Nunca Deixes de Olhar — e eu acrescentaria ao título «para o teu interior» — é o último e belíssimo filme do realizador alemão Florian Henckel von Donnersmarck. Nele, somos colocados, ao longo dos seus 188 minutos, diante de sequências de imagens de uma beleza e elegância tocantes, numa estética emocional reveladora de como a arte, a representação artística, pode veicular a circulação de afectos entre inconsciente, pré-consciente e consciente. Corresponde a um verdadeiro elogio ao inconsciente e às suas dinâmicas complexas, inter e intra-relacionais, mostrando-nos de forma sublime como o inconsciente pode determinar o rumo da vida de um homem e como a arte, neste caso a pintura, se constitui o meio de expressão deste seu interior.
A abertura do filme é de uma sensualidade estonteante. Uma jovem e inebriante mulher, de beleza infindável, a tia, Elisabeth May, passeia de mão dada com o seu pequenino sobrinho de cerca de sete anos, Kurt, numa cidade arrumada, parecendo deslizar no espaço e no tempo da ação numa ligeireza e segurança sedutoras e que dão vontade, também a nós, de sermos transportados por ela para o mundo da sensação e do prazer, onde todo o sentir e o pensar o sentir parecem fáceis, livres e fluidos.
Neste idílio, tia e sobrinho passeiam-se por uma visita guiada a uma exposição de arte contemporânea no museu de Dresden, imediatamente antes do início da Segunda Guerra Mundial, guiada por um alemão nazi que, em contraste com esta sensação de bem-estar, destrói tudo o que vê. Apercebendo-se da amargura do sobrinho, a tia diz-lhe para nunca deixar de olhar, pois tudo o que é verdadeiro é belo — e vemos Kurt manter este olhar, ao colocar na frente do horizonte da sua visão a sua mão, desfocando assim a imagem e passando a ver tudo a partir de si, da sua própria intersubjetividade.
De regresso, no autocarro, enquanto Kurt revela os seus medos infantis e Elisabeth o afaga, sentimos o desvanecimento destes seus assombros pelo enleio entre ambos, na delícia do sobrinho ao espreitar por entre a blusa da tia, o seu seio meio a descoberto. Esta cena maravilhosa, a que imagino ser próximo o impacto estético que o bebé sente na beleza do encontro com a mãe — com o seio materno — e a partir do qual nasce o desejo de conhecer o interior do outro (Meltzer), o de nunca deixar de olhar a partir de si, do seu sentir, mantém-se como pano de fundo por toda a sua vida e constitui-se na sua essência, na sua força vital.
Abre-se outra cena igualmente desconcertante. Elisabeth, na estação de autocarros, pede aos vários motoristas para buzinarem em uníssono de forma que ela, numa espécie de dança circular envolvida por este ribombar contínuo e denso, se transporte para a dimensão do sensível, do inconsciente indizível da emoção primitiva, e se encontre consigo mesma no seu âmago e na sua verdade; enquanto Kurt, a uma certa distância, circunspecto e vigilante, aprecia a magia do espectáculo.
De seguida, temos Elisabeth eleita, por toda a sua alegria e esplendor, como um produto sublime da raça ariana e destinada a entregar um ramo de flores a Hitler. E neste espinho que cada flor contém, Elisabeth, transtornada pelo encontro, transtorna-se. Desnuda, toca o piano que o sobrinho ouve enquanto desenha nus. No momento seguinte, ao sentir-se observada pelo boquiaberto Kurt, perante todo este esplendor, Elisabeth, num misto de felicidade e exaltação, vai-lhe dizendo para nunca deixar de olhar e de como descobriu a nota absoluta, a nota musical que une todas as notas, todos os sons do universo. Ainda neste estado de entusiasmo e excitação, Elisabeth levanta-se e — como prova
Membro titular da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). E-mail:
da força da sua descoberta, do que percebemos que intui da desintegração e da hemorragia humana que está prestes a chegar pela instauração do poder maléfico do nazismo — começa a bater com um cristal na cabeça, sem consciência da dor ou do momento, até Kurt lhe anunciar que está a sangrar. É a loucura, o surto psicótico, a baforada delirante como uma erupção abrupta do inconsciente, povoado por um terror inominável que não encontra outra expressão que não esta da loucura, como se enlouquecesse para não ficar louca do que intui dos tempos loucos que se seguirão.
É então, numa intensa e comovente cena, que Elisabeth é internada à força por estes impiedosos nazis; já presa e acorrentada na carrinha do hospício, capta o olhar do sobrinho, e pela última vez lhe diz, num olhar intenso e esperançoso, contrastante com o seu triste e desamparado, mas lindíssimo, sorriso, para que nunca deixe de olhar.
