Maria Fernanda Gonçalves Alexandre é psicanalista, membro titular, com funções didácticas, da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). É psicóloga clínica e da saúde, assim como psicoterapeuta inscrita, como sócia, na Ordem dos Psicólogos Portugueses. Foi, ao longo dos últimos 34 anos, formadora no Instituto de Psicanálise (IP), na Sociedade de Psicologia Clínica (SPC) e na Universidade Nova de Lisboa. Foi presidente do IP e integrou diferentes equipas de várias direcções, assim como foi presidente da Mesa da Assembleia. Foi secretária científica da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e fez parte, ao longo dos anos, de distintas equipas de diferentes direcções. No contexto da formação científica desta Sociedade, coordenou e participou nas comissões organizadoras de 11 eventos científicos nacionais e internacionais — congressos, colóquios e simpósios. Foi membro, entre 1989 e 2006, da equipa editorial do Anuário Ibérico de Psicanálise. Foi presidente da Comissão de Ensino, de 2010 a 2015. Foi directora da Revista Portuguesa de Psicanálise, de 2016 a 2020. É coordenadora da formação da Psicanálise da Criança e do Adolescente. Tem realizado diversas comunicações no âmbito de conferências, colóquios e congressos organizados pela Sociedade Portuguesa de Psicanálise e por outras instituições científicas. Publicou ou apresentou um número assinalável de artigos de investigação teórica e clínica na área da psicanálise e da psicoterapia analítica. Alguns deles foram integrados em dois livros da sua autoria: Mudanças Psíquicas no Processo Terapêutico, O Papel do Narcisismo (Fenda, 2007) e A experiência psíquica – Ensaios sobre a construção do processo psicanalítico (Fenda, 2014). Também publicou um conjunto de artigos que foram divulgados em diferentes livros colectivos, assim como em revistas de psicanálise, cultura e educação.
EEG E MCS: Ser Psicanalista não é uma escolha óbvia, não é propriamente uma profissão. O trabalho como psicanalista é um work in progress, um processo. Como foi o seu?
MFGA: Primeiramente, gostaria de agradecer à Direcção e à equipa editorial da Revista Portuguesa de Psicanálise por me terem convidado a partilhar com os leitores o meu trabalho como psicanalista e com uma experiência editorial de cerca de vinte anos. Também gostaria de agradecer às colegas Edviges Guerreiro
Psicóloga clínica e da saúde, psicoterapeuta e psicanalista. Membro associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). Assistente editorial da Revista Portuguesa de Psicanálise. E-mail:
Psicóloga clínica e da saúde, psicoterapeuta e psicanalista. Membro associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). Assistente editorial da Revista Portuguesa de Psicanálise. E-mail:
e Conceição Simões por terem, com uma enorme dedicação e paciência, preparado esta entrevista.
Em relação à pergunta, que não é fácil de responder, há sempre um conjunto de factores individuais, sociais e históricos que contribuem para a construção de uma identidade profissional. O desenvolvimento de um percurso de vida, quer pessoal como profissional, implica uma representação interna que tem origem em duas ordens de questões: por um lado, um factor social, que leva um indivíduo que viva numa época e num determinado contexto histórico a ter determinadas representações sociais que nascem de um sistema de valores — hierarquizados em expectativas — que necessitam de ser confirmados ou verificados, através da escolha da sua área de trabalho; por outro, há um factor individual, que nasce das diferentes representações internas que surgem da história de cada pessoa, inserida numa família que tem um conjunto de expectativas culturais assim como modelos identificatórios que podem estar na origem da escolha de um caminho profissional. Por vezes, escolhemos atalhos que nos podem levar a situações e experiências que, inconscientemente, precisávamos de viver, e que podem ser inspiradoras na escolha dos nossos percursos de trabalho. No meu caso e de muitas outras pessoas — provavelmente por ter nascido numa época logo após a Segunda Guerra Mundial —, os nossos interesses abrangiam diferentes áreas do pensamento e da cultura. Particularmente no meu caso — embora tivesse vivido desde que nasci num ambiente onde a pintura e a escultura faziam parte do imaginário familiar —, foi na Psicologia Clínica que encontrei o espaço de que necessitava para compreender as muitas interrogações que, então, se me colocavam. Mas foi no final da década de 1960 e início da de 1970 que verdadeiramente surgiu, durante a minha formação em Psicologia e, sobretudo, na pós-graduação em Psicopatologia, a descoberta dos verdadeiros significados dos diferentes sentimentos e emoções. O contacto com professores — que também eram psicanalistas — trouxe uma enorme revolução na minha forma de pensar e elaborar as minhas vivências psíquicas, abrindo, assim, uma janela para a compreensão da vida psíquica.
