A Revista Portuguesa de Psicanálise inaugura nesta edição uma nova secção, intitulada «Temas em debate».
Inveja, do latim invidia, refere-se a um sentimento tão antigo como a humanidade. Amplamente pensado e investigado, este conceito interessa à teoria psicanalítica desde os seus primórdios. Relembramos, a este propósito, o papel de relevo de Melanie Klein no seu desenvolvimento. Klein começou a sua investigação psicanalítica sobre a Inveja em 1928, com a publicação do artigo «Early stages of the Oedipus conflict», no qual alerta para a sua presença nos estados arcaicos do complexo edipiano, até chegar à sua integração e consolidação conceptual, em 1957, na obra seminal Envy and Gratitude.
Identificada como sentimento comummente experienciado, a que o senso comum se refere de forma coloquial, a inveja pode ser tomada, na sua vertente positiva, como atitude de admiração potencialmente identificatória, e, na vertente negativa, primitiva, como expressão de angústia narcísica. Trata-se de um sentimento a que a relação psicanalítica está particularmente exposta. Neste campo em particular, vários psicanalistas têm publicado trabalhos teórico-clínicos reflexivos sobre a importância da inveja nos fenómenos transferenciais e contratransferenciais da relação intersubjetiva analista-analisando, sendo difícil a identificação consciente nas suas formas mais subtis. Também as suas vicissitudes na relação triangular de supervisão nem sempre são fáceis de reconhecer e, sobretudo, de resolver.
«¡Nos ladran, Sancho, señal de que avanzamos!»
Invidia era o nome da antiga deusa romana da inveja. Segundo Ovídio, a sua morada era sombria, triste, sem ar e carente de fogo. Descreveu-a como tendo o olhar retorcido, os seios verdejantes de fel, e nunca sorrindo, a felicidade dos homens era o seu tormento, a sua tortura. Invidia destruía ao seu passo todas as coisas belas, e o seu alimento eram as víboras. Os deuses desprezavam-na pelo seu veneno. Esta imagem mitológica ilustra bem a natureza da inveja e a sua destrutividade.
A natureza primária da inveja, postulada por Klein (1957), com o seu cortejo de defesas maneiformes, implica que a inveja se dirige ao objeto primário, é intrínseca e endógena. Para Klein, Eros é representado pelo amor ao seio e ao objeto, enquanto a inveja do seio e do objeto emanam de Thanatos.
Posteriormente, Bion coloca a destrutividade da inveja como uma forma de ataque aos elos, assim, os ataques invejosos não se dirigem unicamente ao seio e ao objeto, mas, fundamentalmente, ao elo que os une, bem como ao elo criativo do casal parental, ao aparelho para pensar, em suma, a tudo aquilo que o self necessita para ser capaz de se integrar e se desenvolver.
Rosenfeld (1964) elaborou detalhadamente como a identificação projetiva omnipotente é uma poderosa defesa contra a inveja, que emerge com a consciência da dependência do objeto. Steiner
Psicóloga clínica, psicanalista, membro associado da SPP, IPA e FEP. E-mail:
A autora escreve conforme o recente Acordo Ortográfico.
Psicóloga clínica, psicanalista, membro associado da SPP, IPA e FEP.
Texto recebido em 15 de Abril de 2020 e aceite para publicação em 20 de Abril de 2020. E-mail: fernandes.corina@gmail.com
A autora escreve conforme o recente Acordo Ortográfico.
(1993) expandiu e aprofundou as descobertas de Rosenfeld, e elaborou a relação profunda entre a inveja e vergonha.
A inveja é um sentimento extremamente doloroso, e o seu reconhecimento implica sentimentos de vergonha e de culpa. A relação entre inveja e vergonha é tão profunda que alguns autores defendem que a inveja é secundária e emana da vergonha.
