É já longo o percurso da Psicanálise em Portugal. Tive o privilégio de o acompanhar desde os primeiros tempos. Lembro a figura dos fundadores, e daqueles que deram a esta causa a sua inteligência, o seu trabalho, as suas convicções e o seu entusiasmo. É para mim gratificante reconhecer a riqueza e a atualidade de todo este trabalho, em defesa do humano e da sua originalidade, no conjunto do incessante progresso da ciência e das suas capacidades.
A Revista é fruto do trabalho e do entusiasmo dos que têm percorrido este trajeto e do seu desejo de aprofundar, difundir e partilhar a experiência psicanalítica. Considero importante ter presente que se trata de uma compreensão do homem na linha dos mais antigos documentos da cultura ocidental, sempre interrogada pelo presente da nossa experiência. É a partir dessa compreensão que se organiza o tratamento e é importante que as inovações e novas teorizações possam ser reconhecidas em continuidade com o longo percurso da humanidade.
«Não há qualquer movimento maquinal cuja causa não possamos encontrar no nosso coração se a soubermos procurar bem.» (J. J.Rousseau, Les Rêveries du Promeneur Solitaire, século XVIII) Esta afirmação mostra bem a força do passado no presente e como é importante que as inovações possam ser sentidas na continuidade da experiência passada. É a integração da própria história, o reconhecimento da força das coisas simples.
Mas Freud, como diz Antoon Vergote (1964), tenta compreender a humanidade também através do estudo de dimensões que parecem ter sido esquecidas pelos filósofos: as pulsões, os sonhos, e as doenças mentais. E aqui há um facto que me parece de grande importância. Freud era um homem de ciência europeu, brilhante. Mas a sua cultura tinha uma ascendência judaica.
Tinha uma formação de base exigente, trabalhava na investigação científica num laboratório de neurologia. Mas pensando nas ideias que lhe iam ocorrendo a propósito da dinâmica psicológica, sentiu necessidade de escrever uma obra que chamou de Projeto para uma Psicologia Científica (Entwurf Einer Psychologie). É um trabalho que, mais tarde, foi integrado na Standard Edition (Project For A Scientific Psychology), mas que ele nunca se decidiu a publicar. Parece provável que tenha pensado que os seus colegas médicos não aceitariam as suas ideias. Porquê? De qualquer modo, é um facto muito significativo.
A propósito da ascendência judaica, parece-me muito interessante relacionar alguns capítulos da Bíblia, ou seja, uma sabedoria antiga, com uma teoria moderna — a teoria psicanalítica. Coisas que a humanidade parece sempre ter sabido. Só uma referência: na narrativa dos primórdios da humanidade, é muito claro o drama da descoberta do sexo. A entrada no estado adulto é apresentada como um castigo, porque o homem quer ser igual ao pai, a saber o bem e o mal. Terá de trabalhar a terra com o suor do seu rosto.
A infância e o crescimento, a entrada no estado adulto continuam a ter a melhor atenção do trabalho do psicanalista.
Tem havido enormes progressos no saber psicanalítico, mas mantem toda a sua força a teoria e o método de tratamento, a partir da interpretação da dinâmica da relação, que se desenvolve no quadro analítico.
Psicólogo clínico e Psicanalista. Membro Titular com funções didáticas da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Psicanalítica Internacional (IPA). Presidiu à SPP em dois mandatos, entre 2010 e 2013.
O movimento psicanalítico em Portugal dificilmente poderá ser compreendido se não tivermos em consideração a sua génese histórica, emergente dos movimentos internacionais psicanalíticos que, de algum modo, contribuíram para a construção e a organização da Associação Internacional de Psicanálise (IPA), bem como da Federação Europeia de Psicanálise (FEP). Assim, os membros da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP), integrando estas duas instituições desde há sessenta anos (1961), foram construindo e partilhando com a comunidade científica — através de publicações, de conferências, de seminários, de congressos — as suas experiências e investigações teóricas e clínicas.
Para entendermos a origem desta ligação com a comunidade científica internacional, teremos de voltar ao princípio da década de 1950, onde dois médicos portugueses — Francisco Manuel Barreto Alvim e Pedro Luzes — foram trabalhar como neuropsiquiatras para Genebra. No princípio dessa década, o ambiente europeu onde se integraram era promissor e marcado pela expansão da psicanálise, para a qual muito contribuiu a presença em Genebra de Raymond de Saussure (1894–1971), assim como de outros dois analistas, Michel Gressot e Marcelle Spira, que investiram com entusiasmo no desenvolvimento da psicanálise na Suíça e na Europa. Os dois analistas portugueses viveram e participaram, com grande proximidade, neste movimento analítico e tornaram-se atores desta epopeia, uma vez que completaram toda a sua formação — análise pessoal, seminários teóricos-clínicos, prática clínica de psicanálise com supervisões — e, na sequência dessa formação, foram integrados e aceites como membros associados, e depois como membros titulares da Sociedade Psicanalítica Suíça. Mais tarde, juntou-se a eles o analista João dos Santos, que tinha feito toda a sua formação e preparação em Paris.
