundo pode ser interpretada de diversas maneiras, mas essa vivência é tanto mais premente quanto se dá na própria perda de casa e de mundo. Não ter casa para habitar e não ter mundo para existir têm múltiplos significados, tal como «habitar», «viver» e «existir» são verbos de sentido polissémico.
Este pequeno livro acentua o relevo simbólico dos substantivos, mesmo quando, ou sobretudo quando, a elaboração do sentido é feita a partir das práticas diferentes configuradas pelo ser arquitecto, ser psicanalista, ser artista. O mote da reflexão é precisamente o horizonte de sentido em que se faz a experiência expressa pela palavra alemã «Unheimlich», que quer dizer em sentido literal:
As citações das páginas referem-se ao livro em questão. O que se segue não é uma recensão, mas a reacção a uma leitura possível. É dessa leitura que aqui ficam algumas notas.
NOVA FCSH/IFILNOVA.
«não estar em casa». A palavra denota um sentido espacial e geográfico. Mas conota outras realidades originariamente figuradas.
Nenhum alemão diz ao telemóvel, por exemplo, «não estou em casa» com as palavras «ich bin unheimlich» ou «es ist mir unheimlich». Diz «Ich bin nicht zu Hause». «Unheimlich» — que os ingleses traduzem por «uncanny» em textos de pendor psicanalítico ou filosófico — tem um campo semântico completamente diferente. Pode, sim, descrever um estado de espírito de inquietude, mas, de facto, quer dizer na sua origem «inóspito». «Inóspito» não apenas no sentido passivo de «não acolhedor», mas também activo «que expulsa», «que põe na rua», «despeja». Uma vez mais, o que possa ser pensado com estas expressões admite um sentido literal, mesmo até referindo-se a estados de espírito, e um sentido figurado, não necessariamente simbólico.
Ser inóspito, estar fora de casa, ser despejado, ser expulso apontam para uma situação de desprotecção, ausência de segurança, sem abrigo, em que a existência se pode converter. Não ter casa não é viver no mundo. Pode ser exactamente o contrário. Ter o mundo inteiro, quando não se tem casa para morar, é ter o mundo como o «nenhures» em que se existe. Pode acontecer que em lado nenhum do mundo alguém se sinta em casa. O mesmo é dizer que alguém pode não estar em lado nenhum em casa. Porque sentir e estar ou ser é a mesma coisa.
O «desarraigamento» descreve o processo de ser e estar desarraigado em diversas dimensões: fora de casa, ser exilado, estar desterrado, fora do território onde se faz a experiência da protecção e da segurança que é estar em casa. Estar em casa opõe-se a estar fora de casa. Fora de casa não pode ser compreendido objectivamente a partir das coordenadas geográficas ou geométricas da experiência comum: «dentro/fora», «próximo/distante»; mas a sua inteligibilidade e compreensibilidade radica no fundamento disposicional: acolhedor/inóspito, nacional//estrangeiro, familiar/estranho.
As hipóteses interpretativas pressupõem uma compreensão tácita do ser casa, e para tal consideramos que a casa está acabada, pronta a habitar, já com os acabamentos feitos e mobilada. Mas e se «a casa nunca está acabada», se «a casa em si não se termina»? Ou pode «a casa acabada quando é habitada» pôr problemas ao modo de a habitarmos (p. 13)? E o mundo está já feito e pronto para «sermos nele» ou vai-se construindo ou alterando convulsiva e descontinuamente? Estará o mundo sempre em construção ou podemos ter do mundo uma representação teórica cabal? Ou será a representação ou ideia que temos do mundo o que confere uma suspensão da sua dinâmica como o congelamento fotográfico?
