Este número temático da Revista Portuguesa de Psicanálise, além da expectável riqueza teórica-epistemológica e científica dos artigos que o compõem, de exemplar variedade metodológica, apresenta ainda uma coerência editorial inédita, já que o keynote article original é secundado por cinco artigos que exploram os caminhos da desencriptação psíquica de narrativas neurocognitivas (i)memoráveis. O corpus editorial temático é complementado por dois artigos que especulam sobre as vias de leitura psicanalítica dos conflitos de poder sociopolítico contemporâneos, animados pela sempiterna luta entre os instintos de vida, condensados na força generativa de Eros, e os instintos destrutivos, dominados pela dispersão fragmentária de Thanatos. A curiosidade, aberta ao espanto e à inquietação iniciática, entrevista pelo diálogo entre um candidato em formação psicanalítica e um mestre na exploração psicanalítica pós-bioniana da mente psicótica, a inquietação especulativa dialógica do debate acerca das contradições mnésicas e fantasmáticas de transferência e contratransferência no diálogo terapêutico intersubjetivo do campo psicanalítico e as recensões críticas de três obras que divulgam a psicanálise aplicada à psicologia clínica, à clínica psicológica e à educação, completam o “retábulo” editorial deste número de leitura viva e entusiasmante.
Em abertura, o artigo original de Vladimir Jovi e Sverre Varvin, um distinto psicanalista norueguês, reputado estudioso e investigador internacional das diferentes dimensões teóricas e efeitos clínicos do trauma psíquico, expõe a importância da recuperação mnésica, no decurso da cura psicanalítica, da “memória gelada” de eventos traumáticos cumulativos indeléveis, cuja intensidade ansiógena extrema destruiu o “escudo protetor” e impediu a constituição de uma função psíquica terceira adaptada a um testemunho narrativo que possa fazer sentido da experiência traumática originária, em função da fragmentação psicótica transitória, ou definitiva, da capacidade de simbolização e mentalização do sujeito, particularmente evidente em situações de grave PSPT.
Pelo seu lado, a psicanalista argentina, recém-chegada à Sociedade Portuguesa de Psicanálise, Sílvia Acosta presenteia-nos com um ensaio reflexivo acerca das convergências e divergências, da continuidade-descontinuidade e da simultaneidade da relação oblíqua de sujeito, trauma e tempo no espaço-tempo da sessão psicanalítica,
que constrói-desconstrói e reconstrói, a cada momento, a identidade da práxis psicanalítica. A autora desenvolve a reflexão diacrónica com o recurso à mitologia grega, mais precisamente às figuras de Chronos, analogia da temporalidade, o tempo objetivável, mensurável e finito, de Aión, a atemporalidade inefável e extensiva do inconsciente dinâmico, o inconsciente Freudiano, e de Kairós, o tempo oportuno, o tempo da dessubjectivação, da transformação interpretativa, do escanção da palavra que desvela o significante.
Já o psicólogo e psicoterapeuta francês Mario de Vincenzo, escreve um artigo de apreciável solidez teórica e bem ancorado em muitos dos contributos mais significativos da psicanálise francesa não lacaniana ao estudo do trauma psíquico, neste caso dos restos traumáticos que, pela sua intensidade desorganizante, são vaziados do ego e ficam “cristalizados” num estado de irrepresentabilidade, já que não acedem a um registo psíquico pensável, sequer figurável, e, deste modo, se inscrevem na mente como inscrição negativa do trauma, o negativo do trauma.
Numa perspetiva diferente, embora complementar, o psicólogo clínico, docente e investigador universitário Paulo Ferrajão, autor de estudos empíricos qualitativos sobre o aftermath psíquico e psicossomático dos estados de prolongado stress pós-traumático em ex-combatentes da guerra colonial publicados em revistas internacionais de referência, alguns em coautoria com Rui Aragão Oliveira, coautora com António Esteves e Mairí Stumpf um artigo teórico-epistemológico no qual hipotetiza um modelo de dissociação estrutural terciária da personalidade de interessante heurística neuropsicológica e, que, de acordo com a tese explicativa dos autores, resulta da desorganização narrativa dismnésica em situações de trauma cumulativo severo e repetitivo.