Como tivemos oportunidade de salientar num trabalho anterior, o centro do dinamismo intelectual em Genebra, e não só, era Raymond de Saussure, que foi presidente da Sociedade Suíça (1960–1967), foi um dos vice-presidentes da Associação Internacional de Psicanálise (1955–1961), participou na fundação da Federação Europeia de Psicanálise (FEP), foi um dos fundadores da Sociedade Psicanalítica de Paris (1926), participou na criação da Revista Francesa de Psicanálise e do Congresso de Psicanálise de Línguas Românicas (1962). É neste ambiente de construção e de procura de formas de expansão da psicanálise que, com entusiasmo e paixão, no XXI Congresso Internacional da Associação Psicanalítica, em Paris (1959), é constituído o «Grupo de Estudos» luso-espanhol. Dois anos depois, em 1961, o grupo é admitido no Congresso Internacional de Copenhaga e é aceite como uma Sociedade componente da Associação Internacional de Psicanálise. Há 60 anos, os membros componentes desta sociedade tinham ambições e sonhos, e queriam trazer e expandir a psicanálise para dentro dos seus países e construir novos grupos. Porém, era um sonho difícil de realizar, pois eram países que estavam submetidos a regimes fascistas que impediam o sonho, a construção e a expansão do pensamento. Contudo, como disse Fernando Pessoa, «o homem sonha, a obra nasce», e foi assim que, em 1967, no XXVII Congresso da Associação Psicanalítica, foi reconhecida a autonomia do Grupo Português, que foi aceite com o estatuto de independente, e que seria o germe da futura SPP. Podemos imaginar o ambiente de entusiamo, mas simultaneamente de certa apreensão, desses momentos através das palavras do psicanalista Francisco Alvim (1977), que descreve «o nosso grupo, trabalhando num meio cultural onde a imagem da psicanálise era exclusivamente um dado de erudição livresca ou de abstrata imitação, teve que trabalhar coletivamente e individualmente em condições hostis de adversa e óbvia oposição» (p. 5).
É desta forma que, em 1967, no Congresso Internacional de Copenhaga — o XXVII Congresso da IPA —, este grupo se transforma numa sociedade provisória. Mas, em 1981, no Congresso de Helsínquia, passa a sociedade componente com plenos direitos. Assim, os membros da SPP, devido ao seu estatuto de sociedade componente da IPA, passam a ser sócios desta associação. Este sentimento de pertença vai abrir um espaço de convívio, de criatividade, de discussão, de trocas de experiências clínicas e de elaborações psíquicas, como se constata através da produção científica que as diferentes revistas de psicanálise, incluindo a portuguesa, têm vindo a mostrar. Os psicanalistas portugueses integram e estão presentes, além da IPA e da FEP, nos congressos de psicanalistas de língua francesa, e implementaram e organizaram o primeiro Congresso Ibérico de Psicanálise em novembro de 1989. Desse evento científico, nasceu o Anuário Ibérico de Psicanálise, revista bianual que mostrava o pensamento psicanalítico dos analistas das três sociedades psicanalíticas da Península Ibérica.
Na realidade, a SPP é uma instituição científica que, através dos institutos de psicanálise, forma
Psicóloga Clínica e da Saúde, Psicoterapeuta e Psicanalista de Crianças, Adolescentes e Adultos. Membro Titular com funções didáticas da Sociedade Portuguesa de Psicanalise (SPP) e da Associação Psicanalítica Internacional (IPA). E-mail: mfgalexandre1908@gmail.com
e prepara novos analistas, dentro dos modelos de trabalho protagonizados e discutidos na IPA. É uma Sociedade com uma história fecunda, sob o ponto de vista internacional, mas também nacional. Na verdade, ao longo dos anos, a SPP contribuiu, através dos diferentes congressos abertos ao público, para a criação de um espaço onde o pensamento psicanalítico emerge e fertiliza. Desta forma, a experiência mostra-nos que, mesmo que já tenhamos feito uma longa caminhada, haverá sempre mais caminho a percorrer (Santo Agostinho).
