Este artigo procura reflectir acerca de um clima cultural que tende a considerar o sofrimento emocional como uma doença do cérebro e a olhar para a psicanálise como uma pseudociência não baseada na evidência, questionando o seu impacto na construção da identidade psicanalítica. Esta reflexão tem por base as experiências de trabalho no contexto de hospital psiquiátrico público e de prática privada enquanto psicólogo em formação analítica. Debruçar-se-á também na natureza das críticas à psicanálise e em como a formação psicanalítica enfrenta a crítica externa.
Recentemente, sonhei que estava a passear com a minha filha de seis anos numa grande avenida que evocava a Avenida da Liberdade. Mas o chão desta era feito de areia, como uma praia. No céu, explodia fogo-de-artifício, só que em vez de as canas caírem longe, caíam muito próximo das nossas cabeças. Assim, parámos de andar e passámos a olhar atentamente para o céu, de modo a antecipar e evitar que a próxima cana do fogo-de-artifício não fosse cair sobre as nossas cabeças.
Quando acordei, pensei comigo: «que sonho tão estranho!». Depois, compreendi que o estímulo para o sonho tinha sido uma comunicação na qual estivera a trabalhar e que se intitulara «A psicanálise debaixo de fogo».
Pareceu-me interessante que no meu inconsciente as críticas à psicanálise não tenham surgido como bombas letais, mas como fogo-de-artifício, que, não obstante, pode magoar se vier cair em cima de nós. Também achei curioso que no sonho eu tenha sentido a necessidade de proteger alguém muito querido, a minha filha mais nova, que acabou de fazer seis anos. Também faz seis anos que comecei a minha formação analítica na SPP. Por isso, de certo modo, sou um candidato de seis anos a tentar construir uma identidade enquanto analista.
Como construir essa identidade quando a psicanálise se encontra debaixo de um fogo de críticas? O sonho sugeria uma direcção: em vez da fuga, parar e observar de onde vêm e incidem as críticas.
Os candidatos vivem uma situação paradoxal: se só se movimentam em círculos psicanalíticos, podem ouvir um discurso que leva a crer que não há nada melhor do que a psicanálise. Poucos são os escolhidos! Os não-psicanalistas frequentemente sentem-se tratados neste discurso como uma espécie de gentios, excluídos do reino abençoado dos psicanalistas. Por outro lado, se se movem por entre outros círculos, podem ouvir que não há nada pior do que a psicanálise — uma pseudociência ultrapassada e uma banha da cobra que pode até fazer mal às pessoas!
A psicanálise foi submetida a críticas desde o início, e Freud, no seu artigo «As resistências à psicanálise» (2011 [1925]), sentiu necessidade de reflectir na natureza dessas críticas, tendo identificado várias fontes.
Algumas críticas resultam de preconceitos intelectuais, como aqueles oriundos da tradição médica, que tende a igualar tratamento à aplicação de procedimentos físicos ou químicos. Qualquer
Artigo recebido em 20 de Janeiro de 2020 e aceite para publicação em 28 de Março de 2020.
Este artigo tem como base a comunicação apresentada no Congresso Europeu IPSO, de 22 a 24 de Novembro de 2019.
Psicólogo clínico. Psicoterapeuta, membro-candidato da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP). E-mail:
tratamento que faça apelo a processos psíquicos ou à palavra deve ser um embuste.
Ou o preconceito dos filósofos contra o conceito de inconsciente. Segundo o Cartesianismo, a realidade divide-se em res extensa e res cogitans — a consciência é transparente a si própria e a mente é sobreponível à consciência. Nesta visão, a noção de uma vida mental inconsciente é uma contradição de termos.
Freud também identificou fontes emocionais de resistência à psicanálise na «má consciência da sociedade», uma sociedade de públicas virtudes e vícios privados, à qual desagradava o modo franco como a psicanálise falava de sexualidade.
Contudo, Freud ainda identificou outra fonte de resistência: o puro preconceito. Sendo judeu, sentiu que a psicanálise transportava um estigma que poderia desqualificá-la automaticamente como uma ciência judia.