Mas, qual é o “estado da arte” da literatura científica a propósito da eficácia da psicanálise e da psicoterapia psicodinâmica, em comparação com outras terapias psicológicas e neuropsicológicas, no tratamento dos estados de stress pós-traumático, mais particularmente quando cumprem as consignas de um diagnóstico clínico de PSPT? É este o tema do artigo teórico-empírico de Joana Becker, Rui Paixão e Manuel João Quartilho, que nos proporciona uma overview atualizada dos estudos empírico-quantitativos de avaliação do processo e dos resultados terapêuticos (process and outcome studies), de metodologia naturalística ou aleatorizada (RCT), que, a despeito das limitações avaliativas, têm implicações significativas na validação empírica e social dos tratamentos disponíveis. Os autores concluem então que, mesmo se a eficiência das psicoterapias psicodinâmicas na melhoria sintomatológica é menos favorável em relação a outras terapias, a sua efetividade, isto é a permanência da melhoria terapêutica em follow-up, é superior à das outras terapias avaliadas.
Finalmente, Rui Aragão Oliveira oferece-nos uma súmula pedagógica atualizada da intervenção psicanalítica nos estados de trauma psíquico, na qual, a partir da evolução histórico-conceptual dos contributos psicanalíticos relevantes, nos propõe a leitura compreensiva da posição atual do conhecimento clínico e terapêutico no que concerne a possibilidade de mobilização empática, e secundariamente reflexiva, de um retículo mnésico fragmentado pelo estado de extrema fragilização emocional resultante da desproteção subjetiva de um invólucro psíquico lesado pela intensidade do(s) episódio(s) traumático(s) em causa.
Numa linha epistemológica diferente, embora complementar, o psicanalista colombiano Sierra Moreno propõe-nos uma interessante digressão especulativa interdisciplinar, entre a filosofia política marxiana e a psicanálise, acerca da relação paradoxal
de rebeldia e obediência, e vice-versa, na complexa urdidura dos laços sociais na contemporaneidade social e política, com inscriptio preferencial na realidade do continente sul-americano (coextensiva, embora, à realidade de outros continentes). O seu ensaio recorre, muito em particular, à metalinguística dos quatro discursos de Lacan (o quaternário, a tetrápode), com esperável relevância da dialética cripto-capitalista dos discursos (reversos) do amo e do escravo, inspirada na fenomenologia Hegeliana, de acordo com a expansão especulativa proporcionada pela superior releitura psicanalítica proposta por Jacques-Marie Lacan.
Pelo seu lado, a mente especulativa inquieta de Emílio Salgueiro proporciona-nos o prazer da leitura de um ensaio psicanalítico de grande atualidade acerca dos caminhos controversos de Eros e de Thanatos na urdidura das crises violentas com que a humanidade se confronta, é confrontada, no âmbito dos proctated conflicts (Ricarte, 2022) que agitam o nosso viver em comum no dealbar do segundo milénio da era cristã. A dimensão filosófica da sua reflexão, escrita em atraente modo coloquial, recorre, de forma assaz interessante, à formulação pós-Kleiniana do “rasto” da dualidade persecutória-depressiva-persecutória do objeto externo que expõe o sujeito-grupo, e o grupo-sujeito, à encruzilhada da sempiterna luta dos factores destrutivos-thanáticos e construtivos-eróticos no destino do Homem contemporâneo.
A entrevista que Nuno Sousa Monteiro conduz a, em que é conduzido por, Franco de Masi expõe-nos a riqueza do pensamento heurístico deste relevante psicanalista italiano na compreensão-descoberta empática do (outro) mundo sensorial, desprovido de intuição e de capacidade simbólica, da mente psicótica, melhor na descoberta da mente de um indivíduo psicótico que, nesta abordagem ética, De Masi faz advir sujeito. Muito interessante o acento didático de De Masi no deslocamento do interesse, ético e técnico, para a investigação ao funcionamento da mente do psicanalista neste confronto com pacientes imersos num registo protomental, ou, quando muito, numa tela-b inescrutável. Em interessante formulação pós-Bioniana De Masi realça a dificuldade do analista em sonhar os sonhos não sonhados (undreamed dreams) do paciente psicótico. Ainda mais interessante nesta entrevista, quase tocante, é a forma como o candidato-entrevistador nunca perde a posição crítica do formando curioso, ao estimular a reflexão do didacta sage e esclarecido em relação às possibilidades e limites do treino psicanalítico prodigalizado nas Sociedades e Institutos da IPA (a fazer recordar, entre outras posições críticas, o pensamento de Bion, de Meltzer ou de Kernberg a este respeito).