EEG E MCS: Que professores e obras destacaria?
MFGA: Foi através dos meus professores que eram psicanalistas, como Daniel Widlöcher, Didier Anzieu, Michel Soulé e outros, que entrei verdadeiramente, e pela primeira vez, em contacto com o pensamento e a teoria psicanalítica. Foi justamente nesta altura que li pela primeira vez A Interpretação dos Sonhos, de Freud, e os ensaios de Melanie Klein. Foram obras que me marcaram muito, enquanto jovem, e que ainda hoje revisito com o mesmo prazer e o mesmo espanto. O ambiente do Instituto de Psicologia (Paris V), nessa altura, era fortemente marcado por um pensamento dinâmico, que muito me influenciou. Assim, de regresso a Lisboa, em 1973, iniciei uma psicanálise com um psicanalista que tinha sido um dos fundadores da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Passados alguns anos, candidatei-me ao Instituto de Psicanálise. Entrei em 1981, curiosamente no ano em que, no congresso de Helsínquia, a Sociedade de Psicanálise foi aceite como componente plena da IPA. Tal facto fez com que fosse mudado o programa de ensino, o que implicou, sem dúvida, uma maior exigência e assiduidade na formação psicanalítica. Fiz toda a formação com analistas portugueses, infelizmente alguns já não estão entre nós, e nunca esquecerei também a importância para o meu percurso dentro da psicanálise de analistas como Francisco Alvim, Pedro Luzes e João dos Santos.
EEG E MCS: E como se foi dando o seu percurso nesta arte que é a psicanálise?
MFGA: Através da apresentação e discussão da memória clínica, tornei-me membro associado da IPA em 1986. Nessa altura, fui convidada pela
Direcção do IP e pela Comissão de Ensino a fazer parte do seu corpo docente. Inicio este trabalho de formadora em outubro de 1986, e, passados 34 anos, mantenho-me, com muito prazer, na formação. Tem sido um espaço de criatividade e de crescimento onde é possível descobrir, desenvolver e encontrar pontes entre a investigação clínica e a teoria psicanalítica. Em 1996, após a apresentação e discussão de um trabalho teórico e clínico, passei a ser membro titular com funções didácticas da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). O trabalho de um analista é um processo criativo; como tal, podem surgir aspectos construtivos como também facetas mais paralisantes e incapacitantes. Estes aspectos ligados ao negativo, ao irrepresentável, e as suas respectivas consequências para a dinâmica analítica, têm sido objecto de trabalho, ao longo dos anos, como se pode ver através dos diferentes artigos que tenho vindo a publicar.
EEG E MCS: Como psicanalista, dedicou-se também à dimensão institucional, assumindo a Presidência do Instituto de Psicanálise (IP) em 2001/2002, bem como a Presidência da Comissão de Ensino da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) durante três biénios. A formação psicanalítica tem sido objecto de inúmeras reflexões e considerações. Quais foram os seus principais desafios?