Hoje, a psicanálise ainda pode evocar o preconceito. Pessoas que nunca se deram ao trabalho de se debruçar na psicanálise não só a colocam de parte como lhe são abertamente hostis. De onde vem este preconceito? No entanto, algumas críticas à psicanálise vêm de pessoas que parecem tê-la estudado seriamente. Não deveríamos escutá-las, dialogar e aprender com elas?
Creio que uma fonte importante de preconceito contra a psicanálise provém do cientismo, que convém distinguir de ciência. A ciência é essencialmente um método de investigação baseado na razão, no estabelecer de hipóteses, que são conferidas à luz da evidência disponível, submetendo as observações e conclusões ao escrutínio de pares. Um cientista genuíno está geralmente alerta para o seu grau de ignorância e desconfia da ilusão de saber. Move-o o desejo de se aproximar do que não sabe, e não perde o seu tempo a refastelar-se no que julga já saber (Firestein, S., 2012).
Já o cientismo é um sistema de crenças, uma visão metafísica e frequentemente uma atitude que contém uma valência religiosa. Está associado à crença de que já se conhece a natureza da realidade nos seus aspectos fundamentais, faltando, talvez, apenas alguns detalhes. O cientismo tende a manifestar-se em pessoas que não são tanto investigadores quanto consumidores de livros de divulgação científica, fascinados com o que parece ser a versão definitiva científica das coisas. Tendem a sentir-se encantados com tanto que se conhece, mas a serem cegos relativamente às suas áreas de ignorância.
Em suma, o cientismo caracteriza-se por uma hiperconfiança dogmática no conhecimento científico. Acredita que a ciência é o último degrau do conhecimento e que só ela produz conhecimento válido. Ignora, assim, que há muitas formas de in-vestigação válidas: histórica, legal, literária, filosófica, musical e outras (como a psicanalítica).
Segundo Haac (2012), podemos reconhecer o cientismo a partir dos seguintes sinais: o uso honorífico da palavra ciência; o uso de jargão técnico independentemente da sua utilidade; a preocupação com o demarcar entre o que é ciência genuína e o que é pseudociência; falar como se houvesse um único método científico usado por todas as ciências; procurar na ciência respostas para questões que não são da sua esfera; denegrir outras formas de conhecimento que não o científico.
Com o cientismo, o que outrora era atribuído a Deus é agora esperado da ciência. Por isso, podemos encontrar no cientismo uma fantasia de omnisciência: um dia, a ciência vai saber tudo e o sonho de Laplace irá tornar-se realidade: uma mente suficientemente grande, talvez um supercomputador, com bastante informação, vai um dia ser capaz de prever tudo o que acontecerá no futuro, ou deduzir tudo o que aconteceu no passado.
Podemos também encontrar uma fantasia de omnipotência: cada problema da existência humana terá uma solução tecnológica e mecanicista — o tratamento é a intervenção no mecanismo que funciona mal.
O cientismo tende a levar a ciência a um estádio paradigmático em que nenhuma revolução é imaginável, podendo facilmente acreditar que estamos muito próximos do fim do conhecimento. Este era o estado de espírito que predominava no final do século XIX relativamente à Física. Por exemplo, Lorde Kelvin, em 1900, pôde aconselhar os estudantes a não escolherem a física como campo de estudos porque não haveria mais nada de novo para descobrir. Tudo o que restaria para fazer seriam medições cada vez mais precisas. Apenas cinco anos mais tarde, Einstein apresentou a Teoria da Relatividade, e pouco depois surgiu a Teoria Quântica!
