A primeira inquirição será esta: Porque se escreve? Vou seguir Roland Barthes, um autor dileto:
Escreve-se por uma necessidade de prazer, que, como é sabido, guarda um encanto com o charme erótico;
Porque a escrita descentra a fala, o indivíduo, a persona: ela realiza um trabalho cuja origem é indiscernível;
Para pôr em prática um «dom», satisfazer uma atividade distintiva, produzir uma diferença;
Para se ser reconhecido, gratificado, amado, discutido, confirmado;
Para exercer comprometimentos ideológicos ou contraideológicos;
Para obedecer às ordens rigorosas de uma tipologia secreta;
Para satisfazer os amigos e irritar os inimigos;
Para contribuir e agitar o sistema simbólico da nossa sociedade;
Para produzir novos sentidos, novas forças, apoderar-se das coisas de maneira nova, minar e mudar a subjugação do sentido;
E, finalmente, e como resultado da multiplicidade e da contradição destas razões, para acreditar no valor superior de uma atividade, sem causalidade, sem finalidade nem generalidade, tal como é o texto em si mesmo.
Eis, pois, algumas razões para se escrever. E Tobias Alte terá ainda outras.
A segunda inquirição será esta: Que é um livro?
A reputação do livro é recente. Os antigos (referimo-nos à Antiguidade Clássica) não davam importância aos livros.
Pitágoras não escreveu voluntariamente. Ele queria que o seu pensamento sobrevivesse à sua morte física, na mente dos discípulos. Daí a expressão: O mestre disse-o.
Platão foi também um autor oral e inventou os diálogos.
Psicólogo clínico e Psicanalista em prática privada. Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Psicanalítica Internacional (IPA). Editor destacado no panorama literário português e divulgador de obras psicanalíticas.
Portanto, dir-se-ia hoje que livros são aqueles que vão mais além do que as intenções do seu autor.
E é isso que n'Os Bastidores da Verdade acontece. Este livro vai além da intenção do seu autor. E são os bons leitores que fazem os bons livros.
Que faz a escrita de um psicanalista?
Ela situa-se, afirma Pontalis, entre os que alimentam o seu pensamento — pacientes e autores — e o que emana do seu fundo próprio, entre a teoria e o fantasma, entre o saber e a ignorância.
E J.-B. Pontalis foi neste campo um mestre, tal como Donald Winnicott ou Bion.
Freud oscilou, como bem sabemos, entre ser cientista ou ser escritor. Harold Bloom diz mesmo que se a Psicanálise acabasse, Freud sobreviveria como escritor. E Freud foi profundamente influenciado por Sófocles, Shakespeare, Goethe, Schiller, Hofman, Heine, Doistoiévski, Romain Rolland, Thoman Man, Stefan Zweig.
Não deixa de ser interessante que depois de Freud alguns dos melhores psicanalistas sejam também escritores: Bion (psicanalista de Beckett), J.-B. Pontalis, Thomas Ogden, Christopher Bolas, Adam Philips, Michel Schneider.
E num plano de escrita mais perto de Tobias Alte, encontra-se o psicanalista brasileiro Alfredo Garcia-Rosa, que aos 60 anos se estreou na literatura policial com O Silêncio da Chuva e logo depois com Achados e Perdidos, vindo a ter muito sucesso com o romance Jabuti.
Encontramos também ao pé de Tobias Alte — nas suas afinidades eletivas — Salley Vickers, professora de literatura e psicanalista, de quem existe traduzido por cá o seu livro Onde 3 Estradas se Encontram – Tirésias, Freud e Édipo.
Mas este é um relato diferente do que sucedeu quando Édipo deparou com o pai no lugar onde as três estradas se encontram: a famosa encruzilhada tebaica.
Se lermos hoje Édipo Rei, ele assemelha-se ao romance policial A Ratoeira, de A. Christie.
Freud via o psicanalista como um Sherlock Holmes da mente. A sua conceção da mente assentava num modelo arqueológico, um modelo egípcio. E não num modelo fractal da mente (Bion), um modelo rizomático, índio.
Ora, este livro de Tobias Alte quer andar por este campo magnético.
Como sabemos, em psicanálise, o sintoma desempenha o papel psicopatológico do enigma do saber de si: a teoria psicanalítica é, em cada tratamento, colocação em andamento do sintoma como teoria de si desconhecida pelo sujeito.
Do ponto de vista literário, é precisamente o fracasso das nossas tentativas de abarcar o mundo dentro das nossas mentes — ou dentro das nossas ficções — que torna a nossa existência tolerável.
Por fim:
Queria pensar no título deste livro Os Bastidores da Verdade.
No prefácio, escreve-se: «descobrir a verdade através do que se esconde na construção dela mesma. Os Bastidores da Verdade é, acima de tudo, uma história sobre a verdade: a verdade do que aconteceu, mas também, a verdade do que somos, a verdade do que pensamos, sentimos, sonhamos».
E é aqui que regressamos de novo à encruzilhada tebaica. Porque como nos ensinou P. Ricoeur, há dois modos de interpretar a tragédia Édipo Rei: ou como tragédia da sexualidade infantil (Freud); ou como tragédia da verdade, não dizendo já respeito ao drama do incesto e do parricídio. Não à relação de Édipo com a esfinge, mas à relação de Édipo com o vidente, com Tirésias.
Aliás, Édipo morre porque quer saber a sua verdade — se foi adotado ou não. Por isso se dirige ao oráculo. E penso que é aqui que o presente livro se encontra com o drama do conhecimento de si. Somos seres trágicos porque não podemos saber a verdade sobre nós mesmos.
Ou, como diria de forma irónica o poeta Mário Quintana, «a verdade é uma mentira que ainda não aconteceu».
Que a saga continue.