Esta é uma comovente entrevista histórica. Nessa data, Meltzer elaborava a sua novíssima teoria do conflito estético, antecipando The Apprehension of Beauty, de 1988.
João Sousa Monteiro (JSM) começa por invocar a então surpreendente afirmação de Meltzer, de que «as funções simbólicas nascem da experiência emocional da beleza do mundo».
Quanto à origem da dor mental, anuncia uma catastrófica mudança de paradigma — não decorre mais da ausência da mãe, mas, sim, da presença como um «objeto de insuportável beleza»!
A experiência emocional fundadora é a perceção da mãe como um objeto de única beleza, representando, condensando, a beleza do mundo. Sendo simultaneamente a primeira dor mental, além de instaurar o primeiro conflito (estético), coloca a posição depressiva no primeiríssimo tempo de vida (à diferença de Melanie Klein). Mas com a apreensão da beleza, vem a possibilidade da sua destruição. E Meltzer, em The Apprehension of Beauty, remete para Bion a ideia de que «o objeto presente é sentido como contendo a sombra do objeto ausente, presente como um perseguidor».
Esse primeiro objeto de «insuportável beleza» é sentido como enigmático. A entrevista não pode perseguir ainda as nuances do «impacto estético» tal como é desenvolvido posteriormente em The Apprehension of Beauty. Aí, compreendemos que o conflito é potencializado pelo enigmático interior desse objeto — que só pode ser aproximado por imaginação criativa.
Meltzer, na entrevista, faz confiança da arte e da poesia quanto à universalidade da experiência emocional primeira do impacto com a beleza, e faz uma analogia com o que se passa com a experiência da transferência no quadro analítico.
O analista em presença (com a música da voz e com o seu pensamento) também desperta emoções estéticas no paciente (e vice-versa). Mais, o próprio processo pode vir a ser sentido como um objeto estético.
Meltzer esclarece ainda o que entende por «transferência erótica real»: «uma resposta estética à beleza do objeto e o desejo de o conhecer e de ser conhecido por ele». E é a compreensão desse clima emocional «in the room» que dinamiza e proporciona uma particular riqueza criativa ao processo psicanalítico.
Mas JSM insiste: «Como é que o impacto com a beleza da mãe impele a criança à formação de símbolos? E que é um símbolo?» Parece que a natureza das experiências emocionais implica uma transformação misteriosa em símbolos, que permite que estes venham a ser pensados. O símbolo faz-se em presença, num misterioso processo de integrar o externo com o interno, o sujeito com o objeto. Os pensamentos gerados através da formação de símbolos e do sonho são usados para pensar, e Meltzer socorre-se da teoria do pensamento de Bion (inversão filosófica que coloca os pensamentos a gerar o pensar).
E mais adiante na entrevista, Meltzer refere a importância dos estudos pré-natais praticados nos seus grupos de trabalho, afirmando que o que feto representa emocionalmente do corpo da mãe está a ser transformado em música e dança, emoções precursoras de uma formação simbólica, de um proto-objeto.
A assimilação de novas ideias implica um impacto estético, equivalente à experiência da paixão («falling in love») — uma catastrófica pressão para pensar.
Mas então, porquê a nossa «básica incapacidade para pensar»? Porque é que «tão pouca gente persiste na direção do pensamento criativo»? Sim, resistimos a pensar; e Meltzer discorre que, por um lado, ainda somos muito primitivos e, por outro, a educação se faz muito no sentido tribal de adaptação e não no sentido dos valores. Não é a política, mas os valores que podem tornar a «bomba atómica impensável», e ver a arte como uma linguagem universal de sentido que condensa as representações da compreensão do nosso universo.
Psicanalista de Crianças e Adultos. Membro Titular com funções didáticas da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP), da Associação Psicanalítica Internacional (IPA) e da European Psychology Federation (EFP). E-mail:
Daí que a psicanálise só possa ser ensinada como uma arte, fora dos sistemas de organização institucional, fora da identificação de grupo.
JSM questiona Meltzer acerca do «mais interessante problema de fronteira da psicanálise contemporânea», ao que Meltzer responde, surpreendentemente, ser a capacidade de se opor à identificação ao grupo a caminho da individualidade — e afirma ser este o mais «interessante problema clínico»! Problema clínico em função da «thought disorder», que resulta da identificação maciça ao grupo, onde o pensar como que é vampirizado, impossibilitando a criatividade do pensamento.
O tom pessimista em relação ao futuro das organizações psicanalíticas é reparado por um projeto de que a psicanálise se ligue cada vez mais à filosofia, às humanidades, sendo praticada como uma arte, em pequenos grupos, onde se possa privilegiar a observação numa «perspetiva reversível» (Bion).
No fim da entrevista, o clima entre Meltzer e JSM é particularmente dinâmico — citando em complementaridade Macbeth e permitindo uma reflexão de Meltzer sobre a figura trágica de Lady Macbeth, à luz do conflito estético.
Ainda uma nota acerca da modéstia de Meltzer no fim da entrevista: «I have no theories of my own.» Um dos mais criativos pensadores pós-kleinianos deixou-nos pelo menos duas inspiradoras teorias: a teoria do claustrum e a teoria do conflito estético.