Este livro, organizado por Neyla Regina A. F. França, psicanalista com grande experiência clínica e didática da Sociedade Brasileira de Psicanálise de S. Paulo, reúne trabalhos de vários autores, psicanalistas brasileiros e portugueses, que a partir da sua experiência e reflexão profunda salientam «uma diversidade de vivências e pesquisas que ampliam as ideias iniciais de Esther Bick».
A capacidade de contenção, a construção do laço de intimidade e a importância do Método, não só na formação analítica, como também nas diferentes intervenções que ele permite abarcar, percorrem todo o livro. A primeira parte é constituída por seis capítulos e refere-se ao método, a segunda parte é constituída por quatro capítulos e refere-se às suas diversas aplicações.
No capítulo 1, Neyla Regina de Ávila Ferreira França defende e fundamenta, seguindo o pensamento de diversos autores, a importância do Método de Observação Esther Bick na formação dos psicanalistas, como aliás ao longo do livro outros autores farão. Neste artigo, descreve com pormenor e profundidade todos os passos do método e foca-se especialmente nas questões da intimidade.
No capítulo 2, Alicia Beatriz Dorado de Lisondo alude à especificidade da observação psicanalítica e, expondo o método de Bick, comenta os benefícios que todos os envolvidos podem retirar desta experiência, particularmente os de se aproximarem do «mistério da constituição da mente do bebé».
Alerta que apesar de a observação de bebés não ser um tratamento, os efeitos de presença do observador podem ser terapêuticos. Na medida em que os pais, identificando-se com o papel do observador, podem aumentar/desenvolver: «tolerância, continência, paciência, atenção qualificada, capacidade de espera, paixão, compromisso, responsabilidade com a vida mental, controle das atuações». Termina realçando que «a observação de bebés é muito criticada, quando não desprezada, sem encontrar lugar na grade curricular de muitos institutos» (p. 53), «mas quem não realizou a experiência só pode “falar” sobre ela sem saber muito bem do que está a falar».
No capítulo 3, Ana Belchior Melícias, com descrições profundas e claras, permite-nos estar em sintonia, ao transcrever e interligar sessenta observações da relação mãe-bebé, «evocando a linguagem primordial e universal que é a música».
A mãe, desde o início, mostra a «necessidade de ser acompanhada», falando da descoberta da gravidez do quarto para o quinto mês, do acompanhamento semanal no hospital e da boa evolução do bebé. As primeiras trinta sessões são vividas pela observadora com «intensas angústias e incertezas» perante uma série de «descontinuidades e ruturas»: os adiamentos do casamento, o nascimento súbito por cesariana, a ambivalência da mãe na ligação com o bebé, o desmame abrupto aos dois meses, a falta de ritmos e rotinas, a «confusão de línguas», a emigração inesperada da avó materna (9.a/10.a obs.), a depressão da mãe e o consequente afastamento do filho.
O bebé, apesar de ser resiliente, alegre e mostrar muitas competências aos três meses e meio, «expressa o seu mal-estar através de uma doença psicossomática de pele, com sucessivos diagnósticos». Surgem entraves ao desenvolvimento até aos oito meses e meio, mas a realização do casamento
Nota: esta recensão está escrita conforme o recente Acordo Ortográfico.
dos pais tem efeitos inesperados no bebé, que «faz uma surpreendente recuperação física e psíquica», e a mãe «parece resgatar a linguagem da ternura». A autora articula conjugalidade e parentalidade, na interseção da transgeracionalidade e do ritmo, como constituintes do «psiquismo» e da construção de uma verdadeira «pele psíquica».
No capítulo 4, Ana Belchior Melícias, Henriqueta Maria R. Ginja da Costa Martins e Neyla Regina de Ávila Ferreira França mostram como na gestação as trocas corporais e sensoriais entre a mãe e o bebé aprontam o caminho que permite, através de câmbios subtis, profundos e pré-verbais, edificar a intimidade, «que é um laço essencial e significativo, que acontece num espaço potencial cuja comunicação recíproca se dá intra e inter subjetivamente».
Ao longo da observação, esse «laço» entre a mãe e o bebé ocorre também na relação mãe-pai-bebé, na relação observador-família e na relação observador-grupo de seminário.
Salientam que para que a intimidade não se torne intimidadente, é necessário por parte do observador «uma fluidez, oscilação e reorganização permanente PS-D entre envolver-se e des-envolver-se, entre intimidade primária (consigo) e secundária (relacional) entre fusão e diferenciação, entre sensorialidade e aparelho para pensar».
No capítulo 5, Paulo Humberto Bianchini, Alfredo José Pasin, Geny Talberg e Maria Teresa Naylor Rocha, fundamentando-se numa longa experiência, privilegiam no Método de Observação de Esther Bick as recomendações técnicas de Freud sobre neutralidade e abstinência, com os desenvolvimentos posteriores de Laplanche e Pontalis, e com Bion, como pontos fulcrais na formação da mente psicanalítica.