O mundo é o estrangeiro na sua totalidade. Perceber a sua vastidão não implica a dispersão ou a pulverização por todos os cantos do mundo, mas a detecção da fronteira, aquém da qual demarcamos o íntimo. As fronteiras podem ser longínquas como a abóbada em que se converte o céu, em abóbada celeste. É a partir de todos os raios, do exterior limite para o seu interior, até ao nosso ponto de vista que se constitui o horizonte da habitabilidade. O que é para lá pode ser sondável, mas é definido na indeterminação determinável da transcendência.
«Em psicanálise precisamos de uma fronteira para o íntimo. Sem isso não seria possível termos uma relação com o exterior» (p. 17) Assim se perfila a casa esboçada pelo psicanalista. «Nos sonhos, a casa é o elemento mais constante.» (p. 18) A casa é «uma entidade feminina», «a habitação primeira», «o lugar da primeira gestação do ser humano». A arquitectónica do sentido, a pedra angular do horizonte do humano, portador na sua existência do lugar universal de todo o ser, é a infância. «Somos os únicos animais que têm uma infância.» A neotenia é a condição suficiente para a possibilidade de constituição de uma psicanálise, porquanto «a criança é o pai do adulto». A mulher é o próprio interior da existência humana, não metafórica, mas «real». O interior necessariamente inexpugnável, mas precariamente vulnerável, estende-se com Freud à «cidade», à «fortaleza».
Ainda que os lugares interiores não estejam, pela sua geometria peculiar, protegidos e escondidos, podem naturalmente arruinar-se e colapsar sobre si próprios, implodir para dentro de si próprios. A história pré-natal até ao nascimento, o desenvolvimento no tempo, não é um progresso positivo nem uma evolução. Não, nem do ponto de vista da psique, nem do ponto de vista do corpo. O próprio nascimento foi desde sempre interpretado como o princípio da tragédia. «Mal saias do ventre da tua mãe começas a morrer» (Santo Agostinho), como se o tempo pré-natal na «barriga da mãe» fosse o único que admitisse progresso, evolução, crescimento, ainda que tal não seja também verdade por necessidade.
A casa é assim como o «ventre feminino», a «barriga da minha mãe», o horizonte em que temos cabimento ou não temos cabimento, como dizemos em português que «algo faz sentido» e «tem cabimento» ou «algo é descabido» e «não faz sentido nenhum».
O humano não está geometricamente «dentro da casa», «no interior» das quatro paredes, como uma peça de mobiliário. Morar numa casa e habitá-la é viver nela, nela ter a existência. E a existência não dá folga espacial ao lugar em que se encontra. Da mesma forma que nos confundimos com o céu azul, estrelado, nublado ou limpo. Não estamos circunscritos ao espaço que a nossa anatomia
revestida pela epiderme nos reserva. Assim, também habitar uma casa é ir e «estar ido» aos sítios mais recônditos da sua geometria na sua totalidade (divisões onde não estamos, sítios onde guardamos roupa e coisas, gavetas, armários, cofres) e aos tempos aparentemente esquecidos, mas que constituem as memórias presentes de um futuro a haver ou não, com ou sem sentido numa casa.
As alegrias e as tristezas, dias de nascimento e comemoração de aniversários, dias de triunfo, dias de reencontro com familiares e amigos, mas também dias de doença, despedida para sempre afectiva ou física, dias de funeral. Todos os dias com tudo o que se passou a cada instante quando todos estávamos vivos e quando já posso só eu restar fazem-se sentir anonimamente de algum modo na casa que habitamos. Todas as casas, por mais que sejam aquelas em que vivemos, no país e no estrangeiro, com pessoas ou sozinhos, têm sempre o horizonte inaugurado pela relação enquanto relação entre nós e a casa.
A relação do humano com a casa projecta o sentido em todas as suas dimensões sobre a realidade objectiva das paredes e o seu interior e a realidade subjectiva que é cada um de nós como se encontra, está e é.
Somos portadores da primeira casa, «o seio como entidade simbólica», não, como «mama». O seio é a sede do sentido. Somos acolhidos no seio, não, na «mama» do sentido.