O comentário de Sandra Oliveira à entrevista realça, de modo pertinente, os pontos mais significativos do pensamento do entrevistado, e alude, em asserção ontológica assaz curiosa, e inspirada, ao modo como temos, cada um de nós, de pensar no futuro da nossa práxis e função psicanalítica à medida que amadurecemos, que envelhecemos.
Já o Tema em Debate, de grande riqueza teórico-clínica e alcance dialógico, é brilhantemente introduzido por Emílio Salgueiro, que destaca a importância da capacidade analítica na triangulação de memória, transferência e contratransferência na sessão analítica, para discorrer, mais adiante, sobre a adaptação analógica da heurística das dimensões dialógica, recursiva e hologramática do pensamento complexo e hipercomplexo, hipotetizado por Edgar Morin, à intersubjetividade da escuta analítica e concluir com a recomendação de que os analistas leiam poesia, muita poesia!
O distinto painel de discutidores reparte-se por duas avenidas teórico-conceptuais em resposta ao propósito introdutório. Assim, M.a José Azevedo discorre acerca
da disponibilidade amorosa que subjaz à capacidade psicanalítica contratransferencial, contrabalançada, é certo, pelo eventual ódio transferencial à realidade psíquica, contrapondo, em acento Bioniano, à incompreensão transferencial a criatividade da busca da verdade implícita à capacidade analítica. Na mesma avenida construtiva, Jorge Câmara realça o lugar da linguagem interrogativa, dialogante e especulativa, na procura da verdade psíquica, linguagem-pensamento apto a discernir emoções e a desfazer equívocos psíquicos. Assaz interessante a referência alegórica ao mito de Asclépio-Esculápio a fim de aludir à indelével ferida transferencial-contratransferencial do analista-cuidador, concluindo, tal como Salgueiro, pela valorização do pensamento complexo de Morin na consideração do sujeito multifacetado, sempre desconhecido do outro si mesmo, no lugar de interrogação filosófica da psicanálise.
A avenida desconstrutiva é trilhada por Conceição Tavares de Almeida e por Roosevelt Cassorla, a primeira advogando o reconhecimento da importância do erro transferencial-contratransferencial na ética da relação analítica seja em enactment expressivo, seja em dúvidas, incertezas e perplexidades intersubjetivas, mas sempre numa equação interrogativa que estimule o trabalho do negativo. Salienta ainda, tomando emprestado, à guisa de alegoria, o título e o espírito do romance de Saramago “Todos os nomes, todos os lugares” que o analista deverá estar atento às diversas figurações, aparições e desaparições das personagens-elementos de um inconsciente dinâmico que constrói, desconstrói e reconstrói, em cada sessão e a todo o momento, a práxis psicanalítica. Já o segundo, um distinto pensador da psicanálise além de Bion, destaca a complexidade da noção de campo psicanalítico no quantum das trocas emocionais entre paciente e analista configurado pelo setting analítico. Realça, muito em particular, a importância de “sonhar a sessão analítica” numa atividade de rêverie a dois, em que o imaginário contratransferencial do analista deve substanciar a verdade emocional do momento, por mais angustiante, violento ou contraditório que esta possa ser.
As recensões críticas das três obras psicanalíticas que fecham com “chave de oiro” este número da revista valem pela poética dos prefácios exploratórios das obras lidas pelos apre-sentadores-comentadores, que, cada um à sua maneira, convidam à curiosidade da leitura-descoberta de cada uma das obras: Ana Marques Lito leu e comenta Ressurreição – o lugar do futuro e a função esperançosa do objeto de Maria José Martins de Azevedo; Bruno Caivagnac Campos Cardoso leu e comenta Psicanálise ao seu alcance: como ler e compreender Freud de Crisélia Sanromán Barral; João Mendes Ferreira leu e comenta Psicanálise em linguagem intermédia: conversas com educadores de Maria Teresa Sá.
Finalmente, e não menos importante, bem pelo contrário, uma longa palavra final de despedida sentida da nossa colega e amiga Teresa Campos, que integrou efemeramente o Conselho Editorial (CE) da Revista Portuguesa de Psicanálise (RPP) como Assistente Editorial, tarefa em que se empenhou com a generosidade que é seu apanágio, e que teria continuado se a morte não tivesse traiçoeiramente posto fim a esta aventura (e a outras aventuras) da sua vida.
Um abraço de despedida do Diretor e da(o)s colega(o)s-amiga(o)s do CE da RPP e um Até Sempre vivo e sentido.