Este artigo, que se lê com muito gosto, permitiu-nos, numa primeira leitura, revisitar com entusiasmo os primórdios da nossa formação na área da Psicanálise da Criança e do Adolescente. Durante cerca de vinte anos, Florence Guignard deslocou-se a Portugal integrada num grupo de psicanalistas europeus que muito contribuíram para a formação teórico-clínica dos analistas da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP). Esta analista de crianças, adolescentes e adultos sempre se destacou ao longo dos anos na construção de diferentes movimentos internacionais que pretendiam integrar, na formação dos analistas, a criação da psicanálise da criança e do adolescente. Desta forma, foi cofundadora da Societé Européenne pour la Psychanalise de l'Enfant et de l'Adolescent (SEPEA) e, mais tarde, presidente do comité Child and Adolescent Psychoanalytic da International Psychoanalytic Association (IPA), altura em que o programa de formação da psicanálise da criança e adolescente da Sociedade Portuguesa de Psicanálise foi aceite por esta associação. Para Florence Guignard, a investigação teórica-clínica sobre a criança e o infantil foi desde sempre um espaço privilegiado, de particular interesse para ela, como é patente através da sua produção científica.
A leitura deste artigo de Florence Guignard — «The Infantile in the Psychoanalyst at Work» — condensa, de algum modo, o seu pensamento teórico-clínico, que tem sido amplamente divulgado através de um trabalho científico notável, difundido nos seus livros e nas centenas de artigos publicados em revistas internacionais. Para esta autora, seguindo o pensamento de Freud (1909), a criança que surge ao longo do processo analítico é o resultado da construção dos primeiros anos de vida que a amnésia infantil, como resultado do recalcamento, encobriu ou deturpou. Assim, a amnésia infantil transforma a infância de cada um de nós numa espécie de época pré-histórica que oculta os primórdios da sua vida (Freud, 1909).
O artigo publicado neste número da Revista Portuguesa de Psicanálise (RPP) inscreve-se numa linha de investigação clínica que teve o seu início com a publicação do seu livro Au vif de l'infantile (1996). Este tema, de considerável interesse para a clínica psicanalítica, tem sido abordado e investigado pela autora, que nos tem mostrado a importância deste conceito na dinâmica e no desenvolvimento da relação analítica. A autora inspira-se, como assinala, e como repetidamente vem mostrando na sua vasta obra, no pensamento de Freud (1909), no qual uma das principais características do inconsciente era a sua relação com infantil — um infantil atemporal —, que nos aproxima de conceitos como pulsão, recalcamento e inconsciente. Segundo ele, «o inconsciente era o infantil e era aquela parte do self que ficara apartada dele na infância e que não participara dos estádios posteriores do seu desenvolvimento e que, em consequência, se tornara reprimido» (Freud, 1909, p. 181). Assim, através da sua investigação e sensibilidade clínica, a autora pretende fundamentalmente mostrar-nos a qualidade do impacto do infantil do analisando sobre o sistema pré-consciente e consciente do psicanalista. Neste artigo, destaca-se a relevância que tem para a clínica a qualidade do encontro dos dois inconscientes da dupla analítica com as suas consequências ao nível da representação mental. Sublinha-se, ainda, que desse encontro dos dois inconscientes — paciente e analista — podem surgir «pontos cegos», de difícil interpretação e que circulam no espaço analítico, criando obstáculos e impasses no desenvolvimento do processo terapêutico.
Neste trabalho, Florence Guignard propõe-nos de forma criativa analisar morfologicamente o conceito de infantil, substantificando este conceito e afastando-se, assim, da adjetivação proposta por Freud. Esta mudança de paradigma abre um espaço que permite ter uma nova perspetiva, de forma que se revisite o infantil como o «locus
Psicóloga Clínica e da Saúde, Psicoterapeuta e Psicanalista. Psicanalista de Crianças, Adolescentes e Adultos e Membro Titular com funções didáticas da Sociedade Portuguesa de Psicanalise (SPP) e da Associação Psicanalítica Internacional (IPA). E-mail:
psíquico» das emergências irrepresentáveis das pulsões instintivas. Assim, como a experiência do processo analítico nos mostra, o infantil, que fica nas fronteiras do inconsciente e do sistema pré-consciente, entra em contacto com o infantil do analista, contruindo um campo de relação sobre o qual deverá ser feita a interpretação. Desta forma, como anteriormente sublinhámos, constroem-se, através de dois infantis, um espaço psíquico que, no nosso ponto de vista, constituirá, pela análise da transferência e da contratransferência, o alicerce da interpretação. Como alguns analistas têm assinalado, é nesse campo potencial que a dupla analítica poderá viver a dois uma diversidade de afetos que oscilam entre sonho e o pesadelo. A este propósito, é importante destacar como a própria relação analítica contribui para a construção de um espaço e de um tempo, em constante movimento, com repercussões para a dupla analítica. Portanto, é através deste espaço psíquico entre o analisando e o analista que entramos em contacto com as experiências emocionais, resultantes da qualidade dos vínculos do encontro analítico. Neste sentido, a autora mostra-nos a importância da qualidade do espaço analítico e sublinha como o próprio aparelho psíquico do analista pode ser utilizado «como ferramenta essencial» na compreensão da especificidade desse encontro. Naturalmente, como salienta Florence Guignard, esse espaço do encontro analítico tem a sua própria organização e particularidade, tornando-se assim num campo de especial importância para análise da transferência e da contratransferência. Desta forma, o trabalho de elaboração psíquica põe em evidência, na relação do par analítico, um espaço de reorganização de novas representações do pré-consciente.
Nestas circunstâncias, torna-se importante elaborar o infantil, que surge da dinâmica do espaço psíquico, a partir de dois inconscientes, mas que, em certas circunstâncias, como encontramos na clínica, poderá ser vivido por receio da perda do objeto, de forma temporariamente paralisante. Assim, o nosso infantil, em conluio com infantil do paciente, pode influenciar a capacidade de escuta, assim como a nossa capacidade de interpretação. Estes movimentos psíquicos estão sempre ativos na dinâmica da relação e manifestam-se através da transferência por um duplo movimento que oscila, como descreve a autora, entre um funcionamento omnipotente de um ego frágil que se projeta no analista, mas que é negado pelo seu oposto. Assim, como constatamos no processo analítico de crianças, adolescentes, mas também de adultos, podem surgir pontos cegos que são reprimidos, mas que podem reaparecer na dinâmica da relação de diferentes formas: como uma excitação de difícil representação, que pode ser agida através da contratransferência ou da transferência num movimento de dupla identificação projetiva, e num ataque narcísico, por insuportabilidade de aceitar a diferenciação do espaço da relação analítica.
Este artigo de Florence Guignard, que nos convida a construir internamente um espaço criativo de reflexão e de diálogo, mostra-nos de forma muito clara a qualidade do infantil quando sublinha que é a única parte do eu que é flexível, de forma que se empreendam transformações psíquicas, resiliente, de maneira que se aprenda com a experiência, suficientemente apaixonada para se sacrificar e arrojada para enfrentar desafios impossíveis. Desta forma, mostra-nos, como analistas, que os pontos cegos que nascem da dinâmica do campo analítico fazem parte do nosso trabalho de reflexão. Esta capacidade de estar disponível internamente para poder reconhecer, através da contratransferência, os pontos cegos em relação aos nossos pacientes vai facilitar a construção de um espaço psíquico que nos permite, ao longo do processo analítico, germinar um novo pensamento criativo.