MFGA: A questão colocada implica uma revisitação aos processos históricos da evolução da organização da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, assim como da Associação Internacional de Psicanálise. Na verdade, ao longo dos anos, temos vivido uma assinalável evolução no campo da teoria e da prática analítica, que, naturalmente, tem consequências nas organizações das sociedades. Em 2001, altura em que fui presidente do Instituto de Psicanálise, tínhamos muito poucos sócios ilegíveis, e aceitar esse cargo configurava-se, para mim, como um dever, mas também como um desejo de contribuir para o desenvolvimento da psicanálise e da nossa sociedade. Os institutos estavam, administrativamente, separados da sociedade, embora o programa de formação implicasse os pareceres da Comissão de Ensino e da Direcção da Sociedade. Nessa altura, ao contrário de hoje, as direcções dos institutos, paradoxalmente, não tinham acento na Comissão de Ensino, o que naturalmente desencadeava mal-entendidos e equívocos em relação às diferentes formas de organizar a formação. Com o tempo e com as mudanças estruturais, foi possível encontrar um espaço de diálogo e de troca de ideias que muito contribuíram, posteriormente, para as mudanças positivas na formação analítica. No nosso ponto de vista, um dos mais relevantes contributos deste mandato foi a participação na discussão e na organização de um movimento da IPA que tinha como objectivo criar um modelo de formação de psicanalistas de crianças e adolescentes. Foi criado, na IPA, em 2001 e 2002, um Comité — Child and Adolescent Psychoanalysis Commitee — que, numa primeira fase, faria o reconhecimento da formação dos analistas que trabalhavam com crianças e adolescentes; e, numa segunda fase — e aqui, já como presidente da Comissão de Ensino —, organizámos o curso de formação de psicanalistas de crianças e de adolescentes. Fomos — eu, como presidente da Comissão de Ensino, e toda a equipa com quem trabalhei — envolvidos pelos ventos da história e, assim, tivemos participação nos debates que se realizaram, em toda a comunidade psicanalítica, sobre a escolha do modelo de ensino. Na sequência deste debate, organizámos um fórum de trabalho e de discussão, que implicou a participação de todos os analistas e candidatos.
EEG E MCS: Poderia falar-nos um pouco do modelo de formação da SPP e do que considera mais relevante na formação do psicanalista?
MFGA: A escolha do modelo francês, que hoje está em vigor na nossa sociedade, implicou um longo debate. Primeiro, em pequenos grupos de trabalho, e depois, num fórum onde todos os grupos apresentaram as suas ideias e escolhas. Este debate enriqueceu e uniu a sociedade à volta da discussão dos modelos de formação e, de algum modo, contribuiu para traçar as condições prévias da formação teórica de um analista. Mas a formação, como todos nós sabemos, pressupõe um longo caminho que passa por seminários teóricos, por supervisões e por, no meu ponto de vista o mais importante, uma análise pessoal que funciona como um pilar crucial de elaboração psíquica e de construção de um pensamento próprio. É esta capacidade de elaborar e pensar as suas próprias experiências psíquicas que constitui a condição necessária para o crescimento psíquico. E, naturalmente, para a construção de uma identidade analítica.
EEG E MCS: Além de psicanalista e psicoterapeuta de adultos, crianças e adolescentes, desenvolveu, ao longo dos anos, um trabalho de coordenação e supervisão dos psicólogos da Unidade de Apoio Médico Psicopedagógico (UAMP), equipa de retaguarda dos Centro de Medicina Pedagógica, que tinha por função observar e seguir, sob o ponto de vista psicológico e psicoterapêutico, crianças, adolescentes e famílias das escolas da cidade de Lisboa. Também no contexto da SPP, participou na formação de psicanalistas de crianças e adolescente e contribuiu para a formalização da candidatura ao Comité para a formação de Psicanálise de Crianças e Adolescentes (COCAP-IPA) no Instituto de Psicanálise (IP). Tem sido desde então coordenadora destas formações. De que forma o desenvolvimento da psicanálise da criança e do adolescente tem tido um contributo importante no enriquecimento da teoria e da prática psicanalítica?