(1977). Reflectindo sobre a Ética da Psicanalise. Revista Portuguesa de Psicanálise, 1, 4–17.
(1997). Cem anos de Psicanálise. ISPA Edições.
A psicanálise nasceu em Viena, no dealbar do século XX, graças ao génio de Freud. A Interpretação dos Sonhos, em 1900, e os Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, em 1905, podem ser considerados os seus textos fundadores. Tiveram uma repercussão enorme nos meios científicos, agregando críticas ferozes, mas também um interesse e uma curiosidade que levou a psicanálise aos quatro cantos da Europa e da América, nas décadas seguintes. Em Portugal, país periférico, isolado culturalmente e sob forte regime de vigilância e censura, só algumas elites médicas tinham acesso às novas ideias, levando alguns à procura dos centros psicanalíticos europeus. Foi nos meados dos anos 60 do século passado que o movimento psicanalítico se popularizou nos meios académicos e médicos portugueses, com o regresso ao país dos psiquiatras que se tinham formado em França e na Suíça.
Entretanto, em Portugal, muito por influência de João dos Santos, as ideias psicanalíticas fervilhavam subterraneamente. Jovens psiquiatras almejavam poder trabalhar, de acordo com as orientações da psicanálise, mas esse desejo aparecia ainda como transgressor. Recordo as tertúlias na Casa do Médico do Hospital Júlio de Matos, nas noites de urgência, em que, capitaneados por Coimbra de Matos, se geravam discussões intermináveis com os psiquiatras mais conservadores.
Seguindo o exemplo dos mais velhos, uma segunda e terceira gerações rumaram ao estrangeiro, fazendo aí a sua formação, enquanto os fundadores se dedicavam à prática exclusiva da psicanálise, os chamados «psicanalistas de setting», e batalhavam, no país, pelo reconhecimento oficial de uma Sociedade de Psicanálise.
A segunda geração, no seu regresso, integrou os quadros e as chefias das instituições de saúde mental e foi possível abrir os tratamentos dos pacientes e os diagnósticos das suas doenças a uma nova linha de compreensão, que tinha por base a origem psicogenética das doenças mentais, e os aspetos dinâmicos do funcionamento mental.
Com a chegada do 25 de Abril e a democratização do país, o clima mudou. Assistiu-se à implementação da psicanálise nos serviços de saúde mental e nas faculdades de psicologia, gerando um enorme fluxo de psicólogos interessados em se tornar psicanalistas.
Inicialmente formada exclusivamente por médicos, a Sociedade de Psicanálise passou a ter uma larga maioria de psicólogos. Pedro Luzes referiu, num trabalho publicado em 2006, o livro 150 Anos de Psicanálise (editado pela Fenda), que 66,66% dos psicanalistas eram psicólogos, sendo os restantes distribuídos por outras profissões, de entre os quais psiquiatras e pedopsiquiatras.
Em Lisboa, Porto e Coimbra, o movimento psicanalítico impunha-se como uma referência no âmbito académico e da saúde mental, não sem enfrentar resistências e críticas violentas.
A Sociedade Portuguesa de Psicanálise, entretanto criada, instalou-se num edifício construído em 1906, um dos primeiros exemplares arquitetónicos de Arte Nova em Lisboa, um passo decisivo para o fortalecimento da psicanálise portuguesa. Agora, havia um lugar onde os encontros, as trocas científicas e pessoais deixavam uma marca, um registo, o lugar que guardava memórias. Era (em breve noutro local) a «casa» dos psicanalistas.
A psicanálise, a partir da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, afirmou-se cientificamente e culturalmente na sociedade portuguesa e adquiriu autonomia própria na comunidade psicanalítica internacional. Tornou-se numa sociedade associada da IPA e criou, à semelhança das sociedades congéneres, os seus próprios Institutos de Psicanálise.
O ano de 1982 marcou uma viragem: apareceu a Revista Portuguesa de Psicanálise e deu-se início aos Encontros de Cultura do Porto, que têm sido uma fonte extremamente valiosa de encontro e diálogo com a comunidade cultural.
A criação do Instituto de Formação e Terapêutica Psicanalítica do Porto, em 1999, foi outra consequência importante deste florescimento da psicanálise portuguesa. Constituiu-se como um novo foco de divulgação da cultura psicanalítica,
Psiquiatra da Infância e da Adolescência. Psicanalista. Membro Titular com funções didáticas da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Psicanalítica Internacional (IPA).
facilitador da formação de psicanalistas.
No entanto, este crescimento trouxe crises internas que levaram à criação de outros grupos de psicanalistas, em dissidência com a sociedade-mãe.