Finalmente, de acordo com esta cosmovisão, a Física deve ser o modelo de todas as ciências, num duplo sentido: as outras ciências devem seguir os mesmos métodos que a física e, em última análise, todas as ciências são redutíveis à física. «A física é a única ciência real. Tudo o resto é colecção de selos.» (Ernest Rutherford apud Bryson, B., 2009, p. 146)
Contudo, há um pequeno problema nesta cosmovisão — a subjectividade torna-se numa peça que não encaixa bem no puzzle. Há uma clara preferência para explicações mecanicistas que apelam para mecanismos impessoais, mas onde a subjectividade não encontra lugar ou aparece como uma anomalia ilusória. A metáfora favorita é da máquina, seja para descrever o universo (Kepler descreveu Deus como um relojoeiro e o universo
como um relógio, a máquina mais sofisticada do seu tempo); o animal e o corpo (com Descartes); o homem (o «homem-máquina» de La Mettrie) ou a mente (a mente como computador, metáfora na base da chamada revolução cognitiva).
Assim, a mente não é mais do que uma ilusão; só o cérebro é real. Quaisquer explicações que apelem às noções de sujeito, significado e intencionalidade são desqualificadas como não científicas.
O cientismo também se caracteriza por apresentar uma visão dualista das ciências, segundo a qual existem ciências «hard» e «soft», naturais e humanas. As primeiras lidam como o que é da ordem do previsível, objectivo e nomotético, as quais podemos chamar com propriedade de ciências. As outras lidam com significados, tomados como arbitrários, subjectivos e ideográficos, pertencendo mais à esfera da ética do que da ciência.
Esta visão dualista tende a desqualificar automaticamente a psicanálise como uma ciência subjectiva, como se a investigação da experiência subjectiva incorresse necessariamente numa queda para o subjectivismo.
Pode ser argumentado, no entanto, que não é por uma ciência ter como objecto de estudo a subjectividade, entendida de um ponto de vista ontológico, que ela se torna necessariamente subjectiva do ponto de vista epistemológico, isto é, que fica privada de desenvolver métodos que aspiram à objectividade ou intersubjectividade epistemológica (além da mera opinião). Se não fosse assim, a psicologia, por exemplo, seria impossível. Ainda que o seu modo de investigar não seja isento de problemas, a psicanálise aspira mais a ser uma ciência da subjectividade, que investiga estados ontologicamente subjectivos, do que a ser uma ciência subjectiva.
Nos últimos quarenta anos, assistimos ao ascender de um reducionismo biológico que induz as pessoas a pensar que o sofrimento emocional é uma perturbação do cérebro, geneticamente determinada e associada a desequilíbrios químicos no cérebro. Biografia, acontecimentos de vida, contexto social e vida mental são aspectos secundários. Por isso, a medicação psicotrópica é a única resposta real. Supostamente, vem corrigir os desequilíbrios químicos e deve ser tomada com a mesma naturalidade com que o diabético toma a sua insulina. «Curas pela palavra» são irrelevantes, a não ser que convençam as pessoas a tomar a medicação.
Esta situação transporta-nos para o mesmo lugar em que Freud se encontrava quando teve de lidar com o preconceito médico frente à psicanálise. Só que, agora, o preconceito provavelmente é mais forte, porque a psiquiatria biológica e as empresas farmacêuticas têm muito mais poder do que no tempo de Freud.
O movimento para o estudo da efectividade das psicoterapias também dificultou a vida à psicanálise. Durante algum tempo, a psicanálise teve dificuldade em se adaptar a estudos randomizados que exigiam tratamentos breves, estandardizados, manualizados, e terapeutas «by the book», que aplicam protocolos de tratamento semelhantes entre si. Esta dificuldade contribuiu para a reputação de não ser efectiva nem científica, quando comparada com outras psicoterapias «hard science», que se apresentam como “o último grito da ciência” e prometem resultados rápidos num tempo breve.
Há actualmente estudos abundantes que mostram que os tratamentos psicanalíticos, a curto prazo, são tão efectivos como aqueles habitualmente apresentados como mais «científicos»; a longo prazo, são mais efectivos do que esses, sobretudo quando incluímos não só a mudança sintomática mas também mudanças de dimensões da personalidade; e que os seus resultados são estáveis e até aumentam depois do término, enquanto os resultados tendem a decair depois do término noutras psicoterapias, supostamente mais «hard science» (Solms, M., 2018). Contudo, ainda é bastante comum os tratamentos psicanalíticos serem ignorados nas «guidelines» e manuais de psiquiatria.