Evidenciam a importância do seminário deste método, mas salientam as resistências e controvérsias na sua consolidação.
No capítulo 6, Maria Cecília Pereira da Silva acentua a importância do Método como uma experiência privilegiada de observação da construção dos vínculos iniciais e das relações de intimidade, e destaca a importância da disponibilidade e «rêverie» materna como elementos fundamentais no desenvolvimento emocional precoce.
Além da função formativa de psicanalistas, menciona estudos recentes de diferentes autores que têm descoberto como a experiência de observação de bebés pode trazer benefícios para a mãe e consequentemente para a relação mãe-bebé.
Como supervisora de seminários de observação de bebés, exemplifica, através de cinco relatos, como o olhar atento e continente das observadoras promoveu encontros emocionais e íntimos em algumas duplas, favoreceu o restabelecimento da confiança do bebé no objeto materno noutra e desenvolveu a capacidade de escuta e compreensão da comunicação não verbal nos pais.
No capítulo 7, Neyla Regina de Ávila Ferreira França e Suzana Grunspun percorrem com pormenor todas as etapas do Método Esther Bick e referenciam-no como um instrumento enriquecedor na formação dos psicanalistas e na prática clínica, «prevenindo atuações e capacitando a indagação em todas as circunstâncias».
Através de uma vinheta que relata uma primeira observação, põem em evidência os sentimentos e ansiedades evocados, e acrescentam que «A experiência emocional transformadora de identidade analítica do observador é um importante elemento no desenvolvimento das funções de um analista, além de propiciar e promover modificações mentais na dupla mãe-bebê em relação aos seus aspetos mais primitivos».
No capítulo 8, Mariângela Mendes de Almeida, Rayssa Yussif Abou Nassif, Maria Elisangela Nunes Carneiro, Beatriz Len e Cecilia Harumi Tomizuka destacam a importância de «um núcleo de atendimento psicanalítico a pais-bebés e crianças em contexto pediátrico», promovendo integrações entre o corpo e o psiquismo desde o início dos cuidados em saúde, e salientam a necessidade de intervenções psicoprofiláticas ou terapêuticas precoces.
Através de cinco vinhetas clínicas elucidativas, realçam o alcance do Método no envolvimento-desenvolvimento de todos os elementos dos diversos contextos hospitalares: enfermeiras, médicos, auxiliares de enfermagem, psicólogos e médicos em formação. As reuniões semanais proporcionam momentos de integração e de aprofundamento teórico-prático e «uma visão mais ampliada do corpo em expressão sensorial e emocional, e suas formas subtis de comunicação de sofrimento e manifestação de estados mentais».
No capítulo 9, Henriqueta Maria R. Ginja da Costa Martins refere-se à mudança nas famílias atuais, às variadas técnicas de procriação, ao aumento de bebés prematuros, sublinhando a preocupação com a desigualdade de direitos dessas crianças.
Levanta uma série de questões «que reatualizam a importância, a pertinência e o interesse» do Método. Transporta esses ensinamentos da família para a creche, reconhecendo «que a creche não é um espaço inofensivo de subjetivação, no sentido que se baseia numa separação, por vezes indesejada», no entanto, pode cumprir «uma função muito importante na subjetivação do bebé, no desenvolvimento da parentalidade, pode ser a
melhor solução para as famílias».
É neste sentido que defende a integração de psicólogos clínicos com formação analítica nas creches, visando «uma verdadeira estratégia de prevenção no berço da civilização».
No capítulo 10, Norma Lottenberg Semer descreve a observação da (não) relação da mãe com uma bebé que chega inesperadamente, sem ter sido planeado nem desejado, num casal não constituído.
Também inesperadamente, a mãe interrompe a observação, mas autoriza que prossiga na creche. A autora descreve as vicissitudes e o impacto desta mudança de ambiente aos quatro meses da bebé. Só agora Marianna tem o seu nome escrito, uma identidade, tem um lugar, rotinas e cuidados adequados às necessidades, num ambiente amistoso, acolhedor, estimulante, e aos poucos expressa a sua vitalidade e necessidade de comunicação. Se no início «era a marca da não aceitação, da falta de encantamento, agora é a menina que aprendeu a sorrir».
Realço a importância de trabalhos de investigação, como os deste livro, para a ampliação dum valioso instrumento psicanalítico de pesquisa interna-externa, e de ponte permanente entre esses dois espaços, imprescindível na construção da mente psicanalítica. E saliento que a prática do Método de Observação Esther Bick em unidades hospitalares neonatais, em intervenções pais-bebés e em creches pode ser «uma verdadeira estratégia de prevenção no berço da civilização», como refere uma das autoras.