MFGA: A criança e o infantil, ao longo da história do pensamento psicanalítico, têm estado sempre presentes e ligados, e não há dúvida de que contribuíram para o enriquecimento e desenvolvimento da teoria analítica. Quando olhamos para a história da psicanálise, encontramos uma ponte entre a criança real e o infantil. Freud recomendava aos analistas que não desvalorizassem a observação directa da criança, porque era imprescindível confrontá-la e compará-la com a reconstrução do infantil descrita pelos pacientes adultos. Os três ensaios acerca da sexualidade (de 1905) são um exemplo desta realidade, onde constatamos a precocidade da sexualidade infantil que aparece no material clínico dos pacientes e que, também, é confirmada e validada através da observação directa. Freud fez sempre uma ponte entre a criança que nasce da observação directa e aquela que surge e emerge da narrativa dos pacientes ao longo do processo analítico. Este interesse pela comparação dos métodos de observação directa e de contacto com o infantil aparece em artigos paradigmáticos do pensamento analítico, como o «Pequeno Hans» , e também no livro . Para os analistas, uma das características do inconsciente é a relação deste com o infantil, ou seja, com aspectos que foram reprimidos, mas que são responsáveis por pensamentos involuntários, fonte de onde brotam as diferentes qualidades de angústias e medos. Como muitos analistas de crianças e adolescentes sublinham — por exemplo, Melanie Klein —, não existem diferenças significativas entre os modelos teóricos que se utilizam para a anlise da criança e a do adulto. Se existirem diferenças, o que se torna mais importante é a especificidade da relação analítica, que se torna mais reveladora e mais significante. Como já tivemos ocasião de sublinhar, existem pontos comuns entre a psicanlise da criança e a do adulto, embora as modalidades de representação sejam diferentes e cada sessão tenha a sua especificidade e
EEG E MCS: Para terminarmos, não podemos de modo algum deixar de falar do momento profundamente traumático pelo qual a humanidade está a passar, diríamos mesmo catastrófico, a pandemia Covid-19. Parece estarmos todos num tempo gerúndio, em que se está morrendo continuamente estando a vida como que suspensa no tempo. No seu livro A experiência psíquica – Ensaios sobre a construção do processo psicanalítico, fala-nos da grande diferença entre «perder» e o «receio de perder» como algo que tem que ver com «afectos de qualidades distintas». Depois de ultrapassada esta catástrofe, quais serão para si as maiores repercussões deste traumatismo colectivo, no indivíduo e na sociedade? Qual poderá ser o contributo da psicanálise?
MFGA: Como podem imaginar, é muito difícil responder a estas questões, uma vez que estamos todos envolvidos num turbilhão de emoções, algumas indizíveis, que resultam desta catástrofe provocada pelo corona vírus. Ainda não é possível pensar, elaborar e representar as suas consequências na nossa vida psíquica. Lá iremos, mas, para já, precisamos de tempo, de silêncio e de escutar o irrepresentável que povoa a nossa mente e o campo analítico. Para já, torna-se difícil, e ainda é muito cedo para tirar conclusões, mas esta situação confronta-nos com material revisitado pelos pacientes, onde aparecem aspectos traumáticos da personalidade, o discurso é evadido por dificuldades de representação mental, assim como material clínico que põe em evidência aspectos destrutivos da mente. A presença de um terceiro desconhecido — veja-se o telefone e o vírus — pode facilitar a emergência de um funcionamento esquizoparanóide. Assim, surge a desconfiança, o receio de ser invadido por um desconhecido, uma dor sem nome, o medo do aniquilamento. Todos estes afectos que têm origem nas pulsões de morte são convocados por esta situação de pandemia, mas, por outro lado, também contactamos com as pulsões de vida através da capacidade de empatia e de amor.