O quotidiano é «por defeito» o resultado da negação da situação em que cada um de nós se encontra pessoal e colectivamente, na sua geração e em todas as gerações passadas e vindouras. De facto, se não houvesse o véu da vida de todos os dias que nos permite «estar em negação» relativamente à estranheza e inospitalidade do «meio», faríamos a experiência da presença intolerável do desconhecido, que, ainda que determinável, nos surge como angustiante, nos expulsa para fora de nós, obriga a uma expropriação contínua do «si». «O estranho é o retorno do recalcado.»
A nossa condição será compreendida quando nos encontrarmos no exterior com saudades do interior, alienados, mas com ânsia da pátria, expropriados, e, ainda assim, cheios de vontade de ser os próprios. O modo como vivemos no mundo e habitamos a casa, o mais das vezes e primariamente, é como se o chão do lar estivesse já assegurado, o mundo fosse um local acolhedor. Mas nem o mundo é a Terra, nem a casa são quatro paredes, nem tão pouco, talvez até, a sua dimensão seja estática e espacial, quando ela é fundamental e cronicamente temporal.
A casa e o mundo são «criaturas» ou «seres» mutantes que acontecem no tempo. Tal como a Terra, que não esgota o que é o mundo, quando está exposta às estações do ano, e na passagem de uma para a outra se reveste de roupagens completamente diferentes, assim também a casa é diferente na infância, juventude, idade adulta e velhice, tardes de Agosto e vésperas de Natal, dias felizes e tristes, quando é bom estar em casa e quando se precisa de sair dela para apanhar ar.
Projectar uma casa implica uma antecipação intrínseca do horizonte da sua habitabilidade. A projecção como antecipação da habitabilidade acontece de diversas maneiras. Quando vemos casa para arrendar ou comprar, quando nos mostram a casa que vamos habitar nos próximos meses no estrangeiro, quando começamos a morar numa casa, projectamos diversas possibilidades na nossa imaginação, procuramos definir os polígonos ortogonais ou prismas paralelepipédicos em divisões específicas pelas quais se distribuem as nossas necessidades e as funções que exercem para nós: sala de jantar, sala de estar, quartos de dormir, de hóspedes, gabinetes de trabalho, etc. Estas são aproximações à situação em que o arquitecto se encontra quando lhe é pedido que «faça» uma casa. «Projectar» é «escrever», como «redigir» um recado, como se «imaginar» (p. 27) uma casa fosse dar um recado a quem o sabe ler para edificar o que está traçado numa planta, bidimensionalmente no papel ou a quatro dimensões.
O traço, por mais sofisticada que seja a sua concepção, é uma indicação do que está por vir, é já uma antecipação da realidade física dos materiais com a sua resistência, bem como da ligação de cada divisão às restantes, e, se for caso disso, do apartamento com os outros do mesmo andar e cada andar com os restantes e o prédio com o bairro e o bairro com a cidade.
O interior da casa não é a geografia pura do que está dentro por oposição ao que está fora. O que delimita o interior do exterior pode ser apenas a percepção da possibilidade do fora. Um quarto sem janelas deixa adivinhar corredores e outras divisões, a rua e as ruas contíguas.
São naturalmente janelas e portas que fazem a fronteira complexa entre dentro e fora, que permitem espreitar para dentro e olhar janela fora, entrar e sair, fechar e abrir, prender e soltar. Há portas e portões que nos estão interditos ou podem estar abertos. Abrimos ou não a porta da nossa casa. Mas portas e janelas têm dimensões multifacetadas, como os portais virtuais do tempo passado e do tempo fantástico do sonho e da imaginação.
Apenas há acesso ao «interior» da casa «a partir da percepção da intimidade do interior» (p. 28). A casa não está apensa inserida na natureza que a acolhe: piso, andar, monte, colina, ravina. Só existe humanamente quando ela começa a inserir-se, a enraizar-se na intimidade do humano. Demora muito tempo a estar-se em casa, tanto quanto demora a sentirmo-nos em casa.