Prefiro manter uma clara diferença entre inveja e ambição, pois a ambição implica precisamente uma identificação, que a inveja destrói. O que permite a identificação com o objeto ou as suas qualidades é a forma como o psiquismo lida com a sua destrutividade.
Na clínica, é fundamental compreender a natureza da inveja e das suas defesas. O seu reconhecimento na transferência e a necessidade de a interpretar devem ser manejados com especial sensibilidade e cuidado, precisamente pela emergência do sentimento de humilhação. O analista deve tentar ajudar o paciente a ter consciência da inveja e ajudá-lo a diminuir a sua qualidade insuportável. A sua empatia pelo sofrimento do paciente quando sente inveja daquilo que necessita, que não lhe pertence e que não pode controlar, e a sua integração na personalidade são um longo e cuidadoso trabalho na relação analítica.
(1975 [1957]). «Envy and Gratitude». In The Writings of Melanie Klein: Envy and Gratitude and Other Works, vol. 3. Londres: Hogarth Press.
(1982). Metamórfosis. Vol II. Barcelona: Editorial Bruguera.
(1964). «On the psychopathology of narcissism: A clinical approach». International Journal of Psychoanalysis, 45: 332–337.
(1993). Psychic Retreats: Pathological Organisations in Psychotic, Neurotic, and Borderline Patients. Londres: Routledge.
A inveja é um substantivo derivado do latim invidia, mas dá também forma a um verbo, o invejar, do latim invidere, que significa literalmente não ver ou simbolicamente olhar com malícia. Podemos assim pensar na inveja como o experienciar da maior das cegueiras: a cegueira de si, cegueira do outro, cegueira do autêntico, do belo ou do bom. Mais do que isso, uma cegueira corrosiva, fonte de sofrimento, raiva, ódio, malícia ou até aniquilamento, configurando uma verdadeira pulsão de morte.
Tomás de Aquino pensou a inveja como tristeza pela felicidade dos outros. Dante, na Divina Comédia, retrata os invejosos no purgatório com os olhos costurados com arame, simbolizando o castigo da não visão que a inveja provoca. Esta proximidade simbólica a um inferno interior, ao vazio do próprio e à destruição do outro torna-se num sofrimento real, numa alienação da beleza da diferença e do valor da singularidade. O não ter sido bem-amado, cuidado ou olhado pode dar lugar ao não-eu, ao não-outro pela destruição do bom objeto e pela corrosão do próprio na impossibilidade de ser o outro, de não se aceitar como suficientemente bom. A cegueira das trevas, do vazio, do não ser, do não ter… do não ver.
Os psicanalistas, pela natureza do seu trabalho e pela sua própria identidade, aspiram a ver, a olhar com verdade para dentro e fora de si, à iluminação, à análise e criação de crescimento no encontro. Assim, perante a inveja, os psicanalistas tentarão ver as suas próprias trevas (os seus pontos cegos, as suas invejas) e os enlaces invejosos das suas relações outras (com analisandos, analistas, supervisandos, supervisores, não psicanalistas). Um trabalho árduo, contínuo, muitas vezes enganador e de tentativa-erro, mas sempre de procura, de encontro e fé no próprio e no outro, de aspiração à possibilidade de mudança, de superação e reparação. Talvez seja essa luz do amor, da amizade, do encontro, da aceitação, da gratidão e da humildade, que nos ajude a ir retirando os dolorosos arames dos nossos olhares e dos olhares dos que nos olham, para que ao longo das nossas viagens pessoais e analíticas possamos aspirar a realmente VER. A ver o outro, a apreciar a sua diferença, a encantarmo-nos com as suas virtudes e a vermo-nos a nós, a sorrirmos da nossa incompletude, mas ao olhar o mundo ver o olhar do outro como também nosso.
Médica psiquiatra. Sócia candidata da SPP. Texto recebido em 7 de Abril de 2020 e aceite para publicação em 20 de Abril de 2020. E-mail:
A autora escreve conforme o recente Acordo Ortográfico.