A comunidade de psicanalistas, quer ao nível nacional como internacional, tem estado atenta a todas as implicações psicológicas que esta epidemia tem suscitado nos pacientes, e têm surgido por todo o mundo debates sobre estas questões. Mas, no meu ponto de vista, parece-me ainda muito cedo para termos uma visão completa, sob o ponto de vista psíquico, desta epidemia, que anda à volta da perda ou receio de um cataclismo que não tem nome. A espera e a capacidade negativa parecem-me ser importantes neste momento para nos ajudar a pensar nestas questões. A precipitação e a agitação, quase sempre, não são boas conselheiras.
seja única. O mais importante não são os diferentes caminhos que as crianças, adolescentes ou adultos procuram fazer no processo analítico, mas, sim, o reencontro do infantil do analista com o infantil do analisado, facilitando a construção de um quadro interno da situação analítica. Como já tive ocasião de escrever, o analista, através do reencontro do seu infantil com o infantil dos seus pacientes, sejam crianças ou adultos, entra em sintonia com a realidade psíquica deles, e é através desse reconhecimento que se estabelece a transferência, quer positiva quer negativa, e se constitui e nasce o verdadeiro quadro interno analítico.
EEG E MCS: O tema mudanças psíquicas no processo analítico tem sido um campo de interesse do seu trabalho teórico e clínico, tendo vindo a afirmar que «o conceito de mudança esteve […] ligado desde sempre à história e ao desenvolvimento da teoria psicanalítica». Sabendo nós que não há uma convergência entre os diferentes modelos teóricos e práticos da psicanálise acerca das mudanças psíquicas, como entende este conceito?
MFGA: Como tive oportunidade de sublinhar no livro Mudanças Psíquicas no Processo Terapêutico, todos nós experimentamos diferentes e sucessivas formas de mudanças, e a sua elaboração contribui para a construção da consciência e da experiência da nossa própria identidade. Como vários autores têm sublinhado, no processo de mudança psíquica existem aspectos que podem evoluir, assim como há outros que permanecem estáveis. Portanto, as mudanças podem ser acompanhadas por diferentes angústias — persecutórias, receio de perda de identidade, angústias depressivas — desencadeadas pelo conflito ligado à perda de situações conhecidas ou ligadas a partes do self. Mas as questões que a clínica nos coloca no nosso dia-a-dia mostram que as mudanças psíquicas são particularmente difíceis com pacientes onde o «narcisismo de morte», segundo Green, está presente. Estes pacientes podem levantar obstáculos no desenvolvimento do seu processo analítico, provavelmente devido a uma espécie de mutilação na confiança básica do objecto, pois tal situação compromete a passagem da indiferenciação para a separação ou individuação. Nestes pacientes, a intensidade da clivagem cria núcleos isolados, que não conseguem comunicar entre eles, mas coexistem uns com os outros, trazendo, naturalmente, uma assinalável dificuldade técnica, que é descobrir os elos que os unem. Mas, como sublinham vários analistas, entre eles Green, o mais importante não é a separação destas ilhas com investimentos diferentes, mas o vazio que as separa. Estes pacientes colocam-nos grandes dificuldades técnicas devido a uma impossibilidade da representação simbólica, porque dão às interpretações uma espécie de «significação real ou mágica», como Kerneberg assinala. Nestas circunstâncias, como anteriormente, assinalamos: «a constelação de comunicação e de relacionamento devido à sua cegueira psíquica, ao vazio, ao agir em vez de pensar, ao retraimento narcísico sobre si próprio, pode pressionar o analista a fazer interpretações que são entendidas ou percebidas como formas de intrusão. O terapeuta tem de ter em atenção que a aparente luz que nasce do sentimento de poder compreender estes pacientes pode nem sempre ser fácil e pode esconder sombras profundas de enorme infelicidade e desespero psíquico», como tive a possibilidade de, em 2007, referir num dos meus livros. Assim, parece-me que o mais importante é olharmos para a sessão analítica como um espaço povoado de personagens que indicam as diferentes qualidades dos objectos internos, com as suas diferentes ligações fantasmáticas, e que serão vividas e elaboradas na relação transferencial e na inter-relação do paciente com o analista, ou seja, o mais significante é a qualidade da especificidade dessa relação.