Mas o mundo foi mudando. As crises económicas sucederam-se, levando a uma visão economicista dos cuidados de saúde, nomeadamente na saúde mental, e esvaziando as instituições dos psicanalistas que lá trabalhavam. O mesmo foi acontecendo nas universidades. Por outro lado, o desenvolvimento das neurociências e o aparecimento de novas terapêuticas, com soluções compactadas e aparentemente mais baratas, foram fazendo com que elas próprias se tornassem mais apelativas.
Assim, a psicanálise a nível global foi sofrendo alguma erosão, com repercussões também em Portugal.
Mas rapidamente, os psicanalistas portugueses reagiram, abrindo-se à sociedade civil, com cursos, debates, parcerias com outras associações culturais, convites para colaboração com artistas, escritores, filósofos, ao mesmo tempo que se foi enriquecendo no contacto com outros saberes.
Já o desenvolvimento acelerado da tecnologia digital imprimiu profundas mudanças nos hábitos de vida, nas mentalidades, no acesso ao conhecimento, na rapidez com que se estabelece a comunicação interpessoal, mas também na qualidade das relações.
O tempo e o espaço da psicanálise, um tempo que se quer indispensável para a elaboração, para o pensar e o sentir, um espaço necessário à experiência emocional, está em desuso. Caminha-se em direção a um tempo encurtado, um tempo «sem tempo», um espaço não partilhado, virtual, sem cheiro, não habitado. O silêncio não tem lugar, a imagem vale todos os pensamentos.
Neste contexto, e na atualidade, a psicanálise vive tempos difíceis, mas desafiantes na sua defesa e na sua essência definidora. Qual o impacto, a longo prazo, das novas tecnologias no funcionamento mental? Que perspetivas para novos desenvolvimentos de áreas psíquicas ainda desconhecidas? Como olhar a análise à distância, prática que se tem vindo a instalar em Portugal como noutros países? Várias questões, dúvidas e inquietações vão aparecendo em relação às consequências para o processo analítico desta prática, nomeadamente as implicações na especificidade psicanalítica e no alcance do método.
Esta é a tarefa que nos espera agora e no futuro.
Viena! Foi aí, chegado à mais cosmopolita cidade europeia no final do século XIX, que Sigmund aportou, filho de um pequeno (e mulherengo) negociante de lãs chamado Jacob Freud.
A passagem do século XIX para o século XX marca uma cesura que pode ser considerada expressão da crise intelectual europeia.
Freud, um neurologista que se queria escritor, atravessado pela angústia da influência de Sófocles, Shakespeare, Goethe e Dostoiévski, dá corpo a uma obra que se tornará num adquirido universal.
No seu paradigma, o Homem apresenta-se como um ser de desejo, por conseguinte, alguém cujos estímulos mais íntimos não estão sujeitos ao controlo da razão, sendo antes irracionais e inconscientes.
O Homem é um sujeito trágico, contraditório, sonhador, não eficiente.
Mas a criação psicanalítica não surge desirmanada no seu tempo. Ela é correlata e contemporânea do célebre discurso de Max Planck, proferido na Academia Prussiana de Ciências, que derrubou a conceção física do mundo que vigorava até à data, inaugurando, assim, a física quântica.
Em 1900, morre Nietzsche, e Freud, seu herdeiro, publica a sua obra maior, A Interpretação dos Sonhos.
Com Nietzsche, assistimos ao surgimento planetário do niilismo e à reavaliação dos valores, algo que já se tinha tornado num evento europeu.
No mesmo ano, publicou Georg Simmel a sua Filosofia do Dinheiro (que esteve para se chamar Psicologia do Dinheiro), um livro que, de uma forma não menos radical do que Freud, parte da atualíssima constatação de que são a dominância monetária e a estrutura própria do mundo moderno que socializam o indivíduo, e não a razão social planeada.
No contexto histórico da passagem do século, não foi por acaso que se assistiu a uma acumulação de modelos e à radicalização de um espírito que pressentiu que os tempos de um otimismo autoconsciente da razão pertenciam ao passado.
Confluem, portanto, nessa grande época a crítica moral de Nietzsche, a revolução física de Planck, a filosofia social de Simmel (na sequência de Marx) e a subversão da consciência por Freud.
Na literatura, Kafka e Karl Kraus, também eles mestres da suspeita, anunciavam um século perturbador, de crise e catástrofe.
A Psicanálise começa como uma psicopatologia — com a procura do sentido dos sonhos e a compreensão dos sintomas histéricos —, mas não fica por aí. A partir de 1905, Freud interessa-se pelo desenvolvimento do indivíduo normal.
