Ao longo da sua vasta obra, tem sido preocupação de Alberto Eiguer aplicar e alargar a Psicanálise como modelo de investigação clínica do aparelho psíquico e mental aos quadros psicopatológicos da perversão e das perturbações narcísico-identitárias — os ditos «casos difíceis» com que deparamos na clínica contemporânea.
O título da sua comunicação, «Mais além da contratransferência», é tão sugestivo e vasto que, em associação livre, me pergunto: quanta endurance transferencial (Grinspon, 2015) é necessária e quanto de elasticidade, plasticidade e ressonância psíquica é pedido ao analista para desenvolver um processo analítico com estes pacientes, tendo em conta o movimento defensivo e as resistências que dificultam, tropeçam ou mesmo impossibilitam a perelaboração?
Analisar a contratransferência no processo de cura de pacientes com falhas narcísicas e identitárias graves e com défices afetivos precoces constitui um desafio à função analítica do psicanalista.
Estes pacientes enredados em núcleos psíquicos incestuais, que alimentam a compulsão de repetição, o imobilismo e o masoquismo, fixados rigidamente a uma posição de ataque à vida e de resistência às vivências de emoções e sentimentos, com uma sensorialidade vigiada, sentida como perigosa, por um self infantil e/ou em risco de fragmentação, que se alimentam de dependências denegadas e continuamente agidas, solicitam ao analista especificidades na técnica e no processo psicanalítico. Exigem à pessoa do analista uma sensibilidade intuitiva a par de uma experiência existencial, uma formação contínua/supervisão//intervisão, bem como uma atitude de indagar o seu inconsciente numa posição constante e atenta de cogitação e autoanálise.
Pró-curar o impacto e os processos de reverberação dos movimentos intrapsíquicos que decorrem e emanam da grupalidade interna, da interioridade da dupla analítica em interação — paciente-analista, casal-analista e família-analista —, é uma tarefa complexa, evolutiva e interminável.
Com a articulada e coerente referenciação teórica, Alberto Eiguer mostra-nos como a transferência e a contratransferência, constituindo-se como processo único e singular com cada paciente, é antes de mais um trabalho simbólico de humanização e de trans-formação identitária, em busca da alteridade subjetivante, no processo dinâmico de inconscientes em copresença, num campo comum e dinâmico emergente (Pichont-Riviére, E., 1985), numa unidade de trabalho (Eiguer, A., 2019).
Na psicanálise contemporânea, torna-se fundamental estarmos atentos ao que Roussillon (1995) tem sugerido na formação dos psicanalistas: sensibilizá-los a decifrar na transferência a influência das experiências precoces nas organizações narcísicas-limite; prepará-los com a teoria da técnica para entender clinicamente a posição do analista no processo de construção de um ambiente suficientemente seguro, contentor e esperançoso. Estes pacientes necessitam da capacidade negativa e de rêverie do analista para poderem aceder à simbolização.
Em ressonância psíquica, os processos transferenciais no interior do analista desencadeiam movimentos de aproximação e de interpretação junto do paciente, mas terão de se operar em câmara lenta e a par de uma escuta paciente da linguagem dos afetos, do corpo, do sensório-motor e até dos fenómenos alucinatórios não representacionais, que podem surgir no aqui e agora no campo analítico.
Co-viver o material narrativo do paciente e prosseguir na análise da contratransferência no eixo inconsciente-pré-consciente, que é, por definição, isento de preconceitos e juízos morais: o analista, ao ter sido interiorizado como confiável e bom objeto na continuidade processual, oferece-se como catalisador e intermediário. Nessa dinâmica recíproca, alivia o sofrimento, amplia o espaço mental, pacifica o interior psíquico do paciente, possibilita o nascimento dos processos secundários
Artigo recebido em 27 de Dezembro de 2019 e aceite para publicação em 30 de Dezembro de 2019.
Este artigo tem como base o comentário à comunicação apresentada por Alberto Eiguer na sessão científica na SPP subordinada ao título «L'analyste sous influence. Au-delà du contre-transfert», Lisboa, 27 de Setembro de 2019.
Psicanalista SPP/IPA. Psicanalista de Casal e Família; doutorada em Psicologia Clínica e professora no ISPA– –Instituto Universitário. E-mail:
Nota: este artigo está escrito conforme o recente Acordo Ortográfico.
da mente. Essa evolução permitirá transformações nas realidades internas e externas e as ansiedades persecutórias e invejosas diminuirão. O analista em posição de rêverie reforça o potencial transferencial-contratransferencial; mas, acima de tudo, os movimentos pulsionais poderão transformar-se em ação mediada por um pensamento, possibilitando novos e outros sentidos, admitindo um Outro, abrindo espaço para alteridade, onde o analista surge como referente identitário, parte de um terceiro.
Alberto Eiguer, ao apresentar o caso Edviges, esclarece bem o sofrimento narcísico-identitário precoce, bem como a catástrofe psíquica, de abandono e desamparo dilacerante da paciente, que remonta às suas vivências de carências primárias e de sedução perversa incestual. Edviges revelou um modo de vida caótico e anárquico, cheio de delitos, transgressões, onde a sua sobrevivência psíquica decorre da dissociação do eu, que alimenta a incestualidade nas suas relações (Racamier, P.-C., 2010), bem como no processo transferencial com o analista, inscrevendo uma paradoxalidade que tende a denegar e a confundir-se na indiferenciação geracional e na situação analítica.
