O psicanalista Vamik Volkan hipotetiza a necessidade absoluta, reequilibradora, de ter amigos e inimigos, tanto a título pessoal, como grupal, como, até, nacional. São assim criados objectos externos e internos, depressivos ou desamparados e persecutórios, e chega-se, por esta via, à criação das áreas mentais de Eros e de Tanatos, instrumentos fundamentais na classificação da realidade. “Bodes-persecutórios e desesperados”, e “bodes animadores e exaltantes”, são assim criados e usados. São feitas reflexões sobre a pedofilia ou a corrupção, como males sociais prevalentes, e o medo de as entender, é relembrado o diálogo entre Einstein e Freud sobre a violência e a agressão e a sua inevitabilidade. Freud admite que só educação poderá minorá-las, mas não fazê-las desaparecer. O episódio bíblico de Sansão e Dalila ajuda a entender estes conceitos e, finalmente, acrescentam-se algumas considerações sobre as crises contemporâneas.
Há uns vinte anos colaborei com um grupo de estudos internacional, com a sede em Londres, chamado “Psicanalistas contra as armas nucleares”, em que se procurava entender e aprofundar as motivações, existentes tanto num plano consciente como num plano inconsciente, que estariam por detrás da defesa das armas nucleares e do provável Apocalipse a que o seu uso conduziria. Esforçávamo-nos por dar, na medida das nossas limitadas capacidades, um contributo para que tal não viesse a acontecer.
Conferência proferida na Associação de Estudos Judaicos, no Hotel Real Parque, Lisboa, em 19 de Abril de 2007.
Pedopsiquiatra e psicanalista. Professor Catedrático jubilado de Psicologia e Psicanálise. Membro Titular, com funções didáticas, da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Psicanalítica Internacional (IPA). E-mail: emilioeduardo.salgueiro@gmail.com
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O psicanalista britânico Moses Laufer, um dos animadores desse grupo, chamou, uma vez, a atenção para um livro e para um autor. O livro tinha como título “A necessidade de ter inimigos e aliados” e, como subtítulo, “Da prática clínica às relações internacionais” e o autor chamava-se Vamik Volkan , psicanalista de origem cipriota, terra dividida por ódios profundos. Volkan emigrou para os Estados Unidos e baseando-se na sua experiência clínica, no que foi aprendendo com o que vira em Chipre e com o que reflectira, inserido num grupo de estudo sobre política internacional, afirmava, nesse livro, que todos temos uma absoluta necessidade classificatória dicotómica da realidade, de amigos para um lado e de inimigos para outro, não podendo dispensar nem de ter amigos, nem de ter inimigos, mostrando-se esta dicotomia como reequilibrante, tanto a um nível pessoal, como grupal, ou nacional, como iremos percebendo no decurso desta conferência.
Este grupo de estudos contra as armas nucleares perdeu força e capacidade motivadora, num primeiro tempo, com os sucessivos acordos de desarmamento que foram sendo assinados entre os Estados Unidos e a União Soviética, num segundo tempo com a ‘débacle ‘ do mundo comunista e a fantasia, que então se viveu, de que teríamos chegado ao fim de todos os conflitos armados importantes, onde se incluiria necessariamente a abolição completa da existência e do uso de armas atómicas. Como sabemos, o futuro não se tem vindo a revelar tão risonho.
Mas vem deste período, e deste autor, o meu interesse pela compreensão de fenómenos sociais em que se insiram destrutividade e violência.
A época que estamos a atravessar é considerada de particular crispação nacional e internacional. Mas será assim tão diferente de outras épocas? Partilho convosco algumas reflexões sobre um entendimento possível deste sentimento de crise, ou de crises, contemporâneo, e sobre o papel das crises como reguladoras ‘naturais’ de um ‘metabolismo’ pessoal e social alterados. Por fim, falarei na necessidade de uma atenção sustida, para que os factores de destrutividade intrínsecos às crises possam ser contidos pelos factores de construtividade, que também nelas existem sempre, ou, transpondo para uma outra linguagem, metafórica, ou mesmo mitológica, que Tanatos não leve a melhor sobre Eros ou, pelo menos, que não o consiga durante muito tempo.
Para entendermos as raízes da violência e da destrutividade talvez se justifique irmos ao início da vida, ao bebé pequeno, às descobertas que ele vai fazendo, a pouco e pouco, do mundo e dos outros. Do intrigante que há em tudo o que o rodeia, do que o fascina e encanta, do que lhe dá bem-estar e prazer, mas também do que para ele é incompreensível ou inaceitável, por excesso ou por insuficiência, por desprazer e mal-estar, e que se exprime em dores, choro e gritos, zanga e raiva. O bebé sente que é entendido numas coisas, noutras não, descobre que tem algum poder sobre o que o rodeia e sobre quem o rodeia, mas que esse poder nem sempre é o que ele desejaria ter, nem sempre é o suficiente para o aliviar.
Começa a esboçar-se uma dupla linhagem de estados do corpo e da mente, como dois longos dentes de um garfo, a linha de Eros, ou do bem-estar e da conciliação com o mundo e com os outros, e a linha de Tanatos, ou do mal-estar, do desespero, da zanga com os outros, da ira e da destrutividade. É grande a proximidade entre os dois dentes, que têm uma mesma origem se alternam em importância relativa, se cruzam, quase se fundem um no outro, se separam, se distanciam, se reaproximam: nesta dinâmica residirá a origem da capacidade de uma distinção, que se vai tornando mais clara, entre o que é bom e o que é mau, primeiro passo para a formação dos conceitos fundadores de bem e de mal.