Psicólogo clínico e Psicanalista em prática privada. Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Psicanalítica Internacional (IPA). Editor destacado no panorama literário português e divulgador de obras psicanalíticas.
A Psicanálise de Freud é a primeira psicologia do desenvolvimento, antecessora de Piaget e Wallon. Mas é, sobretudo, uma metapsicologia.
Os ensaios de Freud sobre a cultura atestam que a Psicanálise não diz respeito à cultura (no sentido alemão da palavra) a título acessório ou indireto.
Longe de ser apenas uma explicação dos resíduos do humano — dos avessos do homem —, ela mostra a sua verdadeira intenção quando, ao fazer estoirar o quadro limitado da relação terapêutica do analista com o paciente, se eleva a uma hermenêutica da cultura, e é, a este título, que se inscreve na modernidade como força angular.
Como afirma Paul Ricoeur2, a Psicanálise é um movimento da cultura, porque a interpretação que dá do homem incide de forma direta sobre a cultura no seu conjunto.
É ao interpretar o mundo que ela o muda.
Ela impõe o desaparecimento do sujeito tal como ele aparece, em primeiro lugar, a si próprio, a título de consciência.
A leitura de Freud é ao mesmo tempo a crise da filosofia do sujeito.
O cogito verdadeiro deve ser conquistado sobre os falsos cogitos que o mascaram.
Esta leitura constitui-se como aventura da reflexão emancipatória e libertadora.
Ao contrário do que afirma João Seabra Diniz, penso que a Psicanálise pouco tem que ver com a narrativa bíblica.
Freud foi um antirreligioso radical. Dedicou ao pai, é certo, o seu último romance histórico, Moisés e o Monoteísmo. Mas do judaísmo, herdou, quando muito, a leitura talmúdica. Ou ainda menos.
Portugal foi cedo psicanalítico.
Começámos com um precursor de Freud, José Custódio de Faria, e tivemos em Egas Moniz e Sobral Cid dois brilhantes divulgadores da criação freudiana no primeiro quartel do século XX. O mesmo se poderá dizer do neurologista Diogo Furtado na década de 1950.
Escritores como Fernando Pessoa, João Gaspar Simões e, posteriormente, David Mourão-Ferreira interessaram-se pelas ideias de Freud.
A institucionalização da Psicanálise em Portugal começou em 1957 com a criação da Sociedade Luso-Espanhola de Psicanálise, onde pontificaram Francisco Alvim e Pedro Luzes, e, mais tarde, João dos Santos.3 Sobre a história da nossa Sociedade, outros escreverão melhor do que eu.
As décadas de 1980 e 1990 foram entusiasmantes. Havia programas de rádio com psicanalistas, feitos por João Sousa Monteiro ou Fernando Alves.
E o jornal Expresso iniciava a sua revista com uma crónica de Carlos Amaral Dias.
Havia vozes.
E neste século? Como manter a atualidade e a permanência da «revolução psicanalítica»?
É certo que a paisagem teórica declinou depois da morte de Bion e de Lacan.
Por outro lado, o paciente atual não é já o paciente freudiano. A criança hoje não é já o pequeno Hans ou o pequeno Richard.
Será que o declínio da pregnância da Psicanálise virá da sua extrema profissionalização? Ou de um mundo pós-moderno onde o prazer e a gratificação dominam, não havendo lugar para a sublimação? Édipo ou Narciso?
Vivemos um paradoxo: quanto mais cheios estão os consultórios, mais vazia está a praça da palavra psicanalítica.
Se pensarmos na Psicanálise apenas como uma psicoterapia (de narrativas pobres como a ansiedade e o pânico), então ela escreveria já o seu ocaso, empobrecida nas cidades virtuais.
Ser psicanalista é um estilo de vida, um modo de pensar a vida.
Destarte, ele não pode ser um técnico (ou tecnocrata) do desejo, não é um funcionário da verdade ao serviço da grande indústria da interpretação.
Que fazer?
A Psicanálise deve ousar abrir com esses outros exercícios de invenção crítica, que são a filosofia, a literatura, as ciências sociais e, em última análise, a reflexão de ordem cultural e política.
Para preservar a sua essência mais própria, a Psicanálise deve repetir a sua origem.
É isso que faz, por exemplo, o The Psychoanalytic Institute of Northern California (PINC), em São Francisco.
A Psicanálise é crítica e escândalo.
Ou não será.
, Le Conflit des Interprétations. Paris: Éditions du Seuil, 1969.
, Cem anos de Psicanálise. Lisboa: Ispa, 1997.