A essência da casa é a intimidade do humano. A intimidade do humano não existe em nenhuma geometria esboçada até à data. O acesso à intimidade da casa é o acesso que o humano pode ter à sua intimidade. A intimidade da casa é de alguma maneira a intimidade do humano e não é perscrutável por quem nela não viva ou para quem se tenha já tornado noutro e diferente de quem era.
Só o sonho pode como hipótese psicanalítica sintonizar e canalizar essa dimensão perdida para a memória de uma casa e das nossas vivências dela, distribuídas ao longo do tempo. «O sonho seria uma espécie de elevador que iria buscar, de forma alucinada, essa geografia perdida.» (pp. 38–39) O que o sonho faz viver oniricamente como irreal não deixa de surtir efeito, de accionar afectivamente o horizonte de sentido que se projecta sobre todo e qualquer conteúdo real, transformando-o, metamorfoseando-o.
O trabalho do analista é, «no fundo, um trabalho de tradução». Se por defeito o quotidiano se encontra em «negação» relativamente ao estranho, inóspito, angustiante, ou melhor, se o quotidiano produz «recalcamento», é necessário encontrar vestígios, muitas vezes avulsos e mascarados, que nos ponham na pista da dimensão profunda da existência, ou, como os platónicos lhe chamam, do outro mundo, ideal, mas mais verdadeiro do que mundo da realidade física. As portas de abertura encontram-se esporadicamente e requerem não apenas atenção, mas um trabalho de elaboração hermenêutica.
Se o quotidiano provém de e acaba numa psicopatologia, o quotidiano é a superfície de uma profundidade. A neutralização do pathos permite um vislumbre para o horizonte habitualmente interdito ou proibido. É o que podemos indiciar através do «equívoco» do «lapso ou acto falhado», compreendido como fenómeno de descontinuidade. O quotidiano é por defeito um horizonte de negação relativamente a esse outro mundo. O quotidiano constitui um contínuo psicopatológico. Para rompermos para fora desse campo de forças, é necessária a formação de verdadeiras fissuras ou fendas, portais de entrada no que a psicanálise chama «inconsciente», que o é tão pouco que nos acontece por sua visitação, talvez. (p. 43)
Habitar a casa e ser no mundo não são comportamentos teóricos nem cognitivos. Não, pelo menos nas suas dimensões decisivas. A casa não é para o humano o ninho ou a toca no reino animal. O humano encontra a caverna não porque ela exista na natureza, mas porque ele vai à sua procura baseado na necessidade de protecção e segurança, contra as forças da natureza e os seus inimigos. Ser no mundo e habitar a casa depende da experiência que fazemos do nosso corpo como sendo o instrumento para a nossa encarnação nas mais diversas situações.
Se o corpo fosse o terminal impermeável de cada um de nós, não teríamos acesso ao mundo nas suas mais diversas dimensões: frio, quente, húmido, seco, próximo, longínquo, debaixo e em cima, coberto, desprotegido. Não conseguiríamos manipular máquinas, jogar jogos nos seus campos, lutar, dançar, estar remetido para o corpo do outro e compreender o outro a encontrar-se remetido para o nosso.
Não é o corpo que habita a casa, mas cada um de nós dimensiona a casa à sua medida. A medida do acesso é o corpo em que nos encontramos connosco. «O poder do corpo» não é reduzido ao que é «completamente físico» (p. 47). «O corpo é imanente», «mas as várias dimensões do corpo são muitas coisas juntas». O corpo é «a medida que mede a arquitectura» (p. 47). Pessoas altas em casas baixas, pessoas grandes em casas pequenas, pessoas que gostam de habitar espaços vastos e despovoados em casas pequenas e cheias de tudo, não fazem a vivência do espaço da casa do mesmo modo que outras pessoas que se possam dar bem em casas baixas e pequenas.