Por outro lado, filósofos da ciência levantaram questões importantes à psicanálise, sendo que o foco actualmente não é tanto na noção de inconsciente, mas no estatuto científico da psicanálise.
Por exemplo, o positivismo lógico questionou como pode a psicanálise aspirar a ser ciência quando os seus conceitos são definidos de forma pouco precisa e postulando processos que não são observáveis nem verificáveis empiricamente? A crítica é pertinente, considerando que Freud tomou como pedras angulares da psicanálise o inconsciente e a repressão, conceitos negativos que se referem a processos não observáveis directamente. Além disso, Freud dirigiu-se a alguns dos seus conceitos como ficções, mitologias, implicando que não os considerava como «coisas reais».
Contudo, muitas ciências usam conceitos que são puramente teóricos, referindo-se a entidades ou processos não observáveis e que não são necessariamente considerados como «coisas reais». Estes conceitos são utilizados uma vez que são fiáveis e considerados ferramentas eficazes para compreender e prever fenómenos.
A física está repleta deles. A psicologia também. Muitos físicos não acreditam em que as descrições estranhas da teoria quântica acerca da realidade microfísica sejam verdadeiras em sentido estrito.
No entanto, a teoria quântica é considerada fiável para prever e controlar fenómenos. Também nunca ninguém viu um esquema cognitivo, mas reconhece-se o seu valor teórico para compreender o comportamento humano. Freud apresentava uma perspectiva anti-realista das teorias científicas, no sentido em que reconhecia que teorias científicas altamente sofisticadas podem apoiar-se em ficções teóricas ou mitologias, como ele gostava de as chamar, desde que sejam fiáveis.
O seguinte episódio é elucidativo. Num debate na Sociedade Psicanalítica de Viena, Adler argumentava que não existe tal coisa da líbido, isto é, não pode ser observada, nem medida, e que por isso o conceito deveria ser abandonado. Freud respondeu que concordava com Adler, que a líbido não era real, mas acrescentou que era «totalmente arbitrário e não científico concluir daí que a teoria da líbido era falsa» (apud Smith, D. L., 2003, p. 15).
Uma outra crítica, porventura das que teve mais eco, proveio de Popper, segundo a qual a psicanálise é uma pseudociência porque as suas teorias e interpretações não são falsificáveis. Há sempre uma maneira ad hoc de fazer com que os factos se ajustem às hipóteses. Freud também identificou este problema no seu «Construções em análise» (2018 [1937]), quando mencionou um crítico que afirmava que as interpretações psicanalíticas são como um jogo viciado: «caras, ganho eu; coroa, perdes tu».
Curiosamente, este argumento foi refutado por outros filósofos, colegas de Popper. Por exemplo, Grünbaum observou que aspectos da teoria psicanalítica são falsificáveis e que a prova disso era que Freud modificou ou abandonou as suas teorias em diversas ocasiões em resposta a evidência adversa (in Smith, D. L., 2003).
Por sua vez, Lakatos mostrou que no núcleo de cada ciência está um conjunto de crenças que não são falsificáveis (in Smith, D. L., 2003). A questão é se elas geram programas de investigação progressivos ou degenerativos, isto é, se elas dão origem a observações novas e a modos de compreensão mais efectivos. Considerando que a psicanálise trouxe problemas, observações e hipóteses novas em muitos campos do saber, para lá da clínica, creio que é um excelente exemplo de um programa de investigação progressivo.
Desde o princípio, a psicanálise considerou que a principal arena para desenvolver e testar as suas teorias era a clínica. Contudo, Grünbaum chamou a atenção para que o efeito de sugestão torna impossível saber se um paciente melhora por causa da validade das teorias ou por causa de um efeito de transferência ou placebo que o leva a melhorar em virtude de um desejo de agradar ao analista. Segundo ele, é por isso que cada escola de psicanálise encontra confirmação para as suas teorias. Simplesmente, não há maneira de testar as teorias psicanalíticas no divã (in Smith, D. L., 2003).