EEG E MCS: Gostaríamos agora de que nos falasse um pouco da escrita que tem feito parte do seu percurso profissional, não só como autora de diversos artigos e livros mas também como membro da equipa editorial do Anuário
Ibérico de Psicanálise e, nos últimos quatros anos, como directora da Revista Portuguesa de Psicanálise.
Lembrando Marguerite Duras, que nos diz que «a solidão da escrita é uma solidão sem a qual o escrito não se produz», como é que para si nasce o texto? Qual a ligação entre a escrita analítica, a formação do psicanalista e o trabalho enquanto psicanalista propriamente dito?
MFGA: A escrita, para mim, sempre foi um espaço importante no qual podia representar e pensar na miríade de afectos que povoam o nosso mundo interno. É um desafio, e, ao mesmo tempo, uma espécie de jogo, encontrar as palavras que podem representar uma ideia, um sentimento, uma impressão, um afecto que ainda não tem nome, assim como explorar caminhos que condensam diferentes pensamentos. Deste modo, podemos dizer que escrever é ter capacidade de figurabilizar, através da escrita, diferentes ideias, afectos ou sentimentos. Mas o processo de escrita não é fácil. Cada pessoa tem o seu próprio método de trabalho e de escrita. Pessoalmente, quando me interesso por um determinado assunto ou questão, que coloquei a mim própria ao longo do trabalho clínico, começo a escrever livremente, mas vou colocando diferentes perguntas que muitas vezes não têm resposta. Numa segunda fase, procuro respostas a essas interrogações através da literatura psicanalítica; por vezes, encontro soluções, e outras vezes, não. Um artigo implica sempre muito trabalho, muitas hesitações, interrogações, muitas versões. Ao leitor, quando lê um artigo, tudo parece fácil, mas na realidade não é. Como muitos analistas têm sublinhando — de algum modo, vão ao encontro dos meus sentimentos —, ser capaz de captar a vivência analítica ao longo do processo psicanalítico não nos parece ser suficiente para escrever. É necessário transformar essa experiência numa «ficção», como Ogden nos diz, de forma que se transmitam e representem essas vivências sentidas pelo analista na sua relação com o paciente. A escrita, metaforicamente, configura-se como uma procura das palavras que podem traduzir e conter as experiências internas que abrigam afectos inconscientes que captamos na relação com os nossos pacientes. Pessoalmente, é a partir de uma ideia, de um sentimento, uma impressão ou um desejo que me ocorre espontaneamente no encontro analítico que surge a vontade de aprofundar, através de uma narrativa, esse desconhecido que interfere na relação analítica. Por vezes, a escrita não é fácil porque pode surgir uma luta com as palavras que abrigam os afectos e as experiências internas. A escrita acompanha, naturalmente, toda a formação dos psicanalistas ao longo da sua carreira. Habitualmente, têm de apresentar, através de relatórios, os seus casos clínicos para serem validados, e uma memória clínica do caso. Por vezes, a escrita fica presa aos factos, aparentemente objectivos, mas não verdadeiramente ligada aos movimentos psíquicos e à dinâmica da relação analítica. Por vezes, a escrita fica empobrecida porque fica agarrada às histórias que o paciente nos conta, mas não ao seu significado e à dinâmica interna da dupla analítica. Escrever não é fácil e pressupõe estar disponível para contactar com o inacessível, que se esconde através de uma palavra, uma recordação, uma música ou um silêncio. Para escrever, é necessário contactarmos com o negativo, de forma que se faça todo um caminho para chegar ao representável.