Cada divisão pode oferecer múltiplas situações que se constituem consoante as actividades que nelas se praticam, funções que exercem. Podemos trabalhar, tomar refeições, estar com pessoas e sozinhos, numa mesma divisão da casa. A divisão é a mesma, mas as actividades que nela têm lugar criam dimensões impermeáveis entre si: servem de gabinete, sala de jantar, ginásio, sala de espectáculos, etc.
A verdadeira elasticidade da casa é a que tem como limites a possibilidade e a impossibilidade de a habitarmos e de nela morarmos. O acesso à casa não é o acesso ao objecto casa, à substância casa, à casa real ou de sonho.
Estamos de cada vez desde sempre já no mundo e, contudo, o mundo pode não ser para nós. Podemos nunca sair de casa, por não termos interesse em ir ao mundo e a nossa vida pode ser rica ou pobre. Há pessoas que já não saem e outras que nunca estão em casa.
As portas para a intimidade de uma casa não são portas físicas, portões, cancelas. Quando vamos à casa de alguém pela primeira vez, podemos ter a noção de que estamos a ver o que estamos a ver, mas não nos apercebemos como a nossa perspectiva está esgotada no momento da apresentação. É o que podemos perceber também quando alguém vai a nossa casa pela primeira vez. Essa pessoa pode estar a ver com mais pormenor e atenção a nossa casa no momento em que nela entra, mas não tem acesso à sedimentação sentimental que reveste paredes e o espaço entre paredes.
Apenas cada um de nós tem acesso efectivo ao horizonte afectivo que inunda imperceptível e anonimamente o espaço entre paredes. A dimensão temporal é o horizonte sob cuja dependência existe
a afectividade. O espaço afectivo distribuído no tempo existencial tem tantos protagonistas quantas as pessoas que habitam o espaço geográfico da casa. O interior da casa é o espaço complexo definido pelo ser com outros nessa casa, o sermos uns na presença dos outros ou o sermos uns sem a presença dos outros, tal como a casa é para eles sem nós diferente da casa connosco lá.
O tempo da casa é o tempo das pessoas que habitam a casa, o tempo em que a casa é habitada e o tempo em que a casa está vazia temporária (nas férias, nas horas de expediente) ou permanentemente (divórcio, morte, partida das crianças para estudarem). As diversas fases das diversas épocas da vida para todas as pessoas que viveram numa casa desdobram-se sucessivamente umas atrás das outras desde o primeiro momento em direcção ao futuro ou desde o último momento possível que está já a fazer-se sentir quando lá nos encontramos pela primeira vez.
As fases simultâneas ou desfasadas do tempo da vida formam-se num transcurso temporal, convergem umas na direcção das outras ou divergem umas para fora das outras, sempre na estrutura originária da sequência, ou melhor, da passagem irreversível do tempo. Só que só vemos o interior das quatro paredes. Não vemos o tempo no seu decurso tal como não vemos nele pendurados os dias com as suas vivências, como fotografias presas com molas a uma corda estendida num quarto escuro de revelação.
E, contudo, temos de adivinhar a existência desta dimensão irreal. Ela tem de se fazer sentir de algum modo. Cada divisão de uma casa e cada casa tem de ser transfigurada. Cada divisão tem a sua cave ou deve metamorfosear-se na cave que alberga o segredo, o subterfúgio, o inquilino inóspito, o esquecido.
A dimensão obscura da passagem irreversível do tempo junta o tempo de vida de todas as pessoas que foram e viveram numa casa, sintetiza em si todas as heranças afectivas, patrimónios emocionais, todas as biografias de vidas passadas presentes e futuras. Para aceder a essa dimensão irreal, invisível, mas que pode fazer-se sentir de alguma maneira, requer sermos catapultados para a geografia peculiar do sótão. Subir ao sótão é aceder «à parte consciente ou pensante». Na verdade, é reconduzir a cave inconsciente ao sótão consciente.