A publicação deste livro abre um importante espaço, tão raro entre nós, de investigação e reflexão sobre o mundo interno da criança e do adolescente, através duma narrativa que se expressa a partir do desenho. O autor, Orlando Fialho, depois dum longo trabalho de pesquisa através dum estudo longitudinal, examina a evolução do desenho infantil em crianças do período da latência. Desta forma, a pesquisa do conteúdo manifesto e latente dos desenhos da família, nesta amostragem, confirma «que existem vários processos de funcionamento intrapsíquico, extremamente dinâmicos e em constante mutação».
A leitura deste livro fez-nos pensar que o desenho condensa, tal como no sonho, diferentes processos que se interligam em distintas qualidades de relação de objectos internos, mas que se configuram em constantes movimentos e mudanças. Esta transformação constante pode ser influenciada por factores biológicos, afectivos, assim como por estímulos externos que «modificam de forma aleatória todo o processo de funcionamento intrapsíquico» e que o autor designa como «caos psíquico». Pareceu-nos que o autor nos quer mostrar, sobretudo no trabalho clínico, que fazer um desenho pode mobilizar fantasmas internos contraditórios que trazem, por vezes, turbulências pulsionais que podem evadir e desorganizar o espaço psíquico interno, assim como externo. Mas, como o autor sublinha, este funcionamento caótico também pode ser transformador, sobretudo quando estamos perante um desenvolvimento psíquico normal, ao contrário das situações patológicas onde as mudanças são mais difíceis.
Este livro, sobre uma investigação do «Desenho infantil, como espelho do mundo interno», lê-se com gosto e leva-nos a pensar que existe, de algum modo, uma ligação estreita entre a construção do desenho da criança e a forma como se produzem os nossos sonhos. Na verdade, também é através do processo primário que se assiste à transformação dos espaços internos em imagens mesmo antes de terem acesso à consciência. A transformação do pensamento em imagens é uma das características
Psicóloga clínica e da saúde. Psicoterapeuta e psicanalista. Membro titular, com funções didácticas, da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). Directora da Revista Portuguesa de Psicanálise. E-mail:
do inconsciente. Assim, os desenhos, modo de produção do inconsciente, podem também ser configurados, de acordo com as diferentes formas de pensamento que se exprimem por imagens e que mostram ser da mesma natureza e qualidade do sonho. Tal como no sonho, o desenho condensa muitos espaços e tempos de épocas diferentes, mas que coexistem entre eles numa aparente harmonia. Um desenho, tal como no sonho, funciona como um espaço que condensa e figurabiliza diferentes qualidades de afectos. Igualmente, podem surgir também uma miríade de distintas cores que representam os diversos estados psíquicos da mente da criança. Nas crianças muito pequenas, as manchas coloridas colocadas sobre o papel condensam histórias e afectos que ainda não podem ser contados e representados, mas somente sentidos e vividos. Nestas circunstâncias, como sublinha o autor, «é através do afecto que o ser humano reage aos estímulos, quer internos como externos, e, desta forma, organiza o caos psíquico, permitindo uma harmonia ao longo de desenvolvimento».
Orlando Fialho, neste trabalho, não se limita a investigar o desenho, mas, mais do que isso, debruça-se nas diferentes qualidades de «expressão do mundo interno da criança». O autor, a partir dum estudo longitudinal, constatou que o desenho da família condensa — tal como no sonho — vários tipos de relações objectais que percorrem o desenvolvimento, mas que o aqui e agora capta a qualidade da internalização da organização familiar. Nesse sentido, como sublinha, citando Corman , é através do desenho que o investigador contacta e capta a representação do sujeito sobre si próprio, assim como as qualidades das suas relações com os diversos elementos da família. Este trabalho de investigação mostrou, como assinala o autor, que pode haver permanentes alterações ao nível da projecção da posição do próprio em relação aos outros elementos da família. Este trabalho indica, também, que pode haver uma flutuação ao nível da representação dos desenhos, mas que a qualidade dos afectos se mantém.
Este livro de Orlando Fialho, cuja leitura é agradável, condensa, por um lado, o seu próprio pensamento como psicanalista de crianças e de adolescentes, em diálogo interno com diversos autores da língua inglesa e francesa, mas, ao mesmo tempo, enriquece-o através dum longo trabalho de investigação sobre o desenho da família. Como o próprio autor sublinha, este trabalho de investigação surpreendeu-o «perante um mundo interno vivo e criativo, com todas as crianças da latência assim como com os adolescentes observados».
Este livro, que nos faz pensar, cria um espaço de debate e de reflexão sobre a enorme diversidade e riqueza do mundo interno da criança e do adolescente, captado através da sua projecção no desenho. Mostra, também, que cada fragmento do material e cada instante condensam toda a realidade psíquica da criança, assim como assinalam a representação que ela faz do seu mundo interno e externo. É um livro que nos informa, nos interroga e nos permite aproximar do mundo interno da criança.