Este primeiro número de 2020 da Revista Portuguesa de Psicanálise (RPP) marca um momento, simultaneamente dramático e crucial, na prestigiada tradição de quase meio século de publicação da revista da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e dos psicanalistas portugueses. E isto não tanto por ser o primeiro número do quadriénio em que serei editor da revista, em trabalho de equipa estreito com os meus pares do Conselho Editorial, que podem identificar no «genérico» deste número, mas também, e sobretudo, por circunstâncias históricas internas e externas de enorme impacto psicanalítico e existencial. Começarei pelas últimas, que continuam a atingir o nosso «viver em comum» no momento mesmo em que escrevo este editorial: a gravíssima crise socio-sanitária global que afecta a Humanidade a uma escala planetária nunca vista, pelo menos no nosso tempo de vida, já que a última, que passou à história como gripe «espanhola» (H1N1), e que provocou uma morbimortalidade trágica que prolongou, em 1918, a «razia» sangrenta da Primeira Guerra Mundial (1914–1918), decorreu há precisamente um século. As circunstâncias internas são, definitivamente, de outra natureza, já que opõem à «destrutividade» thanatica vírica primitiva a construtividade revolucionária, marcada por Eros, não só da publicação da revista na data prevista, mas também, e sobretudo, da mudança editorial que marcará a RPP a partir do próximo número, essencialmente em plataforma online (OJS) de livre acesso, que «abrirá» um futuro expansivo que cumpre o mote deste quadriénio, Traditio quod Motus.
Assume, assim, um significado particular que este número «abra» com uma entrevista a Maria Fernanda Gonçalves Alexandre, destacada psicanalista didacta, cuja história profissional se «entretece» com a história da SPP, e que nos fala não só do seu riquíssimo percurso psicanalítico mas também da sua experiência recente como directora da nossa revista.
Maria Fernanda Gonçalves Alexandre oferece-nos, ainda, um artigo teórico-clínico claro e reflexivo sobre o papel das vicissitudes da comunicação emocional pré-verbal, e «invisível» aos sentidos e ao entendimento imediato de psicanalista e paciente, na qualidade da escuta analítica, realçando, muito em particular, o valor da análise contratransferencial do material intersubjectivo que circula, em identificação projectiva, entre os parceiros do encontro analítico, não raro em modo de rêverie, para a interpretação psicanalítica des-subjectivante e geradora de insight de conteúdos emocionais não pensáveis da mente do paciente.
Numa linha de pensamento complementar, Alberto Eiguer, brilhante psicanalista e universitário de duplo inscriptio argentino, terra natal pessoal e psicanalítica, e francês, de ascendente cultural parisiense, dá-nos conta do debate epistemológico «bilingue» sobre aquilo que designa como o «mais além da contratransferência», mais precisamente do que Lowenstein designou de binómio contratransferência-transferência (CT-T), num campo dinâmico em que entrecruza as influências de Pichon-Rivière, Etchegoyen ou Racker e as referências a Lacan, Duparc ou Green, entre outros. Deste encontro dialógico, resulta um artigo que dá conta de um espírito curioso e inovador, que perlabora sobre o modo como as características pessoais e a robustez reflexiva do psicanalista influenciam o manejo ético e técnico dos aspetos perversos, sensuais e impotentes-prepotentes do agir, in-setting e off-setting, dos pacientes com funcionamento mental limítrofe, de índole regressiva e dissociativa. O comentário de Ana Marques Lito, discípula, seguidora e co-investigadora de Eiguer, em particular no âmbito da psicanálise do casal e da família, em que este psicanalista é figura de referência internacional, valoriza a riqueza da exposição diacrítica sobre as modalidades de interpretação contratransferencial dos conteúdos perversos e sexuais agidos transferencialmente «ad latera», mas reconduzidos ao «núcleo» da intersubjectividade do par analítico.
Orlando von Doellinger, com a assertividade discursiva a que nos habituou, aborda um tema que lhe é caro, como objecto de interesse e investigação psicanalítica: a «plasticidade» da inscrição corpórea de «sinais» somatopsíquicos, cirúrgicos ou gravados/«esculpidos» na pele, a partir das fantasias inconscientes básicas propostas por A. Lemma («autoconstrução», «par ideal» e «reivindicação do corpo»). Fá-lo, neste artigo, com enfoque na elaboração transferencial-contratransferencial das dúvidas e incertezas da identidade sexual, que identifica nas vinhetas clínicas que são objecto de reflexão.
Também com o corpo como «pano de fundo», Rita Marta escreve um texto teórico-clínico reflexivo, interessante e fluente, sobre o lugar do corpo real-imaginado na relação analítica: o corpo como entidade psíquica, corporeidade do setting analítico, a fisicalidade da palavra na relação em duplo eixo, horizontal Self-Outro e vertical mente-corpo, do par analítico, o setting corpóreo em psicanálise à distância e, sobretudo, o manejo da T-CT corporificada em situações de transformação física, em particular, a gravidez da psicanalista.
Pelo seu lado, Elias Barreto e Ana Eduarda Ribeiro, esta última candidata a psicanalista pela SPP, publicam dois trabalhos particularmente interessantes, apresentados no âmbito de um Congresso Europeu IPSO, nos quais exploram, cada um à sua maneira, a relevância da psicanálise como área de conhecimento, disciplina científica e método psicoterapêutico originário, mas sempre actual, pela ligação aos movimentos culturais mais importantes das sociedades humanas, particularmente ocidentais. Assim, Ana Ribeiro propõe um diálogo crítico, curioso e bem informado, entre o método de associação livre, o conectivismo psicanalítico, a importância do onirismo e da interpretação dos sonhos e o movimento surrealista que marcou a cultura francesa e europeia até à década de setenta do século transacto. Já Elias Barreto, debate, com brio, as relações contraditórias, não raro inconciliáveis, entre a psicanálise e as ciências paradigmáticas, em particular aquelas que estão «alinhadas» no mito da cientificidade empírica popperiana, no campo da filosofia das ciências, defendendo a relevância epistemológica da identidade psicanalítica.
Finalmente, Ana Catarina Duarte Silva propõe-nos a recensão do filme Nunca Deixes de Olhar, do realizador alemão Florian Henckel von Donnersmarck, através da narrativa crítica do seu «olhar» analítico, autêntico «trailer» psicanalítico que lemos com gosto e interesse; enquanto Isabel Quinta da Costa nos conduz pela recensão clara e bem sintetizada dos dez capítulos do livro Observação de bebês – Método e aplicações, coordenado pela psicanalista brasileira Neyla França, e em que a nossa colega Ana Belchior Melícias integra uma plêiade de psicanalistas-mulheres que divulgam e vulgarizam o Método Esther Bick de observação de bebés. Em nota de «clôture», Isabel Q. da Costa realça a importância da utilização do método nas unidades de saúde infantil e materno-infantil.
Faço votos de que a leitura deste número da revista interesse os nossos colegas psicanalistas e os clínicos, estudiosos e académicos curiosos, ou amantes, da «res psicanalítica», e, muito em particular, que sirva de «aperitivo» estimulante para a leitura do próximo número da «nova» RPP.