A época que vivemos coloca-nos, enquanto psicanalistas e Sociedade que preserva o saber psicanalítico, perante algumas questões que nunca surgiram de forma tão evidente. A existência desta pandemia vem evidenciar um mundo de fronteiras muito ténues onde grassam conflitos, comunidades em sofrimento, estratégias de lucro e de poder. Esta situação mostrou-nos, de forma ainda mais clara, os problemas ambientais e ecológicos e como o individualismo ilimitado pode destruir toda uma cadeia de sobrevivência, na nossa irredutível interdependência. A pandemia reenvia-nos, inequivocamente, para a nossa finitude e impotência e para a última castração, a morte. E todos estes elementos, que irromperam de forma dramática e acutilante, mantendo-se como um ecrã inquietantemente enigmático, remetem-nos para algo difícil de integrar, dar sentido, isto é, fazer passar de realidade concreta a realidade psíquica. E, no entanto, tudo isto é um conjunto inseparável onde a subjectividade e a construção do fenómeno psíquico são as maiores qualidades humanas.
O uso das novas tecnologias, como forma de manter a comunicação com o mundo e com os outros, é agora mais presente e levanta-nos desafios que temos de enfrentar e reformular. O Psicanalista tem de manter um setting que permita desenvolver uma relação de conhecimento, descoberta e desenvolvimento, deixando um espaço de liberdade para que o analisando possa decidir: Ser. Mas como se «adapta» o analista a um novo setting, para o qual foi abruptamente empurrado? Neste posicionamento a que a própria prática obriga, para resguardo do nosso trabalho, nem sempre é claro como a realidade e a vivência emocional podem ser entendidas. Mas não terá sido sempre ao ousar desvendar paisagens desconhecidas que os grandes conceitos clínicos surgiram na Psicanálise?
Acreditamos que a Psicanálise, tal como proporciona liberdade a quem a realiza, possa ela mesma ter a maturidade para conquistar a sua liberdade em novos terrenos, sem com isso renunciar ou adulterar a sua própria identidade.
Todas as mudanças geram turbilhões de inquietação e, por isso, muitas vezes são dificilmente verbalizadas e pensadas. Mas a incerteza não traz apenas o perigo, transporta também o desafio e a oportunidade. Oportunidade para reflectirmos em nós próprios e nos reinventarmos, mantendo-nos ligados ao melhor da nossa herança de mais de um século em termos de investigação, formação e prática clínica. Para enfrentar estes desafios, teremos de desenvolver uma visão renovada de nós próprios enquanto psicanalistas do século XXI, devendo reflectir também no nosso papel na sociedade.
Na minha perspectiva, podemos e devemos contribuir como interlocutores da mudança política e social, podendo a nossa Sociedade ser um veículo para as ideias psicanalíticas junto das comunidades, académicas e não só. Freud acalentava a esperança de que a psicanálise pudesse vir a tornar-se num instrumento forte para o bem público. Compreendendo que o número de pacientes, diretamente submetidos a análise, seria sempre relativamente pequeno, considerou que o maior contributo que a psicanálise poderia dar à sociedade seria pelo uso do pensamento e conhecimento psicanalíticos na educação, na ciência e nas políticas sociais. Nesse sentido, defendo que devemos trabalhar também para trazer a psicanálise para o primeiro plano da consciência pública. Defendo que podemos ter um importante papel no contributo para o entendimento e a procura/pesquisa de soluções para as convulsões ambientais e comunitárias, a violência e o terrorismo.
Paralelamente ao desenvolvimento de novas competências e energia criativa, devemos também preservar e alargar a teoria, o método e a ciência da psicanálise que tão dedicadamente temos vindo a amadurecer ao longo dos anos. Temos de ser capazes de demonstrar com clareza a validade e o valor da nossa área de actividade, através da sua fundamentação na investigação científica.
Temos consciência de que seremos tanto mais inventivos quanto mais formos capazes de reconhecer, por um lado, a insuficiência e a precaridade do nosso saber e, por outro, a necessidade de permanecermos abertos ao mundo e à sua extraordinária diversidade e mudança. Em suma, defendemos uma psicanálise baseada em fortes princípios científicos, aberta aos novos desafios sociais, baseada no Humanismo e na Ética, fomentada no pensamento genuíno de um saber integrado e criativo.
Por fim, mas não menos importante, quero deixar em meu nome pessoal e da Direcção da Sociedade Portuguesa de Psicanálise o nosso profundo apreço e confiança pelo trabalho já iniciado e criativamente desenvolvido pelo novo director da Revista Portuguesa de Psicanálise, Professor Doutor Carlos Farate, bem como à sua Equipa Editorial. O convite/desafio para dirigir a nossa revista foi feito com a forte convicção de que a sua inteligência, capacidade de trabalho e espírito inovador contribuiriam para a continuidade da expansão e dignificação da Psicanálise, através dos contributos na investigação, na divulgação, no intercâmbio e no cruzamento criativo com outros ramos do saber.