É com prazer que lemos esta cativante entrevista que Nuno Sousa Monteiro generosamente realiza ao psicanalista Franco De Masi.
De Masi expõe-nos um percurso reflexivo de mais de 30 anos, tão pertinente quanto estimulante, acerca de uma das áreas clínicas que mais desafios e dificuldades técnicas é capaz de trazer ao psicanalista, e que por tal razão tem sido, na sua opinião, objeto de um desinvestimento quase silencioso nas últimas décadas: a psicose. É também ao longo do discorrer das suas ideias que admiramos a sua coragem em refletir sobre o modo como situações de falha e de insucesso no seu trabalho psicanalítico com estes pacientes, o impulsionaram a melhor compreender a dinâmica da mente psicótica, bem como a técnica que melhor se adequa ao seu manejo.
O autor e psicanalista De Masi tem-nos sublinhado ao longo de vários dos seus escritos como todos nós somos na verdade vulneráveis a ansiedades psicóticas, sendo que tal não significa naturalmente que todos nos tornaremos psicóticos. Contudo, nas pessoas que de algum modo sucumbem à tirania do pensamento psicótico ocorre uma forma particular de catástrofe psíquica, que inescapavelmente denuncia graves perturbações da sua identidade, perda ou alteração do sentido e do significado das suas vidas, bem como perda do controlo de partes de si e da sua capacidade para usar a mente. A psicose impõe-se assim como uma patologia capaz de aniquilar as relações humanas e destruir o senso de observação do “self”, do corpo e da mente (De Masi, 2009).
Não obstante esta leitura e compreensão teóricas serem, como sabemos, conhecimentos bem firmados, De Masi faz, contudo, notar que o que nem sempre é suficientemente reconhecido e subsequentemente trabalhado é o modo como o contacto clínico com estes pacientes faz justamente emergir estes mesmos aspetos na mente do analista. É aqui que reside uma boa parte das especiais dificuldades no trabalho analítico com estes pacientes, já que ao analista é exigida uma particular capacidade de tolerância à frustração, confrontado como está com uma tarefa amiudadamente vivenciada como potencialmente pouco gratificante e recompensadora. Tal como nos relembra na presente entrevista, o psicanalista é fundamentalmente treinado e formado para escutar o paciente com o intuito de interpretar o significado latente do que é dito, pressupondo, portanto, a presença de um sujeito com uma mente capaz de trabalhar com o inconsciente dinâmico, com o simbolismo e a repressão.
Ora, De Masi defende que o método interpretativo clássico não é passível de ser usado para comunicar com o paciente psicótico, uma vez que a sua mente se encontra tendencialmente destituída da função simbólica. Insistindo o analista nesta abordagem técnica potenciar-se-á a confusão e o desenvolvimento da transferência psicótica.
PHD. Psicanalista. Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise/IPA. E-mail:
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Deste modo, é-nos recomendada uma intervenção assente na escuta persistente do paciente, bem como na via da desconstrução ou da interpretação descritiva, capaz de auxiliar o paciente a compreender o seu próprio mundo interno e subsequentemente a diferenciar os objetos que favorecem o seu desenvolvimento, daqueles que o danificam (De Masi, 2015). O autor considera assim que sempre que descrevemos ao paciente o mundo peculiar em que ele vive e do qual se faz refém, estamos em contacto com a parte saudável da sua mente, criando, não só, boas condições para a aliança terapêutica, como proporcionando também a possibilidade dessa parte saudável da mente se tomar observadora da parte psicótica da sua personalidade. Não podemos aqui deixar de mencionar alguns dos seus mais impactantes livros sobre esta matéria, como sejam “Vulnerability to Psychosis” e “Working with Difficult Patients”, nos quais, de forma brilhante, o autor explora e aprofunda muitos aspetos desta complexa patologia.
Naquele que diríamos ser um segundo momento da entrevista, elegantemente conduzida por Nuno Sousa Monteiro, De Masi expressa-nos a sua visão sobre o estado da arte da psicanálise, anotando quer algumas das vicissitudes do modelo geral formativo dos candidatos a psicanalista (e que no seu parecer nos deveria merecer uma mais apurada reflexão crítica), quer alguns dos aspectos mais críticos no que diz respeito à praxis da psicanálise contemporânea e às suas consequências futuras.
Prende-nos a atenção a ideia que desenvolve, segundo a qual têm sido demasiadas as vezes em que a psicanálise se vê algo distante do seu objeto e campo de ação mais nobre, desviando-se tentadoramente para a leitura de vários deleites e acontecimentos culturais da nossa sociedade. Comentam-se filmes, romances, artes, etc. Todavia, o objeto mente e a continuidade da investigação dos seus mistérios, parcialmente desinvestido ou desapaixonado, parece ver-se como que ofuscado pela tentação narcísica de realçar o estético, como que aligeirando o contacto com o objeto psicanalítico.
Comenta ainda, de um modo algo desafiador, que, mesmo no que diz respeito à prática clínica, um dos problemas mais delicados com que a psicanálise se depara é o da mudança de foco da investigação clínica para o singular interesse sobre o funcionamento da mente do analista em sessão. Isto é, o psicanalista como que deslocou a sua atenção do paciente para si mesmo. Diríamos que tal “desvio” se tem traduzido num campo de estudo pertinente e sem dúvida necessário, mas que não deve fazer esquecer aquele que é o fim último do seu propósito: a mente do paciente.
É neste sentido que Franco De Masi nos convida à exploração e desenvolvimento de uma nova metapsicologia que, honrando os ensinamentos de Freud, seja, todavia, capaz de superar as suas intuições e firmar-se mais ainda como uma ciência da investigação de novos territórios e dinâmicas da mente. É que, se a psicanálise não se propuser a explorar novos territórios da mente, corre, em sua opinião, o sério risco de ficar prisioneira de si mesma, num registo em que os seus mestres e discípulos se encerrariam numa repetição interminável do já conhecido.
Embalados por este tom seguimos as suas interrogações e perplexidades que, sob o modo de uma exploração assumidamente apaixonada, nos informa que, aos 81 anos mantém, ainda mantém vivo um notável fascínio pelo objeto da psicanálise, além do interesse e da curiosidade em receber novos pacientes.
Cremos que um dos feitos mais admiráveis que esta preciosa entrevista nos oferece é o de nos fazer pensar não apenas no futuro da disciplina psicanalítica, mas também, e muito particularmente, no futuro de cada um de nós no exercício da nossa prática e função enquanto psicanalistas, à medida que os anos nos vão amadurecendo, mas também envelhecendo.
Só com uma insuspeita experiência e sabedoria clínicas estaremos em condições de nos depararmos com o desafio narcísico aos nossos limites. É que uma das “tarefas” mais nobres da psicanálise é a de ajudar o sujeito a aceitar a temporalidade da vida e a inevitabilidade da morte. Será que saberemos, nesse momento, reconhecer
esse limite, e, seremos, ademais, capazes de nos questionarmos, não sem coragem e dor, sobre a nossa prática clínica, e, em particular, ao serviço de quem estaremos ainda a exercê-la?