A transferência lateral (Denis, P., 2009) que a paciente utilizou constituiu-se numa resistência, mas igualmente numa defesa da transferência pulsional e libidinal com o analista, uma vez que lhe era difícil revelar os segredos e o seu sofrimento íntimo, temendo a rejeição. Os nós-cegos da transferência lateral, que surgem no campo intersubjetivo entre paciente-analista-paciente, constituem-se em efeitos dos restos inconscientes dos psiquismos em dinâmica.
Como aceder, trabalhar analiticamente e metabolizar o não verbal, o segredo e o indizível não representado, do paciente que surge em sessão?
Tornou-se evidente que a dramatização explícita da paciente serviu como estratégia subliminar para captar e impressionar o analista, no sentido de ser escutada e aceite — forma de sobrevivência psíquica —, defendendo-se da possibilidade de ser abandonada por ele perante a consciência da vida louca e indigna que vivia paralelamente. Não terá sido por esse meio que pôde ter esperança na análise, uma abertura para revelar as vivências proibidas que, embora em desvio, permitiram sair daquele beco sem saída em que se encontrava, encerrada num impasse paradoxal de sofrimento incestual?
Também não são menos relevantes as inquietações do analista, que através dos segmentos da análise transferencial lateral e da análise da sua contratransferência na relação intersubjetiva desta dupla sofre com a forma como é usado pela paciente, como é posta à prova a sua capacidade de estar só perante a dor incestual emergente no espaço analítico.
Nestes processos psicanalíticos, o analista, ao confrontar-se com os núcleos perversos dos pacientes, interroga a técnica, os modelos teóricos, bem como pode questionar a ética do tratamento, e ainda necessita de aprender a lidar com o impactante mal-estar em sessão, com os momentos de violência transferencial que advêm das diversas manipulações e enganos inconscientes que estes pacientes nos trazem.
Poderemos considerar nesta situação analítica que Edviges usa a perversão da transferência, como refere Etchegoyen (2006), enquanto forma de proteger as posições polémicas, desafiantes, que podem comprometer a sua aproximação ao analista. Quanto horror à rejeição e profundo terror inconsciente de destruição interna, mas, simultaneamente, anseio desejante duma relação segura e confiante com o analista?
O analista implicado na própria ética de cuidar e de proporcionar um meio maleável à paciente (Milner, M., 1991), que revelava falhas primordiais anteriores à simbolização, pelos processos de figurabilidade e sintonia inter e intrapsíquicos dos restos inconscientes emergentes, possibilitou a evolução da análise da Edviges, cuidando e tecendo pacientemente a relação dinâmica como se estivesse a pintar uma tela.
As intervenções contentoras do analista surgiam mais como mensagens de construção de cores e tons favoráveis à segurança e à ligação do que verdadeiras interpretações-pinceladas. A paciente foi podendo sentir-se mais digna de respeito por si própria através da benevolência do analista, aceitando as mensagens verbais ligadas ao não-verbal da comunicação, ao tom de voz, por exemplo, transformando um ideal do eu tirânico e perverso numa relação transferencial objetal passível de coesão do seu Eu e possibilitando alguma integridade pessoal: foi-se limpando, branqueando, quiçá deixou de se confundir com a sujidade das ações e daquela sobrevivência na transgressão, e foi-se implicando em relações novas e diferentes, que lhe permitiram descobrir outros aspetos da sua essência e identidade, bem como discriminar o melhor e o pior de si própria… quiçá em mulher mais digna e limpa.
Recorrendo ao trabalho que temos vindo a desenvolver com o Professor Alberto Eiguer e, presentemente, no Groupe Internacional de Recherche – La Sensorialité et L'allucinatoire, cujo objeto dominante do trabalho é justamente pensar e perelaborar, tanto a contratransferência, na pessoa do analista em sessão, como os processos transferenciais na clínica individual ou ainda com casais e ou famílias, a partilha deste trabalho analítico com a Edviges permitiu-nos compreender a complexidade e os múltiplos sentidos e tonalidades decorrentes do encontro analítico, que se oferece ora delicado e lento, ora violento e insuportável, dominado pelo pensamento operatório e inscrito nas palavras-ações da compulsão de repetição, que Bion chamou coisas
em si, elementos não assimilados, elementos beta que são depositados no Outro, que intoxicam versus saturam o campo simbólico do pensamento, esperando um encontro, uma tradução. Foi, pois, nesse encontro empático que se operou a metabolização versus trans-formação dos elementos beta em alfa. Isto é: à semelhança da função materna, o analista, com a sua capacidade negativa e de rêverie, fez o trabalho de ligação simbólica das impressões sensoriais e dos sentimentos, que foi experimentando no aqui e agora, oferecendo-se e revelando mensagens à paciente em que ela pudesse incorporar/introjetar novos conhecimentos sobre si própria e favorecesse novas escolhas identitárias e de pertença.
O analista, com a análise da sua contratransferência, convocou o retorno do recalcado e teve acesso aos seus restos infantis, rememorados e evocados pelos processos transferenciais da paciente, permitindo-lhe consciencializar e transmitir à analisanda, ao longo do trabalho analítico, as implicações do fantasma originário de sedução da criança pelo adulto e como essa experiência se impôs inconscientemente na subversão agida de busca de amor proibido.