Relativamente a este argumento, poder-se-ia dizer que há uma longa linhagem de investigação desde Spitz, Mahler, Bowlby, até Stern, Fonagy e outros, que procuraram testar as teorias psicanalíticas fora do divã. Também se poderia invocar uma tradição que tem produzido evidência experimental de conceitos psicanalíticos e que remonta até Saul Rosenzweig, psicólogo experimental contemporâneo de Freud, que inaugurou uma linha de investigação que continua até aos dias de hoje. Mas talvez a coisa mais importante seja reconhecer que os efeitos de sugestão, placebo ou transferência não são específicos da psicanálise. Estão presentes mesmo no tratamento farmacológico (Kirsh, I., 2010). E pode também acrescentar-se que a discussão no campo das psicoterapias acerca da preponderância dos chamados factores comuns (factores humanos) ou específicos (modelos e técnicas), que se concluiu pela evidência de um peso duas vezes maior para os primeiros, veio mostrar que a psicoterapia é de certo modo uma ciência da relação (Elkins, D. N., 2015).
A teoria psicanalítica ajuda a compreender melhor esse factor de interacção humana e porque são efectivas as psicoterapias. E a psicanálise é testada pela sua capacidade de colocar em marcha um processo que é fiável o suficiente para que duas pessoas arrisquem lançar-se no trabalho de contenção e transformação da dor emocional de uma delas.
De qualquer modo, isso não quer dizer que o estatuto científico da psicanálise seja uma questão encerrada. A psicanálise talvez esteja numa posição paradoxal única, algures entre a ciência e a arte. No entanto, aspira a um rigor que poderemos chamar de poético: a procura da palavra certa, dita no momento certo, tomando em consideração não só a subjectividade do paciente mas também a do psicanalista (Kohon, G., 2019).
Como acabámos de ver, nem todas as críticas são iguais. Algumas resultam do preconceito; outras, de um questionamento legítimo e da curiosidade. Procurar compreender de onde vêm as críticas, para onde conduzem, pode ajudar a compreender melhor o âmbito e os limites da psicanálise.
É minha percepção que os candidatos em formação adquirem maior consciência das controvérsias internas à psicanálise, mas que as críticas externas raramente são abordadas na formação analítica. Não sei até se não se pode falar de uma tendência para evitar o debate com críticos. Podemos apenas interrogar-nos em que extensão esse evitamento resulta de um desejo de retirada para uma espécie de bolha protegida, sob influência de fantasias paranóides; ou de uma auto-idealização
que acredita que a psicanálise não tem de se dar ao trabalho de se explicar.
Ignorar a crítica, tanto quanto reagir a ela, pode conduzir a uma construção da identidade baseada na clivagem: eles e nós. Por outro lado, a curiosidade acerca de como a psicanálise se relaciona com outras disciplinas e a crítica pode contribuir para uma identidade mais integrada. Tal como a análise se torna mais real quando a transferência negativa é abordada, também a identidade psicanalítica se tornará mais realista se tomar em consideração a crítica.
Em última análise, a psicanálise não é apenas uma teoria, mas uma experiência. E o melhor guia para se mover por entre o fogo-de-artifício da crítica é a nossa experiência enquanto analisandos e supervisandos, no centro da qual está o reconhecimento de que se sofre e de que se tem pontos cegos que requerem a ajuda do olhar de um outro. A capacidade de tolerar as nossas vulnerabilidades amplifica as possibilidades de aproximação à dor emocional do outro. De igual modo, escutar e dialogar com a crítica pode aumentar a apreensão da natureza da psicanálise e ajudar a construir uma identidade mais sólida enquanto analista.
ABSTRACT
This communication tries to reflect upon a cultural climate that tends to understand emotional suffering as a brain disease and to portray psychoanalysis as an outdated and non-evidence based pseudoscience, questioning its impact on the building of psychoanalytic identity. This reflection rests upon the experience of working as a psychologist in analytic training in a public psychiatric hospital and a private practice context. It will also address the nature of criticism of psychoanalysis and how psychoanalytic training faces external criticism.
KEYWORDS: scientism, biological reductionism, subjectivity, pseudoscience, criticism, identity.