Surge o obstetra nazi, o Professor Seeband, prestes a implementar a medida de apuramento da raça do Führer, esterilizando ou eliminando as mulheres que transportam doença mental. Elisabeth, no hospital, mantém ainda o vigor para lutar pela sua liberdade; e na sua imensa sensibilidade, intui, a partir do desenho de criança que vê no gabinete, a complexidade da relação do médico com a sua filha. Tenta entrar na vida interior do médico, encenando um momento de relação pai-filha. Incomodado com a emoção que Elisabeth lhe provoca, a de desvendar a sua própria complexidade edipiana, relação que se abre e deslinda ao longo do filme revelando as questões do fantasma edipiano e as suas hipotéticas resoluções, condena-a como forma de condenar a sua própria emoção. Elisabeth deixa-nos para sempre, deixando connosco a intensidade penetrante deste seu inquietante olhar.
Entramos na segunda parte do filme. Passada a guerra, anos mais tarde e já adolescente, no cimo de uma árvore e ao som do vento, Kurt tem também ele uma epifania. Tal como a tia, descobre que tudo na vida se encontra ligado, que os pais não têm mais de se preocupar, pois ele tudo vai conseguir. É a identificação inconsciente a inconsciente, a identificação projectiva ao serviço da comunicação (Bion), que nos mostra a forte ligação emocional entre tia e sobrinho, a veia artística que os percorre e que os fortifica.
Kurt entra para a academia de artes e o suicídio do seu pai provoca-lhe uma intensidade emotiva que se desdobra na pintura, levando-o a aperfeiçoar a sua técnica e destacar-se entre os colegas. No entanto, a pintura é pouco livre e destina-se a servir o Estado, onde toda a subjectividade e criatividade são abolidas, ilustrando aqui o filme o estado da arte da Alemanha Oriental da década de 1950.
Conhece uma jovem e bonita estudante, cuja similaridade com o nome da tia o faz estremecer, pelo acordar de sensações antigas adormecidas. Apaixonam-se, a relação cresce e a história adensa-se. O pai de Elisabeth/Ellie é o temível Professor Seeband, embora nenhum saiba, de forma consciente, sobre o cruzamento das suas histórias. Ao aperceber-se da paixão da filha, reavivam-se no médico as questões edípicas e narcísicas, não suportando ter para sucessor do seu trono um descendente com sangue de um homem leptossómico, melancólico e filho de um suicida. Tenta impedir a relação, mas ao descobrir os inegáveis dotes artísticos de Kurt, o médico deixa-se vencer pela sua vaidade e pede-lhe para que pinte o seu retrato. No seu gabinete, naquele mesmo em que a tia Elisabeth suplicou pela sua salvação, Kurt tem umas sensações estranhas, e, num movimento de identificação com a tia, numa comunicação inconsciente que apenas passa pela emoção, procura a presença da tia em si, percorrendo a sala como ela percorreu, detendo-se nos mesmos objectos em que ela se deteve. Transporta estas comoções para a tela; e se num primeiro plano pinta um homem vaidoso e bonito, num segundo, coloca um esqueleto de olhar vivo e perscrutante, a representação inconsciente da tia. Mas tal como fez com a tia, implacável, o Professor Seeband deixa o casal estéril, de filhos, de criatividade.
Num movimento de sobrevivência psíquica, refugiam-se no Ocidente. Aqui, Kurt descobre os movimentos contemporâneos da arte e procura a sua subjectividade, o seu eu artístico. E é de novo a partir da estranheza do encontro desassossegado com o sogro maldito que se encontra em si. De volta ao seu ateliê, ao seu setting, numa baforada de vento, a mesma que o levou a ser capaz de ligar as emoções dispersas da sua alma adolescente e encontrar um sentido, a sua verdade, leva agora à projecção na tela três fotografias em simultâneo, unindo sensações e tecendo ligações, deixando Kurt estupefacto com a sua própria criação. Finalmente com acesso à totalidade da sua história, à sua narrativa inconsciente, Kurt encontra-se em si. Renascido, recupera a sua fertilidade criativa e regeneradora, transportando-a para a tela, para a vida. Vingados pelo poder da arte, tal como diz o professor de arte, na opressão do nazismo apenas a arte tem a força libertadora.
Deste filme, muito mais haveria para se dizer. Mas agora, deixemo-nos pelo silêncio que a buzina dos autocarros nos traz, para nos transcendermos e adentrarmos ainda mais em nós, tal como Kurt, tal como Elisabeth, para que nunca deixemos de olhar!