Neste período dramático primordial, o bebé começa, também, a distinguir o familiar do estranho, o primeiro conotado com o bem, com Eros, o segundo com o mal, com Tanatos. A construção do outro como um estranho, sentido como portador potencial do mal, na realidade, as mais das vezes apenas recipiente do mal-estar que o bebé nele deposita pelo mecanismo da identificação projectiva evacuativa, constitui um ganho psíquico importante para a criança, um recurso classificativo da sua realidade, que utilizará quando
necessitar de ‘metabolizar’ inquietações e de se reequilibrar corporal e emocionalmente. Com esta nova capacidade dinâmica o estranho também pode ser reclassificado como familiar se os mecanismos identificatórios do bebé permitirem essa maleabilidade; mas o estranho também pode transformar-se, numa evolução mais perturbada, no estrangeiro ominoso, transmutação esta onde creio que poder encontrar-se a raiz do racismo.
O bebé torna-se mais poderoso. Aumenta a sua capacidade de controlo sobre o que se passa com ele próprio e sobre o que o rodeia, mas pode sentir o poder sobre os outros ainda como insuficiente, coartado no exercício necessário de um poder pessoal, transformador da realidade. Poderá situar-se aqui, como reacção, a raiz primária do autoritarismo, talvez mesmo, a do nascimento das posições e atitudes ditatoriais.
É logo nos bebés que o amor pelos outros alternará com o ódio, a preocupação pelos outros e pelo que de mal se lhes possa ter feito e a descoberta da culpa reparadora, alternará com o desprezo, o sentir-se disponível para os outros, alternará com a vontade de os afastar, diminuir, mesmo destruir.
O bebé primeiro, depois a criança e o adolescente, por fim, o adulto, de acordo com o que tiverem sido as vicissitudes do seu crescimento e do seu amadurecimento, alternarão, assim, entre sentimentos fundadores tanto depressivos, como persecutórios – entre o fiz-lhe mal, não me pode amar, e o quer mal, só o posso odiar – intercalados por períodos curtos de eutimia, ou de passagem quase neutral entre uns e outros. Os sentimentos depressivos, os persecutórios e a eutimia constituirão os tijolos básicos na construção do equilíbrio emocional do próprio e do seu grupo, com a culpa como regulador decisivo. Há, ainda, que considerar a curiosidade e o desejo de apropriação, como grandes propulsores pessoais.
Dos bebés, passemos aos crescidos. Procuremos fazer, agora, uma reflexão sobre os momentos de crise adulta e sobre o papel das inquietações persecutórias e depressivas, não só no seu desencadeamento, mas também na sua resolução e na recuperação de um equilíbrio pessoal e grupal.
Toda a situação de crise grave, provoca um primeiro momento de sideração e de confusão, momento insuportável de angústia que não pode durar muito tempo. Procura sair-se desta situação pela construção impulsiva de uma bifurcação primordial entre as boas e as más qualidades do que a causou, ou de quem se supõe que causou a crise, criando-se o que aparentam ser dois ‘objectos externos’: um ‘objecto externo’ perseguidor e um ‘objecto externo’ depressivo, ou desamparado, com pesos e funções específicas. O termo objecto é aqui utilizado, num sentido psicanalítico, como o oposto do sujeito.
O ‘objecto externo’ perseguidor é eleito/construído sobretudo através dos ‘mecanismos de defesa’ psíquicos designados projecção e identificação projectiva evacuativa, com expulsão de dentro do próprio para dentro desse outro, de todos os aspectos desse próprio considerados como profundamente inaceitáveis.
Na construção desse ‘objecto externo’ perigoso, podem participar, ainda, processos identificatórios introjetivos e, até, adesivos, isto é, de apropriação de qualidades de personagens de força e de exemplo de intolerância, que sirvam como guias, como aliados e protectores, no processo de ‘cruzada’ contra o eleito ‘infiel’, assim lhe reforçando as características persecutórias.
O próprio fica, aparentemente, purificado e fortalecido, e o outro, o apontado, o inimigo designado, torna-se ‘pária’, contaminado, enegrecido, sem valor ou com valor negativo.
Quanto ao outro ‘objecto externo’, o outro ramo da bifurcação inicial, que designei depressivo ou desamparado, e cuja eleição/construção acompanha a do ‘objecto’ perseguidor, sê-lo-á, também, através dos mecanismos psíquicos defensivos' da projecção e da identificação projectiva. Mas aqui por um processo de atribuição, de entrega e de dádiva a esse outro, dos melhores aspectos dos ‘objectos’ internos pessoais ou grupais, isto é, do que de mais íntimo e valioso possuam, das suas facetas mais capazes de admiração, de gratidão e de esperança.
Também, aqui, surgem processos identificatórios introjectivos a personagens de exemplo, afirmadas mais pela força da razão e da sensibilidade, do que pela razão da força. O ‘objecto externo’ desamparado pode, numa primeira fase, ser sentido como mais vulnerável do que o ‘objecto externo’ perseguidor, mas conseguirá, paradoxalmente, vir a tornar-se mais forte do que ele.
Quer a construção do objecto persecutório, quer a construção do objecto depressivo implicam, também, a utilização de processos de idealização ou de superlativação, negativa no primeiro caso, positiva no segundo.
Instala-se um pensamento dicotómico exacerbado, em todo o seu esplendor. Exemplos, a nível dos grupos: os maus políticos, os perseguidores, e os bons políticos, os desamparados; a má “função pública” e a boa “iniciativa privada”; os maus capitalistas e os bons trabalhadores; os maus americanos e os bons europeus. Estas clivagens, que têm sempre uma conotação ética indignada de escolha evidente do bem e de recusa do mal, podem transformar-se exactamente no seu inverso, dependendo do impulso classificatório dominante no momento.
O grau de equilíbrio ou de desequilíbrio dinâmico conseguido entre as projecções persecutórias e as projecções depressivas, determinará o resultado final do período de crise: ou uma saída saudável, reconciliada, reequilibrada, ou uma saída doentia, uma pseudo-saída de ruminação crónica de destruição do “inimigo” e de inocentação do “amigo”, inocência onde, em princípio, o próprio se incluiu.
Eros e Tanatos mostram aqui, à luz do sol, os seus rostos bem conhecidos e o combate interminável que os une.
Nas crises sociais e políticas complexas, como as que estamos atravessando, momentos persecutórios e momentos depressivos procuram, alternadamente, tomar a ribalta, terminando cada representação com vitórias efémeras, umas vezes de Eros, outras de Tanatos.
Uma nova peça, com os mesmos personagens, embora possam aparentar ser outros, já está nos bastidores à espera do toque da campainha de entrada.
Não podemos, no entanto, esquecer que Eros e Tanatos são as duas faces de uma mesma moeda, tal como as inquietações depressivas e persecutórias são irmãs siamesas, inseparáveis, qualquer uma delas necessitando da outra para sobreviver, para adquirir pujança, contraste e relevância.
Encontra-se, aqui, um aspecto do que Edgar Morin (2001, in Green, 2002) designa por pensamento hipercomplexo, nomeadamente o seu instrumento dialógico, isto é, em que duas lógicas, ou duas entidades, ou instâncias, são complementares, mas, também, simultaneamente concorrentes e antagonistas, permanecendo um estado de tensão entre elas, sem que isso as leve a transformarem-se numa unidade de ordem superior: a contradição existe para ficar.
Voltaire (1756), no seu “Poema sobre O Desastre de Lisboa”, reflecte sobre a enormidade das consequências sobre os homens, as mulheres e as crianças de Lisboa, tanto sobre os bons como sobre os maus, do terramoto de 1755. Diz, a dada altura:
Elementos, animais, humanos, tudo está em guerra.Há que reconhecê-lo, o mal está sobre a terra:Seu princípio secreto não nos é de todo conhecido.Do autor de todo o bem, terá o mal decorrido?Será o negro Tifão, o bárbaro Arimane,Cuja lei tirânica a sofrer nos condena?Tais monstros odiosos meu espírito não incorporaDeles o mundo tremente fez deuses outrora.Mas como conceber um Deus, a bondade mesma,Que prodigalizasse seus bens aos filhos que amaE sobre eles lançasse os males em torrente?Que visão penetraria os recessos de sua mente?Do ser perfeito não poderia o mal ganhar teor;Porém ele não vem de outrem, pois só Deus é o senhor;Ele existe, contudo. Ö tristes verdades!Ö mistura espantosa de contrariedades!
Lisboa, e mesmo a Europa, ficaram num estado de grande vulnerabilidade, sujeitas a um sentimento de serem só objectos e sujeitos desamparados, mesmo hiper-desamparados, como as populações da Ásia perante o tsunami, sem poderem acusar ninguém dessas catástrofes. Entre nós,
um dos grandes méritos do Marquês do Pombal foi o ter ajudado a construir um objecto persecutório credível, o caos e a destruição e as ‘forças da natureza’, contra as quais virou as forças reconstrutivas do país, que ajudaram a reequilibrar o anel recursivo depressão / paranoia.
Aqui encontramos outro aspecto do pensamento hipercomplexo de Edgar Morin (2001), o aspecto recursivo, em que se constitui um anel, em que as causas produzem efeitos que se reflectem sobre as causas, numa circularidade de difícil, quase impossível, destrinça quanto ao seu início.
Inimigo é quem nos faz sentir insuportavelmente vulneráveis quer num plano pessoal, quer num plano grupal.
Os grupos e as instituições grupais podem constituir-se como barragens protectoras poderosas contra as inquietações persecutórias e depressivas (Elliot Jacques, 1955). Mas estes grupos e instituições podem, num segundo tempo, fomentar as próprias angústias que se propunham neutralizar, numa circularidade recursiva maligna: podemos aqui entrever um exemplo de outra característica do pensamento hipercomplexo (Edgar Morin, 2001), que é a faceta hologramática, em que, simultaneamente, o todo, neste caso a instituição, contém uma parte, as inquietações persecutórias e depressivas, para a própria parte acabar por conter, ou se apoderar, do todo.
Grupos e instituições podem, assim, gerar climas insurrecionais ou de pré-guerra, como forma de rejeição absoluta, com expulsão dessas angústias, que só esperam uma “chispa”. Recordemos, por exemplo, as rebeliões dentro das grandes penitenciárias, as revoltas contra as ditaduras, a ‘guerrilha urbana’ incendiária, os atentados fratricidas no Iraque, que continuam, tragicamente, a fazer parte do nosso dia-a-dia.
A eleição/construção/consolidação do “bode expiatório”, o objecto externo a combater deriva, pois, de todo um processo complexo, e constitui um momento decisivo, fundador, na procura de um alívio para as inquietações persecutórias: num tom leve, o Futebol Clube do Porto é o inimigo, ou o Benfica é o inimigo; o P.S. é o inimigo, ou o P.S.D. é o inimigo; num tom muito mais sério, os árabes são o inimigo ou os judeus são o inimigo.
Esta necessidade classificatória “normal” constitui, no entanto, a base em que pode assentar, quando se reúnem as condições propícias, a mutação para o “bode-expiatório – a - destruir”.
A consolidação do “bode expiatório - a - destruir”, dá-se pela convergência de diversas correntes elementares, conscientes e inconscientes, que acabam por formar uma grande torrente imparável, onde a psicopatologia pessoal e grupal encontram condições favoráveis ao seu florescimento: esta consolidação, que permite um apontar de dedo acusatório, acompanha-se de um empobrecimento e de um estreitamento do campo do pensamento, com regresso a uma causalidade linear, unívoca, “mecanicista”, militantemente simplificadora, ela própria persecutória para quem a usa.
“É tudo por causa do petróleo!” ou “Os políticos são todos iguais, são todos uns corruptos”, são explicações lançadas aos ventos, acompanhadas por sorrisos escarninhos, cínicos, de superioridade evidente, como se tivesse acabado de ser descoberto o segredo da “pedra filosofal”, com a inocentação de quem proferiu essas “máximas”!…
Quem não é claramente contra o “bode expiatório” é porque é a favor dele e fica incluído no inimigo a destruir. O grande inquisidor faz a sua aparição.
A partir deste momento, mutativo ou transfigurador, a realidade sofre uma distorção interpretativa estrutural, por vezes um verdadeiro delírio interpretativo, que, para adquirir entendimento e sentido, necessita, por sua vez, de ser interpretado. O objecto depressivo, ou “desamparado”, deixou de ter força, quase desapareceu, a crise perdeu maleabilidade transformadora, arrisca-se a enquistar.
O bom “bode expiatório” ou é todo-poderoso ou é muito fraco, mais frequentemente do
primeiro tipo a fim de que possa desempenhar adequadamente as suas funções de “para-raios” para sentimentos insuportáveis de admiração invejosa, de raiva e de ciúme, de ofensa e de humilhação, de vergonha pela fraqueza própria, ou pela fraqueza do outro, ou de culpabilidade pela intensidade desses sentimentos. Todo este emaranhado, como resultado final, conduz então a um sentimento de necessidade, até de mérito, na destruição do outro, mesmo que isso possa implicar a destruição do próprio, como a psicanalista Hanna Segal (1997) nos chamou a atenção, em relação ao uso sempre possível das armas atómicas.
O “bode-expiatório” fraco, eleito por uma necessidade de destruir a fraqueza própria, “despejada” ou intuída no escolhido, ficando o “executante” a sentir-se mais forte e completo depois da violência, é o que se observa nos abusos e maus-tratos a crianças, talvez também nos “serial-killers” de mulheres.
Surge, ainda, uma terceira modalidade, a da destruição de um “bode-expiatório” sentido como forte, mas que se encontra numa situação de fraqueza, cedendo-se ao impulso contido na expressão popular “dá-lhe agora que está de costas”, como parece acontecer nos massacres em escolas americanas, com a matança de indefesos anónimos, sentidos como indivíduos com privilégios insuportáveis dentro da instituição, dentro da família, dentro da sociedade.
A história de Sansão e Dalila, do Velho Testamento, constitui um paradigma adequado para o entendimento destas sequências mortíferas.
Havia em Israel um homem chamado Manué, cuja mulher era estéril. Um dia aparece à mulher o Anjo de Iahweh, que lhe anuncia: “Tu és estéril e não tiveste filhos, mas conceberás e darás à luz um filho”…“Sobre a sua cabeça não passará navalha, porque o menino será nazireu3 de Deus desde o ventre de sua mãe. Ele começará a salvar Israel das mãos dos filisteus.”
Havia quarenta anos que Israel era dominada pelos filisteus; no entanto, chegado a homem, este filho, de nome Sansão, sente-se atraído por uma filha dos filisteus e com ela quer casar. Os pais mostram-se desagradados com a escolha do filho, por ignorarem que, por detrás da sua inclinação e decisão, estava um desígnio de Iahweh, que “buscava um desentendimento com os filisteus”.
Com efeito, Sansão vai tendo uma série de conflitos graves com os filisteus, em que mostra a sua força prodigiosa, que surge quando o espírito de Iahweh cai sobre ele: mata trinta convidados da sua boda, incendeia as searas dos filisteus e arrasa e massacra quem se lhe quer opor, e, com uma queixada de jumento, abate mil homens, sempre filisteus…
As mulheres que Sansão escolhe – e é sempre entre os filisteus que o faz – acabam por se mostrar pérfidas, e é essa perfídia que desencadeia ou reforça a sua ira contra os filisteus, que, naturalmente, o consideram seu inimigo e tramam influenciá-las contra ele.
Sansão apaixona-se por uma mulher chamada Dalila. “Os príncipes dos filisteus foram procurá-la e disseram-lhe: ”Seduze-o e descobre de onde vem a sua grande força, e com que meio poderíamos dominá-lo e amarrá-lo para então o prendermos. Cada um de nós te dará mil e cem siclos de prata“.
Dalila disse a Sansão: “Conta-me, eu te rogo, de onde vem a tua grande força e com o que seria preciso amarrar-te para que fosses dominado'”.
Por três vezes Dalila procura obter o segredo, por três vezes Sansão a ilude com as respostas que lhe dá, por três vezes os filisteus o atacam convencidos de que o sucesso lhes sorrirá, por três vezes Sansão os destrói.
À quarta tentativa: «Como todos os dias ela o importunasse com as suas palavras e o fatigasse, ele se angustiou até à morte. Então lhe abriu todo o seu coração: “A navalha jamais passou pela minha cabeça”, disse-lhe ele, “porque sou nazireu de Deus desde o seio da minha mãe. Se me cortarem os cabelos, a minha força se retirará de mim, perderei meu vigor e me tornarei um homem como qualquer outro”.
Sansão não sabia que Iahweh se tinha retirado dele por ter revelado o seu segredo, e que, por isso, ficara sem força quando lhe cortaram os cabelos, enquanto dormia sobre os joelhos
NAZIREU - Hebreu que se consagrava ao sacerdócio, conquanto não fosse da tribo de Levi.| Hebreu que fazia o voto de não cortar o cabelo nem beber vinho. (António de Morais Silva, Novo dicionário compacto da língua portuguesa, Matosinhos: QuidNovi, ).
de Dalila: “Os filisteus o agarraram, vazaram-lhe os olhos e o levaram a Gaza, onde o encadearam com uma dupla cadeia de bronze, e girava a mó no cárcere”.
Sansão fica mergulhado num estado de desespero, mas, ao fim de algum tempo, os cabelos começaram a crescer. Os filisteus, entretanto, preparavam-se para oferecer Sansão em grande sacrifício ao seu deus, Dagon.
Trouxeram Sansão para uma sala, onde se encontrava reunido um grande número de filisteus: “Fizeram, pois, que viesse Sansão do cárcere, e ele os divertia; depois o colocaram de pé entre as colunas. Sansão disse ao moço que o conduzia pela mão: ”Guia-me e faze-me tocar as colunas sobre as quais se sustenta o edifício, para que eu me encoste nelas“. Ora, a casa estava repleta de homens e de mulheres. Estavam lá todos os príncipes dos filisteus e, no terraço, havia três mil, entre homens e mulheres, que observavam as brincadeiras de Sansão. Sansão invocou a Iahweh e exclamou: ”Senhor Iahweh, eu te suplico, vem em meu auxílio; dá-me forças ainda esta vez, ó Deus, para que, de um só golpe, eu me livre dos filisteus por causa dos meus dois olhos“. E Sansão tocou as duas colunas centrais do edifício sobre as quais este se sustentava, e se apoiou nelas, numa com o braço direito e na outra com o braço esquerdo, e disse: ‘Morra eu com os filisteus‘. Ele empurrou com todas as suas forças, e o edifício desmoronou sobre os príncipes e sobre todo o povo que ali se encontrava. Aqueles que ele fez morrer com a sua morte foram em maior número do que aqueles que fez morrer durante a sua vida.”
(Bíblia de Jerusalém, 1995, “Juízes” 12-16, pp. 398-404).
Sansão, filho muito especial desde o ventre de sua mãe, designado por Iahweh para grandes feitos, sente-se possuidor de uma força sobrenatural.
Os israelitas estão subjugados pelos filisteus há quarenta anos, e Sansão tem como missão divina começar a salvar Israel das mãos dos opressores. Assim, desde o início, os filisteus são oferecidos como o objecto externo perseguidor.
Sansão escolhe sempre as suas mulheres, objectos externos desamparados, no seio dos filisteus: mandato exogâmico, competição deslocada com o pai – a trama edipiana subjacente, começa a transparecer.
A perfídia feminina, as mulheres que sucessivamente o traem, a cupidez dessas mulheres pelo dinheiro, revelam, sobretudo, a insegurança de Sansão, o seu fantasma inconsciente de que há sempre um outro homem, invencível, a quem essas mulheres amam e a quem são verdadeiramente fiéis.
A persistência de Sansão nessa competição transgressiva com o imago paterno, arrasta-o para o castigo que o Édipo infligira a si próprio, o vazar dos olhos.
Após a punição irreversível, Sansão reflecte sobre a sua situação, procura reconciliar-se com Deus-Pai, e decide levar até ao fim o seu mandato de destruir filisteus. O objecto–externo–perseguidor–que–urge-destruir consolida-se pelo apelo à misericórdia divina, e concede-lhe, de novo, a mercê da força: sentindo-se perdoado por Deus-Pai, Sansão assume tornar-se um vingador-suicida-por-amor-a-Deus, verdadeiro kamikaze japonês, ou homem-bomba palestiniano, iraquiano, afegão ou marroquino.
O castigo dos fortes e dos poderosos induz um estado de exultação, um alívio do sentimento insuportável de perseguição interna, que a impunidade ofensiva dos “culpados designados” produzia.
Assim se entende a emergência, em certos momentos, de manifestações da chamada “justiça popular”, quando a “outra justiça”, a pessoal, a grupal, a nacional ou, mesmo, a internacional, for sentida como insuficiente ou ausente.
Deste poderoso “caldo de cultura” podem emergir, em tom menor, a turbamulta popular, de que são exemplo as ‘claques’ de futebol exaltadas, em tom maior, os grupos de linchamento que se formam à porta dos tribunais ou das esquadras de polícia e, em tom máximo, as guerras civis genocidas, como na Bósnia e no Ruanda.
No entanto, as manifestações pela paz de há poucos anos, contra a guerra no Iraque, aparentemente
em movimento de reforço do objecto externo desamparado, tiveram, na realidade, como função principal, proporcionar, aos que nelas participaram, um sentimento de estarem do lado do bem, de serem os escolhidos, de ficarem desprovidos de agressividade ou de violência, de se tornarem, no fundo, o verdadeiro objecto externo desamparado, de readquirirem um estado de graça ou de inocência primordial, à custa do repúdio do Grande Satã, a América, transformada num gigantesco objecto externo perseguidor.
Creio que uma das raízes mais fortes do momento crítico que atravessamos, caracterizado por um sentimento de vulnerabilidade e de desorientação pessoal, grupal, nacional e internacional, teve a sua origem no 11 de Setembro de 2001, em Nova Iorque, e nas insuportáveis inquietações persecutórias e depressivas que em todos instilou, de um modo brutal e duradoiro.
É que, com este acontecimento, foi gravemente lesado o sentimento de haver um invólucro protector e contentor societário, nacional, eficaz para amortecer ou não deixar crescer, as inevitáveis inquietações persecutórias e depressivas, derivadas das crises sociais correntes do dia-a-dia.
Ficaram a nu os invólucros protectores mais interiores, o grupal e o individual, sentidos como insuficientes perante tão grande ameaça, e, por isso, desencadeou-se a cascata regressiva construtora de “bodes expiatórios”, neste caso o Afeganistão e o Iraque, com cuja invasão se pretendeu reparar os rasgões do invólucro protector mais exterior.
Mesmo o apontar a dedo, actual, na nossa Sociedade, dos presumíveis pedófilos e dos presumíveis corruptos, surge como uma “pseudo-saída” para esta crise contemporânea: “Cá estão os poderosos com os seus vícios ocultos! Finalmente, vamos poder vingar-nos!”
“Valha-nos a justiça!”, apela-se à instância social tradicionalmente acreditada como neutral e cega, isto é, que é suposta não sofrer a influência dos acontecimentos inquietantes que nos rodeiam, como se os/as juízes que a compõem não fossem homens e mulheres inquietos como os outros.
O poder judicial e a sua componente policial são chamados a colmatar indignação popular, melhor dizendo, a aliviar as inquietações persecutórias e depressivas que lhe subjazem, descobrindo e punindo os culpados.
Este deslocamento das inquietações de um mundo globalmente sentido como pouco seguro e demasiadamente complicado, para as preocupações internas de um Estado-Nação, a cujas “autoridades” se exige este ritual de purificação, facilita a aparição de “falsos-culpados”.
Não é necessário pensar em “cabalas”, para se encontrar um entendimento para o que se passa à nossa volta, a partir desta exigência societária de que o Estado e a Justiça apresentem uma “folha-de-serviço” aliviadora das inquietações que perpassam a nossa mente.
O estado, o governo, a justiça e, ainda, a comunicação social, são formados por pessoas imersas no mesmo “caldo-de-inquietação” em que todos estamos mergulhados.
Todos estamos, de algum modo, desejosos de encontrar os culpados e de nos sentirmos inocentes, e os falsos-reconhecimentos derivados de notoriedades mediáticas que podem conduzir a “autos-da-fé”, ocorrem quase naturalmente.
Ao castigar pedófilos e corruptos, ou a quem se procura fazer vestir essa “pele”, não se produz necessariamente justiça reparadora, antes o alívio temporário para as inquietações subjacentes à consciência da vulnerabilidade à destruição.
Os pedófilos são os destruidores da credulidade e da inocência infantis, como os corruptos são os destruidores da credulidade e da inocência adultas: os tempos parecem estar mais propícios para turbas ululantes exigindo “autos-da-fé” dos culpados ou dos falsos-culpados, do que para os esforços de todos e de cada um de nós para proceder a uma análise interpretativa e serena da realidade, bem mais complexa, que nos circunda.
A mente acaba por se sentir forçada a um movimento regressivo, a uma procura de retorno à causalidade linear, “mecanicista”, a uma procura de destruição do pensamento complexo e hipercomplexo,
através de ataques ao pensamento que procuram separar o inseparável, como seja a ligação “dialógica” de Eros e de Tanatos.
Procura-se, assim, com a espada flamejante da Justiça, separar cegamente os puros dos impuros, os inocentes dos culpados, os que merecem a vida dos que merecem a morte.
O retorno a este pensamento dicotómico feroz, derivado remotamente do sentimento de “ofensa social grave”, acaba por exigir vingança sangrenta.
Aqui e ali, ouve-se dizer, quase como declaração de princípios: “Confio na Justiça!”, tendo subjacente a ideia da confiança cega no seu funcionamento, que justificaria, de um modo axiomático, uma entrega desarmada nos seus braços.
Na realidade, o que se deveria pensar e dizer, seria qualquer coisa como: “A Justiça, mesmo com toda a sua eventual boa vontade, está, ela própria, imersa na crise contemporânea, com tanta necessidade de análise da sua própria estrutura e dos seus mecanismos de funcionamento, conscientes e inconscientes, e de ajuda, como qualquer outro protagonista social”.
Sigmund Freud, na carta que dirigiu a Albert Einstein em setembro de 1932 (Freud/Einstein correspondence, 1932), procura responder à pergunta: “Há alguma maneira de libertar a humanidade da ameaça da guerra?”, questão que, sob os auspícios da Liga das Nações, Einstein lhe propusera.
Freud afirma colocar-se na posição de um observador psicológico, que pode expor um ponto de vista sem necessariamente possuir uma solução para o problema.
Continua Freud, que, tal como acontece no reino animal, desde o início da espécie humana, os conflitos de interesse entre os homens foram sendo resolvidos pelo recurso à violência, à força bruta: além do mais, matar um inimigo satisfazia, também, uma inclinação instintiva.
A vitória pela força muscular foi substituída pelo domínio possibilitado pela posse de armas e, depois, pela superioridade intelectual que permite fabricar as melhores armas.
A afirmação do poder sem limites do mais forte, só poderia encontrar uma oposição válida na união de vontades dos mais fracos, que conseguiriam, assim, chegar à construção e à imposição da lei – “L'union fait la force”, como diz Freud –, mas esta maioria “legalista” tem de ser duradoura e manter-se estável.
A lei necessita de uma autoridade que a faça cumprir, e o reconhecimento progressivo de que há uma comunidade de interesses que, deste modo, ficam mais bem protegidos, cria laços emocionais fortes entre os membros do grupo. No entanto, desde início, a comunidade é formada por membros de força desigual, e as leis começam por ser feitas para defender os interesses dos mais poderosos.
A partir daí, duas tendências opostas se esboçam: por um lado, a procura, pelos membros dominantes, de se colocarem acima da lei, por outro lado, o esforço feito pelos oprimidos sociais, de obterem mais poder e conseguirem, dessa forma, a aproximação a uma justiça igual para todos.
O reequilíbrio social pretendido ora é conseguido por meios pacíficos, ora, como acontece mais frequentemente, por rebeliões, que podem chegar à guerra civil.
Sublinha Freud, que a história da raça humana mostra uma série infinita de conflitos entre comunidades e, mesmo, dentro de comunidades, quase sempre resolvidos pelo recurso à força.
Certas guerras nada trouxeram que não fosse o mal, outras contribuíram para a transformação da violência em lei: algumas revelaram-se meios apropriados para se chegar a uma paz aceitável, duradoura, como a “Pax Romana”. No entanto, a paz mostrou-se quase sempre precária, temporária, e as guerras foram-se sucedendo, interminavelmente.
Freud afirma que a prevenção das guerras só seria possível se houvesse acordo entre as nações para a instituição de uma autoridade central, suprema, com um poder real aceite por todos os membros, o que não tinha ainda sido conseguido, porque emergiam sempre conflitos de interesses insanáveis, que faziam falhar todas as tentativas de substituição duradoura do uso da força pela força das ideias.
E, continua Freud, o entusiasmo pela guerra é fácil de entender, se dermos conta do peso que têm, em todos nós, os instintos mobilizados pelo ódio e pela destruição.
Recorda Freud, que somos portadores de dois tipos de instintos, aqueles que estão ligados à preservação e à união, ou a Eros, e os que procuram separar, destruir e matar, inspirados em Tanatos.
Nenhum destes tipos de instinto é menos essencial do que o outro, pois que não podem actuar isolados, só em ligação, sendo que cada um deles é acompanhado por uma certa quota-parte do outro, para que possa chegar ao objectivo pretendido.
No assentimento à guerra há sempre uma multiplicidade de razões, umas nobres e outras mesquinhas e vis, umas defendidas abertamente, outras mantidas em segredo, algumas conscientes outras inconscientes.
Freud acentua que não vale a pena tentar deitar fora as inclinações agressivas dos homens, o que pode ser feito, é tentar desviá-las do seu alvo, de modo a que não necessitem de se exprimir pela guerra.
Com essa finalidade, recorrer-se-á a métodos indirectos de combater a guerra, pela procura de um reforço de Eros, através de tudo o que o que possa encorajar o crescimento dos laços emocionais entre os homens.
Freud afirma que a educação talvez possa, lentamente, vir a ajudar formar um estrato social superior de mentes independentes, capazes de procurarem a verdade e o bem-comum sem se deixarem intimidar, e de conduzirem a bem os estratos sociais inferiores no caminho para a paz: Freud reconhece, no entanto, que a utopia ronda de perto estas ideias…
De qualquer modo, nem todas as guerras são condenáveis em grau igual e algumas são mesmo necessárias, e só muito lentamente o processo civilizacional virá a dar frutos, no sentido de as tornar ainda mais desnecessárias.
Freud diz ter, no entanto, não só um repúdio intelectual e emocional à guerra, como, ainda, uma intolerância constitucional: todos os homens têm direito à vida e a uma vida esperançosa, têm direito a não terem de sujeitar-se a humilhações, a não terem de matar os outros homens, a não terem de destruir os objectos materiais preciosos que constituem património da humanidade, e, ainda, a não terem de se submeter ao rebaixamento estético que a guerra impõe.
Freud termina dizendo ter esperança de que tanto a atitude cultural e o amadurecimento civilizacional, como o entendimento das consequências previsíveis de uma futura guerra, possam conduzir ao seu evitamento.
Esta carta-resposta de Freud a Einstein, é datada de 6 de Setembro de 1932, e a entrada que Freud faz no seu ‘Diário: 1929-1939‘, para esse mesmo dia, regista as palavras “Terminada a discussão com Einstein”.
O tom da carta não aparentaria ser propriamente o de uma discussão. Parece ter havido, sim, uma vontade de Freud, meio a contragosto, em amenizar o que dissera sobre a inevitabilidade e a inseparabilidade dos instintos de vida e dos instintos de morte, pelas considerações que faz acerca do seu desagrado pessoal pela guerra e pelo desejo que expressa de que o progresso no processo civilizacional venha, a longo termo, dar frutos antiguerra.
O escritor Henri Barbusse dirigira, nesse mesmo ano de 1932, um apelo aos médicos de todo o mundo, para que participassem num Congresso Contra a Guerra, a ter lugar em Genève, com início a 28 de Julho desse ano. Freud apõe a sua assinatura no apelo (Freud et al., 1979, p.263).
No entanto, numa carta que escreve a Max Eitingon, em 18 de Agosto, também desse mesmo ano de 1932, Freud refere-se à resposta que irá dar, poucos dias depois – como vimos, ocorreu a 6 de Setembro – à questão posta por Einstein, expressando-se nos seguintes termos: “Infelizmente tem a ver com o que pode ser feito para evitar a desgraça da guerra. Não penso que venha a receber o Prémio Nobel da Paz pela minha contribuição.” (Freud Museum of London (1992). The diary of Sigmund Freud: 1929-1939, p.132).
Aparentemente, Freud está desconfortável
com toda esta situação por, de algum modo, se sentir forçado a atenuar o seu pessimismo quanto à inevitabilidade da guerra, pessimismo que se terá vindo a acentuar ao longo desse Verão de 1932.
Nos comentários de Michael Molnar ao “Diário: 1929-1939”, na entrada referente ao dia 1 de agosto de 1932 (p.128), é sublinhado que, quando o livro que contém a resposta de Freud a Einstein, intitulado “Porquê a guerra?”, foi editado algum tempo depois, já Freud tinha cortado as suas conexões com a Liga das Nações e condenado a Conferência de Desarmamento que, sob os auspícios da Liga, sempre veio a desenrolar-se em Genève, entre 1932 a 1934.
As eleições que confirmaram Hitler como Chanceler do Reich só tiveram lugar em 5 de Março do ano seguinte, 1933, e a Guerra Mundial prenunciada, que não se conseguiu evitar e que, tudo parece indicar, deveria ter ocorrido mais cedo, desencadeada preventivamente pelos países democráticos que, mais tarde, se vieram a ter de aliar contra a Alemanha, estava, ainda, a seis anos de distância. Pelo menos o Holocausto e os seus seis milhões de mortos não teriam tido lugar.
Freud vai observando, ao longo desses anos 30, as restrições crescentes e muito graves, que os Nazis vão impondo aos judeus, incluindo as suas próprias obras, a psicanálise e o movimento psicanalítico, tudo ‘produtos semíticos‘.
O “antissemitismo” constitui o paradigma do sentimento do “bode-expiatório”, ou do “núcleo de intolerância básica” da nossa civilização, que por vezes parece adormecido ou desaparecido, para regressar com pleno vigor, como um recurso sempre fiável, perante a aproximação de crises políticas e societárias complexas.
Os amigos, os colaboradores e os familiares de Freud, insistem veementemente com ele, para que deixe a Áustria.
Freud resiste a estes conselhos realistas, aduzindo que, apesar de tudo, o que se estava a passar na Áustria era diferente do que se estava a passar na Alemanha, acrescentando não acreditar que a protecção às minorias, que o Tratado Internacional de Paz assegurava, deixasse de ser considerado válido na Áustria sem que as potências vencedoras da 1a Guerra Mundial interviessem.
Freud nega o perigo evidente, procura não ver a realidade e parece sentir-se protegido pelo “invólucro-fronteira” da Áustria.
Só quando se dá o Anschluss, em 11 de março de 1938, verdadeira “rasgadura” e violação da identidade austríaca, e passa a haver na Áustria regulamentos e leis em tudo idênticas às alemãs, só quando Freud sente que os invólucros restantes, o grupal da psicanálise, o pessoal e o familiar, não têm capacidade protetora e contentora suficientes contra o terrorismo nazi, concorda refugiar-se na Inglaterra.
A psicanálise constitui uma arma poderosa de ajuda para a compreensão não só das crises pessoais, como, ainda, das crises grupais e, mesmo, das crises sociais, nacionais e internacionais.
Tem sido pouco usada com esta finalidade, mesmo pelos próprios psicanalistas, que se sentem num dever de prudência, de falarem, com cautela, em tudo o que ultrapasse o pessoal, ‘intrapsíquico’.
Esta prudência não era partilhada pelo próprio Freud, como toda a sua obra largamente o demonstra.
A psicanálise não pode ser entendida como “milenarista”, anunciando a boa-nova do fim de uma análise pessoal como se do acesso ao paraíso se tratasse, com a entrada do analisando num mundo sem conflito e sem sofrimento, na realidade, com a desaparição do pensamento hipercomplexo (Edgar Morin, 2001).
Não é este o sentir profundo e final de Freud, como reafirma com as suas ideias sobre a interminabilidade de uma psicanálise pessoal e a persistência inultrapassável de Eros e de Tanatos (Freud, 1937).
Seja como for, creio que estaremos a responder ao apelo de Freud, no fim da carta a Einstein, se ajudarmos, com os nossos instrumentos, o processo cultural e civilizacional, mais ao lado de Eros do que de Tanatos: a psicanálise pode e deve ser ouvida.
A real complexidade da humanidade é-nos, também, relembrada, numa outra linguagem, por Edgar Morin no seu livro “L'identité humaine” (2001), através do estabelecimento que ele faz de um anel de recursividade que vai do homo sapiens ao homo demens, o homem enlouquecido, retornando ao homo sapiens para, de novo, se reconduzir ao homo demens, e assim sucessivamente: reaparecem os dois dentes de um mesmo garfo.
Uma ajuda fundamental à recondução do homo demens actual ao homo sapiens-que-está-sempre-à-espera-que-o-chamem pode ser dada por uma psicanálise que não se considere nem cega, nem surda, nem muda.
A cegueira de Édipo, a cegueira de Sansão, a cegueira da Justiça, a confiança cega na Justiça, a cegueira de Freud perante o perigo, são o oposto do que a visão psicanalítica tem obrigação de ser.
A psicanálise tem de assumir que vê e ouve o que se passa à sua volta, que reflecte, lê e interpreta, em suma que analisa e que transmite o que viu e ouviu, através do processo originalíssimo de leitura das “realidades”, que Sigmund Freud lhe doou.
Esta transmissão específica da psicanálise, pode conduzir a um fortalecimento dos objectos externos desamparados, à custa do enfraquecimento dos objectos externos perseguidores, primeiro passo do processo lento, reparador e cicatrizador, dos rasgões dos invólucros pessoal, grupal, nacional e internacional.
Creio que este processo, sempre inconcluído, está, no entanto, em movimento: há sinais disso, por exemplo, em Portugal, no momento actual, em que o afrontamento, em relativo equilíbrio, entre inquietações depressivas (“não prestamos”) e persecutórias (“os outros não prestam”), em anel recursivo dinâmico, parece conter, pela sua intensidade crítica, um potencial locomotor de mudança.
Também, a nível internacional, se encontram sinais vivos que permitem alguma esperança, com o empenhamento de muitos, no doloroso e dificílimo processo de paz no Médio Oriente, em que afegãos, iraquianos e americanos, israelitas e palestinianos, para já não falarmos nos iranianos e nos sírios, se implicam na transformação mútua dos seus objectos externos, tanto dos perseguidores como dos desamparados, que até agora apelavam sobretudo para a vingança e para a destruição do outro. A pacificação sem vingança é sempre muito dolorosa, o que torna mais do que necessária a ajuda de todos nós, para os penosos processos de “luto” e de renascimento, que conduzirão a dar força aos objectos desamparados e enfraquecer os objectos perseguidores. A psicanálise pode ajudar tanto na compreensão destes processos, como na sua modificação (Sibony, 2003).
Os “objectos internos” de cada um de nós, os que melhor representam o nosso íntimo, aproveitarão e seguirão o movimento dos “objectos externos”, na grande reparação, no sentido psicanalítico do termo, que a crise actual invoca.
Convém que esta reparação esteja bem avançada, antes que novas crises de vulto – que serão sempre inevitáveis – venham a ganhar força.
Eros and Thanatos - Reflections on Contemporary Destructiveness
Abstract
The psychoanalyst Vamik Volkan hypothesizes that there is the absolute, rebalancing need to have friends and enemies, both personally, as a group, and even nationally. In this way, external and internal, depressive, or helpless and persecutory objects are created, and in this way the mental areas of Eros and Thanatos are created, which are fundamental instruments in the classification of reality. “Persecutory and desperate goats” and “exciting and exhilarating goats” are thus bred and used. Reflections are made on pedophilia or corruption, as prevalent social evils, and the fear of understanding them, the dialogue between Einstein and Freud on violence and aggression and their inevitability is also remembered. Freud admits that only education can lessen them, but not make them disappear. The biblical episode of Samson and Delilah helps to understand these concepts and, finally, some considerations about contemporary crises.
Keywords: Eros and Thanatos, destructiveness, “scapegoats